Marchas pela ciência e cultura popular: “O que nós temos aqui é uma falha de comunicação”

Atualizado: Jul 3

Por Katyanne Shoemaker

Ilustração: Caia Colla

Minha intenção original ao escrever esse post era tratar da Marcha pela Ciência e a ideia geral da politização da ciência, mas depois de assistir recentemente a um programa de ciência que era popular entre as crianças nos EUA na década de 1990 “Bill Nye Saves the World” (Bill Nye Salva o Mundo) e que agora está no Netflix (mas ainda sem tradução em português), eu decidi focar na nossa falha como cientistas em nos comunicar com o grande público. 


Deprimente, eu sei, mas eu realmente acredito que existe uma falta de conexão entre nossas tentativas de fazer a ciência acessível e chamativa para o público em geral, para que as pessoas realmente nos escutem. A divulgação para o grande público é uma grande parte das nossas propostas para receber fundos para pesquisa, mas quanto da nossa divulgação está funcionando de verdade, e como podemos educar as massas efetivamente?


Conforme fui assistindo ao novo programa popular de Bill Nye, senti uma tristeza ao ver que aquela grande figura da minha infância, que ajudou a inspirar meu interesse pela ciência, não conseguia realmente explicar algumas das maiores incógnitas da ciência na percepção do público. O programa parece enigmático em alguns pontos, e acho que deve desencorajar alguns espectadores ao zombar de certos assuntos. Por exemplo, o episódio que ridiculariza a medicina homeopática é intitulado "Sintonize seu charlatômetro", o que implica que qualquer pessoa que acredite no medicamento homeopático é um "charlatão". Se eu acreditasse nessa medicina alternativa (leia-se “imaginária”), acho que eu não gostaria de ficar sentada assistindo a um episódio de uma pessoa, mais especificamente um engenheiro mecânico, zombando de mim. Embora isso seja pouco relevante, porque eu penso que a maioria do grupo de pessoas que assiste a esse programa seja composto por cientistas que simplesmente amam assistir coisas do senso comum vistas de outras maneiras (ou simplesmente querem sentir a nostalgia de assistir o seu amigo de infância da ciência, Bill Nye). Este é um exemplo de cientistas ensinado/entretendo outros cientistas, e é apropriado que isso tenha vindo à tona seguindo outro esforço similar, embora de espectro mais global.


A Marcha pela Ciência foi organizada como qualquer mobilização pacífica por mudanças, sendo: uma comunidade sentindo um problema crescente, e membros dessa comunidade querendo que o problema seja conhecido. Nos Estados Unidos, esse problema crescente é o uso de “fatos alternativos” (novamente, “imaginários”) no lugar da ciência real, que vem sendo vendida como verdade pelo atual governo. Isto levou a um corte nas verbas para as agências financiadoras da ciência e a um menor esforço para a proteção ambiental. Para aqueles que ainda não sabem, esclareço que o presidente Trump nomeou como o novo chefe da Agência de Proteção Ambiental americana (Environmental Protection Agency - EPA) um homem que nega que a mudança climática seja causada pela humanidade.

Uma concentração de 50.000 pessoas foi estimada no parque Boston Common, armadas com placas engraçadas e conhecimento, para marchar pela ciência.

Mas essa marcha não ocorreu apenas nos Estados Unidos. No Dia da Terra 2017 (celebrado em 22 de abril) marchas pipocaram por todo o mundo, focando em assuntos específicos de uma localidade ou importantes para todos nós, merecendo nossa atenção. Algumas razões pelas quais as pessoas estavam marchando foram publicadas no site da revista Science (link abaixo), incluindo esta frase de um bioquímico Austríaco:


“Sentimentos anti-esclarecimento estão crescendo por todo o mundo. Muitos austríacos são contra a engenharia genética mas não sabem o que é um gene, por exemplo. Eu tenho um problema com isso. Ou o sentimento anti-vacina. É quase um modismo ser contra a ciência nos dias de hoje.” -Renée Schroeder


Martin Stratmann, o presidente do Max Planck Society (uma organização de pesquisa alemã fundada em 1948), também marchou, dizendo: “Esta é uma marcha pró-ciência e pró-fatos, não uma marcha contra Trump… Hoje, a ciência é mais importante do que foi antes, mas evidência e conhecimento estão sendo questionados em muitos lugares, incluindo a política.”


