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  • Pequenas águas-vivas e o segredo para a vida eterna

    Pelo convidado Renato Nagata No verão de 1988, Christian Sommer, um estudante alemão de biologia marinha com pouco mais de vinte anos de idade, e sua namorada passavam o verão na pequena cidade de Rapallo, na Riviera Italiana. Christian também conduzia alguns estudos sobre pequenas águas-vivas (ou medusas). Ele mergulhava no oceano azul turquesa, entre os desfiladeiros de Portofino à procura desses animais, revirando o fundo do mar e também passando redes com malhas muito finas, para coletar medusas que são quase imperceptíveis durante o mergulho. Entre as diferentes espécies, Christian encontrou uma diminuta água-viva da espécie Turritopsis dohrnii , de cor púrpura, que possui de 15 a 30 tentáculos e alguns poucos milímetros de tamanho. Após alguns dias de observações, Christian esqueceu de suas pequenas medusas e ao invés delas morrerem elas definharam e se transformaram em um estágio mais jovem. Ao melhor investigar esse fenômeno, Christian e outros cientistas italianos de Gênova perceberam que, ao contrário de outras águas-vivas que normalmente cresciam e se desenvolviam em adultos, Turritopsis parecia se desenvolver semelhante ao “Curioso Caso de Benjamin Button”, do filme de 2008, baseado no livro de F. Scott Fitzgerald (1921), em que o personagem vai ficando mais novo ao longo dos anos. Alguns anos mais tarde, Christian juntamente com esses cientistas, publicaram um estudo demostrando a capacidade da espécie para se desenvolver em duas direções, tanto normalmente crescendo e envelhecendo, como também regredindo para estágios mais jovens, contrário ao que seria o sentido usual de desenvolvimento (Bavestrello et al. 1992). Essa regressão para estágios mais jovens pode ser seguida por uma retomada ao crescimento normal e tal capacidade tornaria Turritopsis dohrnii uma espécie potencialmente imortal (Piraino et al. 1996).  Como qualquer outro animal, a maioria das cerca de 1000 espécies conhecidas de águas-vivas cruzam um caminho natural da vida. Elas crescem nadando livremente ao sabor das correntes do mar, se alimentam de outros animais do plâncton (Leia mais aqui ), se desenvolvem ao longo de uma série de estágios, até se tornarem adultos sexualmente maduros. Então elas se reproduzem (por sinal, possuem óvulos e espermatozóides muito semelhantes aos nossos!) e após isso, morrem e se desintegram. Essa reprodução gera uma pequena larva chamada plânula, que desce até o fundo do oceano e se transforma em uma criatura com formato de tubo e tentáculos ao redor da boca, chamada de pólipo (Figura 1). Os pólipos crescem presos ao fundo do mar e podem se dividir formando grandes colônias com muitos pólipos clones, assim sendo de DNA idêntico. Depois de um tempo, os pólipos individuais (ou colônias de pólipos, dependendo da espécie) produzem novas medusas que crescerão, fechando assim o “ciclo de vida” dessas espécies. O problema é que entre as águas-vivas, a exceção parece ser a regra e a diversidade de padrões de ciclo de vida é a maior em todo o reino animal. Um desses caminhos alternativos é a capacidade de desenvolvimento ao contrário, chamada de “desenvolvimento reverso” ou “ontogenia reversa”, que ocorre em algumas poucas espécies de águas-vivas (mas é possível que ocorra em muitas outras). A medusa, geralmente ainda jovem, para de comer, seus tentáculos se retraem e ela vai para o fundo do oceano e dentro de algumas horas se transforma em uma pequena massa de tecido. Essa massa de tecido pode ficar por muito tempo “descansando” e mais tarde pode se transformar novamente em um pólipo, que retoma o ciclo usual de desenvolvimento. O grande diferencial de Turritopsis dorhnii , no entanto, é sua capacidade de realizar essa reversão, mesmo depois de adulta e em qualquer fase de sua vida (Piraino et al. 1996; 2004). A reversão depois do desenvolvimento adulto e pleno seria como se uma borboleta adulta ao invés de morrer, pudesse voltar e se transformar em seu estágio de lagarta. Mas onde estaria o segredo dessa espécie que permite essa potencial imortalidade? No caso de Turritopsis , cientistas observaram que várias condições estressantes, como a falta de alimento, temperaturas muito baixas, ou a destruição mecânica da medusa, podem desencadear o desenvolvimento reverso. Essas alterações ativam certos grupos de genes, que provocam mudanças na organização das células. Todos os animais possuem as famosas “células tronco” (ou células pluripotentes), que se diferenciam em diversas outras células especializadas, por exemplo células musculares, neurônios e outros tecidos. No entanto, Turritopsis dohrnii possui células que podem realizar o caminho inverso, ou seja, células já especializadas podem voltar ao estágio não-diferenciado (de célula-tronco), ou ainda transformar-se diretamente em outros tipos de célula. E esse é o segredo de Turritopsis ! Tal capacidade de transformação das células é chamado de “trans-diferenciação celular” e permite que essa medusa reorganize as células especializadas de seu corpo, perdendo as células “desnecessárias” e revertendo seu crescimento. Se uma única medusa conseguir realizar essa reversão indefinidamente, isso a tornaria potencialmente imortal. No entanto, nenhuma medusa foi seguida por muito tempo e também ainda não possuímos meios de medir a idade das águas-vivas da natureza e saber quantas vezes é possível realizar essa reversão. Apenas o cientista japonês Shin Kubota, da Universidade de Kyoto conseguiu acompanhar Turritopsis dorhnii por 2 anos, quando observou esse ciclo de crescimento e reversão ocorrendo 10 vezes seguidas (Kubota 2011).  A imortalidade pode ser na verdade indesejável, como na mitologia grega em que alguns deuses amaldiçoam mortais que os enganaram, com a eternidade. Ou no livro “Intermitências da morte” de J. Saramago de (2005), onde a Morte suspende seus trabalhos, condenando humanos a viverem para sempre. Se a imortalidade dessa água-viva ocorresse de fato na natureza, em pouco tempo o oceano estaria cheio dessa espécie, o que causaria uma grande calamidade. Porém, felizmente, a ontogenia reversa não impede que o destino dessas medusas seja o de se tornar comida de peixes, tartarugas, ou de qualquer outro animal marinho. Além disso, como qualquer outro ser vivo, Turritopsis não é imune a doenças, de forma que existem meios de interromper a vida da espécie.  O desenvolvimento reverso é uma estratégia de sobrevivência: se a espécie encontra um ambiente pouco favorável, mecanismos internos a fazem voltar para um estágio anterior. Ou seja, se “o mar não está pra peixe”, a medusa interrompe seu crescimento, volta para o fundo do mar e começa tudo novamente. Outras espécies de medusa e mesmos os pólipos também podem se transformar em massas de tecido protegidas por uma cápsula e assim ficar por até alguns anos, esperando condições melhores para seu desenvolvimento. Mesmo assim, a capacidade de trans-diferenciação celular em Turritopsis dorhnii pode representar um grande passo para a compreensão de muitos outros mecanismos celulares de envelhecimento, de regeneração de tecidos e até de rejuvenescimento no reino animal. E quem sabe um dia, revelar alguns segredos sobre a imortalidade (veja o link do Youtube  – Google Zeitgeist: Dr. Shin Kubota e a água-viva imortal. Leitura sugerida: Bavestrello, G., Sommer, C., and Sarà, M. (1992) Bi-directional conversion in Turritopsis nutricula (Hydrozoa). In Aspects of hydrozoan biology. Edited by J. Bouillon, F. Boero, F. Cicogna, J.M. Gili, and R.G. Hughes. Scientia Marina 56: 137–140. Kubota S. (2011). Repeating rejuvenation in Turritopsis , an immortal hydrozoan (Cnidaria, Hydrozoa). Biogeography 13: 101–103. Piraino, S., Boero, F., Aeschbach, B., and Schmid, V. (1996) Reversing the life cycle: medusae trasforming into polyps and cell transdifferentiation in Turritopsis nutricula (Cnidaria, Hydrozoa). Biological Bulletin 190: 302–312. Piraino S, De Vito D, Schmich J, Bouillon J, Boero F (2004) Reverse development in Cnidaria. Canadian Journal of Zoology 82:1748–1754 Rich, N. Can a Jellyfish Unlock the Secret of Immortality? The Ney York Times, 28 de novembro de 2012. http://www.nytimes.com/2012/12/02/magazine/can-a-jellyfish-unlock-the-secret-of-immortality.html?_r=0 acessado em 30/05/2015. Sobre Renato Nagata: Assim como muitas outras pessoas, sempre tive uma atração pelo mar, um ambiente estranho e pouco familiar para alguém nascido e criado no interior do Paraná. Quando cursava ciências biológicas na UFPR, surgiu a oportunidade de um estágio para estudar águas-vivas. Não podia imaginar que estava mergulhando em um vasto universo com diversas possibilidades. Além de bonitas (notem as imagens que decoram este blog!), percebi que as águas-vivas (ou medusas) eram muito abundantes nas águas escuras do litoral do Paraná. Com isso, começaram a surgir inúmeras perguntas: quando elas ocorrem? Onde ocorrem? O que elas causam ao homem e aos demais componentes do ecossistema? Fiz mestrado em zoologia na UFPR e depois me mudei para São Paulo, onde conclui recentemente o doutorado na USP, também em zoologia. Atualmente tenho interesse por questões sobre as águas-vivas que só podem ser investigadas quando olhamos medusas vivas e pulsantes: Como é o crescimento e o desenvolvimento desses animais? Como as espécies realizam funções básicas como nadar e obter alimento? Além da pesquisa, também sinto a necessidade de compartilhar um pouco do que faço. Por isso, aceitei imediatamente o chamado de Netuno, para contar alguns “causos” e trazer à tona curiosidades sobre esses fascinantes habitantes dos mares! #águaviva #ciênciasdomar #cnidários #convidados #medusas #plâncton #renatonagata

