Doutorado no exterior em tempos de pandemia

Por MARina T. Botana


Ilustração de Alexya Queiroz


Desde muito nova o desejo de estudar e explorar os oceanos transborda pelas minhas veias. Isso talvez seja por influência dos meus pais, ou pelo motivo que mais tarde me disseram “Está no seu nome. Já estava escrito…”. Seja pelo que for, sinto que essa vontade é tão latente, porque, de alguma forma, ela está alinhada com o meu propósito de vida. Sempre, independente das dificuldades e dos tropeços pelo caminho, tudo achou um jeito de dar certo para que eu pudesse construir uma carreira de pesquisadora do oceano. Quando fui aprovada para fazer o doutorado na Nova Zelândia em março de 2020, uma semana antes do primeiro lockdown da pandemia, eu mal imaginava que águas adversas estariam por vir. Afinal, ser escolhida para integrar um projeto lindo em um dos laboratórios mais reconhecidos na minha linha de pesquisa já não tinha sido difícil o suficiente, agora chegar até a Nova Zelândia para iniciar o projeto seria uma aventura ainda mais árdua.


Logo após conseguir a vaga já enviei todos os documentos necessários para o visto (felizmente, tanto para Austrália como para a Nova Zelândia as solicitações são todas feitas online), pois, segundo acordado com meu novo supervisor, eu deveria iniciar o projeto antes de agosto daquele mesmo ano. Foi aí que, na semana seguinte, o mundo todo virou de cabeça para baixo. Lockdown em diferentes lugares e a fronteira da Nova Zelândia fechada para estrangeiros por tempo indeterminado. Chegou agosto e lá estava eu ainda “presa” no Brasil. Sem emprego na minha área, com uma série de indefinições e inseguranças que, por algum tempo, foram até mais latentes do que a minha paixão e certeza de construir uma carreira acadêmica. Comecei a dar aulas de inglês, fazer comida para vender, tudo o que aparecesse. E continuei fazendo parte do Bate-Papo com Netuno também, é claro. Já que eu ainda não poderia gerar novos conhecimentos, ao menos poderia auxiliar no processo de comunicação das ciências marinhas. Parte da minha motivação para não desistir da academia devo ao meu querido mentor, o prof. Ray Valentine da Universidade de Davis na Califórnia, que fez questão de me dar várias tarefas de criação de conteúdo para o site da sua nova empresa de biotecnologia, BST, Inc.

A realidade que eu pensei que duraria pouco acabou se estendendo por muitos longos meses. O mundo parou. Uma crise sanitária e econômica virou realidade. Por conta dela, muitos outros além de mim foram impedidos de sair do país. Enquanto alguns eram impedidos de ir realizar seus sonhos, outros eram levados pela COVID em poucos dias ou semanas. Eu não podia ir, mas estava ali, com saúde e cheia de pessoas queridas à minha volta. Ao invés de me lamentar, percebi que deveria agradecer pelo “hoje” e confiar para entregar o futuro ao futuro. Hoje entendo que eu não poderia mesmo ter saído naquele momento. Ainda tinha coisas para finalizar e aprender ali que iam muito além da minha vida profissional. Antes de ser cientista, a gente é ser humano e nunca pode deixar de ouvir este lado humano, pois ele é o que traz sentido a todos os outros âmbitos da nossa vida.


Apesar de tudo, felizmente o meu supervisor não desistiu de mim. No final de 2020 ele conseguiu um requerimento de visto emergencial para que eu pudesse entrar na Nova Zelândia. Pouco tempo depois saiu a liberação, porém eu só poderia ir em julho, já que seria obrigada a fazer quarentena em um local determinado pelo governo e lá só havia disponibilidade para a segunda quinzena de julho. Em meados de abril consegui comprar a passagem aérea e, não obstante, acabei tendo mais uma surpresa: mesmo com o visto emergencial as fronteiras da Nova Zelândia estavam fechadas para pessoas vindas do Brasil, por conta das novas variantes da COVID e do grande número de pessoas infectadas. Naquele momento o meu mundo desabou. E agora? Mandei mensagens para amigos na Europa e Estados Unidos perguntando se poderiam me acolher para uma quarentena de 15 dias, já que bancar esse período no exterior em um hotel estava completamente fora do meu orçamento possível e planejado. O maior problema era que os brasileiros estavam proibidos de entrar em quase todos os países. Os poucos países sem restrições eram o México, Dubai, Egito e Costa Rica. Neles eu não conhecia ninguém. Não tinha escolha, a não ser continuar procurando uma alternativa sem perder a esperança. Às vezes, a única coisa que podemos fazer é confiar no destino e deixar a vida fazer dar certo.


