top of page

Quando me vi doutora e autista

  • batepapocomnetuno
  • há 22 horas
  • 4 min de leitura

ree

Ilustração de Caia Colla.


Desde criança, eu sempre fui considerada a chata da turma, a que seguia todas as regras (e ficava brava se alguém por perto não seguia), a que se dava muito bem com os professores e pessoas mais velhas, mas tinha pouquíssimos amigos da minha idade. Muitas vezes, eu demorava para entender alguma brincadeira que faziam comigo (mais tarde, deram um nome para isso: bullying). Mas dificilmente eu contava isso para alguém, afinal, eu também não era boa em explicar o que eu estava sentindo. Eu gostava de construir brinquedos, fazer artes (aprendi crochê, tricô, pintura em tecido e tela, bordado com a minha avó, sempre com certa facilidade), mas não gostava de inventar histórias brincando de barbie com as minhas irmãs. Pagava para não precisar fazer uma ligação telefônica. “Ah, ela é muito tímida”. E sabe como as coisas são hoje? Exatamente iguais. É claro que, com o tempo, eu melhorei algumas habilidades, o que não quer dizer que não haja um desgaste físico e emocional gigantesco, mas… é o que tenho para hoje. Entendi que eu era o peixe fora d'água e segui minha vida com o menor dano possível.


Decidi que faria faculdade de Oceanografia com apenas 12 anos. Estudei a grade horária e os laboratórios que existiam aqui durante o Ensino Médio. Ou seja, preparei-me e tracei toda a minha rota acadêmica: mestrado, doutorado, pós-doutorado - eu já sabia que seria pesquisadora e onde eu queria trabalhar. Doideira ou estava criando algum conforto na previsibilidade do meu futuro?


O tempo foi passando e eu me tornei representante de turma na graduação, representante discente em inúmeras comissões estatutárias no instituto e participei da organização de vários eventos, conseguindo financiamento para alguns deles. Na pós-graduação, a mesma coisa. Sempre fui em busca do que fosse melhor para o grupo, sempre lutei pelo que achava justo. Indispus-me com algumas pessoas - machistas, preconceituosos e alguns desinformados. Entrei no programa de pós-doutorado e aí? Pós-doutorandos seguem invisibilizados, sem direitos e representação, mas cheios de cobranças: fui atrás e já conseguimos algumas coisas. Ninguém falou que seria fácil, mas ninguém também avisou que seria tão desgastante.


Nesse período todo, minha irmã mais nova se formou psicóloga, e desde os seus primeiros atendimentos, ainda como acompanhante terapêutica, trabalha, principalmente, com pessoas neurodivergentes (isto é, pessoas que têm um funcionamento cerebral diferente de um padrão, considerado “normal” - os chamados neurotípicos). Muitos dos adultos que passam em atendimento com ela também são neurodivergentes (e pasmem, gente: pessoas autistas, com transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) ou trissomia 21 também se tornam adultos! Sim, isso foi uma crítica a um sistema que oferece atendimento apenas para crianças e, no máximo, adolescentes). E, nos últimos anos, ela percebeu que muitos dos meus comportamentos eram compatíveis com os de uma pessoa autista. Aceitei por um tempo essa ideia, mas sem buscar ajuda ou uma confirmação do diagnóstico mesmo.


Enquanto isso, convivi (convivo) com um transtorno de ansiedade generalizada (TAG) e depressão. E vocês sabiam que esses diagnósticos são muito comuns em pessoas autistas em que houve diagnóstico tardio? Por quê? Porque passamos o tempo todo tentando “ser normal”, encaixarmo-nos nas “caixinhas sociais” ou frustrados com o insucesso nessas empreitadas. Além disso, em muitos desses casos, a pessoa possui um nível de suporte mais baixo e conseguiu mascarar as características do autismo ao longo de sua vida. E isso é muito desgastante… por isso, muitos desenvolvem quadros de ansiedade e depressão. 


Pois bem, com o mental em frangalhos no início de 2024, comecei a ter dificuldades de concentração e não conseguia (e ainda estou enfrentando certa dificuldade) ficar horas na lupa, atividade que faz parte do meu projeto pós-doutorado. Neste ano, optei também por não publicar nenhum artigo científico, que também demanda muito foco e concentração (e agora, estou correndo atrás de cobrir essa lacuna acadêmica… kkcrying). Por conta disso, decidi fazer o teste neuropsicológico, que auxiliou meu psiquiatra a fechar o diagnóstico de transtorno do espectro autista (TEA). Quando o diagnóstico oficialmente veio, ainda foi um choque (para mim, né, porque minha irmã já tinha certeza) e demorei mais uns meses digerindo essa informação.


As pessoas não são, e nunca foram, iguais. Não entendo porque ainda cismamos em colocar em caixas tudo e todos! Não seria melhor acolher as diferenças, respeitá-las e buscar conhecimento e recursos para lidarmos com elas? Ah, mas isso dá trabalho, né? É, dá trabalho se tornar uma pessoa melhor. Pense que, assim, o mundo pode melhorar não apenas para pessoas neurodivergentes ou com deficiência, mas para todos!


Hoje, tudo se encaixou… mas eu ainda estou aprendendo a entender as minhas necessidades mentais e físicas, a gerir minhas demandas e agradeço à minha família pelo apoio, principalmente às minhas irmãs, com quem tanto aprendo sobre as mil possibilidades de ser, e à minha mãe, que me acudiu tantas vezes e, quando tinha as crises de ansiedade, despencando de Mogi para São Paulo diversas vezes porque perdia a hora para acordar, tinha prova e já levantava passando mal de ansiedade. 


Eu amo o que eu faço, seja como oceanógrafa e pesquisadora, seja como divulgadora científica. Eu terminei meu mestrado, segui direto para o doutorado e logo engatei no pós-doutorado. Eu sigo cumprindo com as metas que criei para a minha vida. E, agora, posso dizer que sou doutora e autista com muito orgulho.


Que este relato possa ajudar outras tantas pessoas que estão nesse caminho de autoconhecimento, tentando se encontrar nesse mundo, e para que os familiares de pessoas neurodivergentes acreditem no potencial delas!


Sobre a autora:


ree

Oceanógrafa, mestre e doutora em Oceanografia, na área de concentração Oceanografia Biológica, pelo Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IOUSP), com período sanduíche em Portugal, no CIIMAR (Universidade do Porto). Atualmente, é pesquisadora de Pós-Doutorado no IOUSP e editora voluntária do Bate-Papo com Netuno.

A Oceanografia entrou em sua vida muito cedo, quando tinha apenas 12 anos. Desde então, sua curiosidade a leva para novos e diferentes caminhos a cada nova empreitada. Acredita que o diferencial da Oceanografia é justamente a multidisciplinaridade. Assim, tem experiência com análises climatológicas, química inorgânica de sedimentos, unidades de conservação, integridade biótica da ictiofauna, estoques pesqueiros, análises morfométricas, otólitos e, desde 2021, entrou no mundo da paleoecologia!




Comentários


bottom of page