  • O filho que concorreu com a ciência e empatou

    Por Rafael Flaquer Soares O meu primeiro aniversário foi, por assim dizer, um estouro; nesse pouco tempo de vida eu já podia orgulhar-me de ter ido a uma grande aventura, que foi morar nos Estados Unidos e voltar para contar a história. Por causa do meu pai eu passaria os meus próximos anos lá, por isso essa festa servia como uma forma de despedida temporária de parentes e amigos. Mas apesar de ter me divertido muito na festa, era possível perceber certo nervosismo exagerado em minha mãe, um tipo de estresse típico de quem tenta acumular mais tarefas do que parece humanamente possível e então fica sobrecarregada pelas consequências. Naquela época eu não tinha como saber, mas ela estava se preparando para defender a sua dissertação de mestrado. A preocupação e o esforço pagaram bem, já que ela conseguiu um dez com distinção. Mas para entender de fato o tamanho desse esforço e o que foi exigido dela enquanto mãe, eu preciso voltar ainda mais, para uma época em que eu nem havia nascido. Minha mãe conheceu o meu pai em 1991, pouco antes de começar o mestrado. Até então, o seu único objetivo era o acadêmico, e o doutorado parecia um sonho possível. De início, o relacionamento dos dois parecia não interferir muito na situação, os dois sendo alunos e morando juntos em São Paulo. Foi só em 1993 que surgiu o primeiro problema: meu pai, que estava um ano já há frente, terminou o mestrado e passou no concurso para professor na FURG. Sendo uma oportunidade sem igual na sua área, ele imediatamente seguiu para lá. O problema era que a minha mãe não havia terminado o mestrado dela ainda e agora se encontrava dividida entre seguir o seu futuro marido ou a sua sonhada carreira. Ela até tentou trabalhar e estudar por dois meses em São Paulo, mas acabou cedendo à pressão e seguindo para Rio Grande com o mestrado ainda incompleto. Desse reencontro eu fui concebido, e em dezembro de 1995 eu nasci. Um ano de trancamento foi concedido em resposta à gravidez, uma pausa bem-vinda mas demasiadamente curta para garantir um bom crescimento a qualquer filho. A situação complicou-se ainda mais no ano seguinte, quando meu pai conseguiu a oportunidade de fazer um PhD nos Estados Unidos com uma bolsa de estudo. Seria uma viagem de muitos sacrifícios, mas também de grandes recompensas, e por isso meu pai decidiu aceitá-la. O problema era que estes sacrifícios não seriam apenas dele... Eu tinha ainda pouquíssimos meses quando meus pais se casaram. Foi um casamento engraçado e desastrado, feito em cartório e com marido e mulher separados por todo um oceano de distância. Ter um pai que ganharia um título tão importante como o de PhD era o máximo e a minha mãe concordou com a ideia, mas aquilo tudo também significava que ela, além de mãe e bióloga, agora teria que ser também esposa. Quantas coisas, eu perguntava-me, ela poderia ser até acabar não sendo uma coisa nem outra? A resposta, para minha surpresa, era um número maior do que eu imaginava. Passei dois meses em Miami, após os quais retornei para o meu aniversário e para a defesa da minha mãe. E por mais ilustre que a defesa do mestrado tenha sido, ela marcou o começo do grande hiato acadêmico para minha mãe, um hiato que lhe custaria projetos e publicações, pois tivemos que voltar a Miami logo em seguida. Uma diferença como essa, de aproximadamente 10 anos, não era do tipo que fosse possível superar depois. Mas era preciso. Como minha mãe poderia deixar que o seu filho crescesse sem mãe nem pai? Alguém tinha de me criar, ensinar-me os valores e a ética que pais inexperientes esperam que os seus filhos aprendam nas escolas. Mas um bom pai sabe que essa educação só se aprende em casa, com os entes queridos. Eu também não ajudava muito, claro; em meus primeiros anos era extremamente próximo de minha mãe e um dia longe dela deixava-me aos prantos. O resultado de tudo foi que, de 1997 até 1999 eu e a minha mãe cuidamos da casa enquanto meu pai buscava levar a sua carreira o mais longe possível para sustentar a todos nós no futuro. Foi só no ano de véspera do milênio que eu estava pronto para enfrentar o mundo sozinho nos dias da semana; a escola foi escolhida a dedo, para certificar-se de que eu teria apenas a ganhar saindo de casa. Minha mãe aproveitou a oportunidade para tentar retornar um pouco à sua carreira, conseguindo um estágio na Experimental Hatchery (na University of Miami) pelo ano seguinte. Nessa época, ela cumpria o papel de assistente de pesquisa até às 14 horas, então, de mãe e dona de casa o resto do dia e esposa em tempo integral. O estágio acabou-se, bem como a bolsa de PhD, nos anos 2001. Eu retornei com a minha mãe um pouco antes, onde passei o meu aniversário de cinco anos e por onde ficamos alguns meses enquanto meu pai terminava a sua pós-graduação. Ele chegou ao final do ano e, então, retornamos todos à cidade de Rio Grande, onde tudo poderia retornar ao normal. Mas as coisas não voltaram ao normal. Depois de um ano meus pais se separaram e eu parti com a minha mãe de volta a São Paulo. Chegou-se, então, ao ponto crítico da história. Por um momento parecia que éramos apenas eu e a minha mãe contra o mundo, sem casa, sem dinheiro e sem perspectiva de emprego algum na maior cidade do Brasil. A situação parecia desesperadora, mas são nas noites mais escuras em que as estrelas brilham mais fortes; meus avós ofereceram a sua casa para a nossa estadia e, de lá, a minha mãe começou o longo processo de reconstruir a sua carreira. Custou-lhe vários anos, mas tudo valeu a pena e, em 2009, se formou doutora e logo em seguida fez seu pós-doc. Hoje em dia, a minha mãe é bolsista no Instituto Oceanográfico e tem o que é preciso para viver com dignidade. Eu vivo muito feliz com o meu pai em Curitiba agora, mas nunca vou esquecer e devo muito à educação excepcional para a minha geração que me foi concedida nos meus anos mais novos. Tudo isso porque, apesar de tudo, eu garanto que a minha mãe encarou os desafios da sua vida com distinção e foi uma dezena de coisas ao mesmo tempo sem nunca esquecer quem ela era. Se isso não é o verdadeiro significado de ser doutora e mãe, eu não sei qual é. Sobre o autor: Meu nome é Rafael Flaquer Soares e tenho 19 anos. Nasci em São Paulo, cresci nesta cidade, nos Estados Unidos e em Rio Grande (RS). Moro agora em Curitiba e faço o curso de Engenharia Mecânica na UFPR, mas também sou escritor amador. #carreira #convidados #filhos #RafaelFlaquerSoares #mulheresnaciência #marialuizaflaquerdarocha

