"Químicos para sempre" e os limites planetários

Atualizado: 10 de out.

Por Ju Leonel


Definidos em 2009 pelo sueco Johan Rockström, do Centro de Resiliência de Estocolmo, os limites planetários têm por objetivo definir até onde o desenvolvimento humano pode operar sem causar danos irreversíveis à capacidade de regeneração da Terra.


Os limites planetários são nove:

1. Mudanças climáticas

2. Integridade da biosfera

3. Mudança de uso do solo

4. Fluxos biogeoquímicos (fósforo e nitrogênio)

5. Depleção do ozônio estratosférico

6. Uso da água

7. Acidificação do oceano

8. Transporte de aerossóis atmosféricos

9. Incorporação de novas entidades


Dentre eles, os quatro primeiros já foram ultrapassados, os três seguintes estão dentro da zona de segurança (por enquanto) e para os dois últimos faltam dados para saber a situação real.


imagem no estilo “ rosa dos ventos” para mostrar quais limites planetários já ultrapassaram do que seria considerado seguro: nova entidades, mudanças climáticas, fluxos biogeoquímicos, mudanças no uso do solo e na integridade da biota.

Representação dos Limites Planetários.

Fonte: Azote - Stockholm Resilience Centre, baseada nas análises de Persson et al 2022 and Steffen et al 2015 com Licença CC BY 4.0


A incorporação de novas entidades (NE) originalmente foi nomeada de poluição química, mas posteriormente entendeu-se que o nome não representava totalmente esse limite que entende-se por: novas substấncias, novas formas de substâncias existentes ou organismos modificados por humanos, assim como substấncia de ocorrência natural - como os metais - que tiveram aumento nas suas concentrações devido às atividades antrópicas.


Quantificar os limites planetários para as NE é um grande desafio, pois há muitas lacunas de dados para um grande número delas. Novos NEs estão constantemente sendo produzidos e há muitos efeitos que eles podem causar, dificultando as avaliações. No entanto, recentemente, um grupo de pesquisadores propôs que os compostos per- e polifluorados (PFAS) sejam usados para definir os limites para os NE.


Os PFAS são compostos tão resistentes à degradação, tanto biótica como abiótica, que receberam o apelido de químicos para sempre. Hoje, existem mais de 10 mil compostos no grupo dos PFAS, incluindo alguns que começaram a ser produzidos há quase 80 anos. Sua presença é amplamente difundida nos mais diversos produtos: embalagens de alimentos, têxteis, materiais impermeáveis, panelas, praguicidas, maquiagem, espumas anti-chamas e muitos outros. Devido à sua alta capacidade de dispersão, por correntes atmosféricas e oceấnicas, eles são encontrados em praticamente todos os locais: do Ártico à Antártica, do topo do Everest às águas profundas do oceano.


Agora voltando ao papel dos PFAS nos limites planetários…


A proposta desses pesquisadores baseou-se em avaliar se as concentrações de quatro compostos do grupo dos PFAS excedem os valores considerados seguros para alguns compartimentos ambientais (água da chuva, solo e água superficial).Caso isso aconteça, pode-se considerar que eles são um perigo real para a saúde humana e que, nesse caso, o limite foi ultrapassado. Eles então avaliaram as concentrações em várias localidades para água da chuva, água potável, peixes, solos e material dragado e, infelizmente, na maioria deles os valores estavam acima dos limites aceitáveis - lembrando que muitos desses valores estão em revisão, pois estudos indicam que eles na verdade não são tão seguros assim e precisam ser menores.


Até um tempo atrás, acreditava-se que, ao serem levados para o oceano, esses compostos seriam diluídos e seus perigos minimizados. No entanto, há estudos que mostram que eles podem retornar ao continente através do transporte pelos aerossóis oriundos do spray marinho. Ou seja, há uma ciclagem desses compostos que contribui para que o limite planetário seja excedido.


Esse cenário é especialmente preocupante porque, com as medidas de restrição de produção e/ou uso de alguns PFAS, muitos deles continuam sendo produzidos (e outros novos sintetizados pela indústria química). Além disso, para muitos ainda faltam estudos quanto a sua toxicidade.


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