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  • Unidades de conservação: sem gestão são apenas “parques de papel”

    Por Jana M. del Favero As unidades de Conservação (UCs) são áreas naturais protegidas por lei, essenciais para a conservação da biodiversidade. Além de abrigar os mais diferentes ecossistemas, elas desempenham um importante papel para o bem-estar da sociedade pois em seu espaço podem ser desenvolvidas  atividades controladas de uso público, sejam de cunho científico, educativo ou recreativo. Contudo, somente a criação de unidades de conservação não é suficiente para assegurar um patrimônio natural. É necessário geri-las de modo eficaz para conservação dos recursos nelas existentes (Faria, 2004), o que seria mais ou menos equivalente a manter a sua casa arrumada, limpa e funcional. Criar unidades de conservação sem a perspectiva de implantá-las provoca inúmeros problemas regionais, prejudicando a relação das instituições mantenedoras (por exemplo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMBio e Fundação Florestal - FF) e da unidade propriamente dita com as comunidades locais, resultando na insatisfação regional e no desgaste do nome e imagem institucionais (Artaza-Barrios, 2007). Fonte Segundo Terborgh e Schaik (2002), uma grande fração das unidades de conservação no mundo representa os chamados “parques de papel”, ou seja, nunca foram realmente implementantadas e não há sequer diretrizes que auxiliem na gestão e manejo adequados. Visando eliminar os riscos da criação de "parques de papel" no Brasil, criou-se o Sistema Nacional de Unidades de Conservação – SNUC, um conjunto de diretrizes e procedimentos oficiais onde foram estabelecidas as categorias de manejo e suas respectivas características (detalhes sobre essas categorias aqui ). De acordo com o Panorama da conservação dos ecossistemas costeiros e marinhos no Brasil (disponível aqui ), no ano de 2010 foram contabilizados 222 UCs criadas nas zonas costeiras e marinhas, sendo 102 federais e 120 estaduais. Apenas 1,57% dos 3,5 milhões de quilômetros quadrados de mar sob jurisdição brasileira está sob proteção em unidades de conservação. Se aos valores estimados para a Zona Marinha forem adicionadas às estimativas para a Zona Costeira, o percentual sobe para 3,14%, que corresponde a pouco mais de 31% da meta fixada pela Comissão Nacional de Biodiversidade (Conabio), que é uma comissão criada com objetivo de proteger ao menos 10% de sua área marinha e costeira. Dentre toda a costa brasileira, a região do Estado de São Paulo é a que mais sofre ações antrópicas (alterações realizadas pelo ser humano), principalmente por causa da pressão imobiliária. Além disso, o litoral de SP está cada vez mais visado devido à sua localização estratégica em relação aos grandes polos industriais do país e à conexão com sistemas portuários para importação e exportação. Destaca-se ainda o fato das descobertas de petróleo na Região do Pré-sal na Bacia de Santos atraírem não só profissionais da indústria de exploração de óleo e gás, mas também indústrias e empreendimentos rodoviários, ferroviários etc. Já dentro do Estado de São Paulo, o município de Bertioga é uma das poucas áreas ainda preservadas, mesmo estando localizado próximo a centros urbanos e no movimentado eixo Rio - São Paulo. Esta região constitui um importante corredor biológico entre ambientes marinho-costeiros, representados pela restinga e pela Serra do Mar, formando assim uma área contínua cuja proteção é fundamental para garantir a preservação dos processos ecológicos e fluxos gênicos. Assim, baseando-se na relevância biológica da área e buscando, principalmente, a preservação da mesma, em outubro de 2010 o Conselho Estadual do Meio Ambiente – Consema, após anos de discussão e de análises das diferentes propostas apresentadas por órgãos distintos, aprovou a criação de um mosaico constituído em sua maioria pelo Parque Estadual Restinga de Bertioga - PERB e por uma Área de Relevante Interesse Ecológico - ARIE. O PERB foi oficialmente criado pelo Decreto Estadual nº 56.500, de 9 de dezembro de 2010 (mais informações sobre o PERB aqui ). E foi exatamente neste mesmo ano, em 2010, que eu estava cursando uma especialização em Gestão Ambiental no Senac e precisava fazer o trabalho de conclusão de curso (TCC). Me juntei com um grupo de mais 3 pessoas de diferentes áreas: a Bárbara Banzato - oceanógrafa, o José Augusto Auroca - sociólogo, e a Juliana Carbonari - turismóloga, e não tivemos dúvidas sobre qual área estudar, o PERB! Na época fazia-se necessária a implantação urgente de programas de gestão ambiental integrada que garantissem o pronto estabelecimento do PERB e a participação popular ativa nas questões ambientais, evitando assim a criação de mais um parque de papel. Deste modo, para contribuir com a elaboração do plano de manejo da UC em questão, realizamos um diagnóstico ambiental da área do PERB e seu entorno através de uma análise crítica do cenário atual do parque, identificando os pontos fortes e fracos da área e as possíveis ameaças e oportunidades para o parque. Utilizamos dois métodos, SWOT (sigla em inglês para Pontos Fortes, Pontos Fracos, Oportunidades e Ameaças – Strengths, Weaknesses, Opportunities and Threats ) e GUT (sigla para Gravidade, Urgência e Tendência), para analisar 18 questionários obtidos através de entrevistas com pessoas-chave ligadas à criação do PERB. As principais potencialidades apontadas pelos métodos foram: abundância dos recursos naturais, localização estratégica do PERB, mosaico com diferentes UCs, bom estado de conservação de diferentes ecossistemas, preservação da área, desenvolvimento de pesquisas e potencial ecoturístico. Já as ameaças mais importantes foram: proximidade com centros urbanos, inexistência de infraestrutura, influência de rodovia federal, caça, pesca, ocupação irregular e turismo desordenado.  Esquerda: Foz do rio Itaguaré / Direita: Vista aérea da região. Fotos: Adriana Mattoso. Fonte Esquerda: Foz do rio Itaguaré - Direita: Colhereiros em manguezal da região Fotos: Adriana Mattoso. Fonte O trabalho foi relevante em dois aspectos: ao representar a primeira iniciativa de análise do PERB apontando suas forças restritivas e propulsoras mais críticas que podem vir a auxiliar na gestão efetiva do parque e ao utilizar metodologias de fácil uso para analisar UCs, mostrando que elas podem auxiliar em sua gestão efetiva (o trabalho publicado pode ser obtido aqui ). Hoje, fazendo uma pesquisa rápida sobre o PERB, vi que eles abriram no começo deste ano (2015) duas novas trilhas, desenvolvendo práticas do ecoturismo para fins de recreação e educação ambiental (informações aqui ). Me alegrei ao ver que, ao que me parece, o PERB não será apenas mais um “parque de papel”. Bibliografias citadas: ARTAZA-BARRIOS, O.H. Análise da Efetividade do Manejo de duas Áreas de Proteção Ambiental do Litoral Sul da Bahia. Revista de Gestão Costeira Integrada, v. 7, n.2, p. 117-128. 2007. BANZATO, B. M. ; FAVERO, J. M. ; AROUCA, J. A. C. ; CARBONARI, J. H. B. . Análise ambiental de unidades de conservação através dos métodos SWOT e GUT: O caso do Parque Estadual Restinga de Bertioga. Revista Brasileira de Gestão Ambiental, v. 6, p. 38-49, 2012. FARIA, H.H. Eficácia de gestão de unidades de conservação gerenciadas pelo Instituto Florestal de São Paulo, Brasil. 2004. 401f. Dissertação (Doutorado em Geografia) – Universidade Estadual de São Paulo, 2004. TERBORGH, J.; SCHAIK, C. V. Por que o mundo necessita de parques? In: Tornando os parques eficientes: estratégias para conservação da natureza nos trópicos. Curitiba: Universidade Federal do Paraná, 2002. #ciênciasdomar #ecossistemascosteiros #ecossistemasmarinhos #parquesdepapel #unidadesdeconservação #janamdelfavero

