Plásticos biodegradáveis: cuidado! Você pode estar sendo enganado

Atualizado: 19 de Ago de 2020

Por Juliana Leonel

Ilustração: Joana Dias Ho


Plástico é um material orgânico sintético formado por um único tipo de polímero ou mistura destes (polímeros = macromoléculas formadas a partir da repetição de unidades estruturais menores). Dependendo da matriz polimérica usada, diferentes tipos de plásticos, com distintas características e propriedades, serão produzidos. Além do polímero formador do plástico, diversos aditivos podem ser inseridos na sua composição, tais como plastificantes, estabilizantes, corantes, retardantes de chama, entre outros. A principal matéria prima usada para a fabricação de plásticos é o petróleo. Entretanto, podem ser produzidos polímeros a partir de matrizes biológicas, como óleos e gorduras vegetais, amido de milho, feno etc. Esses polímeros recebem o nome de bioplásticos (do inglês bio based plastic). Além disso, alguns plásticos são produzidos pela mistura de polímeros oriundos dessas duas fontes (petróleo e biológica) [1].


Uma das características que fazem do plástico um material tão atrativo, a durabilidade, também faz com que sejam um problema ambiental e que seus detritos estejam presentes nos ecossistemas de todo o mundo, inclusive em fundos oceânicos a 6000 m de profundidade [2]. Uma vez no ambiente, fragmentos plásticos são responsáveis pela morte de diversas espécies, seja pelo sufocamento, por impedir a natação ou por causarem falsa sensação de saciedade quando ingeridos [3]. Um grupo específico, os microplásticos (plásticos com raio < 5 mm), além de causarem problema físicos à biota [4], podem servir como vetores para a distribuição de contaminantes (tais como praguicidas e elementos traços) que ficam aderidos na sua superfície e podem aumentar a taxa de sedimentação da matéria orgânica alterando a bomba biológica (responsável por remover CO2 atmosférico para o sedimento marinho) [5]. Além disso, a degradação dos plásticos, ainda que lenta, libera metano, um gás estufa com capacidade de aquecimento significativamente maior que o CO2 [6].


Com o objetivo de diminuir o tempo de permanência do plástico no ambiente e minimizar os problemas ambientais associados, novas tecnologias e matérias primas começaram a ser empregadas para produção dos polímeros. Você já pode ter ouvido falar neles, são os tais oxi-biodegradáveis, biodegradáveis, bioplásticos e compostáveis. Embora alguns textos apresentem alguns destes termos como sinônimos, eles podem ser bem diferentes!


O termo biodegradável, por exemplo, pode ser bastante controverso. Todo material orgânico, inclusive o plástico, eventualmente irá biodegradar, seja depois de alguns dias ou de milhares de anos. Isso pode levar a ideia de que o termo biodegradável pode ser usado para qualquer tipo de plástico, indiferentemente do seu tempo de permanência no ambiente. Para evitar isso, existem alguns protocolos internacionais que definem de forma mais específica o termo. Um exemplo é a definição dada pela Sociedade Americana para Testes e Materiais (ASTM, American Society for Testing and Materials):


Plástico Biodegradável é aquele em que "todo o carbono orgânico deverá ser convertido para biomassa, água, dióxido de carbono, e/ou metano via a ação natural de microrganismos de ocorrência natural, como bactérias e fungos, em um período de tempo consistente com as condições ambientais do método de disposição" (ASTM D883-18 [7]).


