As angústias e as delícias de se descobrir mãe

Por Ju Leonel


Ilustração: Caia Colla.


(Texto escrito quando estava com 30 semanas de gestação)


​Nunca tive o sonho de ser mãe. Na verdade, questionei inúmeras vezes se a maternidade era para mim… mas no início de setembro de 2019 soube que estava grávida.


Às vésperas de uma viagem para apresentar um trabalho em um ​congresso na Colômbia, precisava tomar a vacina contra a febre amarela e como a minha menstruação estava atrasada, fiz o teste de farmácia só para me certificar, já que gestantes não podem tomar a vacina. Foi um momento nada glamouroso: dentro do banheiro minúsculo da UFSC, 15 minutos antes de ir dar aula, porque precisa tomar a vacina ainda naquele dia e só ia ter tempo para isso no intervalo do almoço. Não precisou nem de 1 minuto para aparecerem aqueles dois tracinhos que para sempre mudariam minha vida.


Não vou romantizar dizendo que saí feliz e saltitante daquele cubículo pensando em quão completa eu seria como mulher por estar gerando uma vida. Saí de lá, com a cabeça dando mil voltas, pensando na viagem que teria que cancelar (e em quantas outras deixaria de fazer), na aula que teria que ministrar em 15 minutos, se eu saberia que tipo de roupa vestir em um bebê sem sufocá-lo ou deixá-lo com frio, como iria orientar meus alunos durante a licença-maternidade, se seria capaz de parir uma criança, que teria que comer mais saudável, em como estava sendo irresponsável em colocar um ser no mundo em um momento tão caótico, e em muitas outras coisas, das mais variadas naturezas... Vocês não fazem ideia (talvez outras mães me entendam).


Passada essa fase de descoberta e questionamentos iniciais, venho aqui compartilhar alguns anseios, medos e coisas boas que vieram depois daquele dia no banheiro da UFSC.


Quando soube que teria um filho outros questionamentos vieram: como iria conscientizá-lo sobre os privilégios que teria pelo simples fato de nascer homem - e branco - nessa sociedade patriarcal. Como educá-lo para ser feminista, uma vez que ele não vivenciará na pele as dificuldades e desvantagens impostas às mulheres apenas pelo seu gênero ? Aliado a isso, o fato de sua pele ser branca; como criá-lo antirracista? Hoje, em função de ter ao meu lado um companheiro que é um pai presente, que me apoia pessoal e profissionalmente, que divide as tarefas de casa (e da vida) e, sabendo que tentarei o meu melhor dividindo minhas experiências e meus aprendizados com ele, estou mais resolvida com isso, mas a preocupação não saiu totalmente dos meus pensamentos.


A gravidez serviu como uma oportunidade para avaliar meus privilégios e reconhecê-los: desde a possibilidade de ter um bom pré-natal, de estar rodeadas por pessoas queridas, ter acesso a leituras sobre gestação, parto, educação com apego etc.


Sou funcionária pública, professora, tenho direito a licença-maternidade e mesmo assim senti receio de contar ao meu chefe imediato sobre a gravidez; receio da reação dele e dos demais colegas,por saber de casos em que as mulheres foram prejudicadas em suas carreiras. Tudo transcorreu bem, mas toda essa situação me fez refletir sobre como esse processo deve ser dificílimo para as mulheres que não têm, como eu, estabilidade garantida e direitos respeitados nos seus empregos, como eu tenho.


Durante o primeiro trimestre de​ ​gravidez tive muitos enjoos, por isso foi difícil cumprir minhas obrigações no trabalho. Logo me dei conta de que não seria possível virar noites para atender prazos e compromissos, tive que rever minhas prioridades e aprender a dizer alguns nãos. Pode ser algo simples para alguns, mas para mim essa consciência de que não precisava "abraçar o mundo" foi um passo importante. Também entendi a importância de ter um companheiro e pai presente para dividir comigo as preocupações, me acalmar e que até já está fazendo planos para proporcionar as condições para que eu possa atender meus alunos e manter algumas atividades durante a licença maternidade, que lê ​​todos os livros/textos sobre gestação, parto e pós-parto para entender o que estou passando (física e psicologicamente) e assim me auxiliar da melhor forma possível.


Agora, para o meu filho Ian:


- sou apaixonada pelo meu trabalho porque acredito no ensino e na ciência. Mas, isso não significa que não terei tempo para você; pelo contrário, quero compartilhar tudo isso contigo.


- espero que consiga te mostrar que lutamos sempre em busca de um mundo melhor não só para você, mas para todos, em especial os que não tem tantos privilégios.


- você me tornou uma pessoa melhor desde o dia em que vi aquelas duas listrinhas no teste de gravidez.


- tudo que faço hoje é um pouco por e para você. Desde quando preparo uma aula, escrevo​ um texto para o blog, aceito uma orientação​,​ até quando preparo um almoço, cuido da horta, escolho um livro para ler... Em tudo tem um pensamento para você.


- as vezes vai parecer que farei escolhas egoístas. Por exemplo: em alguns momentos vou precisar de um tempo só para mim para ​manter a sanidade. E isso, indiscutivelmente, será para ser uma pessoa melhor para você.


- sempre estarei ao seu lado!


Colocarei uma vida nesse mundo doido, então, mais do que nunca, sinto a necessidade de não me calar, de lutar e trabalhar por um mundo mais justo, com espaço para todos. Espero dar conta do recado.


Nota da autora: a gestação/maternidade está sendo uma fase muito boa para mim. Mas, mais do que nunca, entendo que é importante não romantizar e respeito a opinião de quem não escolhe a maternidade, e que pode ser difícil até mesmo para aquelas que sonharam com esse momento.



#maternidade #maternidadecomciência #antirracismo #feminismo #julianaleonel #mulheresnaciência



Sugestões de leitura para as mamães:


Para educar crianças feministas (por Chimamanda Ngozi Adichie e Denise Bottmann)


Pequeno manual antirracista (Djamila Ribeiro)


Sejamos todos feministas (por Chimamanda Ngozi Adichie)


Mulheres. Raça e classe (Angela Davis)


A liberdade é uma luta constante (Angela Davis)


Coleção Feminismos Plurais (Djamila Ribeiro)

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