  • Peixes Ósseos e Cartilaginosos

    Por Gabrielle Souza Você já se perguntou qual é a diferença entre peixes e raias? Será que a raia também é peixe? E os tubarões? Essas dúvidas surgem por conta da suas particularidades na forma física, mas não pense que é só isso. Existem outras características que os diferem, porém há características que os aproximam,  e é sobre esse assunto que vamos falar hoje! Fonte: Diliff via Wikimedia Commons , licença CC BY 2.5 e Albert Kok via Wikimedia Commons , Domínio Público Mas primeiramente precisamos saber o que é peixe. Todos os peixes têm um cérebro protegido por uma caixa craniana, e na região da cabeça possuem olhos, dentes e outros órgãos sensoriais. A maioria dos peixes vive na água, são vertebrados, respiram por brânquias, possuem o corpo coberto por escamas e não são capazes de regular a própria temperatura corporal. Porém, como em toda regra existem as exceções: o peixe-bruxa não é vertebrado e não possui escamas, os peixes pulmonados têm respiração pulmonar, e o atum controla, de certa maneira, a temperatura corporal. O termo peixe, além daqueles que estamos acostumados a ver no supermercado e aquários, é também utilizado para definir organismos aquáticos como raias, tubarões e lampreias. Por isso a denominação “peixe” não representa um grupo taxonômico monofilético, uma vez que um grupo taxonômico monofilético deve incluir todos os organismos que possuem ancestral comum. Para que peixes seja considerado um grupo monofilético seria necessário incluir, por exemplo, os tetrápodes, que são os animais que possuem quatro membros, incluindo você Homo sapiens! (veja a figura abaixo) Filogenia dos principais grupos de Chordata. † O táxon está extinto; grifo em vermelho representa os grupos citados nesse post (Adaptado de NELSON et al. (2016)). Os peixes pertencem ao Filo Chordata, ou seja, são animais que apresentam notocorda, uma estrutura de aspecto cartilaginoso posicionada na região dorsal e dá origem ao eixo do embrião, sendo o futuro lugar onde as vértebras daquele organismo irão se posicionar. Pertencem ao Infrafilo dos vertebrados, que  abrange aproximadamente 60.000 espécies, e possui uma organização taxonômica separada em diversas Classes. Porém apenas duas dessas Classes nos interessam neste momento: Chondrichthyes e Osteichthyes. Exemplos de peixes cartilaginosos. Da esquerda para direita: tubarão; raia; quimera; e peixes ósseos: peixe lua. Fonte Terry Goss via Wikimedia Commons , licença CC BY 2.5; Jocob Robertson via Wikimedia Commons , Domínio Público; Linda Snook/MBNMS via Wikimedia Commons , Domínio Público; Per-Ola Norman via Wikimedia Commons , Domínio Público Agora vamos falar algumas das diferenças destas classes! A Classe Osteichthyes possui duas Subclasses, denominadas de Sarcopterygii, que inclui os peixes com nadadeiras carnosas e os tetrápodes, e Actinopterygii, cujos organismos apresentam nadadeiras com raios. Os Actinopterygii, possuem as seguintes características gerais: esqueleto ósseo, pele coberta por escamas ósseas, respiram por brânquias protegidas pelo opérculo (uma placa óssea que cobre as brânquias) e possuem vesícula gasosa (antigamente denominada de bexiga natatória), órgão que auxilia na flutuabilidade dos indivíduos. Tipos de escamas: placóide e óssea (Adaptado de Bemvenuti & Fischer (2010). A Classe Chondrichthyes possui duas Subclasses denominadas de Elasmobranchii (raias e tubarões) e Holocephali (quimeras). As características gerais dessa Classe são: esqueleto cartilaginoso, corpo coberto por escamas placóides, respiração também por brânquias, mas essas não possuem a proteção dos opérculos (exceção das quimeras), não possuem vesícula gasosa e, portanto, apresentam outros mecanismos para auxiliar na flutuabilidade (por exemplo as nadadeiras peitorais largas, semi-rígidas e horizontais nos tubarões que reduzem o afundamento e o fígado grande e rico em óleo, o que diminui a densidade corporal). Uma característica que peixes ósseos e cartilaginosos possuem em comum e que todos sabemos, é que ambos além de super nutritivos, são deliciosos! Mas é importante ter cautela ao consumi-los pois muitas espécies estão ameaçadas de extinção. Assim, finalizo esse post compartilhando com vocês esse guia de consumo responsável de pescados no Brasil, criado pelo pessoal da WWF. Bom apetite! Posts relacionados: Alcatrazes e seus peixes Os pequenos peixes escondidos nas poças de maré Até os peixes amam praia Como saber a idade de um peixe e outras coisas mais Referências: HICKMAN C.P.; ROBERTS, L.S & LARSON, A. 2004. Princípios Integrados de Zoologia . Guanabara Koogan Editora. 846p. What is a fish? Understanding Evolution. Disponível em: < http://evolution.berkeley.edu/evolibrary/article/fishtree_02 >. Acesso em: 05 abr. 2017. NELSON, Joseph S. et al. 2016. Fishes of the World. 5. ed. New Jersey: John Wiley & Sons, Inc., Hoboken. 752 p. BEMVENUT, M. A. & FISCHER, L. G. 2010. PEIXES: MORFOLOGIA E ADAPTAÇÕES. Caderno de Escologia Aquática, Rio Grande- Rs, v. 5, p.1-24. #animaismarinhos #descomplicando #filochordata #peixes #peixescartilagionosos #peixesósseos #raia #tubarão #vertebrados #gabriellesouza

