As dores e os anseios de um doutorado sanduíche em tempos de coronavírus

Atualizado: Jun 5

Por: Anônima*


Ilustração Caia Colla


É muito curioso que para grande parte dos pesquisadores com quem convivo ou já convivi é realmente difícil separar a pessoa da profissão. Acredito que a paixão pelo que fazemos é tão grande que faz parte do que somos, sendo a energia que nos alimenta para atravessar os obstáculos. A minha história com a ciência começa muito antes do início da minha formação. Meu avô trabalhava com a manutenção de microscópios ópticos, aqueles que comumente são vistos em filmes e desenhos ao lado de cientistas. A nossa convivência me proporcionou desde cedo a descoberta de novos mundos (ele sempre colocava uma coisinha ou outra, como folhas, pétalas e pequenos insetos, para que eu pudesse observar pela janelinha mágica). A partir daí é fácil imaginar que as tardes de entretenimento se identificaram como vocação e missão.


Particularmente para mim, ter a oportunidade de desenvolver parte da pesquisa em uma universidade estrangeira, ampliando meu conhecimento e capacidade de resolução de problemas sob outras perspectivas, era sonho e desafio. E as etapas do processo seletivo, exames de proficiência e o próprio visto foram uma jornada à parte.


Embora a agência financiadora (CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) depositasse parte da bolsa aproximadamente um mês antes do início das atividades no exterior, os pós-graduandos têm de arcar com custos referentes à documentação de passaportes/vistos e todos esses trâmites são muito caros e demandam um tempo significativo. Além disso, o meu processo foi um pouco conturbado devido aos cortes financeiros que o Ministério da Educação (MEC) sofreu no último ano. O calendário atrasou e em vários momentos não sabíamos se o edital poderia ser cancelado, o que tornava inviável adiantar toda essa burocracia. Pude organizar os preparativos para a viagem e conseguir um lugar para ficar somente depois da homologação e de ter recebido a primeira parte da bolsa, quando foi depositado em minha conta corrente o valor total em reais correspondente às três primeiras parcelas, auxílio instalação e seguro saúde, com cotação da moeda estrangeira na época.


No final de 2019 a segunda parte da jornada começava e foi um misto de alegrias, medos, expectativas e anseios. Naquele momento, a cidade de Wuhan na China apresentava os primeiros casos de pessoas infectadas pelo novo coronavírus e ninguém esperava por uma pandemia. Durante os três primeiros meses vivenciei a melhor experiência de todas! A minha supervisora foi muito receptiva, me instalando em seu laboratório e apresentando o campus logo que cheguei. Além de todo o conhecimento que obtive através da sua orientação e frequentes reuniões para acompanhar o andamento do projeto, a convite dela pude cursar sua disciplina (embora a bolsa do sanduíche não cubra taxas e mensalidades). Como o meu objetivo era o de aprender uma nova abordagem estatística e a sua aplicação aos animais com que trabalho, boa parte das minhas obrigações envolviam aprendizado teórico e evolução da construção dos modelos utilizando linguagem computacional, e por isso suas aulas eram essenciais.


No país em que estava, a situação da Covid-19 começou a sair de controle em alguns estados durante o mês de fevereiro. Embora não houvesse nenhum caso especificamente para a minha região, a universidade mostrava preocupação e programava algumas medidas de controle, como a possibilidade de fechamento dos campi e realização de aulas, seminários e reuniões por meio de videoconferência.


O primeiro caso na cidade ocorreu no início de março, e foi aí que tudo começou a mudar... Imediatamente as aulas foram suspensas e posteriormente a presença nos prédios da universidade foi restringida, sendo autorizada apenas funcionários e pesquisadores que conduziam experimentos com animais vivos. A circulação na cidade também começou a diminuir e o comércio fechou. Ainda que os efeitos da Covid-19 estivessem sérios em outros países (que expressavam significativo número de mortes ), muitas pessoas se comportavam como se estivessem de férias e desobedeciam às orientações de isolamento social. Infelizmente, era comum ver os parques e praias lotados.


Em nossa última reunião, minha supervisora me aconselhou vigorosamente que retornasse ao Brasil o quanto antes. “Não gostaria de estar longe de casa e da minha família em um momento como este! Têm chances de você ficar presa aqui, visto a redução de voos e possível fechamento de fronteiras”, ela me aconselhou. Confesso que, após a nossa conversa, fiquei um pouco assustada. Claro que já havíamos falado sobre a situação, mas essa foi a primeira vez em que ela realmente se mostrou preocupada. Por coincidência ou não, ao voltar para o laboratório e retomar minhas atividades, verifiquei que havia recebido um e-mail da CAPES pela plataforma de comunicação Linha Direta, um canal de comunicação entre a agência de fomento e os bolsistas apoiados para tratar exclusivamente dos processos relacionados às bolsas no exterior.


Era uma mensagem padrão falando sobre a pandemia e comunicando que os pesquisadores que quisessem antecipar sua volta ao Brasil, teriam a possibilidade de suspender a bolsa e retomar as atividades assim que a situação se normalizasse. Imediatamente entrei em contato, manifestando meu interesse e solicitando orientações de como proceder para organizar o meu retorno.


Sinceramente? Até hoje as orientações não chegaram! Sei que provavelmente a agência estava sobrecarregada com casos muito mais sérios do que o meu, mas as únicas mensagens que recebi específicas à minha situação tratam-se de cobranças...


Tive muito receio, mas não aguardei o retorno da CAPES. Àquela altura, o programa de pós-graduação em que meu doutorado está vinculado no Brasil, havia sido comunicado de tudo o que estava acontecendo e me deu suporte sobre o que fazer. Por sorte consegui reagendar a passagem de volta. Quando entrei no avião percebi que tinha tomado a decisão correta, já que boa parte dos passageiros eram comissários de bordo e pilotos da companhia aérea que voltavam para casa. Atualmente, o país em que me encontrava vive um dos cenários mais drásticos da doença. Alguns dias depois da minha chegada, o Brasil fechou as fronteiras para estrangeiros e, como esperado, os voos reduziram drasticamente.


Nenhuma preocupação quanto ao meu bem-estar e segurança foi demonstrado por parte da agência e, aparentemente, os demais pesquisadores que interromperam suas atividades enfrentam os mesmos problemas. Como mostra uma reportagem do UOL, a CAPES tem cobrado a devolução das mensalidades que não serão utilizadas, com cotação da moeda atual. O grande problema é que o pagamento referente aos meses de março e abril foi efetuado em reais durante o mês de janeiro, quando o valor do dólar e do euro eram bem menores. Isso me deu um prejuízo pessoal de quase R$ 2.000,00, sem falar dos custos que tive que arcar com conversões e transferências internacionais. Sigo desenvolvendo meu projeto no Brasil, cumprindo o cronograma organizado com a universidade estrangeira, contudo ainda não sei quando a minha bolsa de doutorado regular será reativada. Estou sem fonte de renda.


É frustrante pensar que não só o meu sonho, mas com certeza de todos os outros pesquisadores que buscam ampliar seu conhecimento e aperfeiçoar suas habilidades, tenham de ser interrompidos de forma brusca e sem respaldo algum. A ciência brasileira vem sofrendo significamente com a falta de investimentos e, ainda assim, mostra um trabalho de qualidade, feito com muita determinação e capacidade. Se há uma lição positiva de toda essa catástrofe que o mundo tem enfrentado, acredito que seja a percepção do quanto a pesquisa científica é importante e que sem ela perdemos informação e conhecimento, impedindo o desenvolvimento de diversas áreas!


*a autora não quis se identificar para não prejudicar os processos com a agência de fomento.


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