A saúde dos corais brasileiros

Por MARina

Ilustração: Joana Ho

Obs: para a confecção dessa arte foi utilizada uma espécie de coral que não ocorre no Brasil.


Quando pensamos em recifes de coral, a primeira imagem que nos vêm geralmente é a de um recife todo colorido e águas extremamente cristalinas. Embora seja uma imagem clássica, isso é uma realidade parcialmente restrita às águas do Caribe ou às ilhas do Oceano Pacífico. O Brasil, com seus mais de 8 mil km de linha de costa, também apresenta grande diversidade de corais, ainda que eles não estejam em águas peculiarmente caribenhas. O Nordeste é, sem dúvida, a região mais rica, conhecida e turisticamente explorada no quesito recifes de coral, devido à latitude e a outras características geomorfológicas que atribuem condições mais favoráveis para o desenvolvimento desse ecossistema. Porém, os corais estão presentes em quase todas as regiões costeiras do nosso litoral, se estendendo até as águas de Santa Catarina (apesar de lá não formarem recifes)! Infelizmente, poucas pessoas sabem disso e sabem, ainda menos, o quão importantes os corais são para garantir a saúde das outras espécies e de todo o ecossistema. É impossível preservar o que não se conhece. E para conhecer precisamos caracterizar, monitorar e comunicar sobre estes frágeis e tão importantes organismos.

Fotos: Algumas das espécies de corais encontradas no Brasil. (Mussismilia hispida - endêmica; Porites sp. e Siderastrea stellata). Fotos por MARina T. Botana com licença CC BY-SA 4.0.


Os corais sempre foram meu objeto de estudo e tenho fascinação pelas espécies encontradas no Brasil, principalmente as endêmicas, isto é, as que ocorrem somente aqui. Um trabalho recente feito por pesquisadores brasileiros revelou diversas características que tornam os nossos corais menos suscetíveis ao aquecimento global, que vem causando o aumento da temperatura do oceano nas últimas décadas e de forma ainda mais aguda nos últimos anos.


Para explicar como o aumento da temperatura da água do mar afeta os corais, podemos fazer uma analogia com o que acontece com nós humanos quando estamos com febre. A temperatura do corpo sobe e isso prejudica diferentes funções fisiológicas, causando problemas à nossa saúde (a famosa febre). Com os corais acontece o equivalente, só que não existe a possibilidade de abaixar a temperatura com um antitérmico ou remédio, então eles ficam o tempo todo “com febre”. Aos poucos, a sobrevivência e o crescimento dos corais vão sendo afetados, eles perdem a coloração e podem até morrer. Esse processo é conhecido como branqueamento de corais e foi tema de um post publicado aqui no final do ano de 2020.


Apesar de termos diversas evidências de que os nossos corais são mais resistentes às alterações climáticas, o que sabemos sobre eles ainda é muito pouco, se comparado com o que se sabe sobre os recifes de corais de outras regiões do mundo.


Buscando criar um banco de dados integrado e aprimorar os estudos já existentes, diferentes grupos de pesquisa do Brasil, incluindo o Instituto Oceanográfico da USP, do qual faço parte, estão atuando na caracterização e monitoramento do branqueamento dos corais em diferentes regiões da nossa costa: Atol das Rocas, Fernando de Noronha, Rio Grande do Norte, Porto de Galinhas, Coroa Grande, Alagoas, Bahia, Abrolhos, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Arquipélago dos Alcatrazes, Ubatuba e Santa Catarina, todos em parceria com o Instituto Coral Vivo.

Texto Alt: Quadrati de PVC com escala de cor para monitoramento do estado de saúde dos corais. Observamos duas colônias de coral cérebro brasileiro com diferentes tons de amarelo e bege.

Foto: Colônias de Mussismilia hispida (Ubatuba, SP) em Dezembro de 2020. A escala de cor na parte de baixo do quadrado também é um indicador do estado de saúde dos corais. Para esta espécie, quanto mais próximo do amarelo escuro/bege, mais saudável. - foto por MARina T. Botana com licença CC BY-SA 4.0.