Uma amiga portuguesa muito querida que eu conheci pedalando foi a minha luz diante das incertezas. Ela me ofereceu um trabalho temporário em Portugal. Ainda que os brasileiros estivessem com entrada proibida na União Europeia, trabalhos e negócios eram considerados motivos essenciais. Além do trabalho, a Teresa me ofereceu casa, comida, amigos, uma família e amor. No fim, aquilo que era um problema se transformou em mais uma oportunidade para conhecer um lugar novo, ensinar e aprender. Foram dias incríveis e um gesto tão bonito que eu jamais irei esquecer.

Foto de uma paisagem de praia tirada de cima de um morro com algumas gramíneas à esquerda. Praia com algumas ondas e recifes de pedras.

Uma das praias na região de Ericeira em Portugal, onde encontrei um trabalho temporário e consegui fazer a quarentena após sair do Brasil antes de entrar na Nova Zelândia. (Foto: MARina com licença CC SA 4.0).



Com o coração transbordando de alegria e gratidão, finalmente, depois de 18 meses de espera, cheguei na Nova Zelândia. Passei 14 dias dentro de um quarto de hotel em quarentena com direito a 30 minutos de sol por dia, os quais ainda eram supervisionados por dois militares. Fiz muitos testes de COVID e, finalmente, me liberaram para começar o doutorado. Naquele momento eu pensei, “estou livre!”, talvez mais do que livre, agora sim, “estou pronta!”. O frio na barriga só não era maior do que a minha fascinação de estar em um país tão diferente, cheio de pessoas novas e iniciar um projeto de pesquisa tão esperado. E, ainda, num país onde a COVID foi erradicada! Amadurecer, explorar, crescer...


Foto tirada de cima de um morro bastante alto com vista para um pequeno bairro residencial nas montanhas, mar e um pôr do sol.

Uma das minhas vistas preferidas da cidade de Wellington, NZ.(Foto: MARina com licença CC SA 4.0).


Dois dias após a minha libertação, já fui para a universidade. Meu supervisor, o pesquisador Simon Davy parecia estar tão animado quanto eu para finalmente me conhecer “ao vivo e em cores”. Eu sou a primeira brasileira a trabalhar no laboratório dele e, pelo que pude perceber, a única dentro da escola de ciências biológicas da Victoria University of Wellington. Diferente de outros lugares onde já trabalhei, aqui as ciências biológicas ficam todas em um único prédio e todos os alunos de doutorado de diferentes campi compartilham um mesmo andar. Biólogos marinhos, botânicos, farmacêuticos e bioquímicos, todos em um ambiente compartilhado, assim como os laboratórios onde acontecem os experimentos e a parte prática das análises. Achei a organização bastante interessante para promover integração e diversidade, porém as pessoas são um pouco mais frias, ainda que bastante solícitas e educadas.


Entrada principal da Victoria University of Wellington (VUW). O campus principal da universidade fica no topo de uma montanha e cada área fica em um prédio diferente.(Foto: MARina com licença CC SA 4.0).


Dois dos organismos modelo para estudar a simbiose entre dinoflagelados e cnidários, que vou utilizar no meu projeto de doutorado. A esquerda a anêmona conhecida como Aiptasia que é facilmente cultivada em tanques e a direita o coral da espécie Acropora tenuis em Okinawa no Japão, onde farei a validação dos dados experimentais também no campo. (Foto: Simon Davy lab group com licença CC SA 4.0).


Escrevi esse texto para partilhar a minha história e tentar trazer um pouco de esperança para aqueles que ainda estão aguardando para realizar os seus sonhos. A COVID veio para estarrecer o fato de que na verdade a gente tem é bem pouco, ou quase nenhum controle do mundo à nossa volta. Não precisamos pirar por conta disso, melhor respirar fundo e buscar desvendar aqui qual o nosso verdadeiro propósito e deixar ele nos guiar até a próxima aventura, ainda que ela não aconteça imediatamente. Não existe “perder tempo”, essa ideia de cobrança de produtividade é só uma falácia colocada pela sociedade nas nossas mentes para nos adequarmos a um sistema que se mostra cada vez mais doente e ineficiente. Hoje sou grata por todas as outras coisas que realizei enquanto aguardava. Me reinventei milhares de vezes, conheci pessoas novas, aprendi novos esportes e pude ficar mais tempo ao lado daqueles que tanto amo. Ganhei amor, cumplicidade, compaixão, estrutura e resiliência. Mal posso esperar para escrever os próximos capítulos desta história. Por enquanto, me basta viver o hoje. Aqui e agora.



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