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  • Experimentos em animais: um mal necessário

    Por Raquel Saraiva Embora a ciência já tenha conseguido desenvolver métodos alternativos e cientificamente válidos para alguns testes, ainda não é possível substituir o uso de animais em todas as áreas. Testes de toxicidade sistêmica, sensibilização, toxicidade reprodutiva e carcinogenicidade. No mestrado, avaliei os efeitos induzidos pelo envenenamento por jararaca ( Bothrops leucurus ) sob a pele e nos músculos de ratos com hipo e hipertireoidismo. Não tinha como substituir os animais. E na época nem pensei em substituição. Desde minha iniciação científica, ao longo de quase quatro anos de laboratório, e durante o mestrado, fiz experimentos em ratos. Nesse tempo, em especial durante o mestrado, li muito sobre ética no uso de animais em laboratório e sempre tratei os animais visando minimizar seu sofrimento, dentro do possível em experimentação científica, e respeitando as determinações da legislação que trata do tema. Registros de experimentos em animais datam pelo menos do século IV a.C., na Grécia Antiga. Já as referências ao bem-estar animal mais antigas são do século XIX, com a organização da Sociedade para Prevenção da Crueldade contra Animais (SPCA) em 1822 na Inglaterra. Com a divulgação massiva de informações por meio da internet, a discussão sobre o uso de animais em experimentação ganhou força na última década, assim como a pressão exercida pela sociedade e por ONGs para mitigar essa prática. A expressão mais ampla da ética animal vem sendo a aplicação dos 3Rs (do inglês Replacement, Reduction and Refinement , e em português substituição, redução e refinamento) , estabelecidos em 1959 pelo psicólogo William Russell e pelo microbiologista Rex Burch no livro The Principles of Humane Experimental Technique . A aplicação do conhecido conjunto dos 3Rs busca diminuir o número de animais usados em experimentos, minimizar dor e desconforto, e encontrar alternativas para a substituição dos testes in vivo . Nas áreas em que ainda não se tem alternativa, além dos 3Rs, os animais devem ser tratados “dentro da ética, de forma que sejam respeitados como seres vivos que estão contribuindo para o progresso da ciência”, como consta no Manual de Utilização de Animais de 2008, da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ). Para garantir isso, antes de começar os trabalhos, submeti meu projeto ao comitê de ética do instituto onde estava locado meu programa de mestrado. Detalhei tipo, dose e vias de administração das drogas que utilizaria, características morfológicas dos animais, esquema de manipulação e modo de anestesia e eutanásia. Regulamentação Qualquer projeto que utilize espécimes vivos de vertebrados deve ser submetido pelo(a) pesquisador(a) responsável à apreciação por um comitê de ética da instituição a qual ele(a) está vinculado(a), como está determinado na Lei nº 11.794, de 2008 . Conhecida como Lei Arouca, esse foi o primeiro marco legal que tratou de modo detalhado os experimentos com vertebrados no Brasil, como explicado por Rosa Vasconcelos, coordenadora de assuntos regulatórios da Empresa Brasileira de Agropecuária (Embrapa). Os projetos são avaliados de acordo com cumprimento dos preceitos éticos e da relevância científica que caracterize a necessidade do uso de animais. É considerado que a proposta fere a ética se, por exemplo, for uma repetição de experimento já consagrado na literatura e sem justificativa plausível. A aprovação pelo comitê é suficiente para garantir a legalidade do uso dos chamados animais convencionais nos projetos, ou seja, camundongos, ratos, coelhos e hamsters, como apresentado no manual da FIOCRUZ e em uma pesquisa de revisão sobre o assunto conduzida por Mariana Guimarães e seus colaboradores. Estas duas publicações também explicam que, no caso de uso de animais vertebrados “não convencionais”, como cães, gatos, aves, peixes (nós até já falamos do Zebrafish aqui ), primatas não humanos e animais silvestres de qualquer espécie, é necessário também solicitar uma licença ao Ibama além da aprovação por um comitê de ética. A Instrução Normativa nº 7, de 30 de abril de 2015, do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), determina a obtenção prévia de autorização ou licença do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) para coleta de material biológico ou captura. Não há detalhamento sobre como se deve proceder para o caso de experimentos com invertebrados. No entanto, o que observei nos meus anos de pesquisadora é que o tipo de anestésico, ou mesmo seu uso, depende do bom senso do(a) pesquisador(a). Uma análise de mais de 70 mil artigos científicos mostrou que a maioria dos trabalhos não descreve como os invertebrados são obtidos e transportados. As condições de captura e transporte, e o impacto da mudança de ambiente “podem comprometer a qualidade dos resultados da pesquisa” - além de obviamente “ser um descuido com o animal”, diz o estudo de Fischer & Santos, publicado em 2017. Mas não há regulamentação nem orientações nesse sentido. As pesquisadoras Marta Fischer e Juliana Santos (2017) argumentam que a legislação não protege os invertebrados porque foi feita com base dados que mostram que esses animais respondem involuntariamente a danos feitos no seu corpo, como um reflexo. No entanto, as pesquisadoras denotam que em alguns países há exceções: a Suécia inclui todos os invertebrados nas normativas legais, e o Reino Unido e o Canadá passaram a incluir os cefalópodes após aderirem ao Manifesto de Cambridge, que justifica “a existência de receptores para dor em invertebrados como moluscos e artrópodes” como evidência suficiente para incluir esses grupos “na comunidade moral”. Mudança Lembro de todo o cuidado na manipulação dos animais: além de me proteger com sapato fechado, jaleco, cabelo preso e luva, nunca usava perfume, fazia o mínimo de ruído possível, não fazia movimentos bruscos, dentre outras estratégias usadas para minimizar o estresse dos animais. Além da própria ética e empatia imprescindíveis ao lidar com um bicho, a adoção desses cuidados também evita erros nos resultados do trabalho decorrentes do estresse gerado na cobaia, o que pode arruinar a pesquisa. Mesmo nos artigos científicos esse processo precisa ser muito detalhado. Ao longo do mestrado, manipular os animais começou a ficar cada vez mais difícil . Apesar de todo os cuidados tomados e do respeito aos animais, realizar os experimentos foi uma experiência penosa. Foi insuportável voltar ao laboratório para fazer testes adicionais, solicitados pelos revisores do meu trabalho antes da publicação do artigo. Eu chorava muito, ficava muito tempo me acalmando antes de entrar no biotério (local onde os animais são acondicionados antes do experimento). Além disso, fazer a eutanásia era outro sofrimento. Atividades que por tantos anos foram triviais para mim, viraram uma tortura. Acho que isso aconteceu porque... a gente muda! Minha iniciação na meditação, me fez olhar para o mundo de outra forma. Além disso, a própria carreira acadêmica não me trazia mais alegria e com certeza isso influenciou minha ansiedade ao lidar com animais. Só imaginar que nem todos os laboratórios tinham o mesmo cuidado que nós já me deixava nervosa. E até hoje sofro pensando nos animais, tenho pesadelos frequentes e às vezes sinto até falta de ar. Substituição Eu não faria, novamente, trabalhos assim. Nunca. Fiquei tão traumatizada que até escrever sobre o tema não foi fácil. Se acho que teria outro jeito de fazer os estudos que desenvolvi? Não. Acho que os dados conseguidos foram importantes para elucidar algumas questões e, quem sabe, melhorar alguns tratamentos farmacológicos e médicos no futuro. Mas não é uma atividade que quero desenvolver com as minhas mãos. Não virei ativista contra a experimentação em animais porque sei da sua importância e sei, também, que a prática ainda é insubstituível em muitos casos, em especial na fisiologia, farmacologia e patologia. Nos testes de novos medicamentos, os estudos in vivo permitem, por exemplo, observar o surgimento de efeitos colaterais. Ainda que a tecnologia venha avançando a passos largos, ela ainda está longe de assemelhar-se às complexas interações que ocorrem dentro e fora das células, dos tecidos, dos órgãos e dos sistemas dos organismos vivos, como explicado pela pesquisadora Mariana Guimarães e seus colaboradores em 2016. No caso de testes de toxicidade locaizadal, já existem muitas alternativas, embora nem todas sejam fáceis de implementar no Brasil - mas isso é tema para outro post. Testes que, por sua vez, não têm tanta importância do ponto de vista médico, como testes para o desenvolvimento de cosméticos, estão proibidos em alguns países da Europa desde 2009. No Brasil, leis estaduais proíbem esse tipo de teste em Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Mato Grosso do Sul, Paraná, Amazonas e Pará. Além disso, a pressão social tem funcionado para estimular as empresas a adotarem outros tipos de experimentos e implementarem uma política de “não testagem em animais” Uma lista atualizada de empresas nacionais que não testam seus produtos em animais pode ser conferida na página da ONG Projeto Esperança Animal . Não acho que algum dia poderemos substituir o uso de cobaias em 100% dos experimentos. Mas torço e acredito em uma convivência mais respeitosa com os animais, com mais discussões sobre ética nesse ramo e também na redução do consumo de carne - porque não acredito que dá pra questionar o uso de animais em laboratório e fechar os olhos na hora de comer um bife, né? Fontes: BRASIL. Ministério da Saúde. Fundação Oswaldo Cruz -FIOCRUZ. Manual de utilização de animais/FIOCRUZ. 1 ed. Rio de Janeiro: CEUA - FIOCRUZ, 2008. Disponível em: http://www.castelo.fiocruz.br/vpplr/comissoes_camaras-tecnicas/Manual_procedimentos.pdf . Acesso em 19 de março de 2020. Fischer, M. L.; Zacarkin Santos, J. (2018). Bem-estar em invertebrados: um parâmetro ético de responsabilidade científica e social da pesquisa? Revista Latinoamericana de Bioética, 18(1), 18-35. Doi: https://doi.org/10.18359/rlbi.2865 Guimaraes, M. V.; Freire, J. E. C.; Menezes, L. M. B.. Utilização de animais em pesquisas: breve revisão da legislação no Brasil. Rev. Bioét., Brasília , v. 24, n. 2, p. 217-224, Aug. 2016 . Available from < http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1983-80422016000200217&lng=en&nrm=iso >. access on 21 Mar. 2020. https://doi.org/10.1590/1983-80422016242121 . Laquieze L, Lorencini M, Granjeir JM (2015) Alternative methods to animal testing and cosmetic safety: an update on regulations and ethical considerations in Brazil. Appl In Vitro Toxicol 1(4):243–253 Vasconcelos, R. M. de. Conhecendo a Lei Arouca, Lei n° 11.794, de 8 de outubro de 2008, que regula a pesquisa com animais. (2016) In : VASCONCELOS, R. M. de (Ed.). Marcos regulatórios aplicáveis às atividades de pesquisa e desenvolvimento. Brasília, DF: Embrapa, 2016. p. 111-150. Leitura recomendada: Cheluvappa R, Scowen P, Eri R. Ethics of animal research in human disease remediation, its institutional teaching; and alternatives to animal experimentation. Pharmacol Res Perspect. 2017; 5(4). Matéria “ ‘Uso de animais em experimentos não é opcional’ diz pesquisadora” , por Guilherme Rosa e Juliana Santos Matéria “ Lei que proíbe testes em animais em MG é promulgada e entra em vigor” , por Juliana Cipriani Website do Centro Brasileiro para a Validação de Métodos Alternativos #raquelmoreirasaraiva #bioética #comitêdeética #usodeanimais #invivo #vidadecientista

