Sobre amamentar e se doutorar

Atualizado: 5 de Mai de 2019

Por Tatiana Pinheiro Dadalto

Ilustração por Caia Colla


Era junho de 2016 quando descobri que em breve iria realizar o meu sonho mais lindo: ser mãe. A gravidez aconteceu em uma fase muito produtiva, a 4 meses do prazo final de conclusão do meu doutorado em Geologia e Geofísica Marinha na Universidade Federal Fluminense (UFF). Nessa época, além do doutorado, eu trabalhava diariamente na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), casa dos meus dois orientadores.


Para mim era certo o fim da “fase Rio de Janeiro” na minha vida: meu marido e eu sempre desejamos ter filhos em uma cidade mais calma e mais perto de nossa família, que residia entre o Espírito Santo e a Bahia. Iríamos nos mudar para Vitória - ES e em 8 meses nossa vida tinha que estar organizada para o nascimento da nossa pequena.


Para terminar o doutorado, precisei de mais tempo do que imaginei e pedi uma prorrogação de 6 meses além do prazo final, que foi concedida. Combinei com meus orientadores que em dezembro iria defender minha tese e só então me mudaria para Vitória, onde meu marido já ia semanalmente trabalhar.


Trabalhei com afinco: todo o amor que já sentia por minha filha me dava muita energia, bom humor e determinação. O sono e o cansaço típicos do primeiro trimestre de gravidez me faziam dormir cedo, muito cedo mesmo. E no dia seguinte, energia, criatividade, entusiasmo e muito amor me faziam levantar animada e sem café ir trabalhar para finalizar o sonho do doutorado.


Novembro chegou e meu orientador propôs que deixássemos a defesa para depois do nascimento de Liz, para que eles (ele e minha orientadora) tivessem tempo suficiente para ler os capítulos que eu já havia entregado e mais tempo para se aprofundar na discussão sobre a ‘arquitetura estratigráfica e evolução geológica da magnífica e apaixonante Restinga da Marambaia’. Meu orientador propôs que usássemos todo o prazo de 6 meses já concedido e os 4 meses da licença maternidade para que eu defendesse o mais tarde possível, já que eu estaria cuidando de minha recém-nascida. Eu aceitei e julho de 2017 passou a ser meu novo prazo.


Apesar de tudo isso, mantive meu planejamento de mudança. Mudamos para Vitória em janeiro de 2017, eu com um barrigão de 8 meses de gestação. Meu marido foi quem procurou nosso novo apartamento, organizou toda a mudança e entregou o apartamento do Rio. Eu organizei a casa nova, arrumei o quarto da minha florzinha, terminei e enviei a tese para os meus orientadores e não mexi mais com o doutorado - era o tempo dos meus orientadores darem suas sugestões, correções e orientações finais.


Liz nasceu em 17/02/2017, o dia mais emocionante da minha vida. Nasceu e veio direto pra mim, pro meu peito, pro meu cheiro. No meu peito, fez os primeiros movimentos de sugar. Mamou em livre demanda do dia em que nasceu até fevereiro de 2018, quando já tinha um aninho de idade. Praticamos amamentação exclusiva durante os seis primeiros meses de sua vida, quando iniciamos a introdução alimentar de sólidos. Diariamente experimentamos o amor, o dengo, o calor, a paciência, o chamego, a criação de vínculo da amamentação. Um desses dias foi o dia da minha defesa do doutorado.


