Orcas: de monstro marinho ao Efeito Blackfish

Por Daniela Abras


Até a década de 50, a orca (Orcinus orca) era uma espécie pouco conhecida no mundo. Era vista apenas nos locais onde aparece com frequência, principalmente as regiões costeiras do Canadá e Nova Zelândia. Em meados da década de 60, um “brilhante” cineasta fez um filme chamado “ORCA, a baleia assassina”, convertendo-a em uma das espécies mais temidas pelo ser humano, principalmente pelo pouco que se conhecia sobre ela, e ainda mais sob este título.

Pôster do filme Orca: A baleia assassina. Fonte


O nome “baleia assassina” é uma designação muito equivocada para um nome popular e a pior propaganda de marketing de espécie por três motivos:

  • Primeiro: orcas não são baleias, e sim golfinhos! As baleias pertencem à sub-ordem Mysticeti, que são cetáceos que não possuem dentes e sim barbatanas ou cerdas na boca, que usam para filtrar o alimento. As orcas, são da sub-ordem Odontoceti, que possuem dentes, sendo classificadas dentro da família Delphinidae, mesma do golfinho-flíper, por exemplo;

  • Segundo: o nome mais coerente, que se aproxima do atual, seria “assassina de baleias”, como era conhecida na Espanha mediterrânica da década de 20 ou 30 (“asesina de ballenas”, em espanhol). Alguém traduziu erroneamente este nome para o famoso nome em inglês “killer whale” (quando o correto seria “whale killer”), dando a falsa impressão de que as orcas são “baleias assassinas”. Na verdade, elas predam algumas espécies de baleias (cinzenta, minke e jubarte, por exemplo), e por isso eram chamadas “assassinas” de baleias.  

  • Terceiro: as orcas não são tão lindas e carismáticas? Por que não adotar o nome de Panda do Mar (“Sea Panda”, em inglês)? Faço votos!!

Fonte. Traduzido por Dani Abras


Foi então que Shamu entrou no jogo, mudando totalmente a imagem ruim das orcas para o público em geral. A primeira orca que foi para o cativeiro chamava-se Moby Doll. O Aquário de Vancouver queria estudar seu cérebro e fazer uma réplica em tamanho real de uma orca, e encomendou um espécime a caçadores da região, para servir como modelo. Esse animal, que pensavam ser uma fêmea (e que não deveria ter sobrevivido à caçada), foi então levado a um tanque, onde viveu por 87 dias. Isso ocorreu em 1964, por coincidência, mesmo ano de abertura do SeaWorld, nos EUA. Os parques marinhos já possuíam golfinhos em exibição, mas nunca uma orca, e Moby Doll despertou este interesse e chamou a atenção dos donos do parque. A “Shamu” original foi a terceira orca que viveu em cativeiro, mas a primeira capturada exclusivamente para este fim. Em 1965, o SeaWorld encomendou sua compra, e desde então mantém orcas em seus tanques. A primeira Shamu morreu em 1971, mas até hoje ela “vive” como a principal atração e o ícone do SeaWorld. Foi a partir deste momento que as orcas deixaram de ser animais temidos e se tornaram carismáticos seres, cobiçados mundialmente pelos espectadores. Os parques aquáticos lotaram com a presença das orcas, que se tornaram o carro-chefe das suas atrações.

Moby Doll. Fonte


Foi então que, em 2010, o cenário de amor pelas orcas em cativeiro começou a se desmanchar. Dawn Brancheau, uma experiente treinadora de orcas, foi brutalmente assassinada na frente de centenas de espectadores, pela maior orca que já viveu no cativeiro, o macho Tilikum. A partir de então, de forma crescente como uma onda, uma série de mentiras que o SeaWorld conta aos seus milhares de pagantes anualmente começou a ser desmascarada. Um coro de pessoas leigas se uniu aos poucos cientistas que já se opunham ao entretenimento, iniciando a “Onda Blackfish” ou “Efeito Blackfish”. Esta onda foi engatilhada pelo documentário homônimo (ou Blackfish - Fúria Animal, em português – nome de muito mal gosto, na minha opinião) lançado em 2013, que tem como objetivo mostrar um pouco da  problemática do cativeiro, com foco em Tilikum, e as três mortes que ele causou ao longo de seus 27 anos de clausura. O documentário explica bem didaticamente a problemática de se manter orcas em cativeiro, desde sua brutal captura, à falta de qualidade de vida que os indivíduos sofrem sua permanência em pequenas piscinas, à questão do intercruzamento entre as orcas, principalmente com o gene do problemático Tilikum.