  • Situações de assédio em mulheres embarcadas

    Por Catarina Marcolin , Gabriela Lamego , Cláudia Namiki , Carla Elliff, Juliana Leonel , Jana del Favero , Raquel Saraiva Ilustração: Caia Colla . Alerta de gatilho. No dia 10 de dezembro de 2019, nosso blog lançou uma campanha nas redes sociais para mapear situações de assédio em embarques. Agradecemos imensamente a todas as mulheres que responderam ao nosso formulário e as pessoas que nos ajudaram a divulgá-lo. Foi muito importante dar esse pontapé para começarmos a entender a realidade das mulheres que trabalham embarcadas ou que participaram de algum embarque científico ao longo de sua carreira. Embora os resultados obtidos não possam ser generalizados para a realidade de todas as mulheres embarcadas no Brasil, eles são importantes porque geram discussões e alertas às instituições envolvidas (universidades, institutos de pesquisa, empresas, Marinha do Brasil etc.) sobre a gravidade do problema. O que demonstraremos aqui é, por enquanto, a ponta do iceberg, mas evidencia a relevância desse problema e a urgência para que sejam tomadas medidas de proteção e garantia da segurança das mulheres embarcadas. A problemática Por que falar de assédio em embarques? Um estudo de 2012 realizado por pesquisadores norte-americanos, mostrou que, dentro do universo dos ecólogos de sistemas tropicais, as mulheres participam menos em atividades de campo do que os homens e identificam com mais frequência a segurança pessoal como fator primário para levar um assistente ao campo com elas. Para completar, as mulheres também tinham maior necessidade de contratar outras pessoas para cuidar dos filhos quando iam a campo, enquanto os homens, majoritariamente, deixavam os filhos com suas esposas. Isso é particularmente relevante, porque, em diversas áreas, cientistas que se engajam em atividades de campo tendem a produzir mais artigos e receber mais recursos para pesquisa. Portanto, estar em campo é crucial para o desenvolvimento pleno da carreira e que as mesmas tenham maiores de chances de conquistar espaços de reconhecimento e poder em suas carreiras. Quando pensamos nas cientistas dos mares, muitas vezes os trabalhos de campo e diversas atividades acadêmicas acontecem de modo confinado, a bordo de navios, catamarãs e barcos de pesca, por exemplo. Além disso, uma parte importante de profissionais da biologia marinha, oceanografia e geologia trabalham embarcados(as) em navios ou plataformas de petróleo. Em 2016, o Bate-papo com Netuno publicou uma entrevista chamada Atenção ao embarcar . Neste post, nós ouvimos uma pesquisadora contando sobre situações inadmissíveis que aconteceram durante um cruzeiro de pesquisa, envolvendo muito desrespeito e assédio às pesquisadoras, que acabaram por comprometer a qualidade dos dados coletados, além dos danos pessoais e psicológicos causados. Além desse post, inúmeras histórias não publicadas nos mobilizaram para construir um mapeamento do assédio em embarcações no Brasil. Os dados Nós veiculamos um formulário por 50 dias nas redes sociais do Bate-papo com Netuno e tivemos respostas de 117 mulheres, das quais 78 ( 67% ) responderam que foram assediadas enquanto estavam embarcadas e 71% conheciam pelo menos uma mulher que já havia sofrido assédio. Em 99% dos casos, o agressor foi um homem. Como pode ser visto nos gráficos abaixo, houve relato de assédio em todas as faixas etárias, com exceção daquela entre 51-60 anos. A maioria das respondentes (77%) se auto identificou como branca, seguida por “outra” (14%). As respondentes negras somaram menos de 1%, o que parece refletir a falta de representatividade de mulheres negras tanto na academia como no mercado de trabalho relacionado às ciências do mar. Segundo dados do IBGE , 23,5% das mulheres brancas e 10,4 % das mulheres pretas ou pardas com mais de 25 anos de idade possuíam ensino superior completo em 2016. Além disso, apesar da população negra representar quase 56% da população brasileira, somente em 2018 o número de estudantes negros e pardos matriculados em universidades públicas passou de 50% . Embora o número de respondentes ainda seja pequeno, proporcionalmente houve mais situações de assédio entre as mulheres que se autodeclaram negras. Neste grupo o relato de assédio foi de 77%, enquanto nas mulheres autodeclaradas brancas o assédio foi de 66%, para a categoria “outras” 69% e entre as que não quiseram informar foi de 50%. Essa diferença também parece refletir a maior violência contra as mulheres negras na nossa sociedade, que além de muito machista é racista. As alunas de graduação representaram 44% das respondentes e 62% delas sofreram assédio. Pós-graduandas, pesquisadoras e líderes de equipe de pesquisa corresponderam a 31% das respondentes, das quais 89% sofreram assédio. As mulheres que trabalham como técnicas e outras ocupações corresponderam a 25% das respondentes e 89% delas relataram situações de assédio. Os agressores ocupavam posição hierárquica superior em 44% dos relatos seguido por agressores com posição horizontal (27%) e inferior (<1%). Em 12% dos casos, as respondentes não souberam informar. Isso demonstra que situações de assédio podem ocorrer independente de diferenças hierárquicas entre os envolvidos. Figura 1 . Perfil das respondentes. Os números representam os dados brutos de quantidade de mulheres que responderam ao formulário. Recebemos relatos de assédio que ocorreram em embarques realizados em 11 estados brasileiros: Amapá, Bahia, Espírito Santo, Maranhão, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Santa Catarina, Sergipe e São Paulo. A maior parte das situações reportadas aconteceu em embarques na costa do Rio de Janeiro , seguido por Bahia e Santa Catarina , onde os relatos de assédio somados representaram 75% do total . Esses números podem refletir o maior número de embarques e estudos nas águas adjacentes a esses estados, onde está a maior concentração de campos de exploração de petróleo . Em vários relatos, as mulheres descreveram mais de uma situação de assédio, em diferentes momentos de suas experiências embarcadas, desde assédio moral, descredibilização intelectual e física até assédio sexual e estupro. A literatura especializada descreve que os episódios de violência se apresentam de forma progressiva, das modalidades mais sutis e menos visíveis para as as mais graves e mais facilmente reconhecidas. Desta forma, é possível afirmar que dificilmente um tipo de violência acontece de forma isolada. A maior parte dos assédios aconteceu a bordo de navios, seguido por barcos. O setor privado e a Marinha do Brasil foram os ambientes mais agressivos para as respondentes, com 45% e 37% de todos os assédios relatados, respectivamente, seguido por Universidades e Institutos de Pesquisa (12%). Quando consideramos a proporção de assédios por setor, obtivemos 74% no setor privado, 73% de assédios na Marinha e 36% nas Universidades e Institutos de Pesquisa. Figura 2. Perfil das ocorrências. Os números representam os dados brutos de quantidade de mulheres que responderam ao formulário. O assédio sexual correspondeu a 31% dos relatos, seguido por assédio moral (30%) e descredibilização da capacidade física (> 15%). Uma informação importante é que 12% das mulheres identificaram mais de um tipo de assédio , enquanto 2 mulheres não souberam identificar que tipo de assédio haviam sofrido. As situações de assédio ocorreram principalmente por meio de palavras dirigidas às mulheres (72%), por toque (14%) e por meio de gestos (13%). A situação mais grave foi um relato de estupro , que aconteceu com uma aluna de graduação, na faixa etária de 21 a 25 anos, num navio da marinha, na costa do Rio de Janeiro. O agressor era um oficial da marinha. A divulgação deste relato foi autorizada pela respondente: “Estava (bastante) alcoolizada e fui conduzida por um militar até uma sala que não era usada, ele me beijou, eu tentei sair, falei que não, mas ele era mais forte. Existia uma poltrona na sala, fui puxada até ela e só lembro de flashes do que foi a pior coisa que já aconteceu. Acho que desisti de lutar por medo e apenas ‘aceitei’... lembro de pedir por favor pra ele colocar camisinha se tivesse, mas não sei se ele o fez, e depois lembro de estar completamente sem rumo entrando no meu camarote.” O estupro, mediante violência ou grave ameaça, é um crime que pode levar a uma pena de 6 a 10 anos de prisão. Mesmo que não haja violência explícita, a prática de qualquer ato sexual mediante fraude ou outro meio que impeça ou dificulte a livre manifestação de vontade da vítima também é crime, e pode acarretar em uma pena de 2 a 6 anos de prisão. ( LEI Nº 12.015, DE 7 DE AGOSTO DE 2009 ). Figura 3 . Tipos de assédio relatados e como ele ocorreu. Os números representam os dados brutos da quantidade de mulheres que responderam ao formulário. Queremos destacar a variedade de profissões dos homens que foram relatados como agressores, a exemplo de: estudantes de graduação, orientadores, líder de equipe científica, servidores de instituição pública, pesquisador veterano, comandante, cabos, oficiais, imediato, mestre, tenente coronel, cabo da Marinha, capitão, praça, mecânico, mergulhador do navio, marinheiro, cozinheiro, chefe de máquina, chefe científico, suboficial, supervisor, gerente offshore , técnico e até mesmo um técnico de segurança , que tem como função preservar pela integridade física das pessoas embarcadas. Em 50% dos casos, as mulheres relatam que o assédio/constrangimento afetou o trabalho delas. A maioria delas (80%) discutiu o assunto com alguém, mas 82% não denunciou formalmente. Em apenas um dos casos relatados, a denúncia surtiu algum efeito: um grupo de mulheres reuniu relatos de seis mulheres e após a denúncia o assediador perdeu o cargo de coordenador, mas continuou a embarcar com outra função . Nos demais casos, nada aconteceu ou a mulher denunciante foi penalizada, sendo isolada da tripulação ou impedida de embarcar novamente. O que aprendemos e o que podemos fazer? A partir desse mapeamento inicial, notamos que nem sempre a vítima identifica ou entende que foi assediada, ou que demora a compreender a gravidade da situação à qual foi submetida. O corpo da mulher é sempre um alvo, que assume características particulares de acordo com a idade, classe social, cor e posição de poder. Além disso, várias outras formas de assédio, que não necessariamente têm conotação sexual, também podem ter grande impacto no ambiente de trabalho. Os relatos demonstram que não existe um único perfil: os assediadores podem ocupar tanto uma posição de liderança quanto uma posição subordinada às mulheres. Portanto, o ambiente embarcado, tanto para atividades de ensino e pesquisa como para o exercício de atividades profissionais, não é um lugar seguro para as mulheres. Como consequências deste cenário, as mulheres assediadas apresentaram insatisfação no trabalho, queda de performance, impactos na saúde física e mental. Estudos recentes por Kathryn Clancy e colaboradores e por Darius Chan e colaboradores mostram que efeitos ainda mais graves são observados quando o assediador(a) está em posição superior e quando a vítima é mais jovem, exatamente o caso da maioria das nossas respondentes. Esse tipo de situação pode ocasionar o abandono da carreira, gerando uma perda de recursos humanos. Estudos indicam que equipes mais diversas são mais eficientes na resolução de problemas. Além disso, a formação de profissionais para atuação em embarques é uma atividade que demanda investimentos financeiros e de tempo. Portanto, ao permitir que profissionais plenamente capazes de exercer sua função passem por situações como aquelas aqui relatadas, estamos permitindo também o desperdício do investimento feito até ali e, o mais importante, a perda de talentos. Mas o que podemos fazer diante de um cenário tão tenebroso? Nós do Bate-papo com Netuno queremos ouvir mais pessoas, especialmente profissionais que embarcam rotineiramente. Queremos acessar o número ainda maior de mulheres considerando as diversidades nos perfis (idade, ocupação), o fator racismo, as mulheres que nunca embarcaram por receio de sofrerem situações de assédio, as vivências da comunidade LGBTQi+ e também incluir os homens nessa escuta. Queremos saber se o número pequeno de denúncias ocorre porque as mulheres não acreditam que a denúncia terá efeito, se elas temem a exposição e o estigma após a denúncia, medo de represália, de perder o emprego, ou de perder a oportunidade de embarcar novamente ou se elas não sabem como denunciar, nem quais canais de comunicação utilizar. É importante também reconhecer que a denúncia envolve reviver o trauma e que a falta de acolhimento nos canais de denúncia se constitui em uma violência institucional. Além de entender melhor o que está acontecendo, precisamos promover ações para mudar esse cenário. Já estamos nos mobilizando e promovendo cursos, oficinas e rodas de conversa sobre assédio em embarques, mas isso precisa ser realizado de modo amplo nos cursos de graduação e pós-graduação, assim como precisamos levar a discussão para as empresas do ramo offshore e para a Marinha do Brasil. Precisamos trabalhar medidas de segurança, bolando estratégias para protegermos umas às outras. Precisamos promover campanhas educativas e elaborar cartilhas, explicando o que é assédio e o que fazer quando se deparar com este tipo de situação. Enquanto comunidade, devemos exigir que as empresas públicas e privadas, Universidade e Marinha do Brasil promovam um ambiente seguro para as mulheres, apresentando políticas claras para evitar o assédio, com ações educativas rotineiras e implantação de canais de escuta/ouvidoria acolhedores. Mas só podemos fazer isso conhecendo e conversando sobre o problema. Não podemos mais ficar caladas. Importante reconhecer que o Brasil é signatário da Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher, que foi realizada em Nova York, no dia 31 de março de 1981, de acordo com DECRETO Nº 4.377, DE 13 DE SETEMBRO DE 2002 , no qual, entre outras garantias, prevê a adoção de todas as medidas apropriadas para eliminar a discriminação contra a mulher na esfera do emprego a fim de assegurar, em condições de igualdade entre homens e mulheres. Além disso, o assédio sexual, definido no código penal brasileiro como “Constranger alguém com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se o agente da sua condição de superior hierárquico ou ascendência inerentes ao exercício de emprego, cargo ou função" é crime, com pena de detenção de 1 a 2 anos ( LEI Nº 10.224, DE 15 DE MAIO DE 2001 ) . De acordo com a cartilha sobre assédio moral e sexual no trabalho publicada pelo Ministério do Trabalho em 2009, o assédio sexual no ambiente de trabalho,"consiste em constranger colegas por meio de cantadas e insinuações constantes com o objetivo de obter vantagens ou favorecimento sexual. Essa atitude pode ser clara ou sutil; pode ser falada ou apenas insinuada; pode ser escrita ou explicitada em gestos; pode vir em forma de coação, quando alguém promete promoção para a mulher, desde que ela ceda; ou, ainda, em forma de chantagem.” A autora feminista Joice Berth alerta que não existe empoderamento no âmbito individual, se o mesmo não estiver articulado com uma mudança que afete todo o grupo social ao qual pertence. Ela entende o empoderamento como um instrumento de luta social, que possibilita o deslocamento da posição de subalternidade mediante a conscientização do lugar ocupado por sujeitos e coletivos na sociedade. Não é possível haver igualdade e justiça enquanto comportamentos que agridam a integridade das pessoas forem tolerados, desculpados e, pior ainda, defendidos pela sociedade. Por isso lutar contra o assédio sexual e moral é um dever de todos, inclusive de todos os homens que desejam um ambiente de trabalho saudável. Não temos como saber quantas mulheres desistiram de participar de um embarque por conta de histórias que ouviram de suas colegas ou abandonaram a carreira por causa de situações de assédio vividas. Todos esses potenciais estão sendo perdidos, desperdiçados. E muito mais do que potenciais profissionais, antes disso, mulheres são pessoas que merecem ser tratadas com igualdade, respeito, dignidade, humanidade. Precisamos prevenir e combater o assédio em embarques. O que você vai fazer a respeito disso? Referências Berth, J. O que é empoderamento. Belo Horizonte. Ed. Letramento, 2018 Brasil, Ministério do Trabalho e Emprego. Assédio moral e sexual no trabalho. Brasília, 2010. 44p. Chan et al. 2008. Examining the job-related, psychological, and physical outcomes of workplace sexual harassment: a meta-analytic review. https://doi.org/10.1111/j.1471-6402.2008.00451.x Clancy et al. 2014. Survey of Academic Field Experiences (SAFE): Trainees Report Harassment and Assault. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0102172 IBGE. 2019. Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil. Estudos e Pesquisas-Informação Demográfica e Socioeconômica, n.41. https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/populacao/25844-desigualdades-sociais-porcor-ou-raca.html?=&t=sobre IBGE. 2018. Estatísticas de Gênero - Indicadores sociais das mulheres no Brasil. Estudos e Pesquisas-Informação Demográfica e Socioeconômica, n.38. https://www.ibge.gov.br/estatisticas/multidominio/genero/20163-estatisticas-de-genero-indicadores-sociais-das-mulheres-no-brasil.html?=&t=o-que-e McGuire et al. 2012. Dramatic Improvements and Persistent Challenges for Women Ecologists. https://doi.org/10.1525/bio.2012.62.2.12 . Vídeos: https://www.facebook.com/watch/?v=1223406171198343 Sugestões de leitura: Assédio Moral e Sexual: previna-se. Fonte: Conselho Nacional do Ministério Público, 2016. Assédio Sexual no Trabalho: Perguntas e Respostas. Fonte: Ministério Público do Trabalho, 2017. Violência Sexual é Crime. Você não está sozinha:Denuncie! Fonte: Ministério Público da Bahia. Sobre a autora convidada: Gabriela Lamego é docente do IHAC/UFBA, psicóloga com doutorado em saúde pública e desenvolve atividades de ensino e pesquisa sobre as temáticas de violência, gênero, comunicação e saúde. #assédionão #assédioécrime #nãomecalo #nãoénão #mulheresnaciência #catarinarmarcolin #mulheresembarcadas #mulheresemtrabalhodecampo #vamosjuntas #cláudianamiki #carlaelliff #janamdelfavero #julianaleonel #raquelmoreirasaraiva