  • Um giro pelo oceano: entendendo o vai e vem das baleias-jubarte

    Por  Daniela Abras É um desafio muito grande tentar entender os mecanismos que ocorrem no mega organismo de um animal de 15 metros de comprimento e 40 toneladas e que migra cerca de 9.000 km. As baleias-jubarte migram todos os anos entre a Antártica (onde só se alimentam) e o Brasil (onde só se reproduzem). O percurso de cerca de 4.500 km é percorrido duas vezes ao ano, no caminho da Antártica para o Brasil, em que elas gastam em torno de 2 meses de ida, e mais dois meses de volta. E se somar o tempo que elas permanecem se reproduzindo no Brasil, que dura em torno de 4 meses, são 8 sem se alimentar. É um baita jejum. Para conseguirem essa façanha, elas precisam comer muito durante os 4 meses na Antártica, e fazer um grande estoque de energia, em forma de gordura corporal. Mapa do corredor migratório das baleias-jubarte entre a região de alimentação, na Antártica e a área de reprodução, no Banco de Abrolhos, sua principal área de reprodução. Fonte: Bate- Papo com Netuno com licença CC BY-SA 4.0 E as baleias comem o quê? Como diria a adorável e esquecidinha Dory do filme procurando Nemo, baleias não comem peixe, comem krill. Um pequeno crustáceo, parente dos camarões, de cerca de 5 cm de comprimento, que vive e forma gigantescos cardumes. O krill é a base da teia alimentar na Antártica, em que praticamente todas as espécies dependem dele, direta ou indiretamente. Muitas espécies de peixes, focas, pinguins e baleias se alimentam exclusivamente dele. E outras, como as orcas e a foca-leopardo, se alimentam de peixes ou pinguins... Por isso, a teia alimentar da Antártica é apelidada carinhosamente, pelos cientistas, de “krill-dependente”. O Krill (Euphausia superba), principal alimento das baleias-jubarte na Antártica, forma grandes cardumes. Fonte: Bate- Papo com Netuno com licença CC BY-SA 4.0 Todos os anos então, as baleias-jubarte chegam à costa brasileira, e aqui permanecem entre julho e novembro. Mas tem ano que a população chega antes, e fica aqui mais tempo, e tem ano que elas chegam mais tarde e vão embora rapidinho. Alguns anos tem muito mais baleia do que  outros... E foi então que começaram a surgir as perguntas: Será que nos anos que as baleias passam mais tempo em Abrolhos, é porque elas se alimentaram melhor? Será que elas vão embora mais cedo nos anos em que a temperatura da água está mais alta? Ou será que nada disso tem influência, e é tudo uma questão de programação genética? O que será que dá o start para isso tudo acontecer? A proposta do meu mestrado foi tentar compreender os diversos mecanismos ambientais que podem influenciar na dinâmica migratória das baleias-jubarte, especialmente a disponibilidade da sua principal fonte de energia. Para isso, analisei alguns parâmetros, entre eles: fotoperíodo, temperatura da água em Abrolhos e no Mar de Scotia (que é o lugar onde elas ficam na Antártica), e disponibilidade de krill no verão, e cruzei com dados de 7 anos de avistagem de baleia-jubarte ao redor do Arquipélago dos Abrolhos, em um local chamado de “ponto fixo”. Para avistar as baleias, utilizamos um equipamento de topografia, chamado teodolito, com zoom de 30 vezes. Assim, ao longo de 5 meses as observamos diariamente e vimos que a abundância da população flutua ao longo da temporada reprodutiva: um aumento gradual em julho, pico de avistagem em agosto/setembro, e diminuição gradual, até não ter mais baleias no fim de novembro.  Avistando as baleias com auxílio do equipamento teodolito, no Arquipélago dos Abrolhos. Os resultados foram mais que esperados. Nos anos com maior disponibilidade de krill, as baleias se alimentam melhor, maior é seu estoque de energia, o que possibilita que permaneçam mais tempo investindo na reprodução e mais baleias foram avistadas em Abrolhos. O contrário é válido: em anos com menos krill, vimos menos baleias e menor foi o tempo que elas ficaram por aqui. A temperatura da água não teve muita influência na migração, apenas auxiliou a indicar o momento de início da migração ou o timing migratório.  Mas o resultado mais surpreendente foi em relação ao fotoperíodo (duração de luz no dia). Nunca, nenhum trabalho havia relacionado a dinâmica da migração com o fotoperíodo, talvez por que os cientistas considerassem óbvio demais. Mas, às vezes é indispensável compreender o óbvio. O fotoperíodo apresenta uma grande amplitude entre o verão (18 horas) e inverno na Antártica (6 horas); diferente de Abrolhos, em que a diferença entre o verão (13 horas) e inverno (11 horas) é bem menor.  Então, como conclusão do meu trabalho, a migração das baleias-jubarte é iniciada e influenciada pela diminuição brusca do fotoperíodo quando elas estão na Antártica. Mas quando estão em Abrolhos, é a soma de 3 fatores: o fotoperíodo (que se altera bem menos em Abrolhos do que na Antártica), a temperatura da superfície do mar (que aumenta pouco, mas gradativamente ao longo da temporada reprodutiva) e a disponibilidade de krill, ou o quão bem ou mal a população se alimentou durante o verão.  Foi muito difícil analisar um volume tão grande de dados, tentando interligar parâmetros ambientais tão diferentes para chegar próximo às respostas a todas aquelas perguntas. Com estes resultados, começamos a compreender a complexa dinâmica da migração e a importância do krill para a manutenção da população de baleia-jubarte que frequenta a costa brasileira. Se quiser saber mais sobre minha dissertação, entre em contato no email (daniabras@gmail.com). A população de baleias-jubarte foi quase dizimada no início do século XX, devido à caça comercial intensiva, em que a população estimada era de 25.000 e chegou a cerca de 800 indivíduos no seu pior momento. Após a moratória da caça das baleias em 1986, a nossa população se recuperou, e hoje conta com 15.000 indivíduos!!! Este ano, foi oficialmente retirada da lista de espécies brasileiras ameaçadas de extinção. Esta é uma vitória para as baleias, e para nós, que temos o privilégio de recebê-las anualmente, cada vez em maior número, em seu magnífico balé aquático. Vá conhecê-las! Elas estão aqui entre julho e novembro em grande concentração na região dos Abrolhos, mas podem ser vistas do Rio Grande do Norte ao Rio de Janeiro. Quer saber mais sobre as baleias-jubarte? Visite o site do Instituto Baleia Jubarte www.baleiajubarte.org.br Baleia-jubarte saltando na região dos Abrolhos. Fonte: Bate- Papo com Netuno com licença CC BY-SA 4.0 Sobre a convidada: Daniela Abras é mineira de Belo Horizonte, formada em biologia marinha pela UFRJ, e mestre em Oceanografia pela USP. É aficionada pelo cetáceos desde seus 8 anos, quando fez um trabalho na escola sobre o tema. Durante a adolescência, já dizia que queria trabalhar com baleias e muita gente não a levou a sério. No início dos anos 90, escutou o famoso vinil com a gravação das baleias cantando da revista da National Geographic e conheceu o movimento “Save the whales” e disso partiu sua maior obstinação: estudar e proteger as baleias. Hoje é pesquisadora do Instituto Baleia Jubarte, e se dedica diariamente ao estudo deste magnífico animal. #baleias #comportamento #convidados #conservação #oceano #danielaabras #ciênciasdomar

  • Limbo acadêmico: quem nunca?

