Manamar: minha carreira de educadora ao ar livre

Atualizado: Jun 5

Por Patricia Bianca Ribeiro


Uma história de empreender dentro da oceanografia e seguir uma carreira pouco provável para oceanógrafos: educação ao ar livre. Já pensou que sonho seria transformar o mar em uma sala de aula? Esse é o meu trabalho!


Ilustração: Joana Ho


Eu estava no fim da graduação em oceanografia no Brasil e já havia feito inúmeros estágios e trabalhos, mas não tinha vontade de me especializar em nenhuma das áreas oferecidas. Então, mesmo antes de terminar a graduação, resolvi fazer intercâmbio para viver coisas diferentes em outro país e me dar um “tempo” para pensar. Foi um período transformador na minha vida! Fui para Plymouth, na Inglaterra, onde além de cursar dois semestres na universidade, também fiz meu primeiro curso de educação ao ar livre, ministrado pela ONG ETE (Education Through Expeditions - educação através de expedições).


Essa ONG foi criada pelo britânico Anthony Jinman para compartilhar suas experiências (ele esquiou sozinho até o Polo Sul em 2014!) e sensibilizar jovens e crianças. O curso desenvolvia habilidades socioemocionais como resiliência, autoliderança, capacidade de resolução de conflitos e tomada de decisão através de atividades desafiantes na natureza. Habilidades tão importantes no mercado de trabalho, mas pouco treinadas dentro de escolas e universidades. Realizar atividades de desenvolvimento pessoal e inteligência emocional em meio à natureza foi impactante para mim. Fiquei realmente encantada com o potencial da atividade! 


Caminhada e prática de navegação durante o curso na ETE (Fonte: Patricia B. Ribeiro com licença de uso CC BY SA 4.0)


Após toda essa vivência, ao retornar para o Brasil, terminei a graduação e procurei cursos sobre educação ao ar livre. Aos interessados, gostei muito de realizar o curso “Fundamentos de Educação ao Ar Livre” da ONG Outward Bound Brasil. Quando falamos de educação e conservação e na importância de lutar por isso para um mundo melhor, percebemos que oceanografia e educação ao ar livre podem ser carreiras interligadas! Porém, muitas pessoas não têm nem ideia do que um oceanógrafo ou educador faz ao ar livre e, por conta disso, infelizmente, as oportunidades de trabalho ainda são restritas.


A carreira de educador ao ar livre é mais conhecida fora do Brasil, inclusive com programas de graduação nessa área em alguns países como os Estados Unidos, Finlândia e Inglaterra. Por aqui, a área chega a se misturar com o turismo, que foi onde, inclusive, consegui meus primeiros trabalhos para atuar como educadora ao ar livre em viagens escolares de turismo pedagógico. As viagens têm o intuito de levar crianças para o campo, mostrando a elas os benefícios, riquezas e vida desses espaços. Por exemplo, algumas têm como destino o complexo estuarino Cananéia-Iguape, SP, um ambiente incrível para proporcionar experiências na natureza às crianças “urbanas”. Também para ensinar sobre os diversos ecossistemas do bioma Mata Atlântica, cultura caiçara e quilombola e unidades de conservação. Quando visitamos as comunidades tradicionais, as crianças geralmente interagem com os líderes para fazer perguntas, ouvir histórias e aprender um pouco sobre os costumes. Acredito que nessa troca de informações as crianças aprendem a valorizar a diversidade cultural que temos no Brasil e compreender a importância de respeitar e preservar estas comunidades.


Atuando no Brasil em viagem para Tiradentes, MG (Fonte: Patricia B. Ribeiro com licença de uso CC BY SA 4.0)


O conhecimento técnico de oceanografia, aulas de educação ambiental em escolas, experiências com viagens pessoais e saber um segundo idioma me proporcionaram meus primeiros trabalhos.  Foi nessas viagens que me encontrei profissionalmente e foi então que surgiu a ideia do Manamar. Finalmente!


O Manamar é um projeto de educação ao ar livre com o objetivo de aproximar as pessoas da natureza através de experiências que possam sensibilizar os participantes e trazer aprendizado. A educação ao ar livre é uma forma de refletir sobre a importância do ambiente no qual a aula acontece, e tem alto potencial como método para estimular a aprendizagem ao vincular emoção e memória. Essa é uma forma de unir e de agregar uma experiência física e emocional ao compartilhar conhecimento. Isso é muito enriquecedor para nossas vidas e pode gerar transformações de comportamento. Neste caso, por exemplo, modificação de hábitos pessoais para preservação do espaço marinho.


