Tá com medo? Vai com medo mesmo!

Por Fernanda Ramos

Ilustração: Juliana Bomjardim

A ciência é linda. Criar perguntas e tentar respondê-las é maravilhoso. Olhar para o seu trabalho concluído ao final desse processo dá orgulho. Eu amava meu projeto de mestrado, meu orientador era ótimo, eu tinha apoio das pessoas à minha volta, mas, como muitos pós-graduandos, sofri com a famosa síndrome do impostor. Ela acontece quando nós não nos sentimos merecedores das nossas realizações, como se fossemos uma fraude e atribuímos puramente à sorte tudo que acontece de bom no nosso trabalho.


Esse sentimento me dominou por todo o mestrado e, infelizmente, continua aqui. Me colocava para baixo quando era bombardeada por artigos incríveis, feitos maravilhosos, autores bem mais novos do que eu com artigos em revistas de publicação científicas bem conceituadas, colegas que fazem pesquisas extraordinárias, apresentações de trabalhos super interessantes em eventos científicos... e daí eu me perguntava: “O que a minha pesquisa tem de útil? O que eu estou fazendo nesse meio?”.


A pior parte da síndrome do impostor é que ela é puro fruto da nossa imaginação. Saber que não é real e ouvir pessoas que admiro dizendo que meu trabalho era bom me faziam sentir ainda mais raiva de mim mesma. Apesar desse sentimento, eu não desisti. Hoje, retomando minha trajetória, vejo quantos avanços eu fiz e quantas conquistas eu tive mesmo com muitas dificuldades aparecendo pelo meu caminho.


Minha paixão pela área ambiental, em especial por animais e plantas, começou desde muito nova. Como desde criança morei no litoral, essa paixão se direcionou para o universo das praias. Eu ficava encantada quando via os pequenos animais que estavam escondidos na areia e pensando na quantidade de vida debaixo d’água. O amor pelo meio ambiente me levou a prestar vestibular para diversos cursos: biologia, biologia marinha, oceanografia. Ingressei no curso de bacharelado em Ciências Ambientais na Universidade Federal de São Paulo, e foi amor à primeira vista! Durante a graduação trabalhei com um pouco de tudo, desde paleontologia e ecologia, até reciclagem e avaliação de impactos ambientais; a única certeza que eu tinha é que eu queria ser pesquisadora!

Apresentação em congresso.

A ciência e a pesquisa científica ganharam meu coração. Eu amava ler artigos, aprender coisas novas, ir a eventos da área, conversar com outros pesquisadores e conhecer seus trabalhos Logo notei que eu amava pesquisa, mas que realmente não gostava de trabalho de laboratório. Para mim a melhor parte dos projetos que eu me envolvia sempre foi ir para campo - até hoje é assim. Eu decidi que seria cientista e, assim, ao sair da graduação eu iria direto para o mestrado. Não havia um plano B.


Em um dia na praia, meu projeto de mestrado, até então indefinido, apareceu na minha frente. Eu estava sentada na areia no final da tarde quando vi dezenas de caranguejos saindo de suas tocas na areia, e pensei: “é isso”. Encontrei um orientador que abraçou minhas ideias e assim se iniciou minha caminhada no mestrado. Vocês precisam saber que nada sai como planejado na ciência. Vejam meu caso: inicialmente a ideia era avaliar a relação entre a vegetação de praias e o Ocypode quadrata (esses caranguejos de praia, também chamados de maria-farinha). No final, fizemos uma avaliação dos distúrbios que afetam esses animais em uma praia urbanizada. Como isso aconteceu? Após uma das minhas coletas de campo, houve uma ressaca marítima fortíssima que erodiu quase metade da minha área de estudo, o que nos levou a outra pergunta: “como isso afetou a população de caranguejos que vive aqui?”.

Maria-farinha

Fiz um monitoramento semanal, ou seja, eu fazia coletas dois dias por semana. Embora minha área de estudo fosse próxima à minha casa. o monitoramento não foi fácil. Trabalhei de baixo de chuva, com ventos fortíssimos, sob o Sol escaldante, durante as férias, no Natal, no Ano Novo e no carnaval. Um ano e meio dedicado a fazer as coletas religiosamente. Mas tudo valia a pena quando eu conseguia ver um caranguejo: meu coração enchia de amor e eu me sentia imensamente grata por poder ter contato com esse animal tão lindo e fascinante.


Eu sou apaixonada pela minha pesquisa e estava realmente muito feliz porque não teria que fazer trabalhos de laboratório, embora tivesse que analisar os dados. Mas a quantidade de dados que eu coletei era absurda, e eu precisava organizar, analisar, rodar testes estatísticos, além de interpretar e entender como eles podiam responder às minhas perguntas. Tudo isso para uma pessoa que tem grande dificuldade com exatas! Meu orientador foi essencial nessa parte do projeto.


Também tinha vontade de desistir quando sentia o peso das disciplinas do mestrado, e a cada trabalho de campo que eu achava que tinha dado errado, cada teste estatístico que não funcionava, a cada conjunto de dados que não fazia o menor sentido, cada vez que eu tive que reescrever praticamente tudo que já tinha escrito. Foram noites mal dormidas, dias trancada no quarto escrevendo e sempre segurando a vontade de jogar o notebook na parede, rasgar todas os meus papéis e sair correndo. O que me impediu de desistir foram as pessoas que eu tinha a minha volta.


A maior fonte de força para mim foram as mulheres da minha vida e as que encontrei pelo caminho. Minha mãe sempre foi minha maior fonte de força e apoiadora, sempre ao meu lado não me deixando desistir, ela ser um exemplo para mim me motivou a ser um exemplo para minha irmã, esta, que mesmo sem saber, foi um dos grandes motivos pelo qual eu não desisti. Minhas amigas de república sempre foram meu porto seguro, assim como minhas melhores amigas da faculdade que lutaram as mesmas lutas que eu e sempre me apoiaram. Mas o que sempre me inspirou em tempos difíceis foram minhas professoras, tanto na graduação quanto no mestrado eu tive o privilégio de ter um grande número de professoras e nelas eu via o que eu queria ser: mulheres fortes, pesquisadoras, grandes nomes na sua área de pesquisa, acolhedoras e incríveis. Hoje, no meu grupo de pesquisa, nós, mulheres, somos maioria no grupo e sempre posso contar com o apoio das minhas colegas.


No final, tudo valeu a pena, mas eu garanto que não foi fácil. Claro que os resultados do mestrado não saíram exatamente como eu esperava, e ainda tenho a sensação de que poderia ter feito mais. Ainda assim, hoje estou começando meu doutorado com muitas ideias, mais confiante e com ótimas pessoas ao meu lado. Se vocês amam a ciência tanto quanto eu, não desistam e não dêem ouvidos ao impostor dentro de vocês. Nós não estamos sozinhas nessa jornada. Se precisarem de alguém para conversar, podem contar comigo ou busquem alguém em quem confiam. Vamos mudar o mundo juntas.


Defesa no da Fernanda no Programa de Análise Ambiental Integrada da UNIFESP.



Sobre a autora:

Fernanda é cientista ambiental e mestre em Análise Ambiental Integrada pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), atualmente está cursando doutorado em Evolução e Diversidade na Universidade Federal do ABC (UFABC). Após caminhar por diversas áreas, a autora se tornou pesquisadora da área de ecologia de praias arenosas, atualmente tendo como foco os impactos de distúrbios antrópicos em populações e comunidades desse ecossistema. Além do universo científico, a autora encontrou o amor em cachorros, praia e pole dance.


Contato: fernanda.rfo@hotmail.com.





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