    Por Natasha Travenisk Hoff Ilustração de Luiza Soares Um desabafo sobre a vida de MAIS uma pós-doutoranda em busca do seu lugar ao sol. Sabe quando optamos pela carreira acadêmica mas há aqueles períodos de "entressafra" entre o final da graduação e a aprovação no mestrado ou entre a defesa do mestrado e o início do doutorado? A isto eu comecei a chamar "carinhosamente" de limbo acadêmico: um período de leve desespero e tensão no qual o seu futuro acadêmico e financeiro é incerto. Todos querem que este período seja o menor possível, pois as contas também precisam ser pagas nesta entressafra, certo? Mas após iniciar o estágio pós-doutoral (popularmente chamado de pós-doc) no ano passado, o termo limbo acadêmico ganhou um novo significado. No exterior, o pós-doc é considerado um "trabalho" (como se nada do que fizéssemos fosse trabalho, né? Mas isso é outra coisa...) e você assina um contrato, geralmente por tempo determinado, prorrogável por mais um ou dois anos. Muitos editais contêm, inclusive, as funções para as quais você está sendo contratado. E no Brasil, como funciona o pós-doutorado? Primeiro, não há vínculo empregatício, ou seja, você continuará a ouvir "e quando você vai parar de estudar e ir trabalhar?". Segundo, conseguir financiamento para projetos de pós-doutorado é outro processo complicado: a verba governamental está cada dia mais restrita, com muitos projetos sendo considerados aprovados, mas sem possibilidade de financiamento (lembrando que nos últimos editais do CNPq para pós-doutorado e outras modalidades, uma minoria dentre os pedidos foram contemplados com bolsa, mesmo com projetos cujo parecer fosse favorável). Então, você precisa de um projeto cheio de criatividade e inovação para ser aprovado, além de um pouco de sorte talvez. Pronto: você tem 12 meses de financiamento garantido e, talvez consiga uma prorrogação de, no máximo, mais 12 meses. E neste curto período, você tem que fazer de tudo para melhorar seu currículo para tornar viável a busca por uma vaga como docente: pesquisa, publica artigos científicos, orienta e participa de disciplinas - quando alguém te dá essa abertura -, organiza eventos, tenta participar de alguns concursos por aí e se preocupa com o prazo final que logo chega e você vai precisar entregar um relatório. Se sobreviver a tudo isso, você terá que pensar em um novo financiamento para o seu projeto ou, ainda, precisa escrever um novo projeto para outros processos seletivos. Mas, Natasha, por que razão você chama isso de limbo acadêmico? Neste curto período, enquanto tentamos de todas as formas cumprir todas as demandas e conquistar um espaço no ambiente acadêmico (a vontade era gritar "me dá uma chance!"), diferente dos graduandos, pós-graduandos, docentes e funcionários, nós não temos direito a qualquer representação oficial. Isso significa que os pós-doutorandos não têm voz na universidade, não podem lutar por condições melhores, ficam dependentes do que seus supervisores ou outros docentes permitem ou das demandas apresentadas pela comissão a qual estamos atrelados. Quando falei o termo em uma reunião de comissão estatutária do instituto no qual atuo no momento (na qual os pós-doutorandos não têm direito à representação, mesmo sendo quem mais é afetado pelas decisões ali tomadas), a reação dos docentes foi “imagina”, “não é assim, não” e coisas similares. Vale lembrar que a vida (e as cobranças) desses pesquisadores no início de suas carreiras era muito diferente daquela que experimentamos hoje e muitos, infelizmente, não levam isso em consideração. Sem voz, muitas vezes, não conseguimos experiências que nos são cobradas na disputa por vagas para docente... ficamos muitas vezes à mercê daquilo que os docentes não estão dando conta, como orientar, avaliar trabalhos e participar de alguma banca. E, muitas vezes, isso acontece de maneira informal, ou seja, o seu nome permanece na obscuridade. Agora, não posso falar em nome de outros pós-doutorandos, mas a sensação que eu tenho é de que, apesar de ter me esforçado muito durante todos esses anos, eu ainda não sou boa o bastante. Será a tal da Síndrome do Impostor ? Será que meu esforço ainda não foi suficiente? Eu, que sofro de ansiedade generalizada e venho de uma relação abusiva com o meu ex-coorientador, acho sempre que não me dediquei o quanto deveria, não aprendi o tanto que deveria… Ainda tenho o NÃO muito relacionado à minha capacidade. Muitos colegas já desistiram da vida acadêmica, quer seja pela dificuldade em conseguir uma vaga como docente, quer seja por não conseguir mais financiamento para seus projetos. Outros, ainda, com todos esses “perrengues”, acabaram por descobrir outras atividades de maior rentabilidade (ou pelo menos algo mais constante), o que também não é ruim, claro. Eu sigo lutando pelo meu lugar ao sol nessa carreira que, apesar de ser sofrida, eu amo demais. Referências ou sugestão de leitura: van der Wejden, Inge; Teelken, Christine; de Boer, Moniek; Drost, Mariske. 2016. Career satisfaction of postdoctoral researchers in relation to their expectations for the future. High Educ., 72:25-40. DOI: 10.1007/s10734-015-9936-0 . Ysseldyk, Renate; Greenaway, Katharine H.; Hassinger, Elena; Zutrauen, Sarah; Lintz, Jana; Bhatia, Maya P.; Frye, Margaret; Starkenburg; Tai, Vera. 2019. A leak in the Academic Pipeline: identity and health among postdoctoral women. Front. Psychol., 10:1297. DOI: 10.3389/fpsyg.2019.01297 . #VidaDeCientista #PósDoutorado #VidaAcadêmica #LimboCientífico #NatashaHoff

  • "Químicos para sempre" e os limites planetários

    Por Ju Leonel Definidos em 2009 pelo sueco Johan Rockström, do Centro de Resiliência de Estocolmo, os limites planetários têm por objetivo definir até onde o desenvolvimento humano pode operar sem causar danos irreversíveis à capacidade de regeneração da Terra . Os limites planetários são nove: 1. Mudanças climáticas 2. Integridade da biosfera 3. Mudança de uso do solo 4. Fluxos biogeoquímicos (fósforo e nitrogênio) 5. Depleção do ozônio estratosférico 6. Uso da água 7. Acidificação do oceano 8. Transporte de aerossóis atmosféricos 9. Incorporação de novas entidades Dentre eles, os quatro primeiros já foram ultrapassados, os três seguintes estão dentro da zona de segurança (por enquanto) e para os dois últimos faltam dados para saber a situação real. Representação dos Limites Planetários. Fonte: Azote - Stockholm Resilience Centre, baseada nas análises de Persson et al 2022 and Steffen et al 2015 com Licença CC BY 4.0 A incorporação de novas entidades (NE) originalmente foi nomeada de poluição química, mas posteriormente entendeu-se que o nome não representava totalmente esse limite que entende-se por: novas substấncias, novas formas de substâncias existentes ou organismos modificados por humanos, assim como substấncia de ocorrência natural - como os metais - que tiveram aumento nas suas concentrações devido às atividades antrópicas. Quantificar os limites planetários para as NE é um grande desafio, pois há muitas lacunas de dados para um grande número delas. Novos NEs estão constantemente sendo produzidos e há muitos efeitos que eles podem causar, dificultando as avaliações. No entanto, recentemente, um grupo de pesquisadores propôs que os compostos per- e polifluorados (PFAS) sejam usados para definir os limites para os NE. Os PFAS são compostos tão resistentes à degradação, tanto biótica como abiótica, que receberam o apelido de químicos para sempre . Hoje, existem mais de 10 mil compostos no grupo dos PFAS, incluindo alguns que começaram a ser produzidos há quase 80 anos. Sua presença é amplamente difundida nos mais diversos produtos: embalagens de alimentos, têxteis, materiais impermeáveis, panelas, praguicidas, maquiagem, espumas anti-chamas e muitos outros. Devido à sua alta capacidade de dispersão, por correntes atmosféricas e oceấnicas, eles são encontrados em praticamente todos os locais: do Ártico à Antártica, do topo do Everest às águas profundas do oceano . Agora voltando ao papel dos PFAS nos limites planetários… A proposta desses pesquisadores baseou-se em avaliar se as concentrações de quatro compostos do grupo dos PFAS excedem os valores considerados seguros para alguns compartimentos ambientais (água da chuva, solo e água superficial).Caso isso aconteça, pode-se considerar que eles são um perigo real para a saúde humana e que, nesse caso, o limite foi ultrapassado. Eles então avaliaram as concentrações em várias localidades para água da chuva, água potável, peixes, solos e material dragado e, infelizmente, na maioria deles os valores estavam acima dos limites aceitáveis - lembrando que muitos desses valores estão em revisão, pois estudos indicam que eles na verdade não são tão seguros assim e precisam ser menores. Até um tempo atrás, acreditava-se que, ao serem levados para o oceano, esses compostos seriam diluídos e seus perigos minimizados. No entanto, há estudos que mostram que eles podem retornar ao continente através do transporte pelos aerossóis oriundos do spray marinho. Ou seja, há uma ciclagem desses compostos que contribui para que o limite planetário seja excedido. Esse cenário é especialmente preocupante porque, com as medidas de restrição de produção e/ou uso de alguns PFAS, muitos deles continuam sendo produzidos (e outros novos sintetizados pela indústria química). Além disso, para muitos ainda faltam estudos quanto a sua toxicidade. #CiênciasDoMar #JulianaLeonel #POPs #LimitesPlanetários #PFAS