Uma outra definição, dada pela Federal Trade Commission [8], considera biodegradável o produto que "se fragmentar completamente e retornar a natureza, isto é, que se decompor em elementos achados na natureza com um período de tempo razoavelmente curto (um ano) após a sua disposição"


Em busca de aumentar a degradabilidade dos plásticos, a partir dos anos 2000, os oxi-biodegradáveis (do inglês oxo-degradable) ficaram muito conhecidos com a proposta de aumentar a velocidade de degradação do material. Para isso, introduziram aditivos aos plásticos convencionais para acelerar o processo de oxidação. Dessa forma, quando expostos a luz UV, oxigênio e calor, o material rapidamente se fragmentava em pedaços menores, os microplásticos, e o problema aparentemente "desapareceria". No entanto, hoje sabe-se que os microplásticos também são um grande problema ambiental, conforme descrito anteriormente. Por isso, o uso de plásticos oxi-biodegradáveis não é mais aceito como uma alternativa ecologicamente correta [9]. Ademais, existe um questionamento sobre quais seriam as consequências ambientais dos aditivos inseridos no polímero para acelerar a fragmentação.


No Brasil, existe a norma ABNT PE-308.01 que trata dos critérios dos plásticos oxi-biodegradáveis; vale ressaltar que a norma é de 2004 e muito do nosso conhecimento sobre o assunto já evoluiu desde lá. Além disso, algumas empresas citam os métodos descritos pela ASTM D6954-4 [10] para atestar que seus produtos oxi-biodegradáveis passaram nos testes de oxidação e biodegradação. No entanto, a ASTM D6954-4, tambem de 2004, já foi inclusive suspensa e substituída por outra mais nova (ASTM D6954-18) que incorpora os conhecimentos mais recentes sobre o assunto. Por fim, o próprio Ministério do Meio Ambiente não endossa o uso de plásticos oxi-biodegradáveis em função dos riscos que representam ao ambiente [11].


Preste atenção na embalagem de algumas marcas de canudos e/ou sacolas plásticas e você poderá identificar algumas dessas características:

  • Contém aditivo oxi-biodegradável que atende a norma AST D6954-4, ou seja, aquela de 2004 que já foi suspensa;

  • 36 meses (=2,5 anos) para ser biodegradado totalmente, sendo que até mesmo a AST D6954-4 já exigia biodegradação em no máximo 2 anos.



Nos últimos anos, a produção de bioplásticos cresceu bastante e cada vez mais a indústria tem explorado essa matriz vegetal como uma solução para o problema ambiental do plástico. Mas o que é o bioplástico? Conforme explicado anteriormente, é o plástico que tem o seu polímero sintetizado a partir de uma matriz biológica, como cana-de-açúcar, mandioca, etc.


É muito importante ficar atento para o fato que bioplástico não é necessariamente sinônimo para plástico biodegradável.


Duas vantagens do bioplástico: a) não ser oriundo de uma matriz ligada a diversos problemas sócio-político-econômicos e ambientais (o petróleo, lembram?) e b) a sua produção pode liberar menos carbono que a quantidade que foi assimilada pelas plantas usadas para manufaturar o polímero, um passo importante em favor da diminuição da geração de gases estufas. No entanto, não podemos deixar de levantar pelo menos duas questões: 1. O bioplástico pode ser classificado como biodegradável? 2. Qual o impacto do aumento do uso de matrizes vegetais em questões como desmatamento, segurança alimentar e uso do solo?


Para discutir esses tópicos, vamos falar do caso do bioplástico I'm green, produzido pela Braskem a partir da cana-de-açúcar. Recentemente, a Carbon Trust (companhia que ajuda governos, organizações e empresas a reduzirem suas emissões de carbono) reconheceu que o mecanismo de produção do I'm green consome mais carbono do que libera [12], o que é uma coisa boa! No entanto, o I'm green é um polietileno como qualquer outro e tem as mesmas características daquele produzido usando petróleo. Ou seja, se ele não for corretamente destinado depois do uso para uma planta de reciclagem, ele irá parar no ambiente onde permanecerá por centenas de anos. Embora existam bioplásticos que são biodegradáveis, o uso do termo como sinônimos não é correto e leva a interpretações equivocadas dos benefícios ambientais de cada um deles. Um exemplo de bioplástico que é também biodegradável é o ácido poliláctico produzido a partir de amido de milho ou cana-de-açúcar ou mandioca [13].


