O Guia do veraneio de Águas Rasas

Atualizado: Jun 5

Por Pedro Foloni


Água no umbigo é sinal de perigo!


Sinalização de perigo das praias do litoral paulista demarcando regiões de ocorrência de corrente de retorno (Fonte: BPCN com Licença CC BY SA 4.0)


É muito bom reunir a família e ter um momento de descontração e lazer na praia, esquecer os problemas e se refrescar nas águas salgadas. Naturalmente, existem cuidados para que esses momentos de alegria não se tornem desagradáveis. Por exemplo, ter um guarda sol e passar protetor solar são cuidados automáticos que tomamos quando vamos à praia. Contudo, outros perigos além de queimaduras de sol podem acabar com a felicidade dos veranistas.


O texto de hoje expõe um dos maiores perigos a que os banhistas podem se submeter ao entrarem no mar para se refrescar. Não, definitivamente não são os tubarões!


São as correntes de retorno.


Na terminologia inglesa, correntes de retorno são conhecidas como RIP currents, onde RIP é um acrônimo da língua inglesa muito utilizado em homenagens a finados, cujo significado é “Rest In Peace”, traduzido para o nosso português como “descanse em paz”. Essas correntes são a principal causa de resgate de banhistas em praias de todo o mundo. Elas são geradas pela quebra das ondas, que ao empurrar a água do mar para costa, causa um empilhamento dessa massa d’água, que escapa de volta para o mar em correntes fortes - as correntes de retorno. Claramente não vou sugerir que paremos de frequentar as praias! Ao invés disso, é melhor que nos conscientizemos, então vamos conhecer um pouco mais sobre esse perigo.


Primeiro, devemos saber identificar uma corrente de retorno. Para o nosso alívio, essas correntes apresentam algumas características que podem ser detectadas por um observador atento. Preste atenção às placas de perigo, elas não estão ali à toa. O corpo de bombeiros faz um difícil e muito nobre trabalho, tanto na prevenção, quanto na remediação. Outra característica que pode ser notada é a coloração da água: o fluxo destas correntes remobiliza a areia que está no fundo da praia, fazendo com que ela seja transportada em suspensão. Por conta disso, a água nas zonas de retorno adquire uma coloração amarronzada. Outro fator é o senso comum de pensar que as regiões mais seguras estão onde as ondas não estão quebrando, e na prática é justamente o contrário, pois a profundidade do canal formado pelas correntes de retorno dificulta a quebra das ondas. Neste contexto vale ressaltar um tipo particular de corrente de retorno chamada corrente de borda. Estas correntes são controladas por estruturas rígidas, como por exemplo um costão rochoso. Este tipo de corrente é especialmente perigoso pois o costão rochoso cria uma zona de sombra, ou seja uma região de baixa energia de ondas, tornando o local convidativo para o banho, contudo são locais preferenciais para a existência de um perigo oculto.


Por final, já notou que às vezes o mar fica com uma certa textura “encrespada”? Isso acontece porque há uma interação (como se fosse um “bater de frente”) entre estas correntes que fluem em direção ao oceano aberto e o fluxo de água em direção à praia proveniente da quebra das ondas.


Imagem retratando a pluma de sedimentos transportada pelo fluxo das correntes de retorno (Fonte com licença de Domínio Público)




Corrente de retorno rompendo a zona de rebentação das ondas, em regime de saída (Fonte com licença de Domínio Público)




Agora, para os desafortunados que acabaram caindo em um sistema de retorno, sinto muito, mas não faz diferença o quão rápido você nada, e sim o quão inteligentemente você irá nadar. Veja bem, tomando como exemplo o maior vencedor olímpico em provas de natação, Michael Phelps, este atleta profissional consegue nadar em uma velocidade de aproximadamente 2,2 metros por segundo. Porém, as correntes de retorno, em casos extremos, podem atingir velocidades de 3,5 metros por segundo, ou até mais que isso. Ou seja, nem Phelps vence a corrente de retorno em termos de velocidade.