  • Uma gringa fazendo pesquisa no Brasil

    Por Sabine Schultes , convidada da semana.  Ao escrever este post, estou na minha mesa de trabalho na faculdade de biologia de Munique. Da janela vejo campos verdes, e a única água salgada num raio de 600 km são 20 litros de água do mar artificial no laboratório, num balde com copépodes da espécie Acartia tonsa . Só isso me conecta com minha grande paixão, os estudos da oceanografia biológica.  Copépodes são minúsculos crustáceos, de 1 milímetro mais ou menos. A olho nu, parecem uma poeirinha pulando na água. Vivem em todos os ecossistemas aquáticos: lagos, rios, águas subterrâneas e oceanos. São numerosos “como as estrelas no universo” e tem um papel importante na ecologia do mar. São eles que consomem a biomassa que as micro-algas criam da energia solar – num processo chamado produção primária – e o transferem para os peixes porque peixe gosta de comer copépodes ( Sai ba mais aqui ).  Já trabalhei com copépodes das águas temperadas do Atlântico Norte, das águas frias do Oceano Antárctico, e em 2007 eu vim trabalhar como pesquisadora pós-doc  no Instituto Oceanográfico da USP para conhecer os copépodes tropicais. Que alegria! ...e ao mesmo tempo que aventura de viver num país a 12 000 km da Alemanha, na cidade de São Paulo. Pulei na agua fria sem pensar duas vezes e, num taxi na “Marginal Tietê” entre Guarulhos e a Cidade Universitária, senti de repente que estava realmente longe de casa. São momentos de transição entre um mundo e um outro, quando cada detalhe fica gravado na memoria. Fui muito bem recebida pelos Paulistanos e, contrariamente à noção que no Brasil tudo é praia, samba e caipirinha, tive a oportunidade de trabalhar com tecnologia de ponta da minha área científica.  Foram colocados nas minhas mãos dois instrumentos sofisticados para análise de copépodes. Minha tarefa era de estabelecer protocolos de medida e de calibração. Nada de machismo, de “mulher não sabe nada de tecnologia”... Cada dia o aprendizado era enorme: vida na grande cidade e em um país tropical, língua portuguesa, técnicas de análise de imagem e de transmissão de dados eletrônicos. Enorme também era a ajuda que recebi dos meus colegas cientistas Brasileiros, Canadenses e Franceses. Em pouco tempo foi possível fazer o batismo de fogo (de água!...quis dizer) do equipamento na base oceanográfica de Ubatuba. Isso sim, era um sonho de pesquisadora nas ciências marinhas se realizando.  Mais um sonho se realizava com a expedição do projeto PROABROLHOS para estudar com o tal equipamento a distribuição do zooplâncton (copépodes e outros bichinhos do mesmo tamanho) no Banco de Abrolhos. Lá tem bastante peixe, e lembra-se que peixe gosta de comer copépodes?! Neste projeto, pesquisadores de várias universidades do Brasil e do mundo juntaram as forças para melhorar o entendimento sobre como este ecossistema marinho funciona, para poder proteger a grande biodiversidade de Abrolhos e seu valor para a sociedade. Passar um mês embarcada no antigo navio oceanográfico Prof. Besnard foi um pouco de aventura – ele finalmente se aposentou ☺ e agora o IO tem um navio novo  – mas tudo deu certo. Nossos resultados foram publicados nos anos seguintes ao projeto (entre 2009 e 2013), mas já bem antes resolvi voltar para Europa. - Como assim?! Não era um sonho se realizando??? Pois é, olhando para trás sinto que me faltava um pouco de fé. Mas talvez eu também precisasse do meu próprio povo, da minha própria cultura e da minha família para ter fé e continuar pesquisando os mares do mundo. Infelizmente, a realidade de vida nas ciências está cheia de incertezas, de contratos de trabalho curtos (1 ano).  Ao mesmo tempo as realizações científicas levam anos. Escrever um projeto, conseguir verba, executar um projeto, analisar os resultados e comunicar os novos conhecimentos acontece em prazos de 5 a 10 anos.  Voltando do Brasil eu demorei mais 4 anos de idas e vindas entre França, Brasil (me apaixonei...) e Alemanha para finalmente conseguir uma vaga de docente na Faculdade de Biologia de Munique em 2012, com 40 anos de idade. Vivo perto da casa dos pais, e estou dando aula de zoologia, ecologia e iniciação científica para alunos do bacharelado e mestrado. Pela primeira vez, eu sei onde eu posso ganhar a minha vida, viver e realizar estudos científicos sobre o mar, até pelo menos 2020, quando então o caminho talvez me levará para mais um lugar no futuro.  Não tinha muita ideia pré-concebida antes de vir para Brasil.  Gosto muito de viver em outros países. Geralmente passo um primeiro tempo observando e ouvindo e tento seguir na onda. Descobri o jeitinho Brasileiro, o frio de São Paulo e aprendi a dançar forró. Achava – ainda acho – que as todas pessoas à minha volta eram dedicadas ao trabalho, aos amigos e a família. A maior aprendizagem que levei de volta do Brasil? Que às vezes as coisas demoram, mas no final tudo dá certo! Sobre a autora: Sabine Schultes gosta de se ver como bióloga e oceanógrafa. Ela estudou biologia e hidrobiologia na faculdade de Hamburgo, fez mestrado em oceanografia na Université du Québec Rimouski, no Canadá e doutorado em oceanografia biológica no Alfred-Wegener-Institut em Bremerhaven. Depois de vários contratos de pós-doc na França e no Brasil, ela é agora docente na faculdade de Munique (LMU) para dar aula de zoologia e ecologia. Ela conta que seus pais lhe ensinaram a procurar caminhos novos e a se relacionar com as pessoas e culturas do mundo. Ela está convencida de que hoje, mais do que nunca, precisamos cuidar de nossos oceanos. #biologiamarinha #carreira #convidados #internacionalização #sabineschultes #mulheresnaciência

  • A pós-graduação como um espaço agradável

    Por Daniela Coelho Boa parte das pessoas com quem eu já conversei sobre pós-graduação tem referências ruins sobre o ambiente acadêmico. Essas referências vão desde as más orientações que recebem dos seus orientadores (usarei o termo orientadores para me referir tanto a homens quanto a mulheres), até um ambiente pesado, de intensa cobrança e competição, que o próprio programa de pós graduação pode cultivar. Isso sempre me chamou atenção, pois desde o meu terceiro semestre do curso de Biologia eu já tinha interesse na vida acadêmica. Fiz iniciação científica e mestrado (zoologia) na UFBA e agora estou no doutorado (ecologia) na USP. No início eu realmente achei que meu processo de adaptação seria muito pesado, por estar trocando de área de atuação e de cidade. Porém, andei um passo de cada vez e isso foi essencial para que soubesse que estava escolhendo a pessoa certa, no lugar certo. Primeiro, conheci meu orientador alguns anos antes de fazer a seleção. Fiz o esforço de ir até a universidade onde ele leciona justamente para conhecê-lo e termos nossa primeira conversa sobre a “possibilidade” de orientação - essa galera normalmente é muito ocupada e fazer o contato previamente é essencial. Ele me propôs que tivéssemos uma vivência antes (uma espécie de estágio), justamente para saber se eu me adequaria ao seu estilo de orientação e se ele acharia interessante me orientar. Nada mais justo! Ele me sugeriu também conversar com seus orientandos para saber sobre o seu perfil de orientação e sobre o ambiente do laboratório. Acho que pouquíssimos orientadores fariam tal sugestão, assim como poucos alunos têm esse feeling de buscar saber onde estarão pisando! Conversar com os alunos que já foram orientados pelo pesquisador e aqueles que estão em via de orientação pode pesar muito na sua escolha. Após estar certa de que seria uma boa decisão fazer o doutorado com ele, iniciamos a etapa de discutir o meu projeto, de forma que a linha de pesquisa que seguiríamos se adequasse tanto aos interesses dele, quanto aos meus, afinal, eu passaria 4 anos da minha vida estudando aquele tema, naquele ambiente e sob aquela orientação. Quando fui prestar a seleção, tive outra grata surpresa: meu orientador se propôs a discutir comigo cada um dos artigos que cairiam na prova, justamente para garantir que eu me sentisse mais segura para o processo seletivo. Embora essa atitude dele seja um ponto fora da curva, ele provavelmente também estava garantindo que o seu investimento de tempo em mim seria garantido se eu fosse aprovada na seleção! Após ingressar no programa e discutirmos nosso projeto, ele fez uma sugestão que achei brilhante! Eu seria preparada a ponto de, no último capítulo da minha tese, ser a única autora, pois ao final do meu doutorado eu deveria “ser capaz de pensar sozinha numa pergunta, delinear e executar uma pesquisa”, e a participação dele seria apenas para aparar as arestas. Nesse momento eu realmente entendi que sua preocupação não era apenas com o número de artigos que eu iria produzir ao final do meu doutorado, e sim com a qualidade da minha formação. Ele também incentiva os alunos que integram o laboratório a trabalharem conjuntamente na elaboração de uma pesquisa, sem a participação dele e isso tem sido muito produtivo para o crescimento, união e amadurecimento do grupo. Estamos aprendendo a nos ajudar mais. Além disso, nosso orientador disponibiliza uma hora de reunião semanal para cada aluno discutir com ele o projeto ou qualquer outro assunto que quiser. Ele estuda junto com a gente! A maioria das pessoas diz que eu vivo num laboratório de conto de fadas, e que orientadores como o meu são raríssimos! Pode até ser, quando pensarmos no grande universo das pós graduações. Porém, assim como o meu, eu tenho convivido com diversos outros orientadores que também se preocupam, e muito, com a sua “prole”. Eu faço parte de uma espécie de laboratório integrado, onde, além do meu orientador, existem três outros professores que agem praticamente da mesma forma. Eles não se importam exclusivamente com a nossa produtividade acadêmica, mas também com a qualidade do profissional que eles estão formando para o mercado. Ok, agora vamos ampliar a escala. E o ambiente da sua pós graduação? Bom, eu estou muito satisfeita com o programa de pós graduação em ecologia da USP. Pelo tempo que estou aqui, pouco mais de 1 ano de pós e dois anos anteriores de vivência no laboratório, pude perceber que os coordenadores são muito humanos e preocupados com o bem estar dos alunos. Juntamente com os representantes discentes, eles conseguem manter um ambiente onde os alunos têm voz ativa. Há eventos sobre saúde mental, com ciclo de palestras e bate-papo entre os alunos, ou com os professores, sobre depressão, síndrome do impostor, ansiedade, organização de tempo e muitos outros temas que tanto afligem os estudantes. Além disso, temos um espaço destinados aos alunos para apresentação dos nossos projetos, ideias ou para o convite de palestrantes do nosso interesse.  Venhamos e convenhamos, existe algum trabalho sem prazos e cobranças? Não, né? A questão é o que os organizadores do ambiente em que você está inserido estão fazendo para melhorar a sua paz de espírito.O programa cobra prazo e produtividade dos alunos, como qualquer outro programa. O que muda é o que eles fazem para amenizar o estresse ao qual estamos submetidos. Será que tudo que estou vivendo é um mar de rosas e eu estou iludida com a realidade do ambiente da pós graduação? Claro que não, não me considero uma pessoa tão ingênua assim! O grande xis da questão é saber previamente para onde você quer ir. Como disse o gato do filme Alice no País das Maravilhas, “se você não sabe pra onde ir, qualquer caminho serve”. E quais conselhos eu gostaria de deixar aqui? O primeiro é: busque se informar fortemente sobre o suporte dado por sua pós graduação de interesse à saúde mental dos alunos. Da mesma forma, busque saber quem é o seu orientador de interesse e o que os alunos antigos e atuais pensam sobre ele, tanto como pessoa quanto como profissional. Não esqueça: quem vê lattes não vê coração! A segunda é: não escolha o orientador “apenas” pelo quão produtivo ou expert ele é na sua área de interesse. Escolha também pelo quanto ele vai te respeitar como pessoa e respeitar seus interesses profissionais. Não escolha ”o melhor”, escolha aquele que é capaz de extrair o que há de melhor em você. Eu sei que não há espaço para todos nesses ambientes ideais, mas quando estamos falando da nossa saúde mental, talvez seja mais prudente refletir se vale a pena estar em lugares que degradem a sua paz de espírito na construção do seu caminho acadêmico ao invés de buscar outras alternativas. Sobre a autora: Daniela Pinto Coelho: É bióloga formada pela UFBA, mestre pelo programa de pós-graduação em Diversidade Animal (UFBA) e doutoranda pelo programa de pós-graduação em Ecologia da USP. A autora desenvolve pesquisa com redes de interações tróficas usando serpentes como modelo de estudo. É apaixonada por gatos e por esportes de aventura. Currículo Lattes #convidados #vidadecientista #pósgraduação #orientação #orientadores #DanielaCoelho