Blackfish é um documentário perturbador. Não por conter imagens fortes - já que a própria diretora do documentário, Gabriela Cowperthwaite, declarou seu desejo de que “crianças pudessem assistir ao filme, sem traumatizar o público” - mas por desvendar fatos constrangedores para qualquer amante dos animais. Algumas imagens do cotidiano das orcas e os procedimentos à que são submetidas nos parques aquáticos são abordados, explicando como os animais sofrem com o confinamento e métodos nada naturais. O filme traz relatos de ex-treinadores sobre as relações que formam com os animais que cuidam, extensos treinos diários, e situações de agressões e violências por parte das orcas que nunca chegaram a ser noticiados.

Pôster do filme Blackfish


O filme traz esclarecimentos sobre algumas das mentiras mais absurdas que o SeaWorld prega a seus frequentadores. A maior delas é que as orcas vivem em torno dos 30 anos, quando sabemos que na natureza, uma orca pode viver cerca de 80 anos, e chegam até 104 anos (orca “Granny”, na costa oeste do Canadá). Nos shows, os treinadores dizem que seus animais exibem comportamentos semelhantes aos naturais, mas quando pensamos que uma orca nada em torno de 80 km por dia, e que ela precisa girar 1.500 vezes na piscina para atingir esta distância, vemos o quanto o cativeiro foge da realidade de uma orca selvagem.


O termo “Blackfish”, ou “Peixe-negro” é um nome popular dado às orcas pelos “Primeiros Nativos”, uma tribo indígena da região oeste do Canadá que, acima de tudo, respeita as orcas: “É um animal que possui grande poder espiritual”.  Por coincidência, a população de orcas que vive neste local está classificada como ameaçada, não por conta dos nativos, mas por conta da indústria das orcas em cativeiro.


Orcas em números:

  • 15 aquários e parques marinhos detém orcas em suas instalações, hoje no mundo.

  • Corky 2, a orca mais antiga em cativeiro já possui 46 anos de confinamento.

  • 57 orcas vivem em cativeiro, atualmente.

  • 162 orcas morreram no cativeiro.

  • 151 acidentes de treinadores com orcas.

  • 4 pessoas morreram por ataque das orcas cativas.

  • Nenhuma pessoa morreu por ataque de orcas selvagens.

  • 162.855.000,00 reais que brasileiros gastam no SeaWorld Orlando,  por ano.

  • 770.000 brasileiros visitam o parque em Orlando, anualmente.

Foto: Tatiana Ivkovich (Far East Russia Orca Project/ Whale and Dolphin Conservation)

Após o lançamento do filme Blackfish, em 2013, as ações do SeaWorld caíram em mais de 30%, e o número de espectadores diminui a cada ano. Em novembro de 2015, o SeaWord anunciou uma alteração dos moldes teatrais das apresentações das orcas, em uma tentativa de se adequar às críticas que vem recebendo, e para apelar para o retorno de seus espectadores. Essa alteração propõe um cunho mais orgânico nas apresentações. O fim dos shows acrobáticos, não significa libertar as orcas ou acabar com os shows em definitivo. Será apenas uma reestruturação do show, pra parecer mais "natural" ao espectador.


Eu acredito que existam duas armas efetivas na luta conta o cativeiro: a informação e a decisão. A informação está disponível em diversos sites na internet, além de alguns documentários, além do próprio “Blackfish”, “A fall from freedom”, “Lolita: slave to entertain”, “The Cove”...  Já a decisão de não ir a parques aquáticos e aquários que possuam cetáceos (orcas, golfinhos e belugas) em cativeiro fica com você, caro leitor. Quando não houver mais demanda, não haverá mais espaço para este tipo de entretenimento, mas enquanto existam pessoas frequentando estes lugares, ainda existirão orcas em sofrimento. Por isso, junte-se à campanha “Não ao cativeiro”, compartilhe essa ideia com seus parentes e amigos.


Blackfish pode ser visto no Netflix ou no Now da Net, além do YouTube.

Site oficial: http://www.blackfishmovie.com/

Facebook: www.facebook.com/BlackfishFilm

Sobre a autora:

Daniela Abras é mineira de Belo Horizonte, formada em bióloga marinha pela UFRJ, e mestre em Oceanografia pela USP. É aficionada pelo cetáceos desde seus 8 anos, quando fez um trabalho na escola sobre o tema. Durante a adolescência, já dizia que queria trabalhar com baleias, e muita gente não a levou a sério. No início dos anos 90, escutou o famoso vinil com a gravação das baleias cantando da revista da National Geographic e conheceu o movimento “Save the whales” e disso partiu sua maior obstinação: estudar e proteger as baleias e golfinhos. Fundadora da página do facebook VIVA Baleias, Golfinhos e Cia www.facebook.com/VIVABaleiasegolfinhos, hoje é pesquisadora do Instituto Baleia Jubarte, e se dedica diariamente ao seu estudo destes magníficos animais.


A Daniela já publicou com a gente o seguinte post sobre o seu mestrado "Um giro pelo: oceano entendendo o vai e vem das baleias-jubarte"



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