Após a maternidade, de acadêmica a empresária

Por Raquel Moreira Saraiva

Ilustração de Caia Colla


Lorena Cruz é bióloga, formada pela UFBA, com mestrado em Ecologia pela mesma universidade. Em 2013, Lorena se tornou mãe de Manuela. Após um ano de dedicação integral e apaixonada à maternidade, começou a conciliar a maternidade e a academia com o empreendedorismo, fundando as empresas “Com Amor de Mãe”, de fabricação de tortas e doces, e “As Festas de Manuca”, que inovou o mercado de festas em Salvador (BA) ao desenvolver decoração de festas infantis com uma proposta ecológica. Lorena deu entrevista ao blog para falar sobre a transformação da sua vida pessoal e profissional após a maternidade, em especial a influência da filha sobre suas decisões em relação à carreira acadêmica.


Bate Papo com Neturo (BPCN): Lorena, você foi professora substituta do curso de Biologia da UFBA alguns anos antes e alguns anos após ser mãe. A maternidade mudou a professora Lorena?


Lorena: Eu não consigo entender como é que antes eu levava um, dois, três dias para preparar uma aula. Fico pensando ‘Meu Deus, como assim?’. Eu levava tanto tempo pra fazer uma aula! Eu fiquei mais eficiente, porque tinha que fazer a aula, tendo Manu para dividir a minha atenção. É claro que hoje em dia ela vai para a escola, então ela tem alguns horários definidos que me deixam mais livre. Mas durante os finais de semana, por exemplo, temos que dar atenção a ela, brincar e tal, então tenho que chegar em casa e ainda ler artigos para aula de segunda feira - inclusive tenho que fazer isso hoje (risos). Sem dúvida, eu fiquei super eficiente.


BPCN: Qual a sua opinião sobre o caso que aconteceu recentemente na UFRGS, quando uma professora impediu uma aluna do curso de Letras de assistir uma aula com sua filha de cinco anos? (Clique aqui para ver a notícia).


L: Estou chocada. Se fosse um professor, eu já acharia um absurdo. Sendo mulher, eu não consigo achar nenhuma explicação que justifique isso. Como mulher já entenderia, sendo mãe, entendo mais ainda. Eu já tive alunas que fizeram provas com o filho na sala porque  não tinham com quem deixar a criança, você vai fazer o quê? É justamente disso que eu falo, por que  ocorre tanta evasão de mães nos ambientes acadêmicos: a mulher vai assistir a aula, mas não tem com quem deixar a filha e não tem apoio algum no espaço onde vai estudar. Acho que não é a postura de todos os professores, mas é uma atitude extremamente ridícula e contribui para que as mães abandonem os estudos. Muitas até gostariam de continuar e não conseguem.


BPCN: Como uma pesquisadora decidiu migrar da área acadêmica para o empreendedorismo?


L: Primeiro, foi uma decisão meio forçada, para não sair de casa... (a entrevista é interrompida por Manuela, chamando nossa atenção para mostrar a “Peppa Pig” na televisão). Eu escolhi o empreendedorismo para ficar em casa com Manu. Eu comecei com a venda de chocolates, venda de doces, mas tinha em mente que não era aquilo que eu queria para minha vida para sempre. Ainda tinha planos de fazer doutorado na área de ecologia, e pensava nessa doceria como projeto pra eu tocar em paralelo ao meu plano principal, que era a academia. No entanto, as coisas foram mudando. Primeiro entrei numa faculdade particular pra dar aula, depois fiz concurso pra professor substituto novamente (Lorena já havia prestado concurso e lecionado como substituta alguns anos antes), e nesse meio tempo surgiu o outro negócio, que são as festas. Também tentei me inserir novamente em um laboratório pra tentar voltar à rotina acadêmica, publicar meu artigo do mestrado para me inscrever no doutorado... Mas meu artigo não foi aceito, está para ser submetido novamente. E com essa coisa do artigo não aceito, além de algumas frustrações dentro do laboratório, vendo que a vida na academia não parecia me proporcionar uma possibilidade de ser criativa, de inventar, eu me sentia meio limitada. Assim, eu voltei pro empreendedorismo, já na concepção das festas, e agora eu me sinto realizada: consigo criar, consigo pensar, consigo ter atividades diferentes, lá na academia eu me sentia mais presa.


BPCN: Lorena, após o término do mestrado você engravidou de Manuela e sua vida profissional mudou completamente. Aparentemente, alguns fatores limitaram você a continuar na academia. Quais fatores seriam esses?