  • Brasileira decide continuar sua pesquisa na Europa em meio à pandemia Covid-19

    Por Raquel Saraiva Ilustração: Caia Colla A pesquisadora Fiamma Abreu sonhou por anos com uma experiência fora do país. Após uma tentativa frustrada na graduação, conseguiu ir para Portugal no final do doutorado, para terminar sua tese sob orientação de um pesquisador muito reconhecido em sua área. Isso ocorreu em fevereiro deste ano, quando os casos do novo coronavírus surgiam na Europa. “Lembro de chegar numa quinta-feira, e na quarta-feira seguinte já não pude ir à universidade. Realmente não é fácil lidar com o final de um doutorado, um doutorado sanduíche e uma pandemia”. Ainda assim, Fiamma segue no país europeu. Ela trabalha com oceanografia química, especificamente com o risco dos contaminantes orgânicos anti-incrustantes para o ecossistema. “A minha proposta de trabalho é aplicar uma metodologia utilizada na Europa para qualidade dos corpos d'água do Brasil”. Por sorte, o trabalho de campo acabou ainda no Brasil, na Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e agora Fiamma precisa tratar os dados já coletados. Rotina O contato com o orientador português foi feito pessoalmente nos únicos três dias que ela foi à Universidade de Aveiro, para onde fez a mobilidade. Hoje é mantido por e-mail e telefone, mesmo ambos estando na mesma cidade. Com os colegas de laboratório, a pesquisadora também troca mensagens. “Todos eles foram bem atenciosos comigo, por ter que lidar com a distância e o rompimento das atividades”. A rotina de Fiamma se divide entre fazer tarefas domésticas, escrever a tese e assistir o noticiário. Dividindo uma casa no centro de Aveiro com outras duas portuguesas que trabalham e estudam na universidade, a diversão fica por conta dos filmes que assiste com as meninas da casa, nos jogos e nas conversas na varanda. Ainda assim, com a falta do contato direto mais amplo ela sente que está perdendo uma parte importante do intercâmbio “Um dos meus objetivos era ver de perto como a ciência é feita em outro país”. Além disso, o valor de uma experiência de pesquisa no exterior não está só no laboratório, como já discutimos em um post . Em todos os países da União Européia há restrições. Os museus, parques, centros culturais, restaurantes e lojas estão fechados em Portugal. Fiamma só sai de casa a cada 15 dias, para ir ao mercado. “A experiência cultural de viver em outro país também poderia me enriquecer muito. Não sei quando terei outra oportunidade assim”, lamenta. Ela iria ainda para um congresso internacional em outro país para apresentar os resultados da sua tese, para conhecer os principais cientistas da área na qual trabalha e ampliar a rede de contatos. “O congresso ainda vai ser realizado virtualmente, mas sei que perderei muito dessas vivências”. Volta A responsabilidade de estar no final no doutorado e a chance única de internacionalizar sua tese fizeram Fiamma nem cogitar a volta para o Brasil, além do desconhecimento sobre o novo coronavírus. “Eu não imaginava a proporção que iria tomar”. Além disso, ela defende a tese em agosto, logo após a previsão de seu retorno. “Quero continuar na ciência e a internacionalização atualmente é fundamental para conseguir um pós-doutorado no Brasil. Então acho que não tive muitas escolhas”. Em meio a esse turbilhão, ao menos ela não teve problemas com o recebimento dos cinco meses de bolsa, referente ao período que pretende ficar em Portugal. As três primeiras mensalidades foram depositadas quando ela ainda estava no Brasil, e as últimas parcelas já foram pagas. Entretanto, o órgão financiador da sua pesquisa não enviou nenhuma orientação em relação à pandemia para estudantes brasileiros que estão no exterior. “A minha bolsa é CNPq, e não foi me enviado nada, nem por e-mail, nem pela Plataforma Carlos Chagas”. Na seção de imprensa no seu site, o órgão divulgou um comunicado respondendo a “dúvidas gerais” dos bolsistas. Na página, é recomendado que o estudante entre em contato com a central de atendimento para que seja avaliada a prorrogação da bolsa por até 60 dias para os casos em que a vigência encerrou, mas o estudante não consegue retornar ao Brasil, ou para aqueles que estão no exterior e, por causa da suspensão das atividades acadêmicas, não conseguirão concluir o doutorado no tempo previsto. Apesar de ter medo de problemas na hora de voltar, Fiamma não pretende pedir a prorrogação. “Eu tento não me preocupar muito com isso no momento porque preciso escrever minha tese. Mas, no fundo, sempre ficam as dúvidas”. Apesar de toda frustração, Fiamma reflete que as dificuldades são parte da vida de quem faz pesquisa. “De um modo geral, ser cientista não é fácil. A gente vem lutando para superar barreiras como falta de visibilidade e de recursos. E por isso cada conquista tem um significado bem maior. No final, nossas conquistas vão ser ainda mais gratificantes. Para o futuro, ela não pensa em outra coisa. “O importante para mim é continuar fazendo ciência”. #vidadecientista #covid19 #coronavirus #pandemia #doutoradonoexterior #raquelmsaraiva

  • Conheça o “verme” marinho que pode revolucionar o tratamento contra a Covid-19 e outras doenças

    Por Raquel Saraiva , com colaboração de Maria Isabel Bastos Ilustração: Joana Ho Em meio à profusão de informações tristes sobre o novo coronavírus, algumas notícias nos enchem de esperança, como as que apontam possíveis curas para a pandemia. No último dia 04, uma chamou ainda mais a atenção das(os) cientistas do mar: na França, foram autorizados testes clínicos usando o sangue de um “verme” marinho em pacientes com Covid-19 o que tem a ver um invertebrado com um vírus? Quem é esse “verme” marinho que a gente mal conhece e já é fã? Primeiro vamos dar nome e sobrenome à criatura! O “verme marinho”, como a imprensa vem chamando, é o poliqueta Arenicola marina , encontrado principalmente na Groenlândia e na costa da Europa Ocidental, na Noruega, Sibéria e Islândia. Bentônico , ele habita zonas de baixa profundidade, na região entremarés de praias arenosas e lamacentas, e dentro de estuários e portos abrigados. Os poliquetas são do mesmo filo que as minhocas (Filo Annelida) e, portanto, de verme não têm nada! Além disso, ostentam um corpo que parece molenguinho, mas na verdade é bem articulado, dividido em segmentos! O Arenicola marina escava o sedimento em um buraco em forma de U, e pode ter uma coloração vermelho escura na sua extremidade mais fina (a cabeça), enquanto a outra mais larga tem cor mais clara, amarelada. Sua região anterior tem 6 segmentos com cerdas, seguidos por 12 segmentos com brânquias externas. São hermafroditas (ou seja, macho e fêmea habitam no mesmo corpo) mas trocam gametas durante a reprodução. O Arenicola marina é um poliqueta bentônico e velho conhecido da área médica (Fonte: Wikimedia com licença CC BY-SA 3.0 ) Com o comprimento aproximado de uma caneta, entre 11 cm e 20 cm, mas um pouco mais leve (peso médio entre 3 g e 12 g) e tempo de vida de cerca de 6 anos, o Arenicola em questão é antigo conhecido dos estudos na área médica. Além de ser importante bioindicador e muito usado como isca por pescadores de bacalhau nas ilhas britânicas, o sangue do Arenicola tem uma capacidade enorme de carrear oxigênio. Por isso pesquisadores franceses o vêm estudando pelo menos desde o início dos anos 2000 . "A hemoglobina do Arenicola marina pode transportar 40 vezes mais oxigênio dos pulmões para os tecidos do que a hemoglobina humana", disse o biólogo Gregory Raymond à agência de notícias France Press (AFP). Além disso, como ela não está contida nas células sanguíneas, como a nossa, essa hemoglobina tem a vantagem de ser compatível com todos os tipos de sangue. Diferente da hemoglobina de outros animais, a do Arenicola não induz uma resposta imune e nem reação alérgica. No último dia 04 de abril, a empresa biofarmacêutica francesa Hemarina anunciou que testes clínicos com a molécula Hemo2life foram validados pela Agência Nacional de Segurança de Medicamentos (ANSM), a ANVISA da França, e o Comitê de Proteção de Pessoas (CPP). Essa molécula é exclusivamente a hemoglobina natural do Arenicola isolada. Inicialmente serão feitos testes em 10 pacientes graves, internados em dois hospitais de Paris. A ideia é utilizar a molécula antes que o paciente precise do respirador, que seria então liberado. Este "respirador molecular", é uma "esperança para aliviar as UTIs", comentou Franck Zal, diretor da Hemarina à AFP . Assim, o novo tratamento ajudaria a resolver um dos problemas mais críticos: o uso de ventiladores mecânicos, necessários para pacientes graves do novo coronavírus conseguirem respirar. Tecnologia que vem do mar A empresa Hemarina investiga o uso da hemoglobina do Arenicola desde 2007. O bichinho de menos de 20 cm já vem ajudando a preservar órgãos para transplante, para pacientes com isquemia e hemorragia e também para melhorar a oxigenação de células em cultura. Além disso, outros estudos vêm avaliando o uso da hemoglobina para melhorar a cicatrização de lesões na pele e no tratamento da periodontite. Para criar tantos produtos, a Hemarina conta com um verdadeiro parque tecnológico. Eles cultivam o Arenicola marina em uma fazenda de 13 hectares que conta ainda com área de tratamento de água e berçário. Como ele se reproduz uma vez por ano, a empresa faz fertilização in vitro para garantir uma produção que atenda às pesquisas e produção da empresa. Quando estão crescidos, esses Arenicola são purificados e toda a areia que os animais ingerem é removida. Depois, os animais são congelados e descongelados: assim é criado um choque hemorrágico e a hemoglobina é liberada, para então ser isolada e purificada. Assim como é recomendada muita cautela e paciência para esperar novos resultados e conclusões científicas para o uso de medicamentos como a cloroquina e o atazanavir , no caso de uma molécula animal, as expectativas têm que ser ainda mais baixas. "A cada poucos anos, um novo [composto] parece promissor, mas falha quando chega a testes clínicos", alertou a cientista da transfusão Lorna Williamson, do Serviço Nacional de Sangue da Grã-Bretanha à revista Science ainda em 2003, quando os primeiros estudos sobre a hemoglobina do Arenicola marina eram publicados. “Mesmo que a molécula se mostre segura e eficaz, pode ser difícil produzir em grandes quantidades”, acrescentou o bioquímico John Olson da Rice University, EUA. Ainda assim, imaginem todo o potencial que a vida marinha possui! São algas , bactérias, esponjas e muitos outros organismos com potencial para biotecnologias . Além disso, quantas moléculas de importância médica permanecem ignoradas da biodiversidade que não conhecemos? E tantas outras que podem contribuir com outras áreas do conhecimento? Ter acesso a esse tipo de informação só é possível se o animal é descrito, estudado e apresentado para a comunidade acadêmica. E não existe outro caminho para isso senão através da pesquisa científica, básica e aplicada. Defender a ciência é também defender a tecnologia, a economia e a saúde de um país. Quantos tratamentos deixam de ser descobertos com os golpes que a ciência brasileira vem levando? O que mais estamos perdendo? Fontes: Blood substitute from worms shows promise (Nature, 04/06/2003) Blow lug ( Arenicola marina ) (The Marine Life Information Network) Blow Lugworm (British Sea Fishing) Coronavirus. Cette société bretonne veut lutter contre le Covid-19 grâce à du sang de ver marin ( Ouest-France , 30/03/2020) Hemarina Products (Hemarina) França autoriza teste clínico com sangue de verme marinho em pacientes com Covid-19 (AFP, 04/04/2020) França autoriza teste clínico com sangue de verme marinho em pacientes com covid-19 (UOL Notícias, 04/04/2020) Lugworms, Arenicola marina (Marine Bio) Lugworm (Encyclopædia Britannica, Inc.) #corona #coronavírus #covid19 #poliqueta #bentos #bentônico #arenicola #hemoglobina #biotecnologia #raquelmoreirasaraiva #ciênciasdomar

