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Prezado Reitor, não se faz Oceanografia sem embarcação!

Não existe Oceanografia sem práticas embarcadas... o que a Reitoria da USP e o governo brasileiro estão fazendo sobre isso?


O Brasil conta, hoje, com 14 cursos de Bacharelado em Oceanografia e Oceanologia. Mas, vamos combinar uma coisa? Não se forma uma/um Oceanógrafa/o sem contato com o mar! De acordo, ainda, com as diretrizes do MEC, para se formar um aluno de graduação, é necessário que o mesmo tenha cumprido, ao menos, 100 horas de embarque (um equivalente ao “estágio obrigatório” de outros cursos de graduação). Então, precisamos de bases de pesquisa e/ou embarcações para aprendermos e vivenciarmos a Oceanografia! Com isso em mente, digo que gerir uma instituição com essas necessidades não é o mesmo que gerir um curso de administração, economia e matemática, ou mesmo outros cursos que possuem trabalhos de campo, como geologia e biologia. E, por isso, esse é um texto de dor e revolta pela situação que vivemos hoje... Nós precisamos navegar! 


Assim, ouso dizer que gerir o curso de Oceanografia da Universidade de São Paulo (USP) não está entre os objetivos da atual gestão da Reitoria da USP... e sabe quem são os principais prejudicados pelos absurdos que vêm ocorrendo? Os alunos de graduação e pós-graduação, que chegam de diversos estados do Brasil em busca de um dos melhores cursos de Bacharelado e Pós-Graduação em Oceanografia do país, e os professores e pesquisadores, que lutam muito para conseguir financiamento para seus projetos de pesquisa e organizar os inúmeros trabalhos de campo para que alunos possam ter a melhor formação nessa área. Mas o que vem acontecendo vai além, afetando e desrespeitando um grupo importantíssimo de funcionários, que tornam todo esse trabalho possível: as tripulações das embarcações! Pois bem... vou explicar.


Navio Alpha Crucis

Há um ano, a Reitoria da USP iniciou uma batalha contra as tripulações das embarcações do Instituto Oceanográfico (IOUSP), em especial o B/Pq Alpha Delphini e o N/Oc Alpha Crucis, em função de contratações ditas irregulares realizadas há mais de três décadas. Ou seja, os funcionários recebiam seus salários, impostos e FGTS pela USP, mas a universidade alegou que eles não eram funcionários. Entendo que existem burocracias que não foram atendidas durante todo este período, provavelmente por falta de conhecimento de uma área tão específica por parte da universidade, que tornariam essa transição mais respeitosa e menos prejudicial a todos os envolvidos. Mas não buscar esse conhecimento antes resultou em imposições e prejuízos muito significativos para todos (desde funcionários até estudantes de graduação). Recentemente, foi decidido e homologado que a USP terá que liberar os valores referentes ao Fundo de Garantia, além de pagar danos morais aos tripulantes demitidos de forma desrespeitosa. Mas faltam ainda as verbas rescisórias.


Embarcação Alpha Delphini

Após todo o absurdo, a Reitoria da USP resolveu abrir licitação para um contrato emergencial de seis meses. Para quê? Manter os navios parados no Porto de Santos... Acho que eles não conhecem a expressão "navio parado é só prejuízo"! E o pior: o representante da empresa vencedora para o contrato emergencial chegou a dizer em reunião no IOUSP que veganos e "meninas delicadas" não poderiam embarcar! Oi? Será esse o futuro retrógrado que viveremos? E a coisa não fica melhor: discute-se a possibilidade de doação do B/Pq Alpha Delphini! Um total descaso com o nosso patrimônio, o dinheiro público do estado de São Paulo investido e com todos aqueles que lutaram para que o IOUSP se tornasse referência em Oceanografia no mundo!


Precisamos de nossas embarcações, nas quais não é necessário, por exemplo, fazer "gambiarras" para lançar uma garrafa para coleta de água ou um pegador de fundo pois uma traineira não tem guinchos que não sejam voltados à pesca; tripulações treinadas e capacitadas para a pesquisa oceanográfica, comandadas também por profissionais que entendam, e estejam dispostos a aprender que, para fazer um arrasto de pesca, a velocidade da embarcação é diferente de quando se trabalha com um sonar de varredura lateral. Precisamos de um ambiente seguro para pesquisadores e, principalmente, alunos, seja em termos de espaço físico para acomodá-los durante uma demonstração e/ou atividade ou um kit de primeiros socorros para casos de emergência. Precisamos de segurança a bordo, em função do perigo de um assédio, como vemos ocorrer frequentemente, e com grande tristeza, em embarcações da Marinha do Brasil. Está mais do que clara a importância de nossas embarcações, aptas a receberem alunos e realizarem pesquisa de ponta!