  • Festival WOW - Mulheres do mundo

    Em novembro de 2018, nossa editora Catarina Marcolin foi selecionada para participar do curso de capacitação em divulgação científica oferecido pelo British Council para mulheres cientistas. Ela passou 5 dias, acompanhada por jornalistas e cientistas, aprendendo na prática técnicas de divulgação de ciência e discutindo questões de gênero sob os mais diferentes aspectos, além de fazer a cobertura do Festival WOW - Mulheres do mundo . Além da experiência incrível de viver este festival, ela e as outras 14 mulheres selecionadas para o curso compuseram o corpo editorial da primeira edição da revista Mulheres na Ciência . Confira os posts derivados dessa aventura: Mulheres cientistas, ousem andar unidas! e Um caso de poliamor entre uma cientista, a fotografia e a ciência . #catarinarmarcolin #mulheresnaciência #wow #netuniandoporai

  • 10 professional abilities you develop by doing science

    By Lilian Pavani Edited by Lídia Paes Leme and Katyanne M. Shoemaker Original here Those who have done scientific research know how hard it is to explain what you do. Since your work is not an internship or a job, research is typically first done in the position of a student, as either an undergrad, masters, or doctoral student. Is there a researcher among us who has not heard the phrase “do you work too, or only study?” Contrary to common belief, yes, you work and work hard! Mislead are those who think that work within science is a cinch. Research goes beyond reading articles and books, it involves the construction of new knowledge. On this ardent path, scientists are forced to learn many things that are valued in the “real world.” When I was doing research I didn’t have any idea of the skills I had learned along the way, but when I started to work in the business world, I realized how many abilities I had due to my undergrad and masters studies in marine ecology. Regardless of the subject you research, you’ll likely find the following to be true for yourself: 1- You know how to use Word and Excel You may need a bundle of complicated software to analyze specific aspects of your work, but there will never be a time you’ll forego the simplicity of making a datasheet and quick graph in Excel. One of the first skills we teach ourselves in data analysis is how to transform a pie chart to a bar graph and change the colors of data series’ until we find what best represents our results. And if you’re applying to a scholarship, presenting results, or formatting a thesis, you’ll – pardon me the pun – learn Word “write.” You insert tables, images and references without losing sight of the format of paragraphs, margins, or footers. 2- You know how to make nice presentations in PowerPoint Who hasn’t made a poster to present in a conference? Or a presentation for a class in your undergrad or to defend your thesis? Research has helped you almost certainly develop a good aesthetic sense: knowing how to pick the best background color and font, and how to symmetrically distribute the elements of your slide. By now, we all know a picture is worth a thousand words, and wordy slides are the downfall of an otherwise good presentation. Powerpoint helps us master the art of presenting the important information in the available time, be it five, 20 or 50 minutes. 3- Project management is something natural Your desire to do research likely started with a question you wanted to answer, a need you identify – the initiation step. To answer the question, you needed to write a research proposal, so you to gathered information, defined the necessary activities to your study, and estimated the necessary resources and deadlines – the planning step. With a research project approved, you developed the defined activities – the execution step. And while your project was being developed, from time to time some activities and processes were reviewed, adjusted and made better – the control and monitoring step. By project completion, you presented the final results in a report or article that went through a rigorous evaluation by your adviser and others – the finalization step. There you go, you may have never heard of a PMBOK or MS project, but you know all about project management! 4- Quality is mandatory The level and rigor and requirements in the academic field can be stratospheric. I’ve seen people kicked out of graduate programs because their scores didn’t meet the level desired by the program. Even if your work is a good contribution to the field, an unsatisfactory abstract alone may prevent you from presenting your work at a conference. If your article is not well structured, it likely won’t be published in any journal. Peers evaluate everything and screen your work for any minor slip; therefore, it is imperative to always make sure the work is well done. 5 – You become judicious Because of the obligation to quality, the more thoughtful you are in the development of your work, the greater the chance that it will be well done. This habit is acquired without notice. 6 – Knowing how to argue is a necessity In order to discuss your results, apply for funding, or convince your advisor, you need to know how to defend, support, and prove your point of view. 7 - You learn how to deal with people During your research, you need to deal with several different people in varying positions of power. At the very least, you have an advisor and maybe a co-advisor. If you are at masters or doctorate level, you will have collaborators alongside you and new students below you to train. There will also likely be the need to connect to other members of the your home department, especially professors. Those who even only minimally understand academia know that the academic field is an ego war, and you are caught in the crossfire. You must learn to do whatever is possible to keep things going without damaging the pace of your research. 8 – You understand deadlines are important and you abide by them If you’re on a scholarship you’re always aware of the deadlines for filing reports and funding forms. If you don’t have a scholarship, you’ll be following program deadlines and keeping track of when to submit a new proposal. If you want to present your work at a conference, you have deadlines for abstract submission (sometimes organizers can extend the deadline date, but in general, people use that just to review the abstract sent). 9 – Financial management is part of it In general, most scientific grants and scholarships have a technical reserve -- money that does not go to the researcher but towards the acquisition of equipment, books, field research, and other items needed to the development of the research project. This pool of money is often small, so you learn to manage the financial resources by looking for the best value. In some cases, you may learn to manage many different project funds, to buy common materials that will benefit multiple projects and other in the lab. 10 – You realize that your success is totally up to you The academic field can be a hostile environment, demanding a lot of dedication. Because of that, people tend to qualify themselves as much as possible and are always in search of improvement. So, if you intend to leave the academic career and follow an alternate path, remember your own self value! You have a lot to offer! ;) About Lilian Pavani: Lilian is a biologist, with a masters in ecology and specialization in environmental engineering from the State University of Campinas. She is a lover of sponges and other marine invertebrates, especially the colorful ones. After sailing through sponges, amphipods and petroleum, the current and winds took her literally down other roads, where she worked studying run-over fauna, doing environmental management and supervision of railroad construction. She has many diverse interests, including education, writing, innovation, cooking, playing the flute in an amateur group of antique musicians, and bird watching. Anyway, she lives with her feet in the sand and kind of in the tides. #scientistlife #lilianpavani #interdisciplinarity #invited #profession #chat

  • Mulheres cientistas, ousem andar unidas!