  • Plastic Free UFSC: small changes to habits, big impacts to the environment

    Check out the internationally awarded project that is changing the Federal University of Santa Catarina (UFSC) and that originated from the desire of students for a better world. By Lisiane de Liz English edit by Carla Elliff * post originally published in Portuguese on June 27, 2019 Logotype of the “UFSC Sem Plástico” (Plastic Free UFSC) project (provided by the project under an Attribution-NonCommercial 4.0 International license) Every year, tons of waste produced on land, from domestic and industrial origin, reach the ocean. Once this material is in the marine environment, depending on their type and density, they will accumulate on beaches, along the water column or on the seafloor. Thus, the biota of these compartments may be affected by the presence of this waste. This includes examples of suffocation or a false sense of fullness caused by ingesting litter, such as plastics. Moreover, solid waste like fishing nets may be responsible for imprisoning species, making it difficult for them to move and/or capture their prey. Most of the litter found in marine environments is composed of plastics, which may represent more than 90% of the materials that have been inadequately disposed of and have reached the ocean. A lack of knowledge about the damages caused by plastics, combined to the absence of responsibility for the amount of plastics that we consume (especially disposable plastic), and poor waste management are the main culprits for the excessive input of plastics in beaches and in the ocean. It was these concerns with the environmental problems caused by the irresponsible use of plastics that motivated the creation of the university outreach project “ UFSC sem Plástico ” (or Plastic Free UFSC). The project comprises a multidisciplinary group of undergraduate and postgraduate students from the Architecture and Urbanism, Economy, Environmental and Sanitary Engineering, Nutrition, and Oceanography courses of the Federal University of Santa Catarina (UFSC). It also has the support of Prof. Dr. Juliana Leonel , who is responsible for the project, and of the Environmental Management Coordination of UFSC. The project questions the consumption and waste disposal habits that are imposed to our society, and within the University. The campus located in the municipality of Florianópolis converges nearly 70 thousand people and has 15 cafeterias that generate an excessive daily amount of plastic waste. Moreover, the cost of disposable materials and directing waste to landfills is high for UFSC; and these expenses could be directed to other activities, such as stipends and financial aid for students. With this scenario in mind, the Plastic Free UFSC project has the objective of contributing with a reduction in the consumption of plastics and disposable materials within the University and, thus, decrease our environmental impact. We hope to erradicate straws and replace plastic items for reusable items by increasing the awareness of people through the project’s social networks and partnerships with cafeterias that support the initiative and stimulate their clients to bring their own cups. All material produced in the project is under a Creative Commons ( Attribution-NonCommercial 4.0 International ) license, which means that it can be used by other people and/or institutions as long as it is not for commercial uses. So feel free to use our materials as long as you cite your sources. At the end of 2018, Plastic Free UFSC participated in the Students for a Zero Waste Conference in the USA, where we received the “ The Innovation Award for a Promising New Initiative ”. Project participants (provided by the project under an Attribution-NonCommercial 4.0 International license) What has the project achieved? 1. During the second semester of 2018, we carried out campaigns at the Organic Produce Fair, which happens every wednesday in the central square of UFSC, with the objective of raising awareness among people to bring a reusable cup/mug for their beverages. During the period of the fair, students that participated in the project talked with the salespeople and their clients about the need to reduce our consumption of disposable plastics. Moreover, reusable cups were lent for people to drink sugarcane juice. The activity in the fair was accompanied by posts on social media to stimulate people to adopt a reusable cup/mug. 2. We carried out an awareness campaign in one of the University Restaurants (known as RUs) at UFSC, which still supplied disposable cups to their consumers. This action resulted in the elimination of the disposable cups (it is important to note that, in UFSC, every student/employee receives a reusable plastic mug when they register for their identification card). 3. The project implemented a “cup bank” at one of the cafeterias in UFSC, where people could use these cups to drink coffee, tea, juices etc. on the days they forget to bring their own. 4. We created the Aware Cafeteria Seal, which is divided into three levels. To gain the seals, the cafeterias should take on sustainable commitments, such as hide (or eliminate) disposable straws, offer reusable plates/cutlery/cups/mugs, and stimulate that clients bring their own cups to consume beverages. At the moment, two cafeterias are adapting to receive the first level of the seal. Seals for the cafeterias. From left to right: Level 1 (Seed); Level 2 (Bud); Level 3 (Tree) (provided by the project under an Attribution-NonCommercial 4.0 International license) 5. “Plastic Free UFSC Guide”: in this publication we describe how we created the project to stimulate the creation of similar ones in other universities. If you’d like to receive a copy of the guide, all you need to do is write to us at ufscsemplastico@gmail.com. 6. “Aware Student Council Manual”: this material produced by the project lists the partnerships established with the student councils, helping them to become vehicles for environmental awareness. This action has the objective of increasing awareness and generating gradual transformation within the student councils and among the undergraduates, making them responsible for their consumption and actions within the university, awakening an environmental consciousness. The student councils that participate have agreed to reduce (or eliminate) the use of disposable materials in their events, to keep a “cup bank” in their spaces, and to share the objectives of Plastic Free UFSC. If you’d like to receive a copy of the manual, all you need to do is write to us at ufscsemplastico@gmail.com. If you’d like to know more about Plastic Free UFSC, follow us on Instagram and Facebook! About Lisiane de Liz Motivated by my curiosity about the ocean, its influence in maintaining Earth’s systems and all its complexity, I chose to study Oceanography at UFSC. Though I did not live in a coastal city nor did I spend every summer in contact with the sea, when these moments happened I would always observe and listen to the sound of the oceano, trying to understand it and thinking of ways to help in its conservation. My end of term paper, as well as my Master’s degree dissertation, are in the field of Organic Geochemistry. My concerns about marine pollution due to our habits and inadequate disposal of products, mainly disposable materials, triggered my interest in increasing the awareness of people around me about the need for change. During the first year of my Master’s studies, I found people like me who were also bothered by this problem, affecting both the environment and our own university. That was when we created the Plastic Free UFSC project. #MarineScience #Plastic #EnvironmentalAwareness #UniversityOutreach #Guests

  • Fui atacada na praia: cadê nosso oceano seguro?

    Por Anônima Manhã de feriado, fui passear com o cachorro na praia. Desço minha rua, passo pelo condomínio de alto padrão que fica na beira da praia, reparo nas pessoas trabalhando em obras na rua. Atravesso o curto caminho que corta as dunas e chego na faixa de areia. Na rotina corrida do dia a dia, tenho tido cada vez menos momentos junto ao mar, então decido que o passeio não vai ser um rápido vou-lá-e-volto-correndo. Paro para tirar fotos das dunas, pois alguns dias antes um evento de ressaca deixou sinais erosivos muito interessantes, além de trazer muito lixo – penso que essas podem ser boas fotos para ilustrar uma futura aula ou palestra (estou passeando, mas não deixo de ser cientista!). Me viro de costas para as dunas para fazer uma sombra no meu celular e conseguir ver se a última foto ficou boa. Ao colocar o celular no bolso vou me virando e vejo que, a poucos passos, havia um homem chegando. Antes que eu pudesse processar muito o que estava acontecendo, ele me diz “Vem comigo ou eu te mato” e me mostra uma faca. Eu, sozinha na praia, porém não longe da “civilização”, tomei uma decisão calculada de como agir. Escapei com apenas um rasgo na blusa, mas também com muita raiva e indignação. Na guarita do condomínio, o porteiro é no máximo cordial comigo. Não pareceu estranhar demais a cena. A polícia chega e eu explico o que houve. Semanas depois, recebo da minha psicóloga um link para uma reportagem que fala que um homem foi preso a alguns quilômetros daqui. Pelas fotos, reconheço o blusão dele e o mesmo tipo de faca de serrinha que ele usou para me ameaçar. Fiquei esperando que sentiria um alívio e essa história ficaria para trás, mas não é bem assim. As cenas se repetem na minha cabeça junto das perguntas “Será que não é mais seguro ir à praia perto da minha casa? Preciso estar escoltada (por um homem) para poder ter um momento de lazer? O que dá para fazer para tornar a praia mais segura?”. Foi pensando na palavra “segura” que lembrei da Década do Oceano e sua meta de um “Oceano Seguro” e pensei que ali eu poderia pegar minha frustração e gerar transformação. Como posso ajudar?! Quero, sim, um oceano seguro! Procurei documentos que falassem desse resultado esperado, mas só encontrei informações sobre perigos naturais do ambiente marinho. Tsunamis, tempestades, afogamentos... todas questões obviamente importantes, mas que não me fizeram sentir que estou segura indo à praia. Pensei em outros instrumentos, iniciativas, projetos etc. que pudessem trazer essa temática. Não encontrei. Talvez eu não tenha encontrado nada porque quem preparou esses materiais nunca foi uma mulher que só queria caminhar tranquilamente pela praia. Talvez essa pauta tenha sido empurrada de um lado para o outro: é questão de segurança pública, então, as agendas ambientais não se metem? Refletindo sobre isso, lembrei também de conversas que já tive sobre segurança em trabalhos de campo nas ciências do mar. Segurança física por condições extenuantes, climáticas, acidentes ou outros, mas também segurança pela preservação do bem-estar daquele profissional que está em campo. Casos de profissionais sendo assaltados em campo. Lembrei da pesquisa sobre assédio em embarques, feita aqui pelo Bate-Papo com Netuno. Mulheres que chegam a desistir de suas carreiras por encontrarem um ambiente inóspito de trabalho para elas. Pensei em uma oficina recente que participei com povos indígenas e comunidades tradicionais, onde ouvi histórias de insegurança, medo, repressão e criminalização. Onde está o fórum para se discutir isso? O nosso Oceano Seguro não deveria incluir o bem-estar de quem usufrui deste espaço, já que esse é um dos inúmeros serviços ecossistêmicos prestados pelo oceano ? De quem vive e tira seu sustento do mar? Esse texto é um desabafo, mas também um pedido genuíno de indicações sobre para onde essas questões podem ser levadas, discutidas e transformadas em mudanças da nossa realidade. Acho que o alívio não vai chegar, mas é um alento saber que não estou sozinha nessa busca por um oceano seguro. #MulheresNaCiência #OceanoSeguro #DécadaDoOceano #ViolênciaContraMulheres #Praia