Com relação ao segundo ponto, a Braskem tem o compromisso de só usar cana-de açúcar de áreas que se expandiram sobre terrenos de pastagens esgotados. No entanto, é preciso considerar que isso pode estimular o desmatamento, uma vez que o agropecuarista irá procurar outras áreas para pastagens. Além de intensificar o efeito estufa, o desflorestamento também pode alterar o regime de chuvas. Esse é um ponto especialmente importante de ser considerado principalmente quando há um Projeto de Lei (PLS 626/2011) que objetiva liberar o cultivo de cana-de-açúcar na Amazônia Legal [14].


Por fim, temos os plásticos compostáveis que, segundo a ASTM 6400 [15], são materiais que, quando em uma planta de compostagem, devem "degradar por processos biológicos e durante a compostagem produzir CO2, água, compostos inorgânicos, e biomassa em uma taxa consistente com o de outros materiais conhecidamente compostáveis, e não deve deixar nenhum resíduo visível, distinguível ou tóxico" em um máximo de 180 dias. Segundo essa definição nem todos os plásticos biodegradáveis são compostáveis. E para evitar confusões, a Califórnia, por exemplo, proibiu o uso do termo biodegradável em sacolas, copos e containers de alimento e só permite o uso do termo compostável, para os materiais que realmente o são [16].


Além da composição do polímero, na hora de avaliar a melhor opção, deve-se levar em conta os aditivos que são incorporados no produto final bem como as condições ambientais na qual o material se encontra no momento da decomposição [17]. Por exemplo, alguns plásticos só irão se decompor em condições específicas de temperatura e oxigênio e às vezes estas só são encontradas em plantas de compostagem específicas; isso significa que se esse material for parar no aterro sanitário a sua decomposição poderá demorar muito mais tempo do que esperado. Nesse contexto, um outro problema associado a permanência dos plásticos no ambiente é a forma como estes são descartados após o uso. No caso de plásticos compostáveis, estes devem ser separados do material reciclável para evitar o comprometimento deste. Da mesma forma, não devem ser misturados com os resíduos que serão enviados para o aterro sanitário.

A essa altura, você consumidor já deve estar confuso com tantas opções e tanta falta de padronização. Como saber qual a melhor alternativa do ponto de vista ambiental?


Antes de mais nada, é necessário nos mantermos atentos e questionar, pois algumas marcas usam técnica de greenwashing (tradução direta: lavagem verde), ou seja, anunciam um produto com mais benefícios ambientais do que ele realmente tem. Nesse contexto, é comum encontrarmos embalagens com partes verdes, desenhos de folhas, com palavras como "green", "eco", "bio", sem explicar a que se referem exatamente, mas passando a ideia de um produto menos danoso ao ambiente.


Assim como há duas décadas acreditava-se que o plástico oxi-biodegradável era a melhor alternativa, hoje há uma tendência em direção aos bioplásticos devido ao seu potencial de diminuir os impactos de produção. Mas se você quer garantir um menor impacto no mundo, a saída é evitar o consumo de plásticos sempre que possível! Mas como faço isso? Com pequenas mudanças de hábito: 1. Usando reutilizáveis (copo, caneca, canudo, talheres, por exemplo) e, é lógico, lembrando de carregá-lo sempre; 2. Usando sacolas reutilizáveis para as compras; 3. Fazendo compras a granel, pois aí você pode usar vidros ou sacos de plástico/tecido reutilizáveis; 4. Optando por comprar frutas, legumes e demais vegetais que não venham embalado em plástico filme; 5. Substituindo a sacolinha no pote de lixo por um saquinho de papel (pode ser um feito de jornal ou aquele em que vem o pão); 6. Substituindo o absorvente de uso único por calcinhas absorventes, copinhos ou qualquer outra opção disponível no mercado que melhor lhe agrade; 7. Repensando seus hábitos de consumo de uma forma em geral, antes de comprar pare e pense “eu realmente preciso disso?”; 8. Disseminando essas ideias. E, se não for possível evitar, a melhor opção é separar o plástico e destiná-lo para a reciclagem depois do uso.