    Por Catarina R. Marcolin Sou cientista, professora, mãe, mulher parda (meu pai era italiano, minha mãe uma mistura de portugueses, índios e negros), minha pele é clara; não sou de família rica nem pobre e educação foi um dos nossos privilégios. Quando li o e-mail que me dizia que fui selecionada para o curso do British Council e do festival WOW - Women of the World (Mulheres do Mundo), tinha acabado de chegar em casa para substituir minha babá nos cuidados da minha filha, dei pulinhos e gritinhos de alegria. Minha menina riu comigo. Mesmo sem entender palavras, ela captou perfeitamente minha emoção. Chegar no Rio de Janeiro e conhecer tantas mulheres incríveis nos primeiros dias de nossa capacitação em divulgação científica tem sido muito energizante. É tanta energia que tenho despertado bem mais cedo que meu alarme todas as manhãs, algo que nunca me havia acontecido antes, mas é o despertar da ignorância que mais me impressiona. Sempre me achei empoderada e autoconfiante, especialmente com minhas habilidades intelectuais. Mas quando nos contaram que as 15 cientistas/divulgadoras que vieram para o curso foram selecionadas entre 236 aplicações, tive mixed feelings. Ao mesmo tempo em que estava orgulhosa, buscava mentalmente por justificativas sobre o resultado: “Deve ter sido porque sou baiana, nessa busca por um recorte geográfico, minha concorrência deve ter sido menor...”. WOW ! Notem que este não é um wow de surpresa, é um “p* que pariu”, pois outros exemplos continuaram pipocando em meus pensamentos sobre momentos da vida em que encontrei outras razões, que não o meu próprio mérito, para justificar minhas conquistas. A realidade sobre como a construção social molda nossas aspirações, nossas expectativas sobre a vida, bateu na minha cara. E era só o primeiro dia. E mais e mais “fichas” vão caindo. A força e a luta das mulheres negras, representadas desde o “corpo tela” da Zaika Santos até a língua afiadíssima e os projetos de empoderamento de meninas da Zélia Ludwig , me inspirou admirações e reflexões profundas. Me dei conta de como em três anos trabalhando com divulgação científica e discutindo questões de gênero na oceanografia, o blog do qual faço parte nunca teve a contribuição de uma mulher preta. Em quatro anos de doutorado na área de oceanografia, me lembro de ter conhecido uma única mulher preta. Estou decidida a reencontrá-la, a encontrar essas mulheres, porque tenho certeza que elas existem. O aumento da representatividade da mulher, seja ela mulher preta, indígena e/ou deficiente (sim, eu também aprendi o que é interseccionalidade ) é uma pauta urgente, pela qual me sinto agora compelida a contribuir. Inspirada pelas palavras da renomada Reni Eddo-Lodge , vou me educar. Tomo cada vez mais consciência sobre minha própria identidade, sobre o privilégio de não ser preta (afinal de contas, não sou discriminada pela cor da minha pele), e não consigo parar de pensar sobre o próximo passo. Sobre minha responsabilidade em combater não apenas o machismo, como a propagação do racismo. Afinal de contas, Jude Kelly nos lembra que a luta por igualdade de gênero e de raça não é uma luta por direitos iguais. É uma luta entre a estupidez e a sabedoria. E esse festival está me deixando menos estúpida. Reconhecer que precisamos discutir as relações de poder em nossa sociedade, não apenas nos educa como valida nossos sentimentos, não é mimimi. Muito sabiamente a incrível Samia, cordelista de apenas oito anos nos alertou já na cerimônia de abertura: “com autoestima baixa, toda a vida perde a lógica”. Além de encher nossos corações de esperança, ela nos mostrou que essa nova geração é poderosa. Mas não podemos deixar para as novas gerações o que podemos fazer agora. Afinal de contas, são “as ações de hoje que produzem nosso amanhã”, como nos lembra a todo momento esse lindo Museu que nos acolheu todos esses dias. Um dos nossos grandes desafios será deixar de falar apenas para os “convertidos”, quebrando os filtros bolha Facebookianos e partir para ação. Pois aprendi que o ativismo online não será suficiente para mudar nossa realidade. Seguindo a técnica da nossa querida Timandra , espero conseguir “roubar” a habilidade de escuta da nossa colega jornalista, a Renata Fontanetto (@renata_fontanetto). Pois é apenas pela escuta, com um olhar empático que conseguiremos dialogar. Se isso fizer ferver nossas entranhas ou pulsar nossa jugular, não se preocupe querida @moleculoide , Jude e Reni nos dão dicas sobre como dialogar sem perder o controle, sem que isso nos cause úlceras ou nos deixe exaustas. Eu já sabia admirar mulheres incríveis, mas minha curiosidade agora permeia outras nuances. Nunca mais deixarei de me perguntar como uma mulher conseguiu mudar também a realidade de outras mulheres. Nunca mais deixarei de me perguntar sobre como eu posso mudar a realidade de outras mulheres. Mariéme Jamme e Joana D'Arc Souza , só inspiração! Foto: Catarina Marcolin. Não tenho dúvidas de que a maior conquista deste festival foi permitir que capturássemos umas as outras e espero profundamente que essa rede tenha nós bem unidos e que não nos deixemos escapar. Que sigamos trabalhando juntas para que outras mulheres sintam que podem ser mais do que apenas esforçadas, nós somos geniais, nós somos brilhantes, a gente é f*! Para saber mais sobre mulheres incríveis, continue acompanhando nosso blog. #catarinarmarcolin #mulheresnaciência #britishcouncil #festivalwowrio #museudoamanhã #ciêncianowow #mulheres

  • Um caso de poliamor entre uma cientista, a fotografia e a ciência

    Por Catarina R. Marcolin Dizem que uma imagem pode valer mais que mil palavras. Esse ditado popular ganha sentido especial para mim quando converso sobre plâncton . Estes microorganismos tão pequenininhos tem na verdade grande importância. Informações sobre a quantidade e o tamanho desses organismos que vivem nos oceanos nos ajudam a entender sobre muitas coisas, até mesmo, sobre a regulação do clima no planeta .  Mas contar e medir esses bichinhos da forma tradicional demoooora e pode ser muito entediante. Para resolver esse problema, os cientistas pensaram numa solução bem simples usando uma tecnologia inventada há bastante tempo atrás, a fotografia. As lentes e o sistema óptico continuam os mesmos, o que mudou foi a forma de processar essas imagens. Usando um software de análise de imagens é possível fazer automaticamente a contagem e a medição do tamanho desses bichinhos, o que nos deixa com tempo de sobra para ir a praia, navegar na internet ou até escrever esse texto.  Mas analisar uma quantidade enorme de informação, linhas e mais linhas de dados também pode tomar bastante tempo. E foi assim que eu uni duas paixões, o plâncton e a computação agora andam de mãos dadas na minha vida. Aprender a programar foi como descobrir o fascínio pelos videogames. Amor pela ciência, a gente vê por aqui. Esse texto é a primeira produção do Curso de Capacitação em divulgação científica, promovido pelo British Council e Museu do Amanhã no Rio De Janeiro. A tarefa do dia era falar sobre meu trabalho utilizando um objeto e eu trouxe minha câmera fotográfica. Posts relacionados: O que você sabe sobre o plâncton A fertilização dos oceanos e as mudanças climáticas Para o plâncton tamanho, é documento #catarinarmarcolin #ciênciasdomar #britishcouncil #festivalwowrio #museudoamanhã #ciêncianowow

