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  • A new home for Nemo

    By Cathrine Boerseth Edited by Katyanne M. Shoemaker People don't like having their homes destroyed and neither do animals; bears don’t like it, birds don't like it, fish certainly don't like it and neither do the tiniest planktonic animals that people often forget even exists. Some of these tiny animals are meroplanktonic, which means they only float around in the early stages of their lives, to grow up as adults they need somewhere to settle down, a nice home with a good foundation; for many organisms that means a hard surface like rocks or a coral reef.  Sadly, in the waters of northern Paraná state, many of these nice hard (and already rare) surfaces were destroyed by destructive fishing methods like trawling. The meroplanktonic larvae were still floating around in the water, but there were few places for them to settle down. In the biological world one thing always affects another and so did the lack of appropriate habitat in our case; fish eat the organisms living on and around rocky reefs and so the lack of hard bottom substrates meant a lack of food for the fish, and so the populations declined. But what if we made new homes for these animals and what if those homes were so sturdy and strong that trawlers wouldn't be able to break them? Well, that’s exactly what researchers did between 1997 and 2013 when they deployed a number of artificial reefs along the Paraná coast. But what exactly is an artificial reef? An artificial reef can be made out of rocks, concrete blocks or even sunken ships. They are man-made structures, preferably with different holes and crevasses, placed under water to provide shelter for marine organisms. Bacteria and algae are usually the first organisms to arrive, meroplanktonic larvae settle and grow up to be anything from anemones to crabs; all of these animals attract fish looking for food and they in turn attract larger fish and other predators.  After a while, the ecosystem on the artificial reef grows to become a place with both food and shelter for all kinds of marine organisms. However, even after the artificial reefs were in place, many questions were still unanswered: would meroplanktonic organisms come to settle? Would they attract fish? Would those fishes reproduce? Would the ecosystem of the artificial reefs be anything like a natural rocky reef? The answer to the two first questions was discovered to be a big YES, but what about the other questions? That's what I wanted to find out! Exiting stuff, now what? To answer those questions, we decided to look at fish larvae and fish eggs. To capture them we used a net attached to an underwater scooter (so cool, I know), and a light-trap. With the scooter and light-trap we were able to capture larvae very close to the artificial reef; the net captured eggs and the smallest fish larvae while the trap attracted larger larvae. We also sampled at a distance from the artificial reef (would the abundance of larvae and eggs be different there?) and at a natural rocky reef habitat nearby (the beautiful archipelago of Currais). We collected as many samples as the weather and waves allowed between the July of 2014 and April of 2016. The samples were collected using a light-trap (left) and a net attached to an underwater scooter (right). So what did the data show?   The number of fish larvae and fish eggs was in fact higher on the artificial reef compared to samples taken at a distance from the reef. Furthermore, the fact that the samples contained eggs and very small newly hatched larval fish means that fish are either reproducing on the reefs or close by. Additionally, many of the fish larvae collected on the artificial reefs belonged to species that are known to live on rocky reef habitats; most of the other species found were pelagic, which means they live in the open water. What does it all mean? Well, it means that the artificial reef is beginning to act like a natural reef (great!), but it still has a way to go. Fish are still more abundant on the natural reef and many of the fishes on the artificial reef are more like visitors, like the pelagic species. They are all welcome of course! The artificial reef provides food and shelter; many of the visitors attracted by delicious food become food themselves, but that's ok, it's all part of the food network.  It may sound like artificial reefs are the solution to all of our problems and you may want to stand up with your hands in the air shouting: let's put artificial reefs in all the seas in all the world! Then everything will be great again, right? That would be amazing, but unfortunately, as with most things in life, it's just not that simple. There are many factors to consider because deploying an artificial reef is in itself a human intervention in nature and could cause more harm than good, careful research in each individual case is essential! What can we learn from all this? Nature finds a way. Humans are destructive; in order to get our way and build our houses, we destroy houses of so many other animals. Fortunately, given time, many ecosystems are resilient enough to come back to life. Artificial reefs may not be the answer to all our problems, but on the coast of Paraná it appears that a tiny piece of a suffering ecosystem may actually be getting back on its feet.  About Cathrine : Biologist and currently preparing to defend my masters’ dissertation in the field of biological oceanography at the University São Paulo. As a true Norwegian I fell in love with the ocean scuba diving in the freezing waters of the north. I have been living in Brazil for four years now and I can't wait to discover where life will take me in the future. What I know with certainty is that I want to work and live close to nature, that being in the beautiful tropics of Brazil or in the wonderful Arctic of Norway (or somewhere in between). #marinescience #cathrineboerseth #artificialreefs #invited #meroplankton #chat

