Nem todo coral quer sol e água quente! – Parte II: a importância dos corais frios

Atualizado: 2 de Fev de 2019

Por Beatriz Mattiuzzo, Samara da Cunha Oliveira e Ágata Piffer Braga


Justamente por serem diferentes dos corais tropicais aos quais estamos acostumados, os corais frios executam papéis únicos e de grande importância no oceano!


Em nosso post anterior (disponível em Nem todo coral quer sol e água quente!) tratamos de corais frios, ou corais de águas profundas, organismos que vivem em águas de 4°C a 12°C, entre 50 e 4000 metros de profundidade. Antes de continuar a leitura, dê uma conferida lá! Agora, vejamos um pouco dos papéis que os mesmos desempenham no meio marinho.

Figura 1: Algumas das principais espécies de corais de águas profundas. A) Espécie de coral duro, Paragorgia sp. (bubblegum coral) em Adak Island, Alaska. B) Espécie de coral mole, Callogorgia venticillata no monte submarino de Condor, Azores. C) Destaque aos corais negros, Antipatharia sp., na nova Zelândia. D) Hidrocoral Errinopsis reticulum. Imagens retiradas de Lophelia.org


Importância Biológica e Ecológica


Por hora, ainda há pouco para se afirmar sobre a importância dos ambientes de corais profundos para outras espécies, apesar de esta ser potencialmente enorme, pois estes oferecem condições para a vida de outros organismos que dificilmente se encontra em águas tão profundas e frias. Para isso, é preciso considerar a variação no espaço e no tempo.


A complexa arquitetura tridimensional e a variabilidade espacial dos corais de águas profundas são essenciais para formação de vários nichos ecológicos, isto é, pequenos ambientes ideais para diferentes tipos de organismos se desenvolverem, assim gerando comunidades que tendem a ser muito diversas. Entretanto, a pesquisa nestes habitats não é possível usando as técnicas amostrais mais comuns para mar profundo, como amostradores de sedimento do fundo, pois os corais são duros e difíceis de serem retirados do substrato limitando o entendimento dos padrões de biodiversidade locais. 


O fator temporal também é muito importante nos ambientes profundos. Diferentes espécies de corais frios desenvolvem diferentes tipos de habitats, com tamanhos e longevidade muito diferentes. Por exemplo, os corais duros têm um esqueleto rígido que tende a permanecer após sua morte, sendo um ambiente mais estável temporalmente. Já as gorgônias, corais moles, ao crescerem próximas umas das outras formam ambientes densos e muito diversos, porém esse habitat desaparecerá após a morte destes organismos. 


Apesar da variação no espaço e no tempo, algumas observações muito interessantes já foram feitas em corais frios. Dois cientistas canadenses compilaram uma lista de espécies aparentemente associada a corais de águas profundas. Eles trabalharam com uma base de 980 espécies já registradas associadas à corais frios, e concluíram que 112 espécies estabelecem uma relação mútua de cooperação, enquanto que para outras 30 os corais são essenciais para a vida. No entanto, poucas relações entre corais x organismos já foram descritas a fundo, para se definir o papel exato de cada parte. Como exemplo, pode-se citar a relação entre o coral Scleractinia e Lophelia pertusa e o poliqueta, espécie de anelídeo, Eunice norvegicus, na qual o poliqueta se beneficia da proteção dos tubos de carbonato de cálcio produzido pelo coral, enquanto também protege o mesmo, ao atacar qualquer potencial predador do coral. Corais de águas frias também podem ser hospedeiros de parasitas. O foraminífero Hyrrokkin sarcophagi, por exemplo, faz um buraco no esqueleto e infesta pólipos das espécies coralíneas Lophelia pertusa e Madreporaoculata.


Contudo, os exemplos são poucos. Na maioria dos casos, apesar de saber-se da existência de uma relação entre duas  espécies, não se sabe de fato como essa ocorre. É o caso dos gastrópodes Pedicularia com corais da família Stylasteridae, em que não se sabe se é um caso de predação ou “ajuda”, onde o molusco retiraria somente o muco excessivo do hospedeiro.


É inegável que os habitats coralíneos frios estão associados com muito menos espécies de peixes do que os corais tropicais, e este número tende a diminuir com o aumento da profundidade em que o recife se encontra. Porém, acredita-se que estes ambientes sejam muito importantes para algumas populações de peixes, por fornecerem abrigo e condições para a reprodução, justamente por serem locais únicos. Este campo de pesquisa tem ganhado destaque nos últimos anos, após evidências de que o arrasto de fundo em habitats recifais frios estaria ligado a reduções dramáticas em algumas populações de peixe de alto valor comercial. Ainda assim, é grande a especulação quanto ao tipo e intensidade das possíveis relações, e mais pesquisas neste campo são fundamentais.


Importância Geológica e Paleoceanografia


Apesar de o ciclo de vida de um conjunto de pólipos, organismos formadores de coral, não ser, geralmente, muito longo, nos recifes verdadeiros as estruturas calcárias, “esqueletos” dos pólipos, podem durar por milhares de anos. Além da alta longevidade, a distribuição cosmopolita e a formação de esqueleto bem demarcado durante os ciclos geológicos tornam os corais frios ótimos arquivos paleoceanográficos, isto é, eles refletem condições dos oceanos de milhares a milhões de anos atrás. 


Como os oceanos são um dos controladores do clima do planeta, devido à sua capacidade de reter calor, os principais estudos realizados com corais de águas profundas buscam entender o clima do passado e, assim, constituir bases científicas para previsões futuras. Nesse sentido, um dos principais ramos de estudos paleoceanográficos são estudos e datação de períodos interglaciais. Como os corais Scleractinia e os Lophelia pertusa não conseguem sobreviver em águas mais frias do que 4°C, ao mesmo tempo em que rapidamente colonizam ambientes quando a temperatura se eleva a esse patamar, os recifes destas espécies em altas latitudes têm registros claros de intercalação dos períodos glaciais. Esta relação está ilustrada na figura 2.