  • Garoupas ao mar

    Por Cláudia Kerber É de conhecimento corrente que as populações marinhas estão declinando em todo o mundo. As três principais abordagens para evitar o esgotamento dos estoques são controlar os esforços de pesca (cotas de pesca, limitação de tamanho de captura, especificação de petrechos), garantir os locais e períodos de reprodução (defesos, áreas de proteção ambiental) e aumentar a população através de programas de repovoamento. Os dois primeiros métodos formam a base das políticas públicas para a conservação das espécies marinhas no Brasil e impõe sérias restrições à pesca artesanal. A terceira opção, o repovoamento, permite restabelecer a biomassa de reprodutores e acelerar a recuperação dos estoques assegurando a sobrevivências de espécies ameaçadas. O repovoamento é uma das principais ferramentas para compensar danos causados por atividades humanas no meio ambiente e tem sido largamente utilizado para a recuperação dos estoques pesqueiros em bacias, rios e reservatórios brasileiros. O repovoamento de espécies marinhas tem sido utilizado desde o Século 19 e no Japão, o programa nacional de recuperação dos estoques pesqueiros envolve mais de 80 espécies de peixes, moluscos e crustáceos. No Mar Cáspio, são criados e soltos anualmente mais de 12 milhões de juvenis de espécies de esturjão nativo ( Acipenser persicus ) que sustentam praticamente toda a indústria do caviar. Também são produzidos alevinos de outras espécies locais que sustentam a produção pesqueira de cooperativas licenciadas para a pesca. Ao desenvolver ações de repovoamento, é primordial que as formas jovens tenham boa diversidade genética e que sejam saudáveis garantindo que ao serem introduzidos não causem modificação da constituição genética da população selvagem e que se aplique o monitoramento. Para estabelecer uma estratégia adequada, é necessário conhecer a adaptação dos alevinos logo após a soltura, a dispersão, o processo de mortalidade dos juvenis e garantir que o habitat selecionado ofereça abundância de alimento e abrigo contra predadores. Entre 2013 e 2015, o Projeto Garoupa patrocinado pela PETROBRAS e executado pela ATEVI avaliou a população de garoupas em seus habitats nas regiões costeiras do norte do estado de São Paulo ao centro estado do Rio de Janeiro. Permitiu também identificar áreas para mitigação com o objetivo de reposição de peixes com baixos níveis populacionais como é o caso da garoupa. Além de avaliação de habitats, o Projeto Garoupa, também forneceu dados importantes sobre o comportamento de larvas e alevinos desta espécie utilizando telemetria que resultou em trabalho científico publicado no Journal of Fisheries and Aquaculture Development (Riedel, et al. 2017). Finalmente ótimas condições físicas, bióticas e abióticas para os alevinos podem ser oferecidas se a soltura for em áreas de ocorrência natural. No Brasil, uma iniciativa pioneira foi o projeto “Repovoamento do Litoral do Paraná com Alevinos de Robalo” que previa a produção de alevinos pelo Centro de Produção e Propagação de Organismos Marinhos (CPPOM) da Pontifícia Universidade Católica do Paraná com recursos da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior/Fundo Paraná. O projeto colocou cerca de um milhão de larvas e 300 mil alevinos de robalo nas baias do litoral paranaense em 2006-2007. Já em 2001 o CPPOM havia produzido 252 mil de larvas de robalos, que foram soltas na baía de Guaratuba com o propósito de viabilizar a recuperação do litoral paranaense. Uma das críticas que se fez a esta iniciativa foi a falta de avaliação dos resultados do repovoamento.  A importância ecológica de algumas espécies predadores de topo de cadeia como a garoupa verdadeira ( Epinephelus marginatus ) está também no fato de exercerem alta influência na densidade de suas presas e na estrutura da comunidade de fauna, o que a torna importante na regulação e equilíbrio de comunidades de seus ambientes. A proteção desta espécie visa, portanto, não somente manter seus níveis de abundância, mas também manter o seu ecossistema equilibrado e sadio. Tem hábitos sedentários e estudos sobre a movimentação dela demonstram que permanecem em territórios pequenos, distintos e individuais de 1500 m² até 2 há. Embora algumas áreas de proteção no Mediterrâneo tenham conseguido êxito em impedir o declínio dos estoques já comprometidos de garoupa, em grande parte devido à proteção de habitats, a recuperação é lenta e a falta destes grandes predadores tem influência direta e negativa na dinâmica e estrutura do ecossistema coralíneo. Medidas de repovoamento tem sido avaliadas para restabelecer a saúde dos ambientes coralíneos. A garoupa verdadeira é listada na Red List da IUCN como ameaçada de extinção (A2d). No Brasil foi incluída na Lista de Recursos do MMA como sobre explotada (IN 05/2004) e também consta como sobre explotada no Decreto Estadual Nº 56.031/2010 que define as espécies da fauna silvestre ameaçadas, colapsadas e sobre explotadas no estado de São Paulo. Atualmente é protegida pela Portaria MMA 445/2014 na categoria Vulnerável, e já existe um Plano de Recuperação instituído pelo MMA (Portaria 228/2018) cuja pesca é regulamentada pela Portaria IM 41/2018. O PROJETO GAROUPAS AO MAR é um projeto de Análise e Monitoramento Genético para avaliar o processo de reintrodução de alevinos de garoupa verdadeira produzidos em cativeiro no setor Maembipe da APAMLN a ser executado por uma equipe com grande experiência sob a coordenação da Associação Ambientalista Terra Viva. Tem como parceiros o Instituto de Pesca de São Paulo e o Laboratório de Análise Genética de Animais Aquáticos da Universidade de Mogi das Cruzes. A APA Marinha do Litoral Norte de São Paulo e a Prefeitura de Ilhabela deram a anuência e são parceiros também.  Sendo um Projeto de interesse difuso da sociedade, optou-se por realizar um financiamento coletivo ou crowdfunding, um tipo de “vaquinha” via internet para levantar os recursos necessários. Qualquer pessoa pode acessar a plataforma kickante e fazer sua contribuição. Se quiser ser um agente desta mudança, nos ajude fazendo uma contribuição. Seguir a ATEVI (FB: atevi.org Instagram: atevi_meio_ambiente), compartilhar os conteúdos e pedir contribuições ajuda muito também. A campanha de financiamento coletivo termina na primeira semana de dezembro/2018. Acesse: www.kickante.com.br/campanhas/garoupas-ao-mar Para saber mais: Link do G1: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/terra-da-gente/noticia/2018/11/01/conheca-o-peixe-que-estampa-a-nota-de-r-10000.ghtml Bibliografia: Anderson, A.B. et al. “Recovery of grouper … of a marine protected area in Southern Brazil.” Mar Ecol Prog Ser, 2014: 207-215. Araujo, R.M. “Fatores preditores da variação espacial na biomassa de peixes recifais” SC, 2014. 100. Astruch, P. et al. “Marquage et suivi do érou brun (Epinephelus marginatus) par Télémétrie acoustique” 2nd Symp on Medit. Groupers. Nice: 2007. 25-28. Bartley, et al. “Restocking, stock enhancement, and searanching” Rev. Fish. Sci., 2008: 357-365. Blankensip, H. et al. “A responsible approach to Marine Stock Enhancement.” American Fisheries Society Symposium. 1995. 167-175. CDB. “Aichi Biodiversity Targets.” 2010. http://www.cbd.int/sp/targets. Froese, R., FishBase. 2013. http://www.fishbase.org/, version 12/2013. Koeck, B. et al. “Diel and seasonal movement pattern of Epinephelus marginatus inside a marine reserve.” Marine Environmental Research, 2014, 94 ed.: 38-47. Riedel, R., C.E. Kerber et al. “Captive-reared Dusky Grouper as an alternative to repopulation of degraded reef habitats.” Journal of Fish and Aquac Dev, 2017, 3 ed.: 1-5. Tessier, A.et al. “Evolution of the population of Epinephelus marginatus within the Natural Marine Reserve of Cerbère-Banyuls.” GEM. 2012. Poster. Sobre a autora: Claudia Ehlers Kerber é veterinária mestre em fisiologia com especialização em produção de peixes marinhos pelo South East Fisheries and Development Center, SEAFDEC, Filipinas. Desenvolve projetos de reprodução e produção de formas jovens de peixes marinhos. #cláudiakerber #ciênciasdomar #garoupas #peixes #projetogaroupasaomar #convidados

