Baleias ou golfinhos?

Por Carla Elliff



Certa vez acompanhei minha mãe em um evento de trabalho. Na hora do jantar, depois de um dia cheio de reuniões, estavam todos ainda com a cabeça nos negócios. Para evitar continuar falando de trabalho e tentar diversificar o tema, minha mãe se levanta da mesa e diz:


- Pessoal, vou pegar uma bebida. Enquanto isso, a Carla vai explicar para todos vocês que a “Baleia Assassina” é na verdade um golfinho!


Imediatamente, todos da mesa pararam suas conversas e se viraram para mim com cara de quem acabou de ver um truque de mágica! Eu, com o rosto vermelho pela atenção súbita, começo a explicação...


As baleias e os golfinhos são parentes próximos. Esses mamíferos marinhos são de uma ordem chamada Cetacea, que vem do grego ketos (uma divindade marinha monstruosa, que personifica os perigos do mar).


Os animais pertencentes a essa ordem, os cetáceos, se dividem em duas grandes sub-ordens: os odontocetos e os misticetos. E quando falamos de golfinhos ou baleias, normalmente são essas as categorias definidoras.


Já a palavra “boto” normalmente é usada para descrever odontocetos que habitam rios e estuários, mas isso não é regra. Dentre os representantes de águas doces e salobras temos os botos-cor-de-rosa, as toninhas, os botos-de-lahille...


Fotografia tirada do alto de uma sala de exposição em um museu. As duas paredes que aparecem na fotografia tem pinturas realistas de golfinhos e baleias. O chão é coberto por um carpete cinza com um tapete estampado e no formato de uma baleia jubarte, além de uma estátua de outra baleia à direita e exemplos de vértebras e ossos de baleia à esquerda. Três pessoas estão no meio da sala observando a exposição.

Exposição de golfinhos e baleias no Museum der Walforschungsorganisation Mingan Island Cetacean Study (MICS) (Foto de Marc-Lautenbacher com licença CC BY-SA 4.0)



Odontocetos são os cetáceos que possuem dentes. Estes são os golfinhos. A presença de dentes significa que esses mamíferos se alimentam de presas relativamente grandes, como peixes e até outros mamíferos.


Já os misticetos têm uma estrutura bucal chamada barbatana. Isso mesmo, barbatanas não têm nada a ver com nadadeiras! Na realidade, são grandes cerdas feitas de material queratinoso, semelhante às nossas unhas. Ao contrário de dentes, as barbatanas não servem para mastigar, mas sim para filtrar a água. Apesar de seu grandioso tamanho, baleias se alimentam principalmente de pequenos organismos - como o krill, um pequeno crustáceo - que são filtrados da água.

Fotografia de um krill sobre o dedo de uma pessoa. O krill é menor que a primeira falange do dedo e quase completamente transparente, exceto por algumas manchas laranjas e olhos escuros

Krill, um pequeno crustáceo e um dos alimentos favoritos das baleias (Foto de Sophie Webb/NOAA, sob domínio público).


As formas de alimentação dessas duas sub-ordens (odoncetos e misticetos) é bastante diversa! Além das diferenças mencionadas acima, em relação ao tamanho da presa, espécies de cada sub-ordem desenvolveram estratégias de caça peculiares.


Por exemplo, a tal “baleia assassina”, que já sabemos se tratar na realidade de um odontoceto, - também conhecido como orca - emprega diferentes formas de caça entre grupos familiares. Enquanto um grupo na Nova Zelândia aprendeu uma estratégia de caçar raias, tomando o cuidado de evitar ferrões com veneno, outro grupo da Argentina ficou conhecido por encalhar de propósito para alcançar leões marinhos.


Dentre os misticetos, destaca-se a estratégia das baleias jubarte, que consiste em mergulhar em sincronia e expulsar ar para criar uma cortina de bolhas; isso faz com que seu alimento - organismos planctônicos - concentre-se em um local e esteja pronto para ser abocanhado.

Fotografia de golfinho-nariz-de-garrafa em cativeiro. O golfinho está com a cabeça para fora da água, com a boca aberta para o alto. Se observa uma fileira de dentes pequenos e pontudos ao longo da mandíbula inferior do animal.