  • Sororidade nas ciências do mar

    Por Raquel Saraiva Integrantes da SWMS falam como é trabalhar contando com uma rede de apoio entre pesquisadoras. Ilustração por Caia Colla . Ser cientista não é fácil, e nós já abordamos algumas dessas dificuldades aqui no blog. Mas ainda mais complicado é ser pesquisadora em uma sociedade que valoriza cada vez menos a ciência e onde o machismo é normalizado. Para conseguir avançar na pesquisa em condições quase inóspitas, muitas mulheres buscam no apoio de familiares, colegas, professoras e orientadoras o suporte emocional necessário nos momentos de maior dificuldade. Para entender a importância desse amparo, entrevistamos Ana Paula de Martini de Souza e Bruna Fernanda Sobrinho, integrantes da Society for Women in Marine Science (SWMS) no Brasil. A SWMS reúne cientistas de todos os níveis de carreira para discutir as experiências das mulheres nas ciências do mar e promover a visibilidade delas e de seus trabalhos na comunidade acadêmica. Fundada nos Estados Unidos (EUA) em 2014 por um grupo de mulheres do Instituto Oceanográfico Woods Hole (WHOI), desde maio deste ano a SWMS conta com uma filial no Brasil. Vejam como Ana e Bruna começaram a desenvolver pesquisas em paleomagnetismo e algas tóxicas, respectivamente, e como seus caminhos se encontraram na busca de maior reconhecimento das mulheres na ciência. Como vocês se tornaram cientistas marinhas? ( ANA ) Desde pequena, quando visitava a praia, eu ficava intrigada com o mar. Queria conhecer tudo que se escondia dentro daquelas águas misteriosas. Porém nunca imaginei que poderia fazer disso uma profissão, até que um dia eu li em uma revista sobre a profissão de oceanógrafo e decidi que era isso que eu iria fazer. Em 2011, entrei na Universidade Federal do Paraná (UFPR), imaginando que iria trabalhar com a fauna marinha, até descobrir a oceanografia geológica. Encantada com os processos geológicos que moldam o planeta eu comecei a estagiar no Laboratório de Oceanografia Geológica, trabalhando com processos de morfodinâmica costeira. Costumo brincar que o grande divisor de águas que me fez migrar da oceanografia biológica para a geológica foi a contaminação do meu cultivo de copépodes e a consequente morte de toda população. Assim decidi trabalhar com algo menos vivo, como os minerais, rochas e fósseis. A pura curiosidade me trouxe para a área do paleomagnetismo. Desde pequena eu queria saber o porquê das coisas. Como o planeta Terra evoluiu ao longo dos tempos, por que oceanos abrem e fecham, como e quando surgiram as circulações oceânicas e como elas foram evoluindo com o tempo, e nem me deixe começar a falar sobre as variações climáticas! Usando as rochas como livros para o passado, eu vi no paleomagnetismo e nas reconstruções paleoambientais a minha oportunidade de entender a evolução do nosso planeta. ( BRUNA ) Não lembro exatamente em que momento eu escolhi a Oceanografia, acho que foi perto dos 13 anos. Imagina só: uma menina do interior do Paraná, a mais de 700 km do litoral falando que queria virar oceanógrafa. Muitas pessoas não entendiam o que eu faria ou o porquê da minha escolha, e acho que até hoje alguns não entendem. Eu não passei de primeira no vestibular da UFPR, mas passei no curso de Letras na UNIOESTE e resolvi ingressar na faculdade. Durante os primeiros meses, trabalhei como monitora de português e inglês na escola que estudei no ensino médio. Apesar de adorar o trabalho, meu olho não brilhava por gramática ou literatura. Larguei o curso, voltei para o cursinho. Prestei vestibular para Oceanografia e Ciências Biológicas em 2010 e, quando fui aprovada nos dois vestibulares, não tive dúvidas de qual escolher. Não foi fácil sair da casa dos meus pais aos 18 anos, mas acho que para ninguém é fácil. Nunca tive dúvidas de que queria cursar Oceanografia e essa certeza só foi se confirmando durante a faculdade. Apesar de nós oceanógrafos ainda termos pouco reconhecimento e poucas oportunidades de trabalho, eu sou muito feliz pela minha escolha. Totalmente ao acaso eu comecei a trabalhar com a minha atual área de pesquisa. Bati na porta do meu atual orientador, morrendo de vergonha, e perguntei se ele conhecia alguém que trabalhava com produção de biocombustível. Não sei por que queria trabalhar com isso na época. Ele não trabalhava, mas me indicou um cara de uma outra cidade e disse que podia me ajudar. Eu pedi para frequentar o laboratório para ir me acostumando com a rotina de pesquisa. E há 7 anos estou frequentando o laboratório dele só para me acostumar com a rotina! Me apaixonei pelas microalgas quando uma colega falou que “elas podem produzir toxinas, mas não se sabe bem ao certo o porquê”. Gosto muito de trabalhar com algas tóxicas e adoro falar sobre florações de algas nocivas. É só conviver comigo um pouquinho que você vai enjoar de escutar sobre tudo isso. Nestes 7 anos já fiz alguns experimentos testando crescimento e produção de toxinas em diferentes condições ambientais, e ainda tem muitas perguntas que quero responder. Quanto mais conheço, mais curiosa fico! E esse é o ciclo natural na ciência: quanto mais respostas você tem, mais perguntas vão surgindo. Você já sofreu algum tipo de assédio no meio acadêmico por ser mulher? ( ANA ) Felizmente eu não sofri assédio no meio acadêmico por ser mulher. Mas essa é apenas a minha experiência e infelizmente não condiz com a realidade de muitas colegas cientistas. Já presenciei e recebi relatos de colegas de classe em situação de assédio por serem mulheres, já vi amigas desoladas e querendo desistir da carreira por motivos de assédio. Já presenciei professores e coordenadores abafarem denúncias de assédio com a justificativa de que o prosseguimento das denúncias só faria mal às vítimas, desencorajando-as a seguir com os processos. Em vista dessa grande problemática, e reconhecendo a experiência de outras colegas pesquisadoras resolvemos trazer para o Brasil a SWMS, onde queremos criar um canal de comunicação entre mulheres cientistas, nos apoiando e incentivando a ultrapassar os obstáculos. ( BRUNA ) Eu pessoalmente nunca sofri nenhum assédio no meio acadêmico, mas isso não quer dizer que eu nunca vi ou soube sobre colegas que já sofreram. Eu acredito que toda vez que uma mulher é assediada ou passa por qualquer situação constrangedora só por ser mulher, de alguma forma todas nós somos afetadas também. Nós sabemos da realidade das mulheres dentro das universidades brasileiras: ainda somos a minoria entre os docentes e em cargos administrativos. E isso é apenas uma das justificativas que nos motivou a trazer a SWMS para o Brasil, queremos promover maior reconhecimento das nossas cientistas e nos unirmos cada vez mais! O que torna ainda mais difícil a carreira de pesquisadora? ( ANA ) Alcançar o nosso espaço. Às vezes parece que somos como o plâncton que não consegue vencer a correnteza, temos que provar o nosso valor todos os dias. Nossa voz não é ouvida, e sim abafada. Somos desacreditadas não pela nossa pesquisa, mas apenas por sermos mulheres. Enfrentamos assédio sexual, assédio moral, somos constantemente desencorajadas a seguir a carreira científica. Ainda mais desencorajadas quando nos tornamos mães e precisamos provar mais uma vez que a maternidade não nos deixa menos capaz. ( BRUNA ) Se você for mulher, além das dificuldades, a sua estabilidade física e emocional será questionada e testada com uma frequência relativamente alta. Eu acho que a falta de visibilidade, a baixa representatividade docente e em cargos administrativos e o machismo que ainda existe dentro das instituições são apenas alguns exemplos das nossas dificuldades. Ainda somos a minoria entre os bolsistas de produtividade do CNPq, mas por quê? Além disso, se você for mulher, questões banais como preocupação em não usar roupas muito curtas, justas e decotadas em embarques ou até mesmo no cotidiano, serão “comuns” na sua vida. Se você quiser ser mãe ou engravidar durante seu processo de formação, terá mais dificuldade pela frente. E estes são apenas dois exemplos de coisas que nossos colegas homens não precisam se preocupar. Fazer ciência no Brasil, por si só, já é um desafio. É preciso amor pelo que faz e muita força e apoio para não se intimidar com esse cenário que é muitas vezes hostil. E na sua carreira, qual foi a maior dificuldade enfrentada? ( ANA ) Os maiores sufocos na carreira acadêmica estão relacionados ao sucateamento da ciência no país. Os constantes cortes na ciência e educação dificultaram muito a realização da minha pesquisa e das de outras colegas também. Quase não há dinheiro para as saídas de campo, faltam materiais nos laboratórios, há problemas de estruturação dos prédios da faculdade e muitas vezes temos que investir recursos próprios para seguir realizando pesquisa. Acredito que muitos de nós tenham passado pelos mesmos problemas de falta de verba e investimento na pesquisa, mas seguimos adiante pois acreditamos no importante papel da ciência para a sociedade e por que amamos o que fazemos. ( BRUNA ) Acredito que o meu maior sufoco está sendo no presente, e ainda estou aprendendo a lidar com ele. Faço mestrado em Botânica, que é uma área diferente da minha formação, e desde passar no processo seletivo até o momento atual está sendo puro desafio. Pedi prorrogação de dois meses do meu prazo para defender e estou na parte final da escrita. Esta é a parte mais cansativa do trabalho. Apesar de trabalhar com microalgas há um tempo, o meu projeto foi novidade para mim: estou descrevendo uma floração anômala de uma espécie nociva que atingiu a costa sul do Brasil. Embora a temática seja muito divertida e motivadora para mim, ela também é muito desafiadora. Tenho dois orientadores que me ajudam e não poupam esforços para revisar o trabalho, deixar ele incrível e publicável em uma revista de alto impacto. Mas o resultado de tanta correção é que já estou exausta e ainda tem chão pela frente. Tem dias que eu produzo muito e tem dias que não consigo escrever uma única frase. Nestes dias mais difíceis, tento lembrar que isso é uma fase que está acabando e tento aproveitar ao máximo esse momento para fazer outras coisas que não tenham relação com a minha dissertação. Sempre que necessário eu me lembro que a minha saúde física e psicológica é muito mais importante que qualquer título, é muito fácil esquecer isso durante o processo. Como integrar a SWMS te influencia? ( ANA ) Fui criada e ensinada por mulheres fortes e incríveis. Hoje eu sou rodeada de colegas cientistas excepcionais, porém há ainda barreiras que precisamos ultrapassar juntas para ganharmos nosso devido reconhecimento e, acima de tudo, o respeito. A sociedade em si é um movimento especial, no qual temos a oportunidade de conversar e conhecer as dificuldades que outras cientistas ao redor do mundo enfrentam, e como elas superam essas adversidades. É também um local de apoio entre mulheres que estão dispostas a escutar, acolher e ajudar. No Brasil, esse chapter [como a SWMS se refere às filiais] está apenas iniciando, mas contamos com o apoio das fundadoras do movimento, que estão bastante entusiasmadas, e sabemos que juntas podemos ir longe. ( BRUNA ) Apesar da Sociedade ter começado há pouco tempo, fazer parte desse movimento já me apresentou pessoas que não eram do meu convívio e me aproximou mais de algumas amigas. Além do contato com cientistas de diferentes universidades do Brasil, estamos conhecendo cientistas dos outros chapters da Sociedade que se espalham por várias universidades dos EUA e da Nigéria. Apesar das diferenças que temos, vivemos realidades parecidas: o pouco reconhecimento das mulheres dentro da academia. Nós estamos apenas começando, mas temos grandes ideias e isso é muito motivador, tanto profissionalmente quanto pessoalmente. Me sinto inspirada em saber que somos muitas e que estamos trabalhando em prol do mesmo objetivo: buscar maior visibilidade para as mulheres dentro das ciências marinhas. Quais são suas maiores inspirações na ciência? ( ANA ) Eu cito de imediato Sylvia Earle e Lisa Tauxe. A Sylvia, primeiramente por suas ações de conservação ao redor do mundo, por ser a mulher em evidência quando o assunto é a saúde dos nossos oceanos, e por sua paixão e devoção pela conservação. A Lisa Tauxe por ser a grande referência acadêmica na minha área de pesquisa, por ser uma cientista premiada e acessível. Mas acima de tudo, todos os dias eu sou inspirada por amigas mulheres cientistas que estão ultrapassando os obstáculos, alcançando cada vez mais espaço no meio científico, e acima de tudo, apoiando outras mulheres (como eu) a alcançar seus objetivos. ( BRUNA ) Tenho um grupo de colegas cientistas bem inspiradoras, cada uma do seu jeito. Ver as minhas amigas na luta diária, com muito bom humor (às vezes [risos]), saber que sempre arrumamos um tempinho para escutar umas às outras, e que estaremos presentes, nem que seja para reclamar junto e dividir uma cerveja (mesmo que a distância). Isso me motiva muito a “seguir com o barco”, porque sei que não estarei sozinha. Eu também tive algumas professoras durante a graduação que sempre nos motivaram a “falar mais alto” e sempre deixaram as portas abertas para que eu pudesse ir lá contar qualquer ideia ou tomar um café. Quando tivemos a ideia de trazer a Sociedade para o Brasil, corri para a sala delas no Centro de Estudos do Mar (CEM-UFPR) para saber o que elas achavam e se elas queriam se juntar a nós. Elas são o tipo de professora que quero ser. Eu também poderia citar qualquer outra grande cientista que fez um grande trabalho ou teve uma longa carreira com muitas histórias de superação, as quais servem de inspiração para todas. Porém, no dia a dia, quando dá vontade de chutar o balde, quem mais me inspira e motiva é quem caminha junto comigo. Se pudessem dar um conselho para a Ana e a Bruna de dez anos atrás, o que diriam? ( ANA ) Ai, meu Deus!!! Fico emotiva só de pensar... eu diria para ela não ser tão dura consigo mesma e a aprender a contar com os amigos e a sentir o amor das pessoas ao redor. Diria que mares tempestuosos estão no horizonte, mas que aos poucos ela irá aprender a navegá-los. Diria para não se deixar abater com as opiniões dos outros, pois isso tem mais a ver com os problemas deles do que com você mesma. Eu queria poder ajudá-la a se defender diante do assédio moral dentro do meio acadêmico. Eu queria poder abraçá-la durante as crises de ansiedade e depressão, dizer que ela é mais forte do que pensa e que dias melhores virão. ( BRUNA ) A Bruna de dez anos atrás tinha 16 anos e estava se preparando para fazer vestibular para Oceanografia. Eu diria para ela: “Tudo bem você querer ser cientista e fazer um curso que ninguém nunca ouviu falar. Não vai ser fácil, mas essa vai ser a melhor escolha que você poderia ter feito. Você vai conhecer grandes pessoas e aprender muito com elas. De alguma forma, você nunca mais será a Bruna que era e isso te deixará muito feliz. Então, não desanime e persista!” E vou aproveitar e dar um conselho para a Bruna de daqui 10 anos: “Não se esqueça que com 26 anos você queria fazer a diferença na realidade que vivia e lutava pelas coisas que acreditava. Então, não se acomode na sua vida e nas suas próprias conquistas, ainda tem muito que você pode fazer para colaborar”. Nunca se sabe quando vou precisar voltar e ler essa minha frase motivadora para mim mesma [risos]! Quer acompanhar as iniciativas da SWMS Brasil? Siga o perfil @swmsbrasil no Instagram e assine a newsletter! Para mais informações, mande e-mail para swmsbrasil@gmail.com Sobre as entrevistadas Ana Paula de Martini de Souza faz parte da SWMS desde o comecinho! “Na realidade a Bruna Fernanda me procurou quando o chapter brasileiro era apenas uma ideia e começamos a reunir mulheres que sabíamos que iriam apoiar o movimento”. Se graduou em Oceanografia pela UFPR, com graduação sanduíche em San Diego pela Universidade da Califórnia (UCSD). Desde 2018 faz mestrado em Oceanografia pela Universidade de São Paulo (USP). Bruna Fernanda Sobrinho é uma das fundadoras do SWMS Brasil. “Nos tornamos um chapter da SWMS oficial em maio de 2019, mas já estamos nos organizando desde setembro de 2018”. É graduada em Oceanografia pela UFPR e mestranda no Programa de Pós-graduação em Botânica - UFPR. #mulheresnaciência #entrevista #raquelmoreirasaraiva #caiacolla #swms