L: Embora eu pudesse criar meu horário para o laboratório (por exemplo, se eu pudesse ir na segunda-feira, então eu iria toda segunda-feira), sempre foi exigida uma regularidade que eu não podia atender, porque eu ainda dava aula. Só no período de greve eu assumi mais essa regularidade de presença no laboratório. Mas, apesar de ter horário a cumprir, necessidade de rotina, isso é flexível na academia, então não era meu fator limitante. O primeiro fator que me limitou era trabalhar com microorganismos que eu não gostava muito, que eram os fungos. Às vezes eu não gostava do ambiente de trabalho. E também o fato de ter que desenvolver um projeto e ter que pensar e desenvolver perguntas para o projeto. Porque apesar de eu poder criar minha própria pergunta, ao mesmo tempo eu me sentia limitada em relação aos recursos, por exemplo. Então você pode pensar numa pergunta de pesquisa maravilhosa e não ter recurso para executar o projeto, isso me causava uma certa frustração. Mas, principalmente, senti que gostava muito de artesanato; eu gosto muito de coisas manuais, e na academia não posso fazer isso, a não ser que eu fizesse uma armadilha artesanal para os animais (risos), então isso também contribuiu para que eu não continuasse na academia.


Na verdade, acho que maternidade e academia ainda estão num processo confuso para mim. Eu gosto da academia, mas não me vejo como pesquisadora dentro da universidade, aquele modelo de professora efetiva, dedicação exclusiva. Eu queria ser mais livre, fazer pesquisa eventualmente. Mas eu admiro muito quem está dentro do ambiente acadêmico, principalmente conciliando com a maternidade. Ainda assim, para quem planeja ter filho e conciliar com a academia eu digo que é totalmente viável. Em todas as profissões existem mães, e na academia não é diferente.


BPCN: No artigo “Quando colocar filhos no cronograma?”, discutimos resultados de um trabalho de autoria de Willians & Ceci (2012) (Leia mais aqui), no qual evidencia-se que, entre pós-doutorandos, a chegada de um filho, ou mesmo o plano de ter filhos, tem menos impacto na carreira dos homens do que na carreira das mulheres, que apresentam índices muito maiores de desistência dos estudos. Quais fatores você acha que ajudariam a mulher a conciliar o papel de mãe com o papel de pós-graduanda?


L: Acho que a própria universidade precisa criar um espaço de acolhimento maior para a mãe. Por exemplo: creches. Na UFBA existe uma creche, mas para as mães da UFBA conseguirem uma vaga é um suplício. Vez ou outra os funcionários entram em greve e a creche não funciona. Tem mãe que precisa levar o filho para assistir aula. A universidade precisa ter uma estrutura melhor para receber os filhos dessas mães, porque muitas não tem com quem deixar os filhos. Uma pessoa que ganha R$ 2.200,00 de bolsa de doutorado não tem como pagar uma babá. Falta acolhimento das universidades para que as mães possam levar os filhos.


BPCN: No mesmo artigo, discute-se que o período biologicamente ‘ideal’ para ter filhos, que seria o período de fertilidade ótima da mulher, não coincide com o melhor período profissional das pós-graduandas, ou o período que a carreira fica mais estável. Quais conselhos você daria para uma mulher pós-graduanda que sonha em ser mãe?

L: Dizem que quem para para pensar não é mãe nunca. Então o conselho que eu dou para quem quer ser mãe é: seja. Porque não existe hora certa, não existe ‘quando acabar o mestrado’, ‘quando acabar o doutorado’, porque a cada hora que você acaba um ciclo, aparece sempre um novo projeto e você vai ter que se debruçar sobre ele, e você vai ter que adiar a maternidade. Sem ser clichê, posso dizer que o que sou hoje é por causa de Manuela. Criei duas empresas, uma é “Com Amor de Mãe” - se eu não fosse mãe eu não teria a empresa, e a outra é “As Festas de Manuca” - se não fosse Manuca não teria festa, não teria eu (risos). Eu me descobri mesmo depois dela. Não é romantismo, a maternidade te proporciona você se conhecer melhor. E você fica mais eficiente, isso é fato, você fica extremamente mais eficiente. Na verdade seus planos podem nem mudar tanto, embora os meus tenham mudado muito. Mas você pode adaptar os planos. Acho que a pessoa não vai deixar de concluir o doutorado porque é mãe, não vai deixar de fazer o doutorado porque é mãe. Eu estou deixando de fazer o doutorado em ecologia, mas ainda tenho vontade de fazer em sustentabilidade, alguma coisa que eu consiga aliar com as festas. Porque hoje eu encontrei o ramo da biologia que eu quero trabalhar, que é a sustentabilidade, e eu gosto de trabalhar nessa área na forma de festa. Então meu conselho é não pare para pensar, não pare para ficar planejando que ‘daqui a quatro anos, quando eu pegar meu canudo de doutora eu vou ser mãe’, porque daqui a quatro anos você vai receber uma proposta de pós-doutorado e você não vai poder ser mãe. E o tempo passa, você olha para trás e não consegue ver o que você construiu porque o seu principal objetivo, se for ser mãe, não foi alcançado. Então: seja.


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