E você, qual dicas têm para adicionar nessa lista? Compartilha com a gente.

Referências:


1. Álvarez-Chávez, C. R.; Edwards, S.; Moure-Eraso, R.; Geiser, K. (2012) .Sustainability of bio-based plastics: general comparative analysis and recommendations for improvement. Journal of Cleaner Production 23:47-56.


2. Chiba, S.; Saito, H.; Fletcher, R.; Yogi, T.; Kayo, M., Miyagi, S.; Ogido, M.; Fujikura, K. (2018). Human footprint in the abyss: 30 year records of deep-sea plastic debris. Marine Policy, 96:204-212.


3. Law. K.L. (2017). Plastics in Marine Environment. Annual Review of Marine Science, 9:205-229.


4. Cole, M.; Lindeque, P.; Halsband, C.; Galloway, T.S.(2011). Microplastics as contaminants in the marine environment: a review. Marine Pollution Bulletin, 62:2588-2597.


5. Cole, M.; Lindeque, P. K.; Fileman, E.; Clark, J.; Lewist, C.; Halsband, C.; Galloway, T. S. (2016). Microplastics Alter the Properties and Sinking Rates of Zooplankton Faecal Pellets. Environmental Science and Technology, 50:3239–3246.


6. Royer, S-J.; Ferrón, S.; Wilson, S. T.; Karl, D. M. (2018). Production of methane and ethylene from plastic in the environment. PLoS ONE 13(8):e0200574. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0200574


7. ASTM Standard D883, 2018. Standard Terminology Relating to Plastics, ASTM International, West Conshohocken, PA, DOI: 10.1520/D0883-18, www.astm.org


8. Federal Trade Commission, “Proposed Revisions to Green Guides: Summary of Proposal,” Washington, DC: October 10, 2010,

(http://www.ftc.gov/os/2010/10/101006greenguidesproposal.pdf) - acessado em 02/11/2018)


9. Report to the European Parliament and the Council on the impact of the use of oxo-degradable plastic, including oxo-degradable plastic carrier bags on the environment. European Commission. January, 2018. (http://ec.europa.eu/environment/circular-economy/pdf/oxo-plastics.pdf) - acessado em 02/11/2018.


10. ASTM Standard D6954-4, 2004, Standard Guide for Exposing and Testing Plastics that Degrade in the Environment by a Combination of Oxidation and Biodegradation, ASTM International, West Conshohocken, PA, DOI: 10.1520/D6954-04, www.astm.org


11. http://www.mma.gov.br/component/k2/item/7660-saiba-mais - acessado em 10 de março de 2019.


12. https://www.biobasedworldnews.com/carbon-trust-endorses-braskems-carbon-negative-claims-for-its-bio-based-plastic - acessado em 02/11/2018


13. Hammad, K.; Kaseemb, M.; Ayyoob, M.; Joo, J.; Deri, F. (2018). Polylactic acid blends: The future of green, light and tough. Progress in Polymer Science, 85:83-127

14. Ferrante, L.; Fearnside, P. M. (2018). Amazon sugarcane: a threat to the forest. Science. DOI: 10.1126/science.aat4208


15. ASTM Standard D6400, 2004, Standard Specification for Compostable Plastics, ASTM International, West Conshohocken, PA, 2004, DOI: 10.1520/D6400-04, www.astm.org


16. Compostable Plastics 101: An overview of compostable plastic sponsored by the California organics recycling council. https://compostingcouncil.org/wp-content/plugins/wp-pdfupload/pdf/8095/Compostable%20Plastics%20101%20Paper.pdf - acessado em 02/11/2018.


17. Kubowicz, S.; Booth, A. M. (2017). Biodegradability of Plastic: Challenges and Misconceptions. Environmental Science and Technology, 51:12058-12060.


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