  • Fazer pesquisa no Brasil não é fácil - e a gente deve falar sobre isso

    Por Raquel Saraiva Cortes orçamentários mostram necessidade da academia levar ciência para a sociedade Ilustração: Joana Ho A vida dos pesquisadores brasileiros nunca foi fácil, mas as expectativas para 2019 são ainda piores. No dia 28 de março, o presidente da república assinou o Decreto 9.741 que bloqueia para todos os ministérios parte dos valores já estabelecidos e aprovados na Lei Orçamentária Anual (LOA). Os cortes são de 24,84% no Ministério da Educação (MEC) e 42,27% no Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC). “Pense se, da noite para o dia, o seu salário fosse reduzido em 30%. Você conseguiria pagar todas as contas e manter seu padrão de vida? Pois esse é o cenário atual das nossas universidades públicas. Como as universidades irão manter pesquisa, ensino e extensão? Quantos sonhos, assim como o meu, correm o risco de serem interrompidos? É frustrante ter chegado até aqui e imaginar que todo o caminho percorrido pode ter sido em vão”, diz Fernanda Bustamante, pesquisadora de citogenética vegetal na UFPE. Divulgação A importância das universidades e seu papel na pesquisa foram bastante explorados pela imprensa nas últimas semanas, além das grandes descobertas feitas no nosso território. “Ciência está em tudo! No remédio, na vacina, no celular, no motor do carro, na preservação da natureza... Ciência é vital para que nosso país se desenvolva de fato e seja capaz de gerar empregos e igualdade social!”, destaca a doutoranda em neurofisiologia pela USP e pela Universidade de Amsterdam, Lívia Clemente. Após o anúncio do governo, fiquei assustada ao ver que muitos brasileiros apoiam os cortes. Ainda pior: muita gente passou a espalhar fotos e notícias, em grande maioria mentirosas, com a intenção de desqualificar a comunidade acadêmica e os trabalhos desenvolvidos por ela. Esse desprezo e a crença nos factóides refletem um profundo desconhecimento do que é produzido e desenvolvido nas universidades públicas. E nós, cientistas, somos responsáveis por isso. Em meio às tantas atividades obrigatórias que temos, divulgar o trabalho para um público não-acadêmico não está entre as prioridades. Imagine um operário de uma fábrica de chocolate tendo que pensar nas receitas, executá-las, cuidar da compra de materiais, de embalar e transportar o produto, cuidar das vendas e atender os clientes. É isso que faz um pesquisador. Trabalhar com ciência requer atuação nas áreas de administração, contabilidade, redação, recursos humanos, matemática e estatística, docência, fluência de leitura e escrita em inglês, conhecimentos básicos de design (para as apresentações e pôsteres), e, em muitos casos, até programação e desenho! O pesquisador tem que aprender sozinho a executar uma série de atividades que normalmente são exigidas de inúmeros profissionais distintos. Em parte por causa do excesso tarefas, a maioria dos pesquisadores não explica nem para familiares e amigos próximos como é sua pesquisa. No entanto, deveria ser regra falar para a sociedade sobre nossas hipóteses, nossos experimentos, nossos resultados e rotinas. Isso certamente gera mais interesse pela área acadêmica e também recruta mais apoiadores a favor das nossas lutas. Além de tudo, se nossos trabalhos são custeados pela sociedade, é nossa obrigação moral dar a ela nossos resultados e mostrar como é o desenvolvimento do trabalho. Diligência O trabalho de pesquisa na pós-graduação demanda uma dedicação absurda e não dá direito a carteira assinada, licença maternidade, 13 º e férias. Até folgas e finais de semana muitas vezes têm que ser “negociados” com o orientador. O dinheiro total da bolsa deve ser devolvido ao governo se o pesquisador não apresenta seu resultado ao final do período determinado, lembra a doutoranda em ecologia Alice Reis, da UFBA. “A bolsa de pesquisa representa o salário da maioria dos pesquisadores do país. Um bolsista não pode ter outro trabalho, é obrigado a prestar 40h semanais em estudo ou pesquisa e não tem esse tempo contabilizado na previdência social. Mas a sociedade, principalmente as famílias de quem escolhe fazer pesquisa, não enxerga o “estudante” como trabalhador”, destaca Alice. Além disso, o ambiente acadêmico é emocionalmente muito desgastante. Na academia eu também vi artigo sendo “roubado”, vi professor humilhar e constranger aluno por motivos fúteis no meio do laboratório, vi orientador ser racista e xenófobo com orientando, vi professor desrespeitar e humilhar candidato durante entrevista para programa de doutorado e vi aluno se machucar feio por falta de equipamento de proteção na faculdade. E é deste ambiente desafiador e muitas vezes inóspito que saem trabalhos importantes e cientistas talentosos. Porque ciência brasileira é muito maior que os problemas que existem na academia. “Chegamos até aqui porque somos resistência”, sintetiza Fernanda Bustamante. “Sabemos que 43% das vagas das universidades públicas são ocupadas por alunos das classes mais pobres , e que 95% da produção científica brasileira advém das universidades públicas, sendo que ocupamos a 13ª posição na produção científica global de um total de mais de 190 países”, ressalta. Tem que ser muito forte para aguentar a academia. E também precisa ter estabilidade emocional, suporte emocional e financeiro da família ou de amigos, além de amar muito o que faz - porque sem amor não se sobrevive nesse ambiente. Nas universidades públicas brasileiras não falta gente talentosa e que ama o trabalho. “Ser pesquisador no Brasil é frustrante”, resume a pesquisadora Luiza Freire, do departamento de Física da UFS. “Estou há 4 meses na Universidade Federal de Sergipe prestando serviço voluntário, porque não há verba e pesquisador não pode parar! Iria trabalhar em um projeto na UFMG, o orçamento da Capes está congelado/cortado!”, desabafa. Luiza trabalhou por dois anos na Bélgica, aprendendo uma técnica em dosimetria das radiações com despesas pagas pela Capes. Conhecendo o que é feito e nas condições em que é feito, é impossível não torcer pelo sucesso dos pesquisadores brasileiros! Lembro de alunos se juntando para comprar um aparelho de Datashow para a universidade. Vi vários aprenderem inglês sozinhos lendo artigos científicos, já que não podiam pagar um curso. Vi estudantes dormirem na universidade por várias vezes porque era o único jeito de estar na faculdade de madrugada para fazer saída para campo! Também vi professor pagar por material da aula prática do próprio bolso. E pagar por passagens de avião para o orientando participar de congresso e para o aluno de outro estado estar presente no enterro da mãe. Vi estudantes de iniciação e de pós passarem a véspera e o Natal no laboratório tocando experimento. Por isso tudo fiquei arrasada vendo as universidades e os pesquisadores serem depreciados por tanta gente. Passou da hora de espalhar o que é fazer ciência no Brasil. Sendo assim, por que continuar pesquisando? Diante deste cenário, fazer essa pergunta é inevitável. Veja o que cientistas de diversas áreas dizem: Entenda os cortes O governo contabiliza um corte, que o ministro da educação Abraham Weintraub insiste em chamar de contingenciamento, de R$ 1,7 bilhão do orçamento de todas as universidades. Isso representa 24,84% dos gastos discricionários ou não-obrigatórios, que são os gastos como água, luz, compra de papel higiênico e produtos de limpeza, pagamento de terceirizados, obras, equipamentos e realização de pesquisas, e 3,43% do orçamento total das federais. As chamadas despesas obrigatórias, como assistência estudantil e pagamento de salários e aposentadorias, não foram afetadas. O MCTIC teve reduzido 42,27% de seu orçamento para despesas de investimento. Segundo organizações científicas e acadêmicas, o “contingenciamento” “inviabiliza o desenvolvimento científico e tecnológico do País”. A afirmação foi feita em carta enviada a autoridades do executivo e do legislativo e assinada pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Academia Brasileira de Ciências (ABC), Conselho Nacional de Secretários Estaduais para Assuntos de CT&I (Consecti), Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap) e o Fórum Nacional de Secretários e Dirigentes Municipais de Ciência, Tecnologia e Inovação. “As novas restrições orçamentárias atingem a integridade do programa de bolsas, fonte da formação de novos pesquisadores desde a criação do CNPQ”, diz a carta, ressaltando que o MCTIC já estava com um orçamento “extremamente reduzido em 2019, devido aos sucessivos cortes dos últimos anos”. A técnica administrativa da UFBA Kelly Rangel concorda. “O corte de verbas não é uma novidade do governo Bolsonaro, mas é o mais perverso, sem dúvidas. Os recursos PROAP da CAPES, que mantém os cursos de pós-graduação, ainda não foram repassados, e assim deixamos de custear a vinda de docentes para bancas, auxílio financeiro para apresentação de trabalho de estudante/docente, e mesmo para compra de material de expediente. Passagens e diárias para convidados em eventos e docentes em bancas de concursos estão suspensas. O tom de preocupação só vem piorando”, diz ela, que atua no curso de mestrado e doutorado em Estudos interdisciplinares sobre Mulheres, Gênero e Feminismo da UFBA. Sugestões de leitura: BORGES, Thaís. Da descoberta do zika vírus a nanopartículas em fungos: conheça a 'balbúrdia' da Ufba . Jornal Correio*, Salvador, 05 mai 2019. ESCOBAR, Helton. Fábricas de conhecimento: O que são, como funcionam e para que servem as universidades públicas de pesquisa . Jornal da USP. São Paulo, 05 abr 2019. FAVERO, Jana. Os efeitos da falta de comunicação da ciência com a sociedade . Bate-papo com Netuno, 09 ago 2018. JOSÉ LOPES, Reinaldo. Universidades públicas produzem mais de 90% da pesquisa do país; resta saber até quando . Folha de S. Paulo. São Paulo, 21 abr 2019. MOURA, Mariluce. Talvez haja uma larga saída à frente. Ciência na Rua. São Paulo, 3 maio 2019. RIGHETTI, Sabine & GAMBA, ESTÊVÃO. Sim, as universidades públicas fazem pesquisas . Folha de S. Paulo. São Paulo, 23 abr 2019. #divulgaçãocientífica #cortes #MEC #pósgraduação #joanaho #raquelmoreirasaraiva #vidadecientista

  • “Não tem como recuperar”

    Por Raquel Moreira Saraiva Incêndio no Museu Nacional deixa gerações de pesquisadores órfãos “Como resgatar um espécime-tipo de uma coleção? Como resgatar algo que foi coletado há 50, 100, 200 anos? Como resgatar 200 anos de acervo?”. O professor da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), Luiz Norberto Weber foi um dos cientistas que ficaram órfãos na noite do último domingo (02 de setembro) com a maior tragédia museológica do país, a destruição do Museu Nacional (MN) no Rio de Janeiro em decorrência de um incêndio. Muitas coleções do Museu foram inteiramente perdidas. “Coleção de mais de 5 milhões de insetos foi embora, não sobrou nada, virou cinza. É um perda de anos e anos de estudo, de depósito em coleção e gasto de energia. Tudo foi reduzido a pó em poucas horas”, afirma Weber. De acordo com a BBC News, circula entre os pesquisadores a informação de que os armários onde ficavam as coleções de insetos se quebraram e foram queimados quando o terceiro andar, onde estavam, desabou. Como muitos cariocas, o primeiro contato do pesquisador com o Museu foi ainda na infância. “Era comum nossos pais nos levarem para a Quinta da Boa Vista. Lá tem um zoológico, também tinha o Museu, e nós frequentávamos o local”. Como estudante de graduação do curso de biologia, Weber voltou ao local como estagiário e, anos depois, como mestrando e doutorando, entre 1994 e 2004. “Geralmente as pessoas vinculam o museu a um acervo associado à exposição pública. Mas o museu também é dotado de vários departamentos e laboratórios vinculados a diversas expertises. Ele também concentra um grande número de coleções científicas e, no meu trabalho, eu estava muito vinculado a pesquisar esses bichos que existem em coleção científica, desenvolvendo pesquisa a partir da observação desses animais”, diz, ressaltando que não poderia desenvolver o mestrado e o doutorado se não tivesse tido acesso às referidas coleções científicas . Perdas As coleções que auxiliaram Weber não sofreram com o incêndio porque ficavam em um prédio anexo ao edifício histórico - As coleções de vertebrados, herbário, alguns meteoritos e fósseis, uma biblioteca de 150 anos com quase 500 mil exemplares e parte da coleção de invertebrados também estão a salvo. O Centro de Microscopia Eletrônica de Varredura (MEV) do Departamento de Invertebrados do Museu Nacional, por outro lado, foi inteiramente destruído. “Quando eu cheguei lá, senti como se tivesse em um pesadelo e fiquei esperando eu despertar. Eu não pude entrar, mas a minha sala [localizada no térreo] tinha janela na fachada e pude ver, mesmo distante, a destruição”, lamenta a técnica do MEV Camila Messias. Estimativas iniciais de pessoas que trabalhavam no Museu indicam que cerca de 90% do acervo pode ter sido perdido. A biblioteca de Antropologia e de Ciências Sociais do museu, o acervo de Línguas Indígenas, com gravações desde 1958 dos cantos em muitas línguas sem falantes vivos, o mapa étnico-histórico-linguístico original com a localização de todas as etnias do Brasil - único registro datado de 1945 - e toda a coleção egípcia teriam sido totalmente destruídos. “Não tem como recuperar, você não recupera uma coleção, você recomeça a partir do zero. É lastimável”, diz o professor Weber. O levantamento e o resgate do acervo que sobreviveu não têm prazo para serem concluídos. Embora a dimensão material da tragédia ainda não tenha sido determinada, pesquisadores lamentam a perda de anos de produção científica, de história e cultura. "Perdemos acervos únicos, história, conhecimento cientifico, anos de dedicação de funcionários e alunos que juntos tornavam o Museu Nacional, com todas as dificuldades, um lugar e de beleza e riqueza sem igual", diz Anaíra Lage, doutora em Zoologia pelo Museu Nacional. Descaso Apesar das reformas e manutenções recentes que o laboratório tinha passado no último mês, Camila Messias conta que a falta de conservação do prédio dava sensação de insegurança. “O Museu era uma bomba relógio. Cheio de coleções com espécimes em líquidos inflamáveis e com a História do Brasil dentro dos muros. Foi um ataque a nossa cultura”.  Segundo levantamento feito pelo jornal El País, atualmente o Poder Executivo investe mais na lavagem dos 83 carros oficiais da Câmara dos Deputados e na manutenção do Palácio da Alvorada, que está desocupado, de que os cerca de R$ 206 mil que estavam destinados ao MN em 2018 - há cinco anos esse orçamento flutuava entre R$ 1 milhão e R$ 1,9 milhão anualmente. De 2015 para cá, além do orçamento cada vez mais minguado, só 2 dos 49 parlamentares do RJ demonstraram preocupação em angariar recursos para o Museu Nacional .  O descaso com o Museu, segundo as fontes ouvidas pelo Bate-papo com Netuno, é antigo e conhecido pelos alunos, professores e funcionários que ali conviviam. “Existe um descaso com a cultura, a ciência e o conhecimento no Brasil. É impressionante, isso parece até um projeto político, com relação à cultura e conhecimento em ciência”, diz Weber. “Apesar de todos os percalços, o museu era abraçado por quem estudava lá e por quem era vinculado como funcionário”, acrescenta Weber. “Para a maioria dos estudantes o museu era como uma casa, afinal, muitos passavam mais tempo no museu que nas suas próprias casas. No MN as coleções eram um pedacinho da gente, e cada um, a seu jeito, cuidava para preservar o que tinha ali”, conta a doutoranda do Museu Nacional Anaíra Lage. Ela defendeu a tese na última sexta-feira (31) e perdeu toda a papelada no incêndio.  “Os documentos da minha defesa e a tese impressa foram queimados junto com a secretaria da pós-graduação. Agora é aguardar a PPGZOO se reorganizar para darmos continuidade ao trabalhos da casa. Mas isso é o de menos. A dedicação dos funcionários é destacada pela técnica Camila Messias, que também era estudante de Ciências Biológicas da UFRJ. “Muitos professores tiravam dinheiro do próprio bolso, criaram dívidas, para aumentar suas coleções viajando pelo mundo. Pessoas deixaram famílias para se dedicar ao Museu e à pesquisa” Além da omissão do poder público, o desconhecimento do Museu e da sua importância entre os brasileiros ficou evidente com a tragédia. O Museu não entrava no roteiro dos turistas que visitavam o Rio e, mesmo entre os cariocas, não é difícil encontrar quem nunca tenha visitado o local. "Os motoristas de Uber que me levavam ou me buscavam lá sempre comentavam que iam ao Parque Municipal Quinta Da Boa Vista, mas que nunca tinham entrado no Museu. Os brasileiros não têm a mínima noção do que perderam", diz Cristina Branco, que desenvolveu o projeto do doutorado no Museu e hoje faz pós-doutorado no Smisthsonian Museum, em Washington DC. Memórias Pesquisadores do mundo inteiro visitavam o Museu para desenvolver suas pesquisas nos mais diversos campos do conhecimento, como antropologia, paleontologia, oceanografia, biologia e história. “Cada item na coleção fez parte da construção do que temos de conhecimento hoje. Muitos outros fariam parte se tivesse tido tempo de serem estudados”, ressalta Camila Messias. “Embora vários alunos e ex-alunos meus não conhecessem o museu fisicamente, eles conheceram através de mim. Ao passar informações e conhecimento, de certa maneira todo mundo que passou pelo Museu é um apêndice, como se fosse um meio replicador de todo o conhecimento adquirido lá. E não vai ser mais possível fazer isso”, lamenta Weber. Quem visitou o Museu ao menos uma vez certamente tem alguma boa lembrança: o imponente prédio histórico, as exposições e as coleções científicas impressionavam os visitantes novos e não deixavam de encantar os velhos conhecidos. “Andar no museu era um retorno ao passado, era gratificante poder andar por aquelas escadarias, corredores e adentrar os laboratórios, que infelizmente não existem mais... Aquele referencial físico que eu tinha do museu acabou”, diz Weber. Colaboração:  Gabrielle Souza Sugestões de leitura: “Museu Nacional: De dinossauros nunca identificados a línguas extintas, o que a ciência perde com o incêndio” por Camilla Costa, BBC News Brasil. https://www.bbc.com/portuguese/amp/brasil-45404257#click=https://t.co/dhfYG32wYT "Hope emerges for Brazil museum specimens after devastating fire", por Reinaldo José Lopes, Nature. https://www.nature.com/articles/d41586-018-06192-9 "Orçamento para lavar carros de deputados é quase três vezes maior que o do Museu Nacional", por Afonso Benites, El País. https://brasil.elpais.com/brasil/2018/09/04/politica/1536015210_491341.amp.html Entrevistados: Cristiana Castello Branco faz pós doutorado em sistemática e estuda esponjas de mar profundo. Fez graduação e mestrado na UFBA e doutorado no Rio de Janeiro. Passou 4 anos frequentando o Museu quase diariamente e fica feliz de ter levado os pais para conhecer o local e as coleções expostas. Luiz Norberto Weber desenvolve pesquisas de taxonomia de anfíbios. Professor da UFSB, ele começou a carreira como estagiário do setor de paleontologia do Museu. Carioca, Weber mora em Porto Seguro (BA) mas ia ao Museu matar a saudade toda vez que visitava o Rio. Camila Simões Martins de Aguiar Messias, é técnica de laboratório do Centro de Microscopia Eletrônica de Varredura do Departamento de Invertebrados do Museu Nacional e estudante de Biologia da UFRJ. Ela acredita que o incêndio foi um ataque a todos que fazem ciência e que poderia ter sido evitado. Ela trabalhava no Museu desde 2014. Anaíra Lage trabalha com esponjas e defendeu o doutorado no Museu no último dia 31. A última visita à coleção ela fez em junho, na inauguração da exposição sobre os Corais e os 200 anos do Museu. "A ala inaugurada estava linda, cheia de detalhes nos quais era possível ver a dedicação e o carinho que a exposição foi pensada e montada para o público", lembra. #vidadecientista #museunacional #gabriellesouza #raquelmoreirasaraiva #riodejaneiro #incêndio #entrevista

