Publicar ou morrer ou publicar sem sofrer? Eis a questão!

Por Catarina R. Marcolin


Conversando com uma colega que estava há uma semana de defender o mestrado, eis que ela me diz “Nossa, não vejo a hora de entregar esse mestrado e começar a produzir alguma coisa, sinto que não tô produzindo nada!”. Ao mesmo tempo em que pensei “Como assim?”, eu também entendi perfeitamente o que ela estava sentindo. 


Ilustração: Caia Colla.


Na carreira acadêmica a gente aprende que produzir = publicar. Portanto, enquanto não sai a publicação do paper numa revista legal, a gente trabalha insanamente, mas não parece que aquele trabalho é útil. Então nosso corpo não processa a recompensa pelo nosso trabalho. E isso é um grande desestimulador para os pesquisadores. 


Todos nós precisamos de motivação para viver. E no trabalho isso não é diferente. O que nos faz levantar todos os dias, tomar banho, trocar de roupa, enfrentar o trânsito e se dirigir ao trabalho, em um laboratório ou em uma Universidade, é o amor à ciência. E para provar nosso amor à ciência, o que fazemos? A gente pensa numa pergunta interessante, coleta dados, analisa esses dados, rebolamos na estatística e finalmente reportamos para a comunidade científica. Essa é a grande prova de que fizemos algo em nome desse amor, a nossa tão sonhada publicação.


Colocando dessa maneira, parece tudo muito simples. Um cientista deve ser uma pessoa muito realizada em sua profissão, certo? Mas não é tão simples assim. Em muitos casos, eu diria que na maioria das vezes, a conquista desse prêmio é bem tortuosa e exigente emocionalmente. 


O processo de revisão por pares é exaustivo, o nosso trabalho é constantemente criticado (nem sempre de forma muito elegante), versão após versão, até conquistarmos uma versão publicável, que não está nem perto da perfeição, mas é o melhor que se pode fazer dentro de determinado contexto. Isso quando não somos rejeitados logo de cara porque nosso artigo não se encaixa no escopo da revista, ou não atende ao amplo público leitor daquela revista. E todo esse processo pode demorar muito mais do que um ano para se completar. Então imagine como você se sentiria se só conseguisse se sentir recompensado por determinada atividade um ano após o seu início? Ou ainda, que demore ainda mais tempo e que quando você pensa que finalmente estaria terminando uma etapa da sua vida, na verdade muitas outras estariam apenas começando... 


Está vendo onde quero chegar com esse falatório? Precisamos de mais “prêmios”! Não podemos depender apenas do sucesso na publicação para nos sentirmos úteis no mundo. Precisamos de prêmios a cada semana, ou até mesmo todos os dias. Cada conquista deve ser comemorada, para cada artigo que é lido e bem interpretado, comemore. Para cada parágrafo escrito, celebre. Para cada análise estatística conquistada, vibre! Cada pequeno passo deve ser visto como algo relevante, senão corremos o sério risco de travarmos e desistirmos no meio do caminho, ou pior, de ficarmos deprimidos pela ausência de senso de utilidade.


Além disso não podemos deixar de chamar atenção para o fato de que a maioria dos pesquisadores no Brasil são contratados como docentes em Universidades públicas. No exercício de nossos cargos, precisamos dar aulas, participar de reuniões e nos envolver em inúmeras atividades burocráticas e administrativas, além de desempenhar atividades de extensão, como a divulgação científica que fazemos aqui neste blog. Recentemente, uma publicação na Scientific American recomenda que os cientistas sejam premiados por atividades de divulgação científica também.


Motivação é o que conduz o ser humano. Portanto, não é para nos sentirmos seres felizes e encantados que precisamos nos sentir úteis. É para que a gente não esmoreça nesse longo e pedregoso caminho que é a publicação de um artigo, é para que o mundo possa ter acesso a toda a ciência produzida em um laboratório. Afinal de contas, quantos de nós conseguiu publicar tudo que foi produzido desde que começou a fazer ciência? Eu mesma, nunca consegui publicar a parte mais importante do meu mestrado porque travei psicologicamente e não consegui retomar depois de tê-lo submetido 7 vezes. Ainda não desisti... E você? Já passou por algo semelhante? Conta aí nos comentários!


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