  • Festa das bruxas no oceano

    Por Yonara Garcia E para entrar neste clima de Halloween, que tal falarmos de alguns monstrinhos do mundo submarino?! O mundo submarino é composto por uma imensa diversidade de organismos, desde os mais minúsculos organismos do plâncton às enormes baleias azuis, dos mais fofos, como o polvo Dumbo, aos mais feios, como o blobfish (lembre dele em nosso post Quem estuda o feio, bonito lhe parece ). E no mês de outubro, quando comemoramos o Halloween, no Brasil conhecido como o Dia das Bruxas, resolvemos fazer uma pequena lista dos bichos mais assustadores do fundo do mar. Aproveitem a leitura e se inspirem para, quem sabe no futuro, usar fantasias bem originais! Fonte: Polvo Dumbo (esquerda) e Blobfish (direita). Peixe Diabo Negro do Mar Em 1995, saía na capa da revista Time o Peixe Diabo Negro do Mar, o espécime que se tornaria o símbolo do mar profundo. Este peixe é uma espécie abissal , conhecida pelo nome científico Melanocetus johnsonii pertencente a ordem dos Lophiiformes. Ocorrem em profundidades mesopelágicas em águas tropicais e temperadas em todo o mundo. Possuem uma espécie de “vara de pesca” que termina em uma bolha que emite uma luz como uma isca, atraindo as presas em direção aos seus temidos dentes afiados. Esta luminosidade é possível graças à simbiose com bactérias bioluminescentes. Machos e fêmeas são muito diferentes. As fêmeas podem medir até 20 cm de comprimento, com cabeça e boca bem grandes. Já os machos tem o corpo mais simples, são bem menores que as fêmeas (chegando a medir apenas 2,9 cm, pouco maior que uma moeda de 1 real) e são incapazes de sobreviver sozinhos, vivendo como parasitas nas fêmeas. Ao encontrar uma fêmea, o macho morde sua barriga e se funde ao seu corpo, recebendo dela nutrientes e suprimento de sangue e fornecendo uma fonte permanente de espermatozóides. Recentemente, pesquisadores do Instituto de Pesquisa do Aquário da Baía de Monterrey, na Califórnia, conseguiram filmar uma fêmea de 9 cm. As filmagens foram realizadas a 600 metros de profundidade no cânion submarino de Monterrey, na costa da Califórnia, sendo a primeira vez registrado em seu habitat natural. Esse misterioso predador também já foi vilão no cinema. Se você já assistiu ao filme Procurando Nemo , vai se lembrar desse monstruoso peixe que Dory e Marlin encontram no fundo do mar. No filme, em meio a escuridão, eles são atraídos pela isca de luz do Diabo Negro do Mar, mas ao perceberem o monstro que estava por trás, nadam rapidamente para não serem capturados por esse feroz predador e, assim, continuarem as buscas por Nemo. Fonte Lula vampira do inferno A lula vampira do inferno ( Vampyroteuthis infernalis ), é o único representante vivo da Ordem Vampyromorphida, pertencentes ao grupo dos cefalópodes. São organismos pequenos, atingindo tamanho máximo de 28 cm. Ocorrem em grandes profundidades (normalmente entre 600 e 1200 m) em águas temperadas e tropicais dos Oceanos Pacífico, Atlântico e Índico. Nestas profundidades, a luz solar é fraca ou ausente, a quantidade de oxigênio é baixa e a temperatura varia entre 2° a 6°C. Apesar de possuírem uma taxa metabólica muito baixa e viverem sob concentrações de oxigênio também extremamente baixas, estes animais são capazes de se deslocarem com velocidades relativamente altas, utilizando principalmente suas aletas para se deslocarem, ao invés do jato propulsão, como outras lulas. Embora escassos, alguns estudos verificaram que estes animais se alimentam de copépodes, camarões e cnidários, mas a maior parte de sua energia é obtida por meio de detritos (partículas não-vivas que se originam nas camadas superiores do oceano e que precipitam em direção às camadas mais profundas). De acordo com a presença dos bicos da lula vampiro no estômago de alguns animais, foi observado que estes organismos são predados principalmente por pinípedes (focas, leões-marinhos, lobos-marinhos e morsas), baleias e peixes bentopelágicos. O nome lula vampiro do inferno foi dado devido a algumas características morfológicas como sua pele escura, a presença de uma membrana entre os tentáculos que dão a impressão de uma capa e os olhos vermelhos (dependendo da iluminação). Para o naturalista e explorador William Beebe (1926), a lula vampira do inferno é como “um polvo muito pequeno, mas terrível, preto como a noite, com mandíbulas brancas marfim e olhos vermelho sangue” (" a very small but terrible octopus, black as night, with ivory white jaws and blood red eyes "). Que medo! Mas de acordo com alguns estudos do comportamento, elas não passam de um animal dócil. Uma dica de leitura muito interessante, de autoria do filósofo Vilém Flusser e do biólogo/artista Louis Bec, é o livro chamado Vampyrotheuthis infernalis , uma mistura de filosofia/ciência/fábula que discute o quão distante estamos nós humanos dos animais. Peixe-bruxa O peixe-bruxa faz parte da Classe Myxini e, apesar de ser classificado por alguns pesquisadores como vertebrado, não possui nem vértebras nem ossos (Heimberg et al., 2010; Nelson et al., 2016). De acordo com Theodore Uyeno, da Universidade Estadual de Valdosta (Geórgia, EUA), a partir de um estudo que analisou o DNA desses organismos, o peixe-bruxa é considerado um vertebrado que perdeu as características do uso da coluna. No lugar da coluna ele possui uma corda de cartilagem (notocorda), que em nós, humanos, aparece apenas na fase embrionária. Pertencem a classe Myxini e são encontrados em águas frias em ambos os hemisférios.São criaturas primitivas, semelhantes às enguias, sem escamas, com corpo cilíndrico e alongado possuindo movimento parecido ao de uma cobra. Não possui mandíbula nem estômago. Possui vários corações e pelo menos duas vezes mais sangue em seus corpos do que outros peixes. Contam com quatro pares de tentáculos de detecção dispostos em torno de sua boca. A boca contém duas fileiras paralelas de dentes fortes e pontiagudos, que são presos a placas dentais ásperas. Apesar de possuírem apenas a arcada dentária superior, esses animais possuem uma mordida poderosa! Por meio de alguns estudos, pesquisadores sugeriram que esse peixe é capaz de morder, pois se enrola para formar nós, principalmente próximo da cabeça, que junto com a arcada superior prende e espreme o alimento. São quase cegos, com olhos rudimentares que são capazes de detectar a luz, mas têm sentidos bem desenvolvidos de toque e cheiro. Apelidados de “urubus marinhos”, passam a maior parte de suas vidas no fundo dos oceanos se alimentando de peixes mortos e moribundos, mas também atacam pequenos invertebrados, tendo como seu prato favorito carcaças de baleias. Além disso, foi observado que estes peixes ainda são capazes de absorver nutrientes pela pele. Uma característica notável desses animais é a capacidade de secretar uma espessa camada de muco sobre a pele que serve tanto como uma mecanismo de defesa como uma arma de caça. O vídeo abaixo mostra o momento que esses peixes encontram uma carcaça no fundo do mar. É quase que um ataque zumbi de tão voraz e por isso eles merecem estar em nossa lista. Tubarão-duende Se você já assistiu MIB: Homens de Preto, vai notar a grande semelhança desse animal aos alienígenas do filme. Esse é o Mitsukurina owstoni , também conhecido como tubarão-duende. Este peixe de águas profundas possui uma ampla distribuição, com registros no Oceano Pacífico, Atlântico e Índico. Sua aparência incomum tem como destaques seu focinho alongado e achatado, que se projeta no topo de sua cabeça, parecido com uma pá, e uma boca protuberante, com dentes longos e finos, capaz de se estender para frente sob o focinho ou se retrair para uma posição sob o olho. Acredita-se que o focinho plano tenha a função de detectar os sinais elétricos fracos emitidos pelas presas. Pode chegar até 3,9 m de comprimento. De acordo com análises de conteúdo estomacal, pesquisadores descobriram que eles se alimentam principalmente de peixes, lulas e crustáceos. Fonte   Este tubarão não é um hábil nadador, então, ao detectar uma presa, ele se move lentamente em direção a sua comida e, no momento do ataque, ele projeta sua mandíbula para frente, de forma abrupta e bem rápida, puxando a presa para dentro de sua boca. Apesar de raramente capturado, esta espécie não é considerada ameaçada (no status na Lista Vermelha do UICN ele é considerado como “Preocupação Menor”), visto que na maioria das vezes em que é pescado é apenas como uma captura acessória (não intencional) de redes de arrasto em águas profundas, principalmente na costa do Japão. Em 2011, o tubarão-duende foi capturado acidentalmente por um barco de pesca na costa do Rio Grande do Sul. Este exemplar foi doado ao Museu Oceanográfico da FURG (Universidade Federal do Rio Grande), sendo o segundo exemplar a integrar a coleção científica do país. Apesar de alguns organismos das profundezas serem bem “horripilantes”, todos são importantes para o ecossistema marinho. Já imaginou se eles se organizassem para fazer uma festa de Halloween no fundo dos oceanos? Acho que as fantasias mais tenebrosas que apareceriam seriam de homens e plásticos, que são as maiores ameaças para a existência deles. Então, aproveite sua festa, mas faça sempre a sua parte, para que deixemos de ser os verdadeiros monstros da vida marinha. Feliz Dia das Bruxas! Referências: HEIMBERG, Alysha M. et al. microRNAs reveal the interrelationships of hagfish, lampreys, and gnathostomes and the nature of the ancestral vertebrate. Proceedings of the National Academy of Sciences , v. 107, n. 45, p. 19379-19383, 2010. NELSON, Joseph S.; GRANDE, Terry C.; WILSON, Mark VH. Fishes of the World . John Wiley & Sons, 2016. Robison, B. H., Reisenbichler, K. R., Hunt, J. C., & Haddock, S. H. D. (2003). Light Production by the Arm Tips of the Deep-Sea Cephalopod Vampyroteuthis infernalis. The Biological Bulletin, 205(2), 102–109. doi:10.2307/1543231 ZINTZEN, Vincent et al. Hagfish feeding habits along a depth gradient inferred from stable isotopes. Marine Ecology Progress Series , v. 485, p. 223-234, 2013. https://www.iucnredlist.org/species/44565/10907385 https://www.floridamuseum.ufl.edu/discover-fish/species-profiles/mitsukurina-owstoni/ https://australianmuseum.net.au/goblin-shark-mitsukurina-owstoni https://australianmuseum.net.au/humpback-blackdevil-melanocetus-johnsonii-gunther-1864 http://marinebio.org/species.asp?id=179 http://www.bbc.com/earth/story/20160905-the-strangest-fish-in-the-sea #yonaragarcia #ciênciasdomar #diadasbruxas #halloween #lulavampiradoinferno #peixediabonegrodomar #peixebruxa #tubarãoduende