Figura 2 - Ciclo Biogênico e Geológico retratando a formação de recifes. Retirado de Reefs of the deep: the biology and geology of cold-water coral ecosystems.

Além disso, ao estudar isótopos estáveis (variações da massa de um mesmo elemento químico) e analisar a química dos esqueletos dos recifes é possível obter estimativas detalhadas de paleo-temperatura da água e análise de massas de água atuantes no passado.


Isótopos estáveis de oxigênio podem ser usados para estimativas de salinidade e temperatura, mas a relação não é direta – os esqueletos de corais não se formam em equilíbrio isotópico com a água, porém estão associados com a taxa de calcificação do coral, provavelmente também ligado a fatores sazonais nas águas profundas. Apesar da complexa relação, alguns estudos já chegaram a resultados promissores neste campo.

A mudança na circulação profunda ao longo do tempo afetou profundamente não só a biologia destes animais, mas também o clima. Correlacionando os dados de temperatura, salinidade e nutrientes dos registros de corais frios é possível definir as massas de água que atuavam em eras passadas, e assim compreender melhor o padrão de circulação do oceano profundo ao longo do tempo, e, por fim, a distribuição de calor e clima. Por exemplo, ao usar a datação de corais por U/Th, somado a datação do carbono inorgânico por 14C, um estudo sugeriu que os corais Desmophyllum cristagalli estavam banhados por uma água pobre em nutrientes do Atlântico Norte no início da sua vida, enquanto tiveram acesso a águas ricas em nutrientes do Sul no final desta. A partir de informações deste tipo, podemos supor o que aconteceria, por exemplo, com o aquecimento do planeta ao mudar o padrão de circulação oceânica.


Assim, conseguimos ver um pouco do papel que os corais frios podem desempenhar na biota e na interpretação do passado, ajudando a determinar o futuro. Estes organismos estão ameaçados pela pesca de arrasto profundo e pela acidificação dos oceanos. Justamente por isso, há necessidade de se aumentar rapidamente as pesquisas em corais frios, especialmente no Hemisfério Sul. Estes estudos são caros e difíceis, mas os corais profundos têm enorme importância e potencial a ser explorado, e com certeza conhecê-los melhor só nos trará benefícios. 

Referências Bibliográficas:


Roberts, J.M., Wheeler, A.J. and Freiwald, A., 2006. Reefs of the deep: the biology and geology of cold-water coral ecosystems. Science, 312(5773), pp.543-547.


Roberts, J.M., 2009. Cold-water corals: the biology and geology of deep-sea coral habitats. Cambridge University Press.


Rogers, A.D., 2004. The biology, ecology and vulnerability of deep-water coral reefs. IUCN.


Turley, C.M., Roberts, J.M. and Guinotte, J.M., 2007. Corals in deep-water: will the unseen hand of ocean acidification destroy cold-water ecosystems?.Coral reefs, 26(3), pp.445-448.


Appeltans W, Bouchet P, Boxshall G. A, Fauchald K, Gordon D. P, et al., editors. (2011) World Register of Marine Species. Disponível em: http://www.marinespecies.org. Acesso em 29 de maio de 2016.


Cairns, S.D., 2011. Global diversity of the Stylasteridae (Cnidaria: Hydrozoa: Athecatae). PloS one, 6(7), p.e21670.


NOAA Deep-sea Coral Data – World Map. Disponível em: https:/deepseacoraldata.noaa.gov/ website/AGSViewers/DeepSeaCorals/mapSites.htm. Acesso em: 28 de maio de 2016.


Roberts, J.M., Wicks, L. L. Lophelia.org. Disponível em http://www.lophelia.org/. Acesso em: 29 de maio de 2016.


Mortensen, P. B. and Buhl-Mortensen, L. (2004). Distribution of deep-water gorgonian corals in relation to benthic habitat features in the Northeast Channel (Atlantic Canada). Marine Biology, 144, 1223–1238.


Freiwald, André, and J. Murray Roberts, eds. Cold-water corals and ecosystems. Springer Science & Business Media, 2006.


Freiwald, A.; Fosså, J. H.; Grehan, A.; Koslow, T.; Roberts, M.; Arrecifes de coral de agua fría - Fuera de la vista – pero ya no de la mente. Serie de Biodiversidad del Centro. Centro Mundial de Monitoreo de la Conservación del PNUMA. Reino Unido. 2004


WWF. (2004) Cold Water Corals Fragile havens in the Deep. WWF- World Wide Fund for Nature. pp 1-12.

Sobre as autoras:

Beatriz Mattiuzzo, 22 anos, estudante de oceanografia desde 2013 e apaixonada pelo oceano desde sempre. Sou aventureira, mas com certeza minha maior Aventura começou quando entrei  no Instituto Oceanográfico da USP.  Atualmente, estudo cetáceos marinhos, com enfoque em bioacústica.





Samara da Cunha Oliveira, 22 anos, faço graduação no Instituto Oceanográfico. Minha preocupação com o meio ambiente veio desde que aprendi o ciclo do carbono na escola, assim encontrei o curso de Oceanografia e me encantei. Estou iniciando meus estudos no assunto de percepção ambiental.







Ágata Piffer Braga, 23 anos, estudante de oceanografia desde 2012 no Instituto oceanográfico da USP.  Minha grande paixão é a oceanografia física. Estou desenvolvendo meu trabalho de graduação no Laboratório de Dinâmica Oceânica, onde através de uma nova climatologia  procuro representar a Bifurcação de Santos (Circulação “profunda” da costa sudeste brasileira).










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