  • Motilidade do plâncton: quando o de cima sobe e o debaixo desce

    Por Yonara Garcia O plâncton é definido, tradicionalmente, como organismos que vivem "ao sabor das águas" , são organismos que vivem na coluna de água e que não possuem movimentos natatórios suficientes para vencer a força das correntes ou movimentos da água, sendo passivamente transportados no meio aquático que habitam (para saber mais sobre o plâncton clique aqui , aqui e aqui ). Apesar de não conseguirem se movimentar ativamente como tubarões e baleias, a capacidade de natação dos organismos planctônicos lhes permite desempenhar diversas funções importantes em seu habitat, como a probabilidade de acasalamento, a interação presa-predador, assim como aumenta as chances de os organismos encontrarem condições adequadas de alimento, temperatura, luminosidade, entre outros. Muitos fenômenos importantes estão ligados à motilidade do plâncton marinho. Um exemplo dessas movimentações é a migração vertical diária , definida como um movimento sincronizado de certos organismos presentes na coluna de água, para cima e para baixo, durante um ciclo de 24 horas, podendo ser considerado um dos maiores movimentos diários de biomassa do planeta! O padrão mais comum é a migração dos organismos para baixo, em direção a águas mais profundas e escuras, antes do amanhecer, e para cima, em direção à superfície, ao anoitecer. Este fenômeno ocorre em pelo menos algumas espécies de todos os principais grupos de zooplâncton (incluindo espécies de água doce), e foi registrado em dinoflagelados (fitoplâncton) e em muitas espécies nectônicas, como cefalópodes e peixes. Com este deslocamento vertical, os organismos podem alcançar de dezenas a centenas de metros em poucas horas, mesmo organismos tão pequenos quanto os copépodes. Migração vertical diária - Fonte: NASA Há várias hipóteses sobre o motivo desse movimento diário, como por exemplo, neste padrão de deslocamento mais comum, os organismos permanecem em águas mais escuras durante o dia para ficarem menos vulneráveis à predação e migram para a superfície durante a noite para se alimentarem. Para indivíduos do fitoplâncton, a migração permite que as células se desloquem para regiões mais profundas e frias ao anoitecer, onde os nutrientes limitantes são abundantes e há menor risco de predação e, durante o dia, permaneçam em águas superficiais com disponibilidade de luz. O fato é: a migração vertical diária possui diversas consequências biológicas e ecológicas importantes, como o aumento da variabilidade genética em determinadas populações, auxílio na dispersão larval de diversos organismos e o aumento na velocidade com que a matéria orgânica produzida na zona eufótica é transferida para o fundo do oceano (se a gente começar a ligar os pontos, vamos perceber que ela tem relação com o ciclo do carbono , atuando no “sequestro do carbono” e, consequentemente, nas mudanças climáticas…Bota importância nisso!). Assim, a motilidade é um elemento chave para responder diversas questões ecológicas que ocorrem nos ecossistemas aquáticos. Explorar mais esse campo, entender melhor sobre os padrões natatórios dos organismos, pode nos ajudar a entender melhor fenômenos como este que ocorrem no oceano. #YonaraGarcia #BiologiaMarinha #Oceanografia #MigraçãoVertical #Motilidade #Plâncton

  • Precisamos falar sobre gestão de projetos na Academia

    Por Natasha Travenisk Hoff Se você já se atrapalhou em uma prestação de contas de projetos científicos financiados, este texto é sobre você… Quando eu estava na graduação, havia uma disciplina chamada “Projetos em Oceanografia”, na qual formamos grupos e, atuando como uma empresa de consultoria, criamos um projeto baseado em alguma demanda regional. Neste projeto, trabalhamos todas as áreas da Oceanografia, da gestão de pessoal, logística, financeira etc . Ao final do semestre, os docentes responsáveis escolhiam um dos projetos que seria aplicado no semestre seguinte. Naquele ano (2011), a chefe da Estação Ecológica Tupinambás (hoje gerida pelo Núcleo de Gestão Integrada ICMBio Alcatrazes), Kelen Luciana Leite, proferiu uma palestra no Instituto Oceanográfico da USP (IOUSP) sobre a região do Arquipélago dos Alcatrazes (São Sebastião - SP) e o quanto os gestores necessitavam de dados oceanográficos para subsidiar a elaboração do Plano de Manejo da unidade de conservação. Pronto! Ali, tivemos a ideia do nosso projeto. Sabíamos que não seria algo fácil, viabilizar um projeto na região de Alcatrazes, a 35 km de distância da costa, para uma turma de quase 30 alunos de graduação. Depois de muitas reuniões, e-mails trocados, idas e vindas, tudo ficou pronto. Mas só um projeto seria aprovado, certo? E não foi o nosso… Apesar de não termos sido selecionados, fomos convidados a realizar o levantamento de dados abióticos em Alcatrazes durante as expedições organizadas pelo ICMBio. Ou seja, além da vivência obtida durante a disciplina, pude, então, atuar pela primeira vez como oceanógrafa: participei de reuniões; ajudei na definição dos pontos amostrais em conjunto com outros docentes; fiz solicitações para uso de equipamentos, transporte e base de pesquisa; organizei o material que seria utilizado em campo; entre outras tantas demandas. Se tudo foi um mar de rosas? Nem de longe… teve estresse, choro, tomada de decisão importante (como não ir para um trabalho de campo de disciplina obrigatória e arcar com as consequências disso!), mas também houve muito incentivo, apoio e muito, muito, muito aprendizado. Os trabalhos de campo no arquipélago foram um sucesso e conseguimos contornar as falhas que surgiram. Já falei que eu era a única mulher no nosso grupo? Pois é… acabei assumindo naturalmente um papel de liderança entre nós. Foi uma das experiências mais importantes da minha vida profissional e pessoal, que me possibilitou ajudar muita gente que veio depois de mim a entender todos os processos burocráticos da logística na universidade pública, coisa que a maior parte dos nossos colegas passam longe de entender. Este levantamento de dados primários resultou em um relatório técnico para o ICMBio, meu trabalho de conclusão de curso, minha dissertação de mestrado, publicação no Bate-papo com Netuno , e, por enquanto, dois artigos científicos. Bom, e por quê contei tudo isso? A verdade é que nós, acadêmicos, não somos preparados para lidar com a gestão de projetos na graduação e nem na pós-graduação (por enquanto!), o que causa muitos desgastes e transtornos que poderiam ser evitados, além de que poderíamos estar exercendo estas atividades de forma mais eficiente! E só percebemos a necessidade de conhecimentos sobre gestão quando já estamos passando "perrengue" com algum projeto. E essa é a mesma sensação que muitas das nossas editoras aqui do Bate-papo com Netuno compartilham: que deveria haver alguém nos projetos que fosse responsável pela gestão, o que é possível mas onera ainda mais um projeto em oceanografia (que sabemos que já não é barato), isso quando há espaço nos editais para a contratação de um especialista; ou buscamos, nós mesmas, o conhecimento para lidar da melhor forma com a gestão de nossos projetos. Assim, segue a dica: se você está na graduação, participe das empresas juniores e não tenha medo de assumir cargos executivos ou a elaboração de novos projetos, busque disciplinas básicas sobre o assunto e faça, seja como aluno regular ou ouvinte; ou, ainda, procure uma pós-graduação na área (quem sabe você não se torna aquela pessoa que recebe "apenas" para gerir o projeto?). Sabe o ditado "quem não aprende pelo amor, aprende pela dor"? Então… aprenda pelo amor (se for algo que você tem vontade de aprender, pois, com certeza, será útil)! #GestãoDeProjetos #ProjetosEmOceanografia #GestãoeAcademia #VidaDeCientista #NatashaHoff