Viajamos de carro para o Rio – meu marido, Liz, minha sogra e eu. Nos momentos antes da defesa, eu e minha orientadora já havíamos informado a todos os componentes da banca examinadora da minha situação, que eu estava com minha bebê do lado de fora e que faríamos pausas para que eu pudesse amamentar. Combinei com meu marido e minha sogra que eles ficassem distantes, pois eu não iria conseguir me concentrar se ouvisse o choro dela. Seria impossível pra mim! Liz tinha cinco meses e meio e ainda se alimentava exclusivamente através do aleitamento materno. Apresentei a tese em 1 hora e fizemos uma pausa. Fui até minha filha, nas sombras do estacionamento da UFF. Dei “mamá” e avisei que se houvesse necessidade que a levassem para mim, pois eu já tinha terminado a parte mais difícil. E voltei para a arguição. Depois de cerca de 2 horas, enquanto um dos professores falava, comecei a ouvir o chorinho da minha menina aumentando de intensidade gradativamente e avisei a todos que minha filha estava chegando pra mim. Peguei ela chorando no meu colo, a acalmei e a coloquei no meu peito para mamar. O professor cuja fala havia sido interrompida, me olhava com cara de interrogação pensando ‘o que será que eu faço agora?’ e eu disse a ele ‘pode continuar’. Continuamos a arguição, Liz mamou, largou o peito, eu ainda a mantive no meu colo um tempo, dormindo calmamente, enquanto literalmente defendia minha tese. Depois passei ela pro colo do papai, que só voltou com ela no fim da arguição para a foto oficial com a banca!



Senti que a reação das pessoas foi de estranhamento e também foi de apoio e incentivo. Um estranhamento natural por estarem vivendo uma situação de amamentação pública durante uma defesa de doutorado, o que, infelizmente, ainda é incomum; e apoio, especialmente do público feminino, porque todos ali, me parece, sabiam reconhecer a importância da amamentação, do acolhimento materno e dos direitos envolvidos (da mãe e da criança). Acredito que o diálogo prévio preparou todos para viverem esta situação (talvez por isso não tenha havido um estranhamento maior e comentários). Estou certa também de que a minha postura de ter CERTEZA de que é meu direito acolher minha filha e de que é direito da minha filha ser alimentada foram decisivas para que tudo acontecesse da forma que foi. Espero que contando minha história, outras mães - especialmente as doutorandas! - se inspirem e se renovem em ânimo para buscarem uma rede de apoio e seguirem em frente em seus estudos e/ou suas atividades profissionais sem deixarem de ser mães acolhedoras e confiantes sobre seu direito de amamentar.


Foi assim que meus dois maiores sonhos se realizaram. Que felicidade! Não foi fácil. Mas foi incrível.

Foi muito difícil ter que escrever com uma bebê que mamava a cada 2 horas. Foi muito difícil ter que deixar minha bebê tanto tempo sem meu colo na fase em que ela descobria que ela e a mamãe não eram uma só pessoa (por volta dos três meses de idade, quando eu tinha que rever o texto, editar, formatar). Foi muito difícil pro meu marido, e para todos que me ajudaram com Liz, mantê-la entretida, longe da mamãe por algumas horas do dia. Foi muitíssimo difícil escrever com o esquecimento típico da fase de puerpério e amamentação (baby brain).


Por outro lado, foi muito fácil trabalhar naquilo que é minha paixão. Foi muito positivo contar com a compreensão dos meus orientadores. Foi decisivo ter recebido o apoio, a presença e o estímulo de um marido incrível. Foi muito importante ter uma rede de apoio para os cuidados de Liz. Foi muito reconfortante ter recebido a atenção e os cuidados da minha mãe durante o puerpério, quando fiz as primeiras movimentações para retomar a escrita. Foi muito bom ter feito tudo isso com amor e com a certeza de que todo esforço valeria a pena e me permitiria o preparo necessário para o trabalho que eu desejo, meu outro sonho: a vida acadêmica. Sigamos em frente!

Liz, eu e minha banca examinadora do doutorado. Da esquerda pra direita, os professores doutores José Maria Landim Dominguez (UFBA), Cleverson Guizan Silva (UFF), Renata Cardia Rebouças (UERJ), Josefa Varela Guerra (UERJ, orientadora), André Luiz Carvalho da Silva (UERJ) e Antonio Tadeu dos Reis (UERJ, orientador). E ainda Alex Cardoso Bastos (UFES) via internet.

Sobre Tatiana:

Tatiana Pinheiro Dadalto é oceanógrafa, doutora em Geologia e Geofísica Marinha pela Universidade Federal Fluminense (UFF, 2017). Atualmente, é professora substituta na Universidade Federal do Sul da Bahia. Gosta de passar seu tempo livre em família e também de cozinhar, fotografar e estar ao ar livre em contato com a Natureza.


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Todas as imagens foram cedidas pela autora.

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