Dentes de um golfinho-nariz-de-garrafa, um odontoceto (Fonte: Pixabay).


Fotografia de uma baleia-jubarte no momento da alimentação. A baleia coloca a cabeça para fora da água do mar e, com a boca aberta, vemos a estrutura de barbatanas margeando sua mandíbula. A baleia está cercada de gaivotas que parecem se alimentar também.

Barbatanas de uma baleia-jubarte, um misticeto (Fonte: Pixabay).


Além dos dentes e barbatanas, existem outras características físicas que diferenciam essas duas sub-ordens.


Uma delas é o orifício respiratório (espiráculo), ou seja, aquele buraco no topo da cabeça dos cetáceos por onde eles respiram. Esse orifício é independente da boca dos cetáceos; assim eles não correm o risco de água chegar aos seus pulmões quando estão se alimentando debaixo d’água. Enquanto os odontocetos possuem apenas um orifício, os misticetos têm dois. O borrifo de água característico de golfinhos e baleias é na realidade a condensação do vapor na expiração dos cetáceos (parecido com quando a gente expira num dia frio e vemos uma “fumacinha”). Dependendo da espécie, esse borrifo pode ter diversas formas, o que auxilia na identificação desses animais em seu ambiente natural.


Outra maneira de diferenciar odontocetos e misticetos é olhando seu crânio. Odontocetos têm crânios assimétricos, enquanto o crânio dos misticetos é simétrico. Existem algumas hipóteses que explicam essa diferença. A principal hipótese especula que os crânios assimétricos dos golfinhos são um produto evolutivo vantajoso que persistiu nessa sub-ordem pois permitiu o desenvolvimento da ecolocalização. A ecolocalização é um recurso muito usado por odontocetos no momento da caça: ao emitir ondas sonoras que batem e refletem sobre um cardume de peixes, por exemplo, um golfinho é capaz de calcular a distância até sua presa.


Não devemos confundir ecolocalização com vocalização. Tanto golfinhos quanto baleias são capazes de produzir sons e cantos. No entanto, os misticetos não conseguem usar a ecolocalização, pois não possuem sacos aéreos especializados próximos aos espiráculos como os odontocetos; característica resultante de seus crânios assimétricos.

Fotografia de um crânio de cachalote em um depósito de amostras. O crânio parece antigo, com diversas manchas amarronzadas.

Crânio bastante assimétrico de uma cachalote, um odontoceto (Foto por Bill Stillwell, com licença CC BY 2.0).


Por fim, mas e os narvais?


Os narvais, por mais diferentões que sejam, também são odontocetos, da família Monodontidae (junto com as belugas). Conhecidos também como unicórnios do mar, o “chifre” do narval é na realidade um dente modificado. Não se sabe ao certo a “função” desse dente. Poderia ser uma ferramenta para sobrevivência, servindo para caçar ou revirar o fundo marinho em busca de comida, ou até para quebrar o gelo ártico onde habita. Porém, apenas uma minoria das fêmeas tem esse dente e, considerando que elas vivem mais que os machos, se o dente for uma ferramenta de sobrevivência, não seriam os machos mais longevos? Outra possibilidade é que o dente sirva de órgão sensorial, já que ele possui diversas terminações nervosas que ajudam o narval a identificar mudanças de temperatura e salinidade, por exemplo.

Fotografia de narvais rodeados por gelo Ártico. Na imagem se vê apenas duas cabeças para fora da água, mas há mais dois narvais submersos, apenas com seus dentes para fora da água

Narvais são odontocetos encontrados somente no Ártico, seu longo dente é frequentemente confundido com um chifre (Fonte: NOAA).

Se quiser saber mais sobre as características dos cetáceos, dê uma olhada nos links abaixo:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Ceto_(mitologia)

https://wildwhales.org/speciesid/

https://dosits.org/animals/sound-production/how-do-marine-mammals-produce-sounds/

https://www.livescience.com/narwhal-facts.html

https://wearesonar.org/2015/06/08/three-amazing-orca-hunting-strategies/



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