  • Sobre mudar a rota de navegação

    Por Raquel Moreira Saraiva Ilustração: Joana Ho Mudar de carreira não é fácil - bom, pelo menos assim eu pensava quando resolvi abandonar minha carreira na fisiologia animal para encarar uma nova graduação em jornalismo. Grandes mudanças são sempre muito difíceis de encarar. E se elas não nos são impostas pelas circunstâncias da vida, mas partem de uma insatisfação nossa, acho que são ainda mais complicadas. Quem nunca pensou em como seria se tivesse escolhido outra carreira? Passei muitos anos refletindo sobre isso - eventualmente e sem compromisso. Tomar a decisão de mudar foi, para mim, a parte mais difícil da mudança. Encarar o medo de voltar para os estudos de pré-vestibular, de falhar no Enem e medo de estar tomando a decisão errada custou muitas noites insone, muito choro e ansiedade. Decidi pela biologia aos 17 anos. Gostava de embriologia e fisiologia, fantasiava uma carreira na ciência ou no jornalismo científico. Decidi, assim, optar pela área de saúde. Ingressei no curso e descobri aos poucos como era na realidade aquela vida que eu tinha idealizado. Eu poderia listar os problemas da academia e da vida de professor e assim justificar minha mudança. Mas seria injusto. Todos sabemos que qualquer profissão tem seus louros e agruras. Se você gosta do que faz, os louros pesam mais na balança. Eu via muitos profissionais, alguns passando por mais dificuldades que eu, super felizes nos seus laboratórios e no campo - e não entendia como aquilo era possível. Tentei ‘resolver’ minha insatisfação várias vezes. Foram anos de conversas com amigos, com meus pais, procurei ajuda na psicologia e na religião. No mestrado, escolhi trabalhar na área que sempre gostei e com uma orientadora que, além de super competente, era educada, prestativa e gentil. E sou muito feliz pelo trabalho que desenvolvemos juntas. Também fui muito, muito feliz no ano que fui monitora e, anos depois, professora substituta de Fisiologia Animal na UFBA. O Facebook me lembrou essa semana uma publicação que fiz nesse período, quando lecionava. “Minha profissão é a melhor do mundo”, eu escrevi. Foi bom para lembrar dos momentos que curti minha profissão de bióloga. E eu estive feliz em muitos momentos, principalmente na sala de aula. Mas no restante do tempo eu estava insegura e detestava minha rotina. Lembro de um pensamento que era recorrente "vou ser feliz quando eu estiver no mestrado" ou "vou ser feliz quando eu publicar meu artigo do mestrado"... bom, a “felicidade plena” que eu tanto esperei nunca veio - na verdade, ela se limitava a pequenas alegrias com as vitórias que eu tinha. Hoje, mesmo quando estou chateada com algo no curso ou em relação à profissão, eu estou feliz e tenho consciência disso em todos os momentos.  Achei que o recomeço seria difícil - e está sendo. Mas é muito mais gostoso que difícil. Levei muito tempo para me convencer que eu não estava satisfeita e que jamais seria naquela carreira - insight óbvio que só veio com a maturidade. Eu aprendi que a gente tem que ser feliz agora - fazemos planos futuros para a vida pessoal, para a carreira, mas a felicidade deve ser vivida diariamente. Uma frase que não sai da minha cabeça é um verso da música Beautiful Boy, de John Lennon: “ Life is what happens to you while you’re busy making other plans” (A vida é o que acontece enquanto você está ocupado fazendo outros planos). Eu ouvi meu coração. Mas não só isso. Tenho muitos amigos próximos que são jornalistas, então conhecia relativamente bem a rotina da profissão. Também procurei ajuda com uma psicóloga que, por sinal, tinha se graduado e feito mestrado em veterinária antes de estudar psicologia, e ela também foi muito importante para me ajudar a enfrentar a mudança. Assumir que jornalismo era mesmo o amor da minha vida foi fácil. Mesmo a área sendo complicada (vide as dezenas de passaralhos [demissões em massa] nas redações nos últimos meses). Sabendo que seria complicado lidar com as opiniões de pessoas próximas ("por que não faz medicina?", "acho que relações internacionais é melhor", “tem que ser forte para aguentar a carreira acadêmica”), compartilhei a novidade apenas depois da minha aprovação na UFBA. Sei que sou privilegiada por ter tido a possibilidade de mudar - por uma série de fatores, muitos não podem fazer isso. Um fator importante foi me sentir amparada e acolhida. Eu contei com apoio da minha família, de meu marido e de poucos amigos mais íntimos. Pessoas que não questionaram minha escolha ao ver meus olhos brilharem e não mediram esforços para me ajudar. Isso foi fundamental para me dar forças para prosseguir na busca do meu sonho. Não me arrependo de ter feito a mudança beirando os 30. Começar um outro curso com mais maturidade é maravilhoso, sinto que estou aproveitando muito mais a nova graduação, com menos medo e fazendo escolhas mais conscientes. A graduação em biologia e o mestrado com toxinologia me ajudaram a escrever de forma mais objetiva e clara, além de terem me dado uma boa bagagem para discutir temas ligados à saúde - como tenho feito aqui no blog com a divulgação científica. Por isso, sinto que estou fazendo o curso de jornalismo na hora certa. E quem sabe não enveredo pelo jornalismo científico um dia? Hoje eu faço planos e penso nas mil (maravilhosas) possibilidades que a carreira me oferece, não me esquivo de falar sobre o jornalismo em qualquer lugar que esteja, não reclamo de ter que fazer coisas do trabalho ou da faculdade tarde da noite ou de madrugada nos finais de semana… pela primeira vez eu estou amando fazer o que faço. O jornalismo é parte da minha vida e não apenas uma profissão. E eu amo viver isso. É bom realizar sonhos e também ter consciência de estar realizando-os. Desfrutar de cada momento, por mais irrelevante que pareça - para os outros. Porque eu sei o quanto sonhei em estar aqui, e não quero deixar nada passar em vão. Sobre Raquel: Estudante de jornalismo, bióloga (2010) e mestre em Zoologia (2014). Trabalhou com neurociências, fisiologia animal e toxinologia. Hoje realiza o sonho de estudar jornalismo, é apaixonada por todas as áreas da comunicação, está no quarto semestre do curso na UFBA e feliz da vida se dedicando ao estágio na redação de um jornal. É editora do blog Bate-Papo com Netuno desde 2016. #carreira #jornalismocientifico #raquelmoreirasaraiva #vidadecientista

  • Discussão científica na mesa do bar

    Por Raquel Moreira Saraiva Quem imaginaria um bar lotado para ouvir palestra de um pesquisador numa noite de segunda-feira? Isso aconteceu em várias cidades dos 11 países que sediaram o Pint of Science em 2017, ocorrido nos dias 15, 16 e 17 de maio. O festival, que começou na Inglaterra em 2013, acontece no Brasil desde 2015 e chegou a Salvador (BA) este ano.  No dia da estréia, a conversa sobre “História Ambiental da Baía de Todos os Santos” foi comandada pelo professor Eduardo Mendes, do Instituto de Biologia da UFBA, no Caranguejo do Porto, bar localizado na Barra. O pesquisador abordou aspectos econômicos, históricos e naturais de Salvador para explicar a trajetória da Baía de Todos os Santos (BTS), desde a chegada dos portugueses à região, no ano de 1.501, até os dias atuais. A BTS é a segunda maior baía do litoral brasileiro, com 1.233 km², e a única a possuir uma extensão expressiva de recifes de coral, além de estuários e manguezais. As características geológicas da BTS a tornam de fácil navegação, o que facilitou o desenvolvimento econômico da região através do acesso de embarcações de médio e grande porte. Por outro lado, a atividade portuária intensa é um dos principais fatores causadores de impacto ambiental na BTS, como ressaltou o professor no Pint of Science.  O acidente geográfico que caracteriza a BTS resulta principalmente de atividade tectônica e confere à região uma paisagem encantadora. Além disso, o clima tropical e a grande diversidade natural que compõe o sistema bentônico costeiro fazem de Salvador um importante pólo turístico e atrai cada vez mais o turismo de natureza, ou “ecoturismo”. A atividade humana, entretanto, tem gerado poluição e invasão de espécies exóticas, dois dos maiores problemas ambientais que a BTS tem enfrentado. Eduardo Mendes ressaltou a falta de atuação do poder público para reverter ou mesmo amenizar o quadro. Francisco Barros, professor do Instituto de Biologia da UFBA, prestigiou o evento e ressaltou que a popularização da ciência através de iniciativas como o Pint of Science é de extrema importância para conscientizar a população e para que medidas profícuas sejam tomadas em relação à preservação ambiental “O poder público quer o que a população quer. Se nós não estivermos bem informados, não temos muita chance de pressionar o poder público”. No Brasil, a comunicação científica ainda se concentra nos periódicos acadêmicos, que disseminam os resultados das pesquisas para os pares. As iniciativas de popularização da ciência, por sua vez, em geral se restringem a museus e estão atreladas a incentivos governamentais. Nesse cenário, o Pint of Science inova ao levar o conhecimento gerado na academia a um ambiente informal em um evento aberto ao público. Em 2017, o Pint of Science aconteceu em 22 cidades brasileiras, incluindo Salvador (BA), Teresina (PI) e Goiás (GO). Um evento como este tem grande importância e significado, especialmente nas regiões cientificamente menos tradicionais. Embora tanto o número de publicações quanto as redes colaborativas venham aumentando nos últimos anos, a hegemonia da produção científica nacional está longe de ser reduzida. O pesquisador Otávio Sidone, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP, mostrou em um trabalho publicado no ano passado que, no período entre 2007 e 2009, sete universidades das regiões sul e sudeste foram responsáveis por mais da metade dos produtos científicos do Brasil. Essas regiões concentram não só universidades e institutos de pesquisa consolidados, mas também recursos humanos e financeiros. De acordo com Lima e colaboradores, em trabalho publicado em 2008, a descentralização do conhecimento gerado nas universidades e centros de pesquisa contribui inclusive para criar condição de ascensão social através da apropriação de conhecimento pela população, o que tem significado ainda mais importante no contexto de desigualdade social que o país apresenta. A linguagem acessível permitiu a compreensão da fala do professor Eduardo Mendes até para quem não é da área de biológicas. Cleiton Lima, servidor público da área de tecnologia e mestrando em Ciências da Computação, foi convidado para a palestra sobre a Baía de Todos os Santos por amigos, e avaliou a experiência como muito positiva “Eu acho que a relação da academia com a sociedade é muito distante, e eventos como esse fazem com que as pessoas despertem para temas que são importantes de discutir mas que estão enclausurados na universidade”. O evento parece ter cumprido seu papel. O garçom Vinícius de Lima se surpreendeu com o comportamento do público “Normalmente o salão é bem barulhento, e hoje, mesmo cheio, tava silencioso”. Vinícius disse que, por causa do trabalho, ouviu muito pouco da palestra, “mas gostei bastante do que ouvi, amanhã vou tentar prestar mais atenção”. Ana Leonor, professora da Faculdade de Farmácia da UFBA, participou da produção do evento e ressalta que basta estar no local para participar do Pint of Science “Mesmo o cara que tava em uma mesa no cantinho e nem sabia do evento, escuta e se interessa. Assim o senso crítico da população é estimulado”. Não só a comunidade não-acadêmica ganha com o evento. Antônio Dórea, estudante de mestrado de ecologia na UFBA, destaca que eventos como esse enriquecem também quem faz a ciência “A discussão que surge nesses ambientes, com pessoas diferentes, de outras áreas e com pontos de vista diferentes, pode abrir nossas mentes inclusive para a prática científica”.  Cleiton Lima já faz planos de assistir nos próximos anos e até de participar como palestrante “A partir de hoje me considero parte do evento. Eu gostaria de trazer o conceito de inteligência natural para o público entender como a matemática pode participar do dia a dia”. O professor Francisco Barros faz uma ressalva: “Vou fazer de tudo para participar nos próximos dias, mas não sei se consigo tomar outra cerveja durante a semana”.  A produção do evento também avaliou a estreia como um sucesso. “O público aderiu e a discussão fluiu bem, a tendência é isso aumentar cada vez mais”, disse Ana Leonor. Um brinde ao sucesso da ciência no bar! Para saber mais: Baía de todos os santos Aspectos oceanográficos Vanessa Hatje Jailson B. de Andrade Brasil turbina produção de mestres e doutores fora do eixo Rio-São Paulo Ensino, pesquisa e extensão universitária Popularization of Science in Brazil: getting onto the public agenda, but how? Márcia Tait Lima, Ednalva Felix das Neves, Renato Dagnino Pint of Science #bahia #baiadetodosossantos #mesadebar #pintofscience #raquelmoreirasaraiva #salvador #ufba #vidadecientista