  • Circulação Termohalina

    Por Gabrielle Souza A circulação termohalina, também chamada de circulação profunda ou abissal, consiste na circulação de águas no oceano profundo, resultante de variações na temperatura e salinidade (termo - temperatura, halina - salinidade), que causam modificações na densidade da água. Essas variações podem ser provocadas por processos de evaporação, precipitação, descarga de rios e degelo nos polos. Chamamos de termohalina, qualquer circulação que não é gerada pelo vento. Uma parte importante deste processo é a formação da água de fundo que se dá por convecção, quando a água fria na superfície em altas latitudes (nos polos) afunda. A circulação termohalina é importante na dinâmica dos oceanos, pois este fluxo de águas pode até mesmo alterar o clima. Mas é importante lembrar que a circulação termohalina tem velocidades da ordem de 1cm/s e pode levar séculos para redistribuir o calor no planeta. As águas frias da circulação termohalina só voltam à superfície em baixas latitudes, quando ocorre a mistura do calor da superfície com as camadas inferiores. Lembre-se que não existe uma fonte significativa de calor nos oceanos. As imagens abaixo apresentam o ciclo da circulação termohalina e as correntes que resultam deste fenômeno. Na primeira você pode ver como funciona a circulação, enquanto a segunda imagem mostra os locais de formação de águas profundas ( deep water formation ). As correntes de superfície estão em vermelho e as correntes profundas em azul. A água fria mais salgada e mais densa afunda, enquanto a água mais quente e menos salgada, com menor densidade sobe à superfície. Fonte Para saber mais: http://cienciapatodos.webnode.pt/news/o-oceano-e-o-clima/ Referências : SATO, Olga.  Circulação Termohalina:  São Paulo: Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo. Posts relacionados: Como o derretimento das geleiras pode afetar os oceanos e o clima Dinâmica da produção primária e convecção profunda de retorno (overturn) no mar Mediterrâneo: uma abordagem por modelagem 3D de alta resolução #circulaçãotermohalina #descomplicando #gabriellesouza

  • A água em Marte e o fundo do oceano

    Por Jana M. del Favero No final de setembro de 2015 cientistas da NASA anunciaram a confirmação da existência de água salgada em Marte , o “Planeta Vermelho”. A notícia causou um certo alvoroço por causa da possibilidade de encontrarem vida por lá. Landscape do misterioso planeta vermelho, no filme Perdido em Marte. Fonte Sabemos que a vida depende de água: ela é o maior constituinte dos fluidos dos seres vivos (o corpo humano é constituído em média por 60% de água), é necessária para a realização da fotossíntese e é indispensável para diversas outras funções vitais. Entretanto, a frase recém dita esquece de citar um importantíssimo detalhe: a vida COMO NÓS CONHECEMOS depende de água! Na hora lembrei-me de uma charge, feita em data bem anterior à descoberta de água em Marte. Na charge há dois vermes tubícolas gigantes conversando e um pergunta: “você acha que existe vida na superfície do oceano?”, e o outro responde: “Não! Não tem fonte hidrotermal lá em cima, o que eles usariam como energia?”. Fonte Cheguei até a postar essa charge na minha página pessoal do Facebook, mas depois refleti: quantos dos meus amigos sabem o que são vermes tubícolas gigantes? E o que são fontes hidrotermais? Bem, vermes tubícolas são animais invertebrados pertencentes ao filo Annelida (sim, o mesmo  das minhocas) e da classe Polychaeta (vermes aquáticos), porém eles são sésseis, fixados em uma superfície subaquática. Eles possuem em torno de seu corpo um tubo, no qual podem guardar todo o corpo. As da charge são da espécie Riftia pachyptila, vermes tubícolas gigantes, que podem atingir um comprimento de 2,4 m em um tubo com 4 cm de diâmetro e vivem em grandes profundidades oceânicas (mais informações aqui ). Foto de uma concentração de Riftia pachyptila (tubos brancos com as plumas avermelhadas). Fonte Já a fonte hidrotermal submarina é uma fissura na crosta terrestre a partir da qual emerge um fluido hidrotermal: a água que penetra na crosta em altas profundidades reage com os minerais presentes, sofrendo alterações físico-químicas no caminho. Junto dessas fontes parece haver um oásis de vida, graças à quimiossíntese, um processo no qual os microrganismos utilizam a energia química para produzir matéria orgânica, a partir do dióxido de carbono (mais informações sobre as fontes hidrotermais aqui ).   Fonte Antes da descoberta das fontes hidrotermais submarinas na década de 70, a comunidade científica assumia que toda a vida no oceano dependia da produção fotossintética, produzida principalmente pelo fitoplâncton. Como a fotossíntese depende da luz solar, era como afirmar que toda a vida nos oceanos dependia unicamente do sol! Então, as fontes hidrotermais submarinas e a quantidade de organismos que vivem ao redor dela provaram o contrário.   E é esse o ponto que quero chegar com esse post, conhecemos tão pouco do oceano quanto conhecemos do espaço! Segundo a pesquisadora Lúcia Campos, conhecemos pouco mais de 1% dos oceanos e eles cobrem 80% do nosso planeta, sendo que a maior parte dos oceanos tem apenas 3 km de profundidade. Já Marte está a aproximadamente 60 milhões de quilômetros de distância da Terra! Não que estudar o que ocorre no espaço não tenha sua devida importância, mas gostaria que a quantidade de verba investida em estudos espaciais e a devida atenção na mídia fosse dada também aos oceanos, ainda tão desconhecidos e tão mais presentes em nossas vidas. #fontehidrotermal #marte #oceano #vermestubículas #ciênciasdomar #janamdelfavero

  • Dinâmica da produção primária e convecção profunda de retorno (overturn) no mar Mediterrâneo

    Uma abordagem por modelagem 3D de alta resolução Por Fayçal Kessouri Tradução:  Catarina R. Marcolin O meu trabalho tem como foco a modelagem de sistemas plactônicos utilizando um modelo de acoplamento físico-biogeoquímico. Este tipo de modelo é uma representação virtual 3D dos principais constituintes dos níveis tróficos mais baixos do ecossistema marinho. Inclui plâncton, bactérias e os nutrientes que os suportam sobre condições hidrológicas e forçantes atmosféricas realísticas.  O modelo biogeoquímico com o qual trabalhei mostra o impacto de correntes dinâmicas sobre os nutrientes que suportam o plâncton marinho, incluindo nitrato, fostato e silicato. Como eles estão distribuídos no oceano? Como são consumidos? Quem os consome? O modelo biogeoquímico mostra apenas uma parte das complexas relações  entre diferentes componentes de um ecossistema. Alguns exemplos são como os apresentados  a seguir na figura 1 abaixo: matéria inorgânica alimenta o fitoplâncton quando certas condições abióticas estão disponíveis (luz suficiente, camada estratificada dos oceanos), zooplâncton se alimenta de fitoplâncton. A matéria orgânica é mineralizada em inorgânica e serve de alimento para as bactérias, as quais liberam matéria orgânica e inorgânica dissolvidas, e o ciclo continua. O plâcton marinho é a base de toda a vida marinha. Eles influenciam a pesca, a economia mundial, a saúde humana e tem um importante papel na manutenção da biodiversidade. O plâncton é composto de: Fitoplâncton: contém a maior massa de produtores marinhos do mundo. Algumas estimativas mostram que os produtores marinhos produzem mais da metade do oxigênio que respiramos na Terra. Zooplâncton: se alimentam de fitoplâncton (veja também o post da Catarina ). Representam a maior migração animal diária do planeta.  Bacterioplâncton e virioplâncton: constituem a maior biomassa do planeta, procariotos e vírus são frequentemente esquecidos quando falamos em redes tróficas marinhas clássicas (leia mais aqui ). O mar Mediterrâneo fica entre três continentes (Europa, África e Ásia) e, portanto, está sujeito a pressões físicas da descargas de rios e de depósitos atmosféricos de matéria orgânica e inorgânica, os quais tem dois níveis de impactos: (1) equilíbrio geral de matéria orgânica e inorgânica em todo o mar, (2) eutrofização (elevação no nível de nutrientes) de águas costeiras. Um dos nossos achados mais importantes usando este modelo é a quantificação de todas as importações e exportações de matéria nos últimos dez anos entre o Mediterrâneo e os ambientes adjacentes (continentes e oceano Atlântico). Nós estimamos que o Mediterrâneo enriquece o Atlântico em mais de 140 X 109 mols de nitrogênio todos os anos através do estreito de Gibraltar.  O mar Mediterrâneo tem uma característica em comum com o Oceano Atlântico Norte e o Oceano Ártico: zonas de convecção profundas. No Mediterrâneo, uma mistura intensa é observada quase todos os invernos por dois meses. Imagine uma gota de água se movendo do fundo do Mediterrâneo a uma profundidade de 2300 m e subindo para a superfície em um único dia. Esta convecção de retorno a partir de gradientes criados por trocas de calor na superfície e fluxos de água doce é o motor da circulação termohalina global. Esta circulação criada por um gradiente de densidade é estimada estar numa escala de 70 anos no Mediterrâneo e 1000 anos nos oceanos do mundo. As massas de águas profundas contem altas concentrações de nutrientes, os quais são propagados para a superfície durante eventos de mistura profunda. Quando a mistura se interrompe no final do inverno, alguns dos nutrientes são aprisionados nas águas superficiais e uma grande floração de fitoplâncton é formada, cobrindo uma área de 5 mil a 20 mil km2 (figura 2). Florações de fitoplâncton podem ser tão grandes que podem ser observadas do espaço por satélites e são, portanto, bem modeladas. Essas florações de fitoplâncton ocorrem diretamente acima do local da convecção profunda, o qual é referido como o giro norte do Noroeste do mar Mediterrâneo. Este giro é provocado por fortes correntes ciclônicas (sentido anti-horário no hemisfério norte). Sobre Fayçal Kessouri : Atualmente sou pós-doutorando no Departamento de Oceano e Atmosfera da Universidade da Califórnia em Los Angeles, CA, EUA e o meu doutorado foi desenvolvido na Universidade de Toulouse na França (Laboratoire d’Aerologie). Meu campo de trabalho é biogeoquímica oceânica e modelagem 3D de ecossistemas planctônicos, especialmente forçantes físicas. Eu trabalhei com os impactos da convecção profunda no ecossistema planctônico no mar Mediterrâneo e atualmente estou trabalhando com o sistema de ressurgência da corrente da Califórnia e seus impactos na acidificação e hipóxia na costa oeste americana. Meu desejo em conseguir treinamento em modelagem numérica me motivou a trabalhar com um time de físicos para adquirir uma visão mais integrada do funcionamento dos ecossistemas e seus impactos. Isso me ajudou a estudar processos dinâmicos tais como a convecção que sempre me fascinou. Estou convencido de que a modelagem é uma ferramenta perfeita para complementar as redes de observações que tem sido feitas, especialmente se você quer estudar diferentes escalas espaciais e temporais. #ciênciasdomar #fayçalkessouri #convidados #modelagem #oceanografiafísica #plâncton #catarinarmarcolin

  • A feliz alteração na minha carreira proporcionada pela minha filha

    Por Lilian P. de Oliveira Para continuar com a discussão sobre quando colocar filhos no cronograma ( acesse aqui ), convidamos a bióloga Lilian P. de Oliveira para compartilhar conosco seu depoimento. Todos nós temos sonhos e objetivos na vida. Eu, como não sou diferente, sempre sonhei em casar e constituir uma família, assim como ter uma vida profissional estável. Durante minha vida escolar me fascinavam as aulas de biologia, assim como as de artes plásticas... nada a ver, eu sei! Mas a biologia falou mais alto e iniciei o curso de graduação em Ciências Biológicas e da Saúde. Foram quatro anos de muita dúvida, não sabia se conseguiria estágio, emprego, o que faria do meu futuro profissional. No final da graduação, um amigo me indicou um estágio no laboratório de Zooplâncton do Instituto Oceanográfico da USP (IOUSP). Quase nem acreditei! Marquei para conversar com o professor que coordenava o laboratório e ele me aceitou como estagiária. Em uma semana lá estava eu aprendendo a identificar copépodos e outros organismos marinhos microscópicos (Leia mais em “Para o plâncton, tamanho é documento...”). Fiquei no laboratório participando dos projetos de pesquisa, conheci diversas pessoas e fiz amigos especiais que fazem parte da minha vida até hoje! Após dois anos ingressei na pós-graduação no curso de Oceanografia Biológica do Instituto, os meses que seguiam seriam de muito estudo e dedicação ao meu projeto.  Em paralelo, a vida pessoal seguia também! Montei minha casa, me casei e uma nova fase se iniciou. Parte do meu objetivo foi alcançado, mas a maternidade estava presente em meus planos, seria para o ano seguinte ao término do mestrado. Como não podemos controlar tudo na vida, o inesperado aconteceu, engravidei um ano após o início do curso... tensão total! Não sabia se meu desespero era por ser muito imatura emocionalmente, por não ter uma vida profissional estável, por estar no meio do mestrado... na verdade acho que foi tudo isso e mais um pouco! A cada semana gestacional sentia a transformação no meu corpo, nos hormônios e a “ficha caiu”, um bebê logo estaria em meus braços dependente de mim 100%. Meu Deus, o que eu faço? Era o pensamento diário que martelava em minha mente. Se não bastasse essa dúvida de como ser mãe, como cuidar de um ser tão frágil, ainda tinha meu trabalho. Faltava muito ainda para finalizar, então segui com a evolução dos meus dois bebês, a Letícia e a dissertação! Adiantei tudo o que pude do trabalho em laboratório para que quando ela chegasse eu pudesse ficar em casa apenas redigindo. E tudo deu certo, contei com a ajuda e compreensão de todos os envolvidos. Chegou o dia, a Letícia nasceu em 17 de dezembro de 2008, branquinha, olhos azuis, uma princesa rsrsrs!! Os três dias que permanecemos na maternidade foram perfeitos, podia dormir, me alimentar bem para ter energia e amamentá-la, mas o sonho acabou quando voltei para casa. Sabia que no início seria muito difícil, um bebê não vem com manual de instruções, fui me adaptando a cada dia com essa nova relação, tudo era novidade para nós duas. Além de cuidar dela tinha que analisar alguns resultados e redigir o texto da dissertação. Meu prazo estava próximo, teria que entregar em seis meses. Alguns dias não sentia nem vontade de ligar o computador para trabalhar, passava o dia “babando” a filhota! A cada dia uma mudança, era nítida a evolução, o aprendizado. Somos muito perfeitos, nosso organismo trabalha sincronizado e o desenvolvimento acontece muito naturalmente. Fui abençoada em poder acompanhar essa fase da vida dela. Os dias passaram e meu prazo estava chegando ao fim, o que fortalecia era saber que ao terminar teria mais tempo para me dedicar a minha filha, isso ajudou muito, era meu combustível. Consegui finalizar as correções do professor, imprimir o trabalho e apresentá-lo à banca de julgamento da pós-graduação... Pronto, mais um parto bem sucedido rsrsrsrsrs! Afastei-me de tudo e desempenhei apenas o papel de mãe durante os meses seguintes. Cheguei a pensar que estava livre, que tudo seria mais fácil a partir daquele momento, mas o questionamento em relação ao meu futuro continuava... deparei-me com duas opções: a primeira seria voltar para a pesquisa, continuar meu trabalho e posteriormente encarar um doutorado... seria perfeito!! Na área profissional estaria realizada, mas existiam pontos negativos nessa escolha, teria que me deslocar de um lado ao outro da cidade, gastar 4 horas por dia no transito “louco” de São Paulo, viajar para as coletas e ficar dias longe de casa. A segunda opção era trabalhar com meu marido em uma empresa de importação e vendas na área administrativa, como já tinha experiência recebi essa proposta... acho que atraio esse tipo de função devido à minha organização exagerada! Teria vantagens, pois o escritório ficava no mesmo bairro onde morávamos na época e a cinco minutos da escola onde a Letícia ficaria, estaria próxima da minha família e sem desgaste emocional. Foi um momento complicado, teria que escolher entre minha carreira e minha família... minha vontade era sumir, desaparecer e não ter que fazer escolha nenhuma, não tinha ideia do que eu queria. A princípio optei pelo emprego administrativo, mas tinha sempre em mente que voltaria para a pesquisa em breve, mas o tempo foi passando, me adaptei as funções exercidas na empresa e a comodidade de estar com minha família fez toda a diferença. Já não pensava mais em voltar para a área, estava desatualizada. Passei um período muito triste, pois sentia que abandonei um sonho, que joguei fora os anos de estudo e de trabalho, sempre me questionava se havia escolhido o melhor caminho. Passaram-se seis anos e hoje vejo que minha escolha foi correta, estou realizada profissionalmente, pois tenho um bom trabalho, desempenho uma função de confiança na empresa e sou agradecida pela minha linda família. A Letícia participa diretamente da minha vida, é minha amiga e companheira, fazemos muitas coisas juntas e isso é maravilhoso