Escolhi o nome Manamar para a empresa unindo as palavras Mana com Mar. Mana de Manacá da Serra, uma árvore que ocorre no ecossistema da Mata Atlântica. Suas flores brancas mudam para rosa e roxo durante a floração, o que para mim representa a terra e as constantes mudanças da vida. Mar para representar os mares e oceanos. Assim, o nome faz menção à conexão entre terra e mar. No logo, o desenho do peixe, rosto e flor unem fauna e flora aos homens por um símbolo de infinito, mostrando a interconexão entre todos os seres que habitam esse planeta. Esse nome também tem uma conexão com minha infância “entre terra e mar”, já que tive uma criação rodeada pela natureza. Minha avó materna era agricultora e cresci no mato com ela. Do outro lado, minha avó paterna adorava ir à praia e eu sempre a acompanhava. Quando colocamos em prática nossos sonhos, vida pessoal e profissional se tornam uma coisa só.


Este ano, meu projeto completa dois anos. Ele oferece uma experiência única de mergulho livre na Praia da Fortaleza de Ubatuba (SP), durante os meses de verão! Me inspirei no Projeto Ecosteiros do Instituto de Biologia da USP, o qual acontece há mais de dez anos na Ilha Anchieta proporcionando contato com mergulho (porém, neste caso, mergulho com cilindro) para públicos diversos. No Manamar, levamos participantes de todos os perfis para realizar o mergulho livre, sempre guiados por um instrutor. Alguns nunca tiveram contato próximo com o mar ou com mergulho. Outros, algumas vezes são maus nadadores e sempre temeram mergulhar próximo aos costões de pedras. Pensando nisso, para atender a todos os perfis e respeitar as medidas de segurança para proporcionar uma atividade divertida e segura, levamos coletes e boias flutuadoras. Assim, os participantes são capazes de vencer o medo e se conectar com o ambiente marinho, observando a beleza e as maravilhas que este mundo silencioso tem a oferecer. Nas nossas atividades, o papel do educador ao ar livre é fundamental. Durante o mergulho ele deve zelar pela segurança e instruir sobre a utilização dos equipamentos necessários. Além disso, e, talvez o mais importante, o educador deve orientar sobre como se comportar durante a visita ao ambiente marinho, gerando o mínimo de impacto e danos. A maioria dos turistas não sabe o quão sensível são os seres vivos que compõem o ambiente de costões rochosos. Por isso, a troca de informações com o educador traz sempre novos conhecimentos, detalhes e curiosidades sobre os animais vistos no local. A educação ao ar livre é uma forma de entender a importância das práticas de campo nas nossas vidas. Após uma experiência vivida em um local específico, fica marcado nos participantes a relevância da preservação daquele espaço.


Atividade de mergulho na Praia da Fortaleza em Ubatuba, SP (Fonte: Patricia B. Ribeiro com licença de uso CC BY SA 4.0)



Aos olhos externos, trabalhar com educação ao ar livre parece o emprego dos sonhos: ser pago para viajar para lugares lindos! Essa é a parte boa, mas enfrentamos alguns desafios. Até alguns pouco comuns para os trabalhadores assalariados de profissões mais convencionais. Educadores ao ar livre possuem carga horária de trabalho muito intensa. São muitos dias fora de casa, convivendo quase 24h com colegas de profissão e clientes. Além disso, somos autônomos, sem direitos garantidos, como registro trabalhista. Por isso, o Manamar surgiu não só de um sonho, mas também por necessidade. As contas chegam o ano inteiro, porém meu trabalho nas viagens escolares com crianças acontece apenas durante os períodos letivos. Então, o Manamar me permitiu continuar ensinando e gerar renda durante o verão. 


Agora, com três anos na área, sinto que a jornada ainda está apenas começando! Muitos desafios e incríveis experiências ainda estão para acontecer! Todo o aprendizado proporcionado por muitos dias em ambientes naturais me ensinou a manter o otimismo e resiliência em situações desafiantes, como o que vivemos ainda relacionado à Covid-19. Nada será mais como antes, mas poderá ser ainda melhor! Espero voltar logo a ensinar e aprender na natureza, atividades ainda mais importantes após um momento de crise!


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Sobre a autora:

Patricia Bianca Ribeiro, 26 anos

Educadora ambiental e oceanógrafa formada pela USP em 2016. Fundadora do projeto Manamar (@manamar.educ_) de mergulho e educação ao ar livre na praia do Fortaleza em Ubatuba (SP). Caipira de Taubaté, com um toque de influência dos ares paulistanos e internacionais. Foi para o mundo, mas se identifica mesmo é com o mato. Adora uma trilha, uma escalada, um surf, um camping, um rolê de bike ou qualquer convite para aventuras. Sempre com bons livros para descansar entre as aventuras!


Instagram: @patriciabr_


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