  • 10 animais marinhos que inspiraram pokémons

    Por Raquel Moreira Saraiva Já perceberam que a realidade sempre é utilizada como referência para a representação de seres da ficção? Seja em filmes, games ou em desenhos-animados, parece que a natureza já é criativa de tal forma que é mais fácil para os desenhistas ou roteiristas modificarem aquele modelo que conhecemos. A figura exótica da tela (ou dos quadrinhos) pode ter sido inspirada em um animal trivial. Em alguns casos, o modelo assustador da realidade é transformado em uma figura fofa na ficção. Em outros, até as relações ecológicas existentes no mar são mantidas na fantasia. Com a febre que o jogo Pokémon Go se tornou em 2016, nós pensamos em mostrar como seriam alguns pokémons na vida real. Conheça agora 10 animais marinhos que inspiraram pokémons! 1. Mantine > Raia Manta Cara de um, focinho do outro. Assim como as raias, o Mantine é um pokémon com corpo achatado dorsoventralmente e nadadeiras  longas que parecem continuar o corpo. Até as antenas do Mantine se assemelham aos lobos cefálicos da raia Manta! As raias são muito próximas filogeneticamente dos tubarões - ambos são da subclasse Elasmobranchii; mas as fendas branquiais, que são laterais nos tubarões, são localizadas no ventre das raias devido ao seu formato achatado. A água que entra pela boca da raia sai através das fendas branquiais, passando antes pelas brânquias, onde ocorre a troca gasosa. Além das semelhanças morfológicas, o comportamento das raias mantas e do Mantine é bem parecido: mesmo pelágicos, ambos conseguem “voar”! Mais precisamente, as raias manta conseguem executar saltos de quase 3 metros de altura sobre a coluna d’água! As razões para esses saltos não são bem compreendidas - os pesquisadores sugerem que as raias mantas saltam para realizar o parto, como parte do comportamento de corte, para se divertir ou retirar as rêmoras (veja o próximo pokémon, digo, o próximo animal da lista) do dorso. Embora a acrobacia dos saltos seja encantadora (veja neste link as raias mantas saltando), os “pousos” são mais desajeitados - a “barrigada” que as raias mantas dão no mar criam um barulho tão alto que pode ser percebido a longas distâncias por outros indivíduos - e assim elas se comunicam umas com as outras. 2. Remoraid > Rêmora O Mantine tem uma relação interessante de comensalismo com outro pokémon: o Remoraid. A mesma relação que a rêmora possui com diversos organismos marinhos, dentre eles (advinhem) a raia manta! O Remoraid, assim como a rêmora (será que os nomes parecidos são coincidência?), pegava carona nas nadadeiras do Mantine, bem como a rêmora nas raias, tubarões e tartarugas. As nadadeiras do Remoraid e sua relação simbiótica com o Mantine são suas únicas características que remetem à rêmora. Diferentemente do pokémon, a rêmora tem a nadadeira dorsal modificada em uma ventosa. Assim o animal consegue se aderir aos outros animais, viajar por longas distâncias sem mover um músculo e ainda aproveita as sobras da alimentação do hospedeiro. 3. Octillery > Polvo O Remoraid, quando evolui, dá origem ao Octillery (haja mutação para gerar tantas modificações anatômicas, hein?). Tanto o pokemón quanto o cefalópode têm o corpo constituído por uma cabeça de onde partem oito tentáculos. Diversas ventosas são distribuídas ventralmente em ambos. Enquanto a boca do Octillery é localizada frontalmente na cabeça do pokémon, a boca dos polvos é localizada ventralmente, no meio da coroa de tentáculos. Além disso, os polvos têm na boca um bico rígido, diferente da boca em formato de sifão do Octillery. Ambos são marinhos e, quando em perigo, soltam tinta para confundir o predador. 4. Horsea > Cavalo-marinho O Horsea e suas formas evoluídas (Seadra e Kingdra) são pokémons de água que são a cara - e o corpo - dos cavalos-marinhos. Cabeça alongada com filamentos (lembrando a crina de um cavalo), boca localizada na extremidade do focinho tubular, natação com o corpo na vertical e até o cuidado dos ovos é igual - diferente do usual no reino animal e pokémônico, os machos que os carregam, não as fêmeas. A diferença entre eles está na velocidade de locomoção: os cavalos-marinhos são considerados um dos peixes mais lentos dos oceanos, enquanto o Horsea e suas evoluções nadam super rápido (para saber mais sobre cavalos-marinhos leia nosso post “ Querida, estou grávido! ”). 5. Gyarados e Dratini > Peixe-remo O peixe-remo ( Regalecus glesne ) pode chegar a mais de 10 m de comprimento, tem corpo serpentiforme e se move como uma cobra. Ele nada verticalmente, diferente dos pokémons Gyarados e Dratini - a não ser quando se encontra em águas rasas. O peixe-remo assusta pelo seu tamanho, e deu origem a várias lendas antigas sobre serpentes marinhas que afundavam embarcações. Aparentemente, as lendas sobre o peixe-remo inspiraram o Gyarados: este pokémon com cara de mau tem temperamento feroz e tendência a destruição desenfreada. No entanto,  o peixe-remo é inofensivo e raramente visto  - além de bons camufladores, eles vivem entre 150 e 300 m de profundidade. Até o ano passado, haviam sido registradas apenas cerca de 500 observações deste animal. Assim, o peixe-remo se assemelha mais ao Dratini: inicialmente, pensava-se que era um mito, mas o Dratini foi encontrado vivendo em águas profundas. E aí, qual dos dois você acha que se assemelha mais ao peixe-remo? 6. Parasect > Caranguejo-eremita Os caranguejos-eremitas são bastante conhecidos por andarem carregando uma concha de molusco abandonada ou outras estruturas semelhantes. Além de servir de abrigo, isso possibilita que estes animais protejam seu abdômen que é bastante mole. Para aumentar a proteção contra predadores, alguns membros do táxon Paguroidea, ao qual os caranguejos-eremitas pertencem, transportam anêmonas. Assim, além da proteção física da concha, eles ganham a proteção química das toxinas dos tentáculos da anêmona! O pokémon Parasect, por sua vez, carrega um cogumelo que também produz toxinas. Entretanto, o Parasect é parasitado pelo fungo, enquanto os Paguroidea têm relação de protocooperação com as anêmonas que carregam sobre a concha.   7. Gorebyss > Rhinochimaeridae O nome Rhinochimaera vem do grego rhinos = nariz e do latim chimaera = monstro marinho. Os peixes desse gênero possuem um focinho estreito e pontiagudo e um corpo alongado, muito semelhante ao Gorebyss. A diferença é a fofura: enquanto o peixe, como outros animais de zonas abissais (peixes do gênero Rhinochimaera vivem entre 300 e 1500 m de profundidade), têm uma aparência singular, o Gorebyss poderia facilmente pertencer ao que chamamos de fauna carismática (leia mais sobre isso no nosso post “ Quem estuda o feio, bonito lhe parece ”) - note que o espinho do peixe foi transformado em uma delicada e flexível projeção na cabeça do pokémon. 8. Staryu > Estrelas-do-mar Tanto o pokémon Staryu quanto as estrelas-do-mar possuem cinco braços. Se o animal ou o pokémon, que também é marinho, perdem um dos apêndices, outro cresce a partir do disco central - e, no caso das estrelas-do-mar, uma nova estrela pode se desenvolver a partir do braço cortado, processo chamado de reprodução assexuada. Neste disco há um núcleo que parece uma jóia vermelha no Staryu. Analogamente, as estrelas-do-mar possuem em sua superfície aboral o madreporito, uma abertura calcárea por onde passa a água para o sistema ambulacral dos echinodermatas. O núcleo do Staryu pode piscar, o que indica uma ligação do pokémon com as estrelas do céu. Então será que podemos fazer um paralelo com o madreporito das estrelas-do-mar e afirmar que ele indica uma ligação íntima do interior do animal com os oceanos? 9. Shellos > Nudibrânquios Os nudibrânquios são moluscos que possuem uma riqueza de cores no corpo incrível! Isso lhes permite uma camuflagem eficiente nos recifes de coral, onde eles vivem. O pokémon Shellos é idêntico ao Chromodoris lochi, uma espécie de nudibrânquio que ocorre no Indo-Pacifíco. Além do formato achatado e ondulado e da cor do corpo, ambos possuem um par de “antenas” (rinóforos), que são estruturas sensoriais que ajudam a guiar este molusco através da percepção química do ambiente. As “asinhas” do Shellos são na verdade brânquias que ficam “desprotegidas” no dorso dos nudibrânquios - daí o nome do grupo. 10. Stunfisk > Peixe stargazer O peixe stargazer é um dos animais com aparência mais exótica do fundo do mar! Normalmente ele fica escondido na areia - mas fica observando tudo com seus olhos que são localizados no topo da cabeça do animal, e não lateralmente, como na maioria dos peixes. O Stunfisk , com seu corpo largo, achatado e marrom, é o próprio stargazer - no entanto, suas nadadeiras podem bater como asas para fazer o pokemón se locomover pelo ar, coisa que esse peixe não faz, e sua boca é uma espécie de bico.   O Stunfisk também gosta de se enterrar, mas mais perto da praia, e não em águas profundas como o peixe. Quando desavisados pisam no pokémon, são eletrocutados por ele, que sorri enquanto dispara a carga elétrica. Bastante semelhante ao peixe, que além de espinhos venenosos perto das suas nadadeiras, consegue dar choques de até 50 volts. Mas ele não sorri enquanto o faz. A natureza serve de inspiração para a arte. Muitos elementos da ficção baseiam-se na vida real. É interessante observar que, ainda mais encantadores que os pokémons, os organismos que vivem ao nosso redor têm uma riqueza incrível de formas e comportamentos! Nesse texto, 10 comparações foram feitas, mas muitas outras existem. E você, lembra de algum outro pokémon, personagem de HQ, de série ou de filme que se assemelhe a animais marinhos? Comente! Para saber mais: 12 horror films that reveal Mother Nature's evil side - Mother Nature Network Bulbapedia (enciclopédia sobre Pokémon)   Como vivem os peixes de mar profundo - Revista Mundo Estranho Graham Hawkes: A flight through the ocean - TED Watch these fabulous flying rays (vídeo) - BBC #animaismarinhos #pokemóns #ciênciasdomar #raquelmoreirasaraiva

  • A divulgação científica tem o papel fundamental de explicitar o que está acontecendo no nosso mundo