  • O comportamento natatório dos copépodes e suas respostas ecológicas

    Por Yonara Garcia Os copépodes são os animais mais abundantes em ambientes pelágicos, compreendem de 55 a 95% de todo o plâncton e apresentam os maiores valores de biomassa do mesozooplâncton (classe de tamanho dos organismos planctônicos cujo tamanho varia de 0,2-20 mm). Em ecossistemas marinhos, estes organismos constituem um grupo ecologicamente importante e são tradicionalmente considerados como o elo trófico entre os produtores primários e os consumidores secundários de níveis tróficos superiores. Além disso, participam de processos oceanográficos como bomba biológica , teia trófica microbiana , reciclagem de nutrientes e ciclos biogeoquímicos de maneira geral. Em comunidades zooplanctônicas, são comuns associações de epibiose (associação facultativa entre dois organismos: um organismo substrato - hospedeiro - e um organismo durante a fase séssil de seu ciclo de vida - epibionte -, que se fixa na superfície do hospedeiro) e parasitismo (onde um dos associados se beneficia à custa do outro). São formas de interações interespecíficas em que o hospedeiro é infestado ou infectado pelo simbionte (epibionte ou parasito), que podem apresentar consequências benéficas ou deletérias para um deles. Dentre estas relações simbióticas observadas em copépodes, destacam-se associações a bactérias como o Vibrio cholerae , protistas e outros crustáceos, como isópodes. Diversos estudos têm revelado que estas relações simbióticas podem apresentar um impacto negativo nos organismos planctônicos. Por exemplo, copépodes infestados por epibiontes podem apresentar uma redução na velocidade de natação, podendo aumentar, por sua vez, a susceptibilidade à predação, devido aos movimentos de natação e escapatória ficarem limitados. Outros estudos mostraram que copépodes parasitados pelo dinoflagelado Ellobiopsis sp. apresentaram uma potencial redução na fecundidade devido a redução do tamanho da vesícula seminal e do desenvolvimento do espermatóforo em machos parasitados. Copépodes parasitados pelo dinoflagelado Ellobiopsis sp. Foto: Yonara Garcia Uma forma para entender como estas associações podem estar afetando copépodes é por meio de estudos relacionados ao comportamento natatório desses organismos. Existem linhas de pesquisas que tem como objetivo descrever os padrões natatórios dos organismos e a partir desses padrões, responder perguntas relacionadas à ecologia comportamental deles, revelando aspectos como: os efeitos das relações simbióticas para os hospedeiros, percepção e aquisição de alimento, acasalamento, interações entre presa e predador, entre outros. Estes estudos envolvem técnicas de filmagem que são desenvolvidas com o uso de equipamentos ópticos conectados a programas de computadores, a fim de obter uma sequência de imagens e, assim, quantificar e qualificar o deslocamento do organismo. Assim, você pode comparar, por exemplo, organismos em simbiose com outros que não apresentam estas associações e entender o quanto elas podem estar sendo deletérias (ou não) para os hospedeiros. Diversas espécies de copépodes já tiveram seus padrões natatórios descritos na literatura e essa pode ser uma ferramenta para obtermos muitas respostas para questões ecológicas, não só a nível individual e populacional, mas também sobre como as alterações no meio podem afetar esses organismos ou ainda entender se ocorre um “efeito dominó”, já que eles fazem parte de vários processos oceanográficos como citei acima. Como você pode perceber, esses estudos abrem margem para mais perguntas, mais pesquisas. Enfim, nós estamos sempre em busca de respostas, mas o que mais fazemos é abrir cada vez mais o leque de perguntas e isso é o que torna a ciência fascinante! Quer saber mais como estes estudos podem ser feitos? Abaixo seguem algumas indicações de leitura sobre estudos relacionados ao comportamento natatório e associações simbióticas em copépodes: Bielecka, L., & Boehnke, R. (2014). Epibionts and parasites on crustaceans (Copepoda, Cladocera, Cirripedia larvae) inhabiting the Gulf of Gdańsk (Baltic Sea) in very large numbers. Oceanologia, 56(3), 629-638. Fields, D. M., & Yen, J. (1997). The escape behavior of marine copepods in response to a quantifiable fluid mechanical disturbance. Journal of Plankton Research , 19 (9), 1289-1304. Strickler, J. R. (1998). Observing free-swimming copepods mating. Philosophical Transactions of the Royal Society of London. Series B: Biological Sciences , 353 (1369), 671-680. Van Duren, L. A., & Videler, J. J. (1995). Swimming behaviour of developmental stages of the calanoid copepod Temora longicornis at different food concentrations. Marine Ecology Progress Series , 126 , 153-161. Visse, M. (2007). Detrimental effect of peritrich ciliates (Epistylis sp.) as epibionts on the survival of the copepod Acartia bifilosa. Proc Estonian Acad Sci Biol Ecol, 56(3), 173-178. #YonaraGarcia #BiologiaMarinha #Oceanografia #Plâncton #Copépodes #ComportamentoNatatório #RelaçõesSimbióticas #CiênciasDoMar

  • A importância dos metadados ou a história de como Colombo errou o caminho para as Índias

    Por Ju Leonel Metadados? O que são? Do que se alimentam? Onde habitam? Começando pelo começo... "Metadados são os dados dos dados. " "Metadados são o manual de instrução dos dados." Ok, mas o quê isso quer dizer exatamente?? Os metadados são informações que respondem às seguintes perguntas em relação a um grupo de dados: a) quem?; b) o quê?; c) quando?; d) onde?; e) por quê?; e f) como? Essas informações são guardadas, em geral, em um arquivo XML e acompanham um conjunto de dados. Qualquer editor de texto deve ser capaz de ler esse arquivo, mas o mais importante é que ele seja bem estruturado para ser lido por "máquinas". Vamos ver como isso funciona por meio de um exemplo: uma tabela de dados de salinidade, temperatura e pressão coletadas durante um cruzeiro oceanográfico usando um CTD . A princípio, pensamos que uma simples tabela com data e local de coleta, valores de salinidade, temperatura e pressão tem toda informação necessária para que esses dados possam ser usados por qualquer pessoa em qualquer local. Agora vamos nos colocar no lugar de uma pesquisadora que recebeu essa tabela e refletir sobre as perguntas que ela pode fazer: - é salinidade prática, de referência ou absoluta? - a temperatura é em Celsius ou Kelvin? - os dados de localização estão em grau/minuto/segundo ou grau/décimo de grau? Ou está em UTM e qual o datum usado? - a data está em dia/mês/ano ou mês/dia/ano? - qual a marca/modelo do CTD que coletou esses dados? Quando foi calibrado? Qual a frequência de aquisição dos dados? - os dados passaram por algum controle de qualidade e/ou pré-processamento? Qual? - qual a licença para uso e distribuição dos dados? - nome/contato da pessoa/instituição responsável pelos dados? Além dessas, MUITAS outras dúvidas podem surgir. E é aí que entra o arquivo de metadados: responder a todas essas perguntas. Um bom arquivo de metadados deve ser detalhado, confiável e bem documentado . Além disso, cada padrão de metadados segue um esquema e marcação específicos. Por exemplo, para dados de data e localização, recomenda-se o uso do padrão ISO 19115; para dados oceanográficos e climáticos recomenda-se o CF Medata Convention . Mas tudo isso parece muito trabalhoso, não? Por isso, os metadados devem ser definidos durante o planejamento do projeto e seu uso evitará muitas dores de cabeça durante e após a execução do projeto, além de colaborar para a preservação, compartilhamento e reuso dos dados. Consequentemente, irá contribuir para uma das metas da Década do Oceano : um oceano acessível e transparente. Um exemplo de mau uso de dados devido a ausência de metadados ocorreu quando Cristoforo Colombo decidiu cruzar o Atlântico em busca de uma nova rota para a Ásia: ele usou os dados do geógrafo persa Alfraganus e assumiu que a unidade de distância estava em milhas romanas (1.479 metros), quando na verdade estavam em milhas arábicas (1.800 - 2.000 m). #Metadados #JulianaLeonel #Oceanografia #Descomplicando