Não me leve a mal. A marcha foi um grande evento. Eu participei da marcha em Boston, Massachusetts, EUA, e nós tivemos uma presença estimada de 50.000 cientistas e simpatizantes que apareceram em um dia miseravelmente frio e chuvoso para mostrar que isso é algo importante para nós. Eu ouvi histórias inspiradoras de médicos, histórias de superação de adversidade de uma mulher negra engenheira, e fui requisitada a tornar-me candidata política por George Church (O CARA do genoma humano - ops, momento nerd). Foi um momento divertido para se reunir com pessoas com ideias semelhantes e falar sobre os problemas que enfrentamos. Mas aí está o problema: estávamos falando com pessoas com mentalidade semelhante. Alguém que pode estar interessado em aprender fatos, mas não corre em nosso grandioso círculo da ciência, talvez não tenha sabido que a marcha estava acontecendo, ou para o que era aquela marcha. Minha mãe, uma enfermeira instruída, fica no limite entre ser ou não ser parte da comunidade. Mesmo com a postagem de sua filha sobre a próxima marcha, minha mãe não sabia porque eu estava em Boston usando um chapéu de de tricô estranho (veja a imagem abaixo). De alguma forma, nós pessoas da ciência fomos apanhadas nos divertindo na em uma reunião e esquecemos de dizer ao resto do mundo para o que ela servia. 

Esquerda: alguns/algumas nerds passaram horas tricotando chapéus de cérebro e fazendo placas (essa sou eu na extrema esquerda). O colega estudante de Oceanografia, Robert Wildermuth, marchou comigo. Meio: A estudante Laura Moritzen da Universidade de Massachusetts, em Dartmouth, está investida no futuro do oceano e nos caranguejos que ela pesquisa. Direita: continuando com o ímpeto da Marcha das Mulheres, amamos as "mulheres indecentes" da ciência!

Então, se esses fóruns não são úteis para transmitir nossa ciência ao público em geral, o que é? Como comunicamos eficazmente ideias que são, às vezes, muito complexas às massas? Eu acredito que a chave é começar com os jovens. Precisamos chegar às escolas para moldar as mentes para pensar sobre o método científico básico e ensinar as crianças como chegar às suas próprias conclusões com base em fatos e não em mídia. Deixe as crianças se apaixonarem pelo conhecimento e pela busca do conhecimento, assim como Bill Nye, o Cara da Ciência, me ensinou, e como Carl Sagan ensinou a geração antes da minha. Eu não acho que os adultos que não possuem um pensamento acadêmico são uma causa perdida, mas eu acho mais difícil recondicionar suas mentes a nem sempre confiar no que lêem. Sinceramente, ver e compartilhar um post do Facebook sobre planos secretos do governo para nos infectar com doenças através da vacina contra a gripe é um pouco mais fácil e muito mais emocionante do que procurar as fontes e verificar se a publicação é falsa.


Talvez, este blog possa ser um bom começo para a introdução do público à ciência. Nós escrevemos posts com a intenção de tornar acessíveis nossos contos sobre oceanografia e de mulheres em ciência, mas nós tendemos a compartilhá-los com outros cientistas. Por quê? Eu desafio você a convidar uma pessoa que talvez não esteja interessada em ciência oceânica para ler uma postagem do blog que você acha interessante. Compartilhe sua ciência com aquele amigo que estuda literatura! Ou direto! Ou liturgia! Você nunca sabe o que eles acharam interessante, e isso pode levar a uma boa discussão.


Trailer de “Bill Nye Saves the World”: https://www.youtube.com/watch?v=g-_HKOcYBK8

Referências:

 

Artigo da Science: Why the rest of the world is marching

Science News Staff (April 13, 2017)

Science 356 (6334), 119. [doi: 10.1126/science.356.6334.119]

http://science.sciencemag.org/content/356/6334/119.full



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