    Entrevista com Mariluce Moura por Raquel Saraiva Ilustração de Caia Colla Resultados de pesquisas científicas de grande interesse do público eventualmente transbordam dos veículos especializados e alcançam veículos de grande circulação. Com a epidemia do zika,  a demanda por dados que explicassem os efeitos do vírus eram urgentes. Nesse contexto, um estudo desenvolvido por pesquisadores da UFRJ e do Instituto D’Or demonstrou os efeitos devastadores do vírus sobre células neurais.  Os resultados do trabalho seguiram o caminho contrário da conduta científica usual e foram divulgados na Folha de SP no artigo “ Em testes, vírus da zika ataca neurônios humanos ” antes da publicação em uma revista científica. Embora a OMS recomende em casos de emergência a divulgação dos dados mesmo antes da publicação da pesquisa em periódico especializado, a “novidade” gerou estranheza e críticas na comunidade científica. Esse e outros temas tem trazido a ciência brasileira para os holofotes da imprensa. Não só pelos resultados, avanços e inovações, mas por polêmicas que envolvem o próprio fazer científico. Recentemente, após declaração nefasta do governador Geraldo Alckmin, discutimos aqui no blog a importância da ciência básica, e a destruição do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação no post “ Ciência nada básica ”. Além destas discussões vigentes, outras questões nunca saem da pauta; elas requerem - e tem tido - nossa atenção. Por exemplo, a atuação das mulheres na ciência! Na seção Mulheres na Ciência sempre discutimos questões que estão envolvidas no plano pessoal e profissional da atuação das mulheres no meio acadêmico, desde maternidade (leia O filho que concorreu com a ciência e empatou ), a influência do gênero na carreira ( O sexo realmente importa? ), até estupro ( Tragédias também ocorrem no paraíso ). Biólogos e oceanógrafos sempre discutem estes e outros temas aqui no blog. Desta vez, convidamos uma jornalista científica para uma entrevista. Profunda conhecedora (de prática e de teoria) da divulgação científica, a profa. Dra. Mariluce Moura, cuja trajetória no ramo se confunde com a própria história da divulgação científica no Brasil nas últimas décadas. Mariluce foi presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Científico, é pesquisadora colaboradora do LabJor (Unicamp), centro de referência da América Latina para estudos e formação de profissionais em divulgação científica, trabalhou como assessora de imprensa e coordenadora de comunicação do CNPq e foi assessora e diretora científica da Fapesp. A jornalista, graduada pela UFBA, também foi a mentora e dirigiu, no período de 1995 a 2014, a mais prestigiada revista científica brasileira, a Pesquisa Fapesp . Atualmente Mariluce é professora da Faculdade de Comunicação da UFBA e coordenadora do projeto Ciência na Rua ( ciencianarua.net ), blog voltado para a divulgação científica para jovens de 14 a 25 anos. Com a Palavra, Mariluce! Bate-papo com Netuno: Qual a importância da divulgação científica para a sociedade brasileira? Mariluce Moura: É vital! A ciência e a tecnologia são dois dos pilares da estruturação econômica da sociedade. Aliás, não só econômica. A sociedade contemporânea é estruturada sobre o conhecimento científico. Algumas reflexões filosóficas dizem que hoje, se a gente pensar por exemplo no Ciclo Mutações que vai acontecer na UFBA de 03/10 a 25/11, o mundo hoje é um mundo em mutação. O rumo das coisas tem sido muito mais determinado, para bem e para o mal, pelos fatos científicos do que pelas reflexões, pela atividade do pensamento, pelo refletir profundamente sobre para onde vamos e como caminhamos. Assim como os fatos científicos, as descobertas científicas e as tecnologias, as inovações constituem de modo tão entranhado o nosso cotidiano. É fundamental que a sociedade tenha percepção sobre esse fenômeno, e que se dê conta disso, que perceba aquilo que altera o seu próprio cotidiano, sua própria vida. Pense em todas as mudanças das duas últimas décadas: no âmbito digital, da biotecnologia, das novas tecnologias de saúde. A própria troca social entre as pessoas se dá de maneira muito mais diversa que há duas décadas: hoje nós nos falamos menos por voz e muito mais pelo Whatsapp e pelas redes sociais. A divulgação científica tem o papel fundamental de explicitar o que está acontecendo no nosso mundo hoje, aqui e agora. BPCN: Como a senhora vê o jornalismo científico hoje em dia no Brasil? MM: Existem poucos jornalistas de ciência, mas grandes profissionais, como a Sabine Righetti, o Reinaldo José Lopes, o Salvador Nogueira, o Marcelo Leite e o Ricardo Zorzetto.  Há pouco espaço na mídia tradicional para a ciência. Falta espaço em muitos veículos, mas há belas frentes se abrindo, inclusive se alimentada por profissionais de outros campos, como a biologia. Acho que o espaço da internet tende a apresentar um panorama. Infelizmente, ainda não é um campo com o peso que deveria ter na sociedade contemporânea. BPCN: Qual a importância dos blogs para a popularização da ciência? MM: É um veículo muito interessante, para ampliar a divulgação e a popularização da ciência. Penso que os blogs escritos pelos próprios cientistas nem sempre estão muito antenados com o interesse geral da população, mas eu acho que eles trazem uma grande contribuição à disseminação de informação. Acho muito positivo o surgimento dos blogs de ciência. BPCN: A senhora acha que as mulheres fazem diferença na divulgação científica? MM: Sempre faz bem às diversas atividades culturais e científicas que a sociedade esteja bem expressada naquele campo. Se uma determinada área tem muito mais homens brancos, por exemplo, a sociedade como um todo está mal expressada. A esse propósito, não só da divulgação científica mas da própria ciência, nesta semana saiu uma matéria na Nature falando que, em síntese, teríamos melhor ciência se os países pobres também produzissem ciência. É um artigo na mais badalada revista de ciência do mundo! É uma consciência que tem aumentado, sobre a necessidade de se ter nas atividades fundamentais de ampliação do conhecimento, por exemplo, representantes dos muitos segmentos de gênero, étnicos, dentre outros. É preciso  que as mulheres estejam muito mais presentes não só nesta, mas em todas as atividades como as de produção cultural, de arte e de conhecimento. BPCN: Recentemente, a divulgação de resultados de pesquisas na imprensa antes da publicação do trabalho em uma revista científica criou uma polêmica e gerou debates na comunidade científica. O que a senhora pensa sobre a divulgação de resultados antes da publicação em revistas científicas? MM: Em linhas gerais, para o divulgador de ciência, sobretudo para o jornalista de ciência, é bastante interessante que o artigo tenha saído em uma revista científica. Porque sair na revista significa que houve validação pelos pares. Isso dá uma garantia, que não é absoluta porque sabemos da ocorrência de fraudes mesmo em artigos publicados por revistas altamente respeitadas, mas é uma garantia adicional para o jornalista. Mas existem situações de emergência, que é o caso do zika vírus, por exemplo. Havia todo um esforço pelo isolamento do vírus, para entender o que estava causando aquele problema aqui no Brasil, então existem alguns momentos nos quais há uma certa emergência no âmbito da produção científica e no âmbito da divulgação para a sociedade. Com os cuidados naturais de checagem com outras fontes e com outros cientistas que a gente respeite, que são da mesma área e que inclusive possam levantar contraditórios sobre aquilo que está sendo divulgado, eu acho que é o caso de se utilizar sim na divulgação científica. Uma matéria, uma reportagem ou uma notícia deve ter uma informação. E se existe um contraditório possível dessa informação, é bom que o jornalista mostre também esse outro lado. Em ciência isso nem sempre se dá assim. Mas é bom que se respeite esse princípio geral do jornalismo. Então, tomados os cuidados necessários, é possível às vezes sair da regra de ouro de esperar a revista científica publicar sem que se faça uma coisa leviana. Sugestões de leitura: Biólogos aderem à publicação de resultados sem revisão - Bernarno Esteves (Revista Piauí) Desafios antigos para mulheres atuais - Jana del Favero (Bate-papo com Netuno) Descoberta do zika no Brasil provocou mágoa entre pesquisadores - Cláudia Collucci (Folha de SP) Is science only for the rich? - Nature Preprints for the life sciences - Nature Science and inequality - Nature The logic of journal embargoes: why we have to wait for scientific news - The Conversation #divulgaçãocientífica #jornalismocientífico #mulheresnaciência #raquelmoreirasaraiva #MariluceMoura #caiacolla

  • Querida, estou grávido!

    Por Raquel Moreira Saraiva e Yonara Garcia . Em homenagem ao dia dos pais, que tal falarmos de um super pai do reino animal, o cavalo-marinho?! Este peculiar organismo é considerado um super pai devido a uma ótima razão: os machos ficam grávidos! Isso mesmo! Os cavalos-marinhos se destacam no reino animal porque são os machos os  responsáveis por todo cuidado parental após a fecundação: eles  carregam os filhotes durante a gestação, sentem as “dores do parto” e por fim  dão à luz! Pesquisas recentes mostram também que os cavalos-marinhos papais têm ainda mais semelhanças com as mamães humanas do que nós pensávamos! Mas antes de contarmos estas peculiaridades, vamos conhecer um pouquinho sobre eles. Os cavalos-marinhos são peixes-ósseos (teleósteos) que pertencem ao gênero Hippocampus e à família dos singnatídeos (Syngnathidae). Esta família tem como característica o desenvolvimento por viviparidade, ou seja, o desenvolvimento embrionário ocorre no interior do corpo, que neste caso é o corpo paterno. Existem mais de 50 espécies de cavalos-marinhos distribuídas pelo mundo, em regiões tropicais e temperadas. Destas, três espécies ocorrem na costa brasileira: Hippocampus reidi , Hippocampus erectus e Hippocampus patagonicus , presentes no ambiente marinho e estuarino. Representantes das três espécies de cavalos-marinhos que ocorrem no Brasil: Hippocampus reidi , Hippocampus erectus e Hippocampus patagonicus , respectivamente. Imagens: Projeto Hippocampus Estes peixes locomovem-se na vertical por meio de movimentos ondulatórios de suas nadadeiras dorsais, que vibram rapidamente, porém este tipo de locomoção vertical os torne mais lentos, a ponto de serem considerados um dos peixes mais lentos dos oceanos. Os cavalos-marinhos são predadores, com uma alimentação à base de plâncton, crustáceos e pequenos animais que são sugados por meio de seu focinho tubular. Eles também são camufladores hábeis: se sentindo ameaçados, podem mudar de cor, desenvolver projeções cutâneas que mimetizam algas e até pólipos de corais, além de conseguir permanecer imóveis, fixando-se em algas e corais por meio de sua cauda preênsil. Mas estes disfarces não são infalíveis: caranguejos, alguns peixes carnívoros (por exemplo, o atum), pinguins, aves marinhas e até mesmo os humanos “predam” os cavalos-marinhos adultos (para saber mais sobre o plâncton, leia nosso post O que você sabe sobre o plâncton? ). A maioria dos cavalos-marinhos é monogâmica, de forma que tanto o macho quanto a fêmea de um par formado repelem outros parceiros que tentem interferir na relação. Para o acasalamento, eles realizam um tipo de dança, na qual sincronizam seus movimentos, girando um em torno do outro com as caldas entrelaçadas. A gravidez masculina tem implicações interessantes para os papéis sexuais clássicos no acasalamento. Na maioria das espécies os machos competem pelo acesso às fêmeas, de modo que é comum ver a evolução de características sexuais secundárias* em machos . De acordo com o pesquisador Adam Jones, da Universidade do Texas, no caso dos cavalos marinhos, as fêmeas apresentam um comportamento competitivo, que em geral é apresentado pelos machos. Além disso,  os machos parecem “exigentes” em relação à escolha de suas parceiras, atributo comumente observado em fêmeas. Ilustração: Joana Ho Bem, mas vamos ao que interessa: como os machos deste grupo são capazes de ficar grávidos? O cavalo-marinho macho possui uma bolsa incubadora especializada onde a fêmea coloca seus ovócitos (células reprodutivas). Quando ele está pronto para acasalar, o macho sinaliza a fêmea enchendo a bolsa com água. A fêmea, por sua vez, nada e se pressiona contra ele, colocando seu tubo de postura, chamado ovipositor, em um orifício dilatado, presente na bolsa do macho. Após a transferência dos ovócitos, o orifício se fecha, e então o macho os fecunda. Assim inicia-se o desenvolvimento dos filhotes no interior do corpo do macho. O período de gestação desse grupo varia bastante, de acordo com a espécie e a temperatura da água, podendo ocorrer entre dez dias e seis semanas. Em regiões tropicais, os cavalos-marinhos apresentam um período de gestação em torno de 12 dias, podendo parir mais de 1500 minúsculos bebês totalmente formados. Eles se reproduzem durante todo o ano e a partir do primeiro ano de vida os casais formados são capazes de produzir mais de 1000 larvas por gestação. Cavalo-marinho dando à luz. Os desafios da gravidez são os mesmos para todos os animais, como assegurar o fornecimento adequado de oxigênio e nutrientes para os embriões. Estudos recentes têm demonstrado que diversas linhagens de animais superaram estes desafios de maneira semelhante. Os cavalos-marinhos, como tantos outros embriões de outros vivíparos, adquirem muitos nutrientes a partir do vitelo dos ovos advindos das suas mães, que é equivalente à gema do ovo das galinhas. A pesquisadora Dra. Camilla Whittington e colaboradores da Escola de Ciências Biológicas da Universidade de Sydney (Austrália) demonstraram em estudos publicados na Molecular Biology and Evolution que nutrientes adicionais, como cálcio e alguns lipídios, são secretados pelos papais na bolsa incubadora e então absorvidos pelos embriões. Além disso, a bolsa dos pais também atende aos desafios complexos de fornecer proteção imunológica aos filhotes, além de assegurar a troca gasosa e a remoção das excretas! A gravidez é acompanhada de muitas adaptações morfofisiológicas, como a remodelação da bolsa incubadora o transporte de nutrientes e de resíduos, a troca gasosa, a osmorregulação e a proteção imunológica dos embriões. Outra curiosidade descoberta pelos pesquisadores é que a genética  relacionada a essas adaptações é muito semelhante à expressão genética da reprodução interna de mamíferos, répteis e outros peixes. É surpreendente que, mesmo em animais com “idades evolutivas” tão distantes, as ferramentas genéticas que foram desenvolvidas com função reprodutiva sejam tão semelhantes entre si, mesmo entre vivíparos aplacentários (cavalos-marinhos) e placentários (mamíferos) (Caspermeyer, 2015; Whittington et al ., 2015). As populações de cavalos-marinhos estão em declínio no mundo inteiro. Além de sua capacidade limitada de locomoção, a destruição do seu habitat e as pescas incidental e direcionada têm ameaçado a vida destes peixes. A procura por espécimes vivos como peixes ornamentais na aquariofilia é grande. Desidratados, são usados como ingrediente de drogas caseiras e industrializadas e até como peça de decoração, o que os deixa ainda mais vulneráveis. A compra destes peixes, mesmo vivos, incentiva sua captura e comércio, além de contribuir com o desequilíbrio ecológico.  Estudos genéticos, fisiológicos e ecológicos destes animais ajudam não só a compreender sua biologia e os passos evolutivos que levaram à inversão  no comportamento sexual, mas também contribuem para o manejo correto dessas espécies. O melhor a fazer é deixar os cavalos-marinhos no seu hábitat natural, reduzindo a exploração e cuidando dos ambientes em que eles vivem, como recifes de coral e manguezais. Assim pode-se conhecer melhor estes peixes e ajudar na sua preservação. *caracteres secundários: características que se desenvolvem durante a maturidade sexual dos animais, mas que, ao contrário dos órgãos sexuais, não são parte do sistema reprodutor Para saber mais sobre o assunto: Projeto Hippocampus - Iniciativa do Laboratório de Aquicultura Marinha - LABAQUAC para educação ambiental e estudos de conservação de cavalos-marinhos. www.projetohippocampus.org Caspermeyer, J. Unraveling the Genetic Basis of Seahorse Male Pregnancy Mol Biol Evol (2015) 32 (12): 3278 first published online November 17, 2015 doi:10.1093/molbev/msv238 Jones, AG & Avise, JC. Mating Systems and Sexual Selection in Male-Pregnant Pipefishes and Seahorses: Insights from Microsatellite-Based Studies of Maternity J Hered, 2001. Rosa IL, Oliveira TPR, Osório FM, Moraes LE, Castro ALC, Barros GML & Alves RRN. Fisheries and trade of seahorses in Brazil: historical perspective, current trends, and future directions. Biodivers Conserv, 2011. Silveira, R. B. Dinâmica populacional do cavalo-marinho hippocampus reidi no manguezal de Maracaípe, Ipojuca, Pernambuco, Brasil. (2005). Whittington CM, Griffith OW, Qi W, Thompson MB & Wilson AB. Seahorse brood pouch transcriptome reveals common genes associated with vertebrate pregnancy.Molecular Biology and Evolution, 2015. #cavalomarinho #ciênciasdomar #diadospais #joanaho #raquelmoreirasaraiva #yonaragarcia

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