  • The ant and the sea

    By Juliana Leonel English edit b y Lidia Paes Leme and Carla Elliff *post originally published in Portuguese on May 16, 201 9 Illustration by Joana Ho No, we are not talking about a sea ant, nor are we talking about anthills at the bottom of the oceans. But yes, the ant and the sea are related. Come and find out how. The ocean is intimately connected with the actions occurring on land, and in one way or another, almost everything reaches the ocean. Products/substances we use at home, in agriculture, and in industry, will one day reach the ocean, may it be through runoff, dumping, litter, or other waste removal processes. Brazil plays an important role in supplying pulp and paper mills in several countries around the world (mainly China and countries in Europe). For this reason, our territory has extensive eucalyptus plantations which, due to its rapid growth and low planting costs, is an excellent source of raw material for these industries. However, eucalyptus plantations are a "full and tasty dish" for leaf-cutting ants that can cause total defoliation of the plants and lead them to death. Currently, to control these insects, granulated ant baits are used, Sulfluramid being the most widely used. Eucalyptus plantations in the extreme south of Bahia, Brazil (Photos by Juliana Leonel, CC BY SA) Several researchers have observed that sulfluramid, after being released into the environment, changes into other chemical compounds after a few weeks. One of them, perfluorooctanesulfonic acid (PFOS), is highly persistent in the environment and has toxic effects on the biota, including us humans. Although PFOS is classified as a Persistent Organic Pollutant (POP) by the Stockholm Convention (learn more here ), of which Brazil is a signatory, every five years the country requests authorization to continue using sulfluramid. Some studies, conducted in 2012 and 2014, showed high values of PFOS in Brazilian seawater (see references listed below), which were not consistent with the industrial use of PFOS in the country. With this the question arose: would Sulfluramid be a significant source of PFOS for the coastal region of Brazil? To answer this question, researchers from the Marine Pollution and Geochemistry Laboratory (LAPOGEO Mar) at the Federal University of Santa Catarina (UFSC) work in collaboration with other national and international institutions analyzing environmental samples and laboratory experiments. Thus, for the first time, a study (see references listed below) gathered data on the use, production, commercialization, export and import of the active ingredient of sulfluramid (EtFOSA - N-ethyl perfluorooctane sulfonamide ), showing that the import of EtFOSA by Brazil increased from 30 tons in 2007 to 60 tons in 2014. The same study also evaluated the occurrence of PFOS and other perfluoroalkyl substances (PFASs) in surface waters of the Todos os Santos Bay (Bahia), where a profile of PFASs was found to correspond to the use of sulfluramid. But the question was not yet answered, because the studies suggesting the degradation of sulfluramid to PFOS only analyzed soil and/or water and none of them studied the degradation from formicide baits, which are possible sources of this substance. From this, an experiment was designed to study this degradation in soil, with and without the presence of carrots (a vegetable chosen because it is easy to grow in the laboratory, it grows fast, and it is used in human food) (see references listed below). The study concluded that in a period of less than two weeks sulfluramid was degraded to PFOS in a greater amount than previously estimated. In addition, PFOS was absorbed from the soil by the carrot, and was distributed among its peel, its interior, and its leaves. In other words, foods grown near regions where sulfluramid is used may be exposed to PFOS. Sampling materials for the study (Photo by Juliana Leonel, CC BY SA) At the same time, data generated from the analysis of samples (river, marine and groundwater, soil, leaf and sediment) from the Caravelas and Alcobaça region (extreme southern portion of Bahia, Brazil) helped to understand how the transport of sulfluramid and its degradation products can occur from the region where the substance if applied to the coast. This region was chosen because of the presence of extensive eucalyptus plantations. For example, 30.6% of the total area of the municipality of Caravelas is occupied by eucalyptus. This study allowed us to confirm the hypothesis that the use of sulfluramid in the eucalyptus plantations in Bahia is a significant source of PFOS for the coastal region. It is important to keep in mind that it is precisely in this region where the largest concentration of coral reefs in the South Atlantic Ocean is found, the Abrolhos reefs. In addition, the presence of PFOS (and other PFAs) in artesian well water was of particular concern, due to the potential for human exposure by consuming the water. Alcobaça River (extreme southern region of Bahia, Brazil) (Photos by Juliana Leonel, CC BY SA) Unfortunately, although there are studies in search of alternatives, sulfluramid is considered the most efficient method to control leaf-cutting ants in Brazil and there is no prospect of its use being banned. Studies like this one exemplify why the indiscriminate release of pesticides ( there were more than 100 released in 2019 alone in Brazil ) is so worrying, because once they are introduced into the environment, these compounds do not only affect the place where they have been applied and can remain in the environment for a long time ( see the case of the occurrence of DDT in the Antarctic environment ). Furthermore, little is known about the degradation products of most pesticides used in Brazil. Additional reading and references: Benskin, J.P., Muir, D.C.G., Scott, B.F., Spencer, C., De Silva, A., Kylin, H., Martin,J.W., Morris, A., Lohmann, R., Tomy, G., Rosenberg, B., Taniyasu, S., Yamashita, N., 2012a. Perfluoroalkyl acids in the atlantic and canadian arctic oceans. Environ. Sci. Technol. 46, 5815–5823. González-Gaya, B., Dachs, J., Roscales, J.L., Caballero, G., Jimenez, B., 2014. Perfluoroalkylated substances in the global tropical and subtropical surface oceans. Environ. Sci. Technol. 48, 76–84. Gilljam, J.L., Leonel, J., Cousins, I.T., Benskin, J.P., 2016a. Is ongoing Sulfluramid use in South America a significant source of perfluorooctane sulfonate (PFOS)? Production inventories, environmental fate, and local occurrence. Environ. Sci. Technol. 50, 653–659. Gilljam, J.L., Leonel, J., Cousins, I.T., Benskin, J.P., 2016b. Additions and correction to is ongoing Sulfluramid use in South America a significant source of perfluorooctanesulfonate (PFOS)? Production inventories, environmental fate, and local occurrence. Environ. Sci. Technol. 50, 7930–7933. Zabaleta, I., Bizkarguenaga, E., Nunoo, D.B.O., Schultes, L., Leonel, J., Prieto, A., Zuloaga, O., Benskin, J.P., 2018. Biodegradation and uptake of the pesticide sulfluramid in a soil/carrot mesocosm. Environ. Sci. Technol. 52, 2603–2611. Nascimento, R. A., Nonoo, D. B. O., Bizkarguenaga, E., Schults, L., Zabaletab, I., Benskin, J. P., Spanó, S., Leonel, J. (2018). Sulfluramid use in Brazilian agriculture: A source of per- and polyfluoroalkyl substances (PFASs) to the environment. Envirom. Pol. 242, 1436-1443 #MarineScience #MarinePollution #POPs #Pesticides #ChatJulianaLeonel #JoanaHo

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