  • Análise dos programas de governo dos presidenciáveis Bolsonaro e Haddad: CIÊNCIA E TECNOLOGIA

    A dois dias da eleição, o Bate-papo com Netuno publica uma nova comparação entre os planos de governo de Haddad e Bolsonaro, candidatos à presidência da república. Dessa vez, avaliamos as propostas dos candidatos em relação à ciência, tecnologia e inovação (CT&I).  Segundo o IBGE, CT&I compreende a pesquisa e o desenvolvimento, a produção do conhecimento, assim como as tecnologias, os recursos humanos e os financiamentos na área, além de outros serviços baseados no conhecimento. Esse post pode te ajudar a decidir seu voto ou, se você já está decidido, saber o que esperar do próximo presidenciável nesse campo.  Ministério Em 2016, o presidente Michel Temer fundiu o Ministério que era dedicado a CT&I ao Ministério das Comunicações. A ação foi duramente criticada pela comunidade científica na época (relembre lendo nosso post “ Ciência Nada Básica ”).  Sobre a reconstrução do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o candidato Haddad expressa uma proposta que visa“garantir a prioridade estratégica da área no novo projeto nacional de desenvolvimento”. Além disso, Haddad promete atender a um pedido da comunidade científica que é a revogação da Emenda Constitucional 95, que estabelece um teto para os gastos do governo federal pelos próximos 20 anos, o que diminui investimentos em CT&I.  O candidato Bolsonaro não cita o Ministério em questão, afirmando apenas que vai reduzir o número de ministérios, sem especificar quais. Em entrevista dada à SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), o candidato do PSL afirma que o provável ministro da pasta de Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações será o engenheiro Marcos Pontes, “que também é astronauta, escolhido por meritocracia”, afirma o candidato.  Investimento O candidato do PT trata de CT&I especificamente na seção “Promover uma estratégia nacional de desenvolvimento”, no capítulo sobre “Estratégia de expansão produtiva” (página 45). A CT&I também permeia os capítulos que tratam de educação, meio ambiente e agricultura. O candidato do PSL aborda o assunto nas seções intituladas Saúde e Educação (slide 41) e Inovação, Ciência e Tecnologia (slides 48 e 49). O candidato Haddad propõe fortalecer as instituições de pesquisa e ampliar os investimentos em CT&I através da liberação de recursos e parcerias entre as instituições de pesquisa públicas e privadas em biotecnologia, nanotecnologia, fármacos, energia e defesa nacional, áreas consideradas estratégicas pela equipe do candidato. No plano é destacado que investimentos na área promovem o desenvolvimento econômico através da geração de conhecimento que diminui as desigualdades no padrão tecnológico, Segundo o plano, a falta de investimento na área faz o país perder competitividade internacional (veja mais nas páginas 43 e 44). O candidato do PSL tem a intenção de tornar o país um centro mundial de pesquisa e desenvolvimento em grafeno e nióbio , para gerar novas aplicações e produtos. O modelo atual de pesquisa e desenvolvimento no Brasil é criticado pelo candidato do PSL, que o classifica como esgotado. O candidato propõe criar hubs tecnológicos, para jovens pesquisadores e cientistas serem estimulados a buscar parcerias com empresas privadas para transformar ideias em produtos. O candidato refere-se ao destaque dado a cursos técnicos e à área de exatas em países asiáticos como exemplo. Ele destaca ainda que essa área não pode ser exclusivamente dependente de recursos públicos.  O candidato Haddad indica associação entre universidades e centros de excelência em pesquisas públicas e privadas, “capazes de operar em redes colaborativas e em coordenação com a estruturação de ecossistemas de inovação”. Ele propõe implementar um plano (Plano Decenal de Ampliação dos Investimentos em CT&I) para o investimento em Pesquisa e Desenvolvimento pelo governo e pela indústria chegar ao patamar de 2% do PIB até 2030.  O plano do candidato do PT afirma que a estratégia nacional de expansão produtiva será orientada pelos critérios de “integração regional como base para inserção soberana do Brasil no mundo; redução da restrição externa; maior potencial de desenvolvimento e disseminação de novas tecnologias; elevação do padrão de vida do conjunto da população; sustentabilidade ambiental e desconcentração regional e espacial; e integração social e geração de empregos de qualidade”. O plano afirma que quanto maior a quantidade de critérios preenchidos pelo setor, mais alta será a hierarquia dele.  Cada região do Brasil deve buscar suas vantagens comparativas, segundo o candidato do PSL. Como exemplo, é citado o potencial da região Nordeste de desenvolver fontes de energia renováveis. Em seguida, é mencionado que “há espaço para trazer o conhecimento de Israel” para a agricultura.  Universidades Todos os cursos universitários devem “estimular e ensinar o empreendedorismo”, afirma o plano do candidato do PSL. De acordo com o candidato, o jovem tem que “deixar de ter uma visão passiva” sobre o futuro e sair da faculdade pensando em como transformar “o conhecimento obtido” em produtos, negócios riqueza e oportunidade.  O candidato Haddad afirma que vai ampliar o empreendedorismo e o crédito cooperado para ampliar as oportunidades de “trabalho decente”, em especial para mulheres, trabalhadores de meia-idade e jovens, segmentos que são classificados como “as grandes vítimas do atual ciclo de desemprego” (mais explicações sobre o tema podem ser lidas nas páginas 44 e 45 do plano). O plano do candidato defende que a cultura empreendedora deve ser trabalhada desde o ensino fundamental, passando pelos cursos profissionalizantes e universidades para que “o ambiente das startups“ cresça no Brasil. Na educação, o plano do candidato Bolsonaro cita que se deve ter “mais ciência”, sem maiores esclarecimentos, e que as universidades precisam gerar avanços técnicos para o Brasil, “através do desenvolvimento de novos produtos e pesquisa em parceria com a iniciativa privada”. O candidato do PSL afirma que “a pesquisa mais aprofundada segue um caminho natural. Os melhores pesquisadores seguem suas pesquisas em mestrados e doutorados, sempre próximos das empresas”. O Bate-papo com Netuno pondera essa afirmativa no plano do candidato, já que temos em todo o mundo pesquisadores qualificados e premiados distante das empresas, próximos de grandes centros de pesquisa ligados às universidades, fazendo pesquisa básica, por exemplo.  O candidato do PT promete remontar o Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, classificado como “alavanca fundamental para o desenvolvimento do país”, De acordo com o plano, esse sistema está “na maior crise da sua história”. A crise, promete o candidato, será revertida através da conexão entre as políticas públicas e “o curso da expansão da fronteira de conhecimento aplicada em todas as áreas do sistema produtivo”.  Sugestões de leitura: A verdade sobre o nióbio (Revista Superinteressante)  As propostas dos candidatos à Presidência para ciência, tecnologia e inovação (SBPC) Candidatos à Presidência da República respondem questões sobre CT&I e educação enviadas pela SBPC e ABC (SBPC) Ciência básica é fundamental para o país, ressalta presidente da SBPC (Agência FAPESP) Eleições 2018: Quais as propostas de Bolsonaro e Haddad para a economia (BBC) Eleições 2018: Um guia de como escolher um candidato (BBC) Substância feita de óleo usado transforma esgoto em água potável (Galileu) #ciênciaetecnologia #meioambiente #planodegoverno #presidenciáveis #ciênciasdomar

  • Semana Nacional de Ciência e Tecnologia 2018

    Durante a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia da USP, em outubro de 2018, nossa editora Jana del Favero participou da mesa de debate sobre a "Presença e contribuição de mulheres para o avanço da ciência no Brasil". Esse evento contou com a participação e o protagonismo de jovens estudantes que fazem parte do Programa "Imprensa Jovem", ligados ao Núcleo de Educomunicação. O evento pode ser assistido na íntegra aqui . #netuniandoporai #janamdelfavero #snct2018 #mulheresnaciência

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