Texto Alt: Colônia de coral cérebro brasileiro toda branqueada se destacando entre as algas e rochas do costão.

Foto: Colônia de Mussismilia hispida branqueada (Ubatuba, SP) em Fevereiro de 2020. Foto por MARina T. Botana com licença CC BY-SA 4.0.


Como já mencionado, o branqueamento dos corais está associado principalmente ao aumento da temperatura da água do mar. Então, para melhor compreender o processo e a variação da saúde dos corais, o monitoramento das colônias nas distintas regiões precisa ser feito ao longo do tempo. Idealmente, em três momentos: antes do pico de maior temperatura (pré-branqueamento); durante o pico de maior temperatura (quando os maiores índices de branqueamento são esperados) e após aumento de temperatura entre outono/inverno (pós-branqueamento).


Recuperação e mortalidade após branqueamento são os principais indicadores da dinâmica de resiliência e saúde dos corais e do quanto eles estão sendo impactados pelas variações de temperatura. Além disso, estas regiões devem ser monitoradas ao longo dos anos para que também possamos compreender a dinâmica de resposta das diferentes espécies presentes nos diferentes pontos. Outros estressores como turismo descontrolado, sobrepesca e eutrofização/poluição também atuam de forma local e não podem ser desprezados. Ao gerar este banco de dados podemos criar modelos de distribuição e resposta para prever como os corais irão responder às mudanças climáticas previstas nos próximos anos, além de revelar possíveis regiões e espécies menos suscetíveis ao aumento da temperatura e desenhar melhores planos de manejo e conservação.


Outros programas de monitoramento regionais já acontecem há alguns anos no Brasil. Porém, em escala nacional, ainda estamos engatinhando e este programa de agora, o qual só teve início no verão de 2020, será o primeiro a envolver pontos diversos em diferentes localidades. Nossa costa apresenta corais desde o extremo nordeste até o sudeste. Dá pra imaginar as dificuldades e complexidades de execução deste programa de forma integrada ? Desde o ano passado, ainda enfrentamos a pandemia da COVID-19 que prejudica a organização logística das viagens de campo nos diferentes pontos. Apesar de todos os pesares, estamos executando o monitoramento sempre que possível. Já vimos, por exemplo, que algumas regiões do Nordeste estão apresentando maiores índices de branqueamento e mortalidade em relação ao Sudeste brasileiro.


Temos que lembrar que nestas localidades também tivemos um grave acidente de derramamento de óleo que ocorreu no início de 2019. Das espécies monitoradas, Mussismilia braziliensis, Mussismilia harttii e Millepora alcicornis têm se mostrado como as mais susceptíveis ao branqueamento. Em alguns locais específicos, como em Abrolhos, por exemplo, ainda vemos o enriquecimento de ferro na água do mar devido ao descarte inapropriado de dejetos da empresa Samarco… Desta forma, infelizmente, juntando tantos estressores que se agravam ainda mais com o aumento da temperatura, é improvável esperarmos que o ambiente seja saudável.


Ao executar o monitoramento dos corais ao longo do tempo e ainda em uma escala espacial bem grande, teremos mais dados concretos para dizer com mais propriedade o que está de fato acontecendo com estes organismos. Poderemos integrar estes dados observacionais com outros dados de variação de correntes costeiras e oceânicas, temperatura, aporte de nutrientes e outros para melhor compreender os processos oceanográficos e não somente registrar um evento biológico. Seria ilusão pensar que poderemos salvar todos os corais, porém, ainda que algumas áreas sejam irreversivelmente prejudicadas, ao entender esta dinâmica de processos, estressores e impactos ambientais através dos estudos científicos poderemos impedir que outras áreas sejam igualmente devastadas. Ao comunicar sobre este estudo e projeto, podemos engajar mais pessoas na preservação dos recifes de coral do Brasil e do mundo inteiro. Ensinar, aprender, dividir, monitorar, preservar. Afinal, só cuidamos daquilo que amamos e só amamos aquilo que temos a chance de conhecer!



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