Vejo tudo isso com muito pesar... embarcar no N/Oc Prof. W. Besnard era o sonho de todos que iniciavam a graduação nos anos 2000. Afinal ele tinha o nome do pioneiro da Oceanografia no Brasil e tinha tornado possível a pesquisa brasileira na Antártica, mas eu estava só em meu primeiro ano quando vimos as cenas dele pegando fogo. Eu vi e vivi este luto e o quanto isso abalava as nossas estruturas... e ele fez muita falta! Até que a luz de Alpha Crucis (a estrela mais brilhante da constelação do Cruzeiro do Sul) reacendeu nossas esperanças e, em 2012, chegou nosso novo navio, para alçar grandes voos para além da zona costeira! Logo em seguida, veio nosso querido Alpha Delphini, que muito tem auxiliado na pesquisa na região costeira e também nas disciplinas de graduação, somando-se ao trabalho intensivo dos barcos Albacora e Veliger II. São muitas as pessoas que tiveram suas vidas alteradas ao embarcarem pela primeira vez e se apaixonarem de vez pela profissão que escolheram. Eu fui uma delas... e acho que todos se apaixonariam pelo famoso "azul da cor do mar" além da isóbata de 200 m... São muitas as pessoas que se dedicaram para que essas embarcações chegassem até nós (sejam da diretoria, funcionários técnicos e administrativos, tripulações, entre outros) e servissem com tanta presteza ao ensino e à pesquisa. E já se somam duas turmas que iniciaram a graduação e não tiveram a oportunidade de embarcar, fora os que já estavam na graduação e estão enfrentando dificuldades para cumprir suas horas de embarque obrigatórias... Não falo aqui apenas das enormes estruturas metálicas paradas, falo também de pessoas... pessoas prejudicadas em todas as instâncias por uma Reitoria que rema sem saber como remar!


Laboratório de Enino Flutuante Ciências do Mar 3

Infelizmente, esse não é um caso isolado: no dia 29 de abril, a Associação Brasileira de Oceanografia (AOCEANO) tornou pública uma "Carta aberta à comunidade acadêmica das Ciências do Mar", escrita pelos integrantes do Conselho Gestor Nacional dos Laboratórios de Ensino Flutuantes (CGN/LEF), que denuncia o descaso do governo federal com a manutenção dos quatro LEFs, denominados Ciências do Mar e mantidos pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG), Universidade Federal do Maranhão (UFMA), Universidade Federal Fluminense (UFF) e Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), um projeto de construção que levou mais de uma década. O governo suspendeu os embarques, achando que isso o exime de outros cuidados com as embarcações. Foram mais de R$ 100 milhões de reais investidos até 2023 para que os navios estejam, hoje, diante de uma rápida deterioração de equipamentos, cascos e motores, por conta da falta de manutenção, comprometendo a formação de recursos humanos nas Ciências do Mar e a capacitação de profissionais em início de carreira, algo em torno de 2.500 estudantes de 47 instituições de ensino do Brasil.


Deveríamos estar vivenciando a Década do Oceano, mostrando a importância do Oceano para a sobrevivência humana na Terra, seja como recurso, na manutenção climática do sistema terrestre, para os meios de transporte de longa distância e alimentação, gerando dados e informações importantes na compreensão dos processos que ocorrem no Oceano, e formando mão de obra qualificada para atuar no ensino, na pesquisa ou em empresas. Mas, ao invés disso, o que estamos fazendo? Passando vergonha... até quando seremos um país que não conhece nem valoriza os serviços prestados pelo Oceano?

 

Obs.: Esse texto é também uma homenagem e mensagem de gratidão às tripulações dos barcos Albacora, Veliger II, Alpha Delphini e Alpha Crucis, que, juntamente com o trabalho dos docentes e técnicos, tornaram possível um aprendizado enorme de vida e me tornaram a profissional que sou hoje!


 

Sobre a autora:


Foto de perfil da autora do post. Ela está sorrindo

Oceanógrafa, mestre e doutora em Oceanografia, na área de concentração Oceanografia Biológica, pelo Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IOUSP), com período sanduíche em Portugal, no CIIMAR (Universidade do Porto). Atualmente, é pesquisadora de Pós-Doutorado no IOUSP e editora voluntária do Bate-Papo com Netuno.

A Oceanografia entrou em sua vida muito cedo, quando tinha apenas 12 anos. Desde então, sua curiosidade a leva para novos e diferentes caminhos a cada nova empreitada. Acredita que o diferencial da Oceanografia é justamente a multidisciplinaridade. Assim, tem experiência com análises climatológicas, química inorgânica de sedimentos, unidades de conservação, integridade biótica da ictiofauna, estoques pesqueiros, análises morfométricas, otólitos e, desde 2021, entrou no mundo da paleoecologia!




*Todas as imagens deste post são de autoria de Natasha Travenisk Hoff


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1 Comment


Ahhhh parece aquele filme do dia da marmota... Ficamos presos em ciclos que se repetem, só que parece que não aprendemos o suficiente para mudar e sair dele! Tive o privilégio de embarcar no Prof. W. Besnard em cruzeiros do REVIZEE, quando ele já estava bem comprometido estruturalmente. Vi tantos sucatearem... vi o Órion, do Instituto de Pesca, se despedaçando aos poucos no Porto de Santos, do ladinho do Besnard. Mas vivenciei no PPGMar, a saga dos professores Krug, Danilo, Vanildo e Abílio (e mais uns tantos) para viabilizar os Laboratórios de Ensino Flutuantes. Vi os navios saírem do mesmo "forno" do Alfa Delphini, no estaleiro de Fortaleza. Acreditei que a era dos alunos sem-embarque tinha terminado. Já sabíamos que…

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