Vamos então a algumas dicas gerais que podem salvar sua vida. Primeiro: não se desespere e mantenha-se atento. Pode parecer difícil numa situação dessas, mas também pode ser a diferença entre a vida e a morte, pois o desespero leva a um gasto energético que certamente fará falta. Segundo: tente chamar a atenção de surfistas ou banhistas para que acionem socorro. Agora, voltando ao nado inteligente, entramos então em uma questão que requer muito a atenção do banhista. Existem basicamente dois tipos de regime de correntes retorno, o regime de saída e o regime circulatório, saber identificá-los é crucial. Cada um destes dois regimes requer estratégias de escape distintas.


O regime de saída acontece quando um jato flui em direção ao mar aberto e o fluxo começa a se dissipar no que chamamos de cabeça de RIP. Nesse caso a melhor estratégia é nadar paralelamente à costa, até chegar a uma região propícia para regressar para terra firme. Geralmente estas regiões são os locais de quebra de onda, você pode usar a energia das ondas como um impulso extra para escapar do mar.



No regime circulatório, fluxos assimétricos paralelos à costa convergem para a cabeça de RIP, nesse sentido nadar paralelamente à costa pode representar um esforço inútil, caso a vítima esteja sobre a corrente de alimentação principal. Neste caso a melhor saída é simplesmente boiar, deste modo a própria célula de circulação irá te carregar para um lugar mais propício para o escape."


Agora lembre-se: não é porque leu este breve texto que deve se sentir confiante e desafiar o mar. Estudos apontam que condições de mar moderado são as que mais causam acidentes e fatalidades. Ondas menores são mais convidativas, mas igualmente perigosas. Não existe uma estratégia universal e infalível para sobreviver a uma situação destas, entretanto conhecendo o perigo as chances de sobrevivência são muito maiores. É importante ressaltar que em alguns casos os sinais mencionados não são tão evidentes, então se lembre da regra número 1, “água no umbigo é sinal de perigo”.


Opte pela precaução e aproveite a praia, mas aproveite com moderação.

Referências:

CASTELLE, B., T. SCOTT, R. W. BRANDER, AND R. J. MCCARROLL. 2016. “Rip Current Types, Circulation and Hazard.” Earth-Science Reviews 163: 1–21.

COWELL, P. J.; THOM, B. G. Morphodynamics of coastal evolution. Cambridge University Press, Cambridge, United Kingdom and New York, NY, USA, 1994.

DAVIS JR, R. A.; FITZGERALD, D. M. Beaches and Coasts, 419 pp. 2004.

Sobre o autor Pedro Foloni:


Sou oceanógrafo formado pela Universidade de São Paulo, atualmente faço pós-graduação em Oceanografia Geológica no Instituto Oceanográfico da USP e trabalho no Laboratório de Dinâmica Costeira. Minha família tem origem no interior de São Paulo, mas logo que nasci ela se mudou para Ubatuba. Me auto intitulo caiçara, mesmo não tendo raízes genealógicas com esta população tradicional. Para mim, o mar sempre significou muito, em diversos aspectos da minha vida, seja no âmbito recreativo, cultural e educacional. Nascido dia 02 de fevereiro, dia de Iemanjá, até os astros conspiraram em semear esta paixão. Mas a influência do mar sobre a minha vida, começou antes mesmo de eu nascer, infelizmente de forma trágica. Perdi meu avô dois meses antes do meu nascimento, justamente devido a um sistema de correntes de retorno. Durante o ensino médio tentei ingressar no colégio naval em Angra, sem sucesso (na época não me dedicava muito ao estudo hahaha). Já mais velho, optei por cursar Oceanografia. Hoje em meio a um mestrado, estudo uma temática que certamente impactou muito a minha família. Nunca foi algo planejado, foi simplesmente o caminho que a vida me levou, e sou muito feliz no que faço. Espero trazer uma contribuição para a sociedade, de modo que através da ciência consiga melhorar, mesmo que um pouquinho, a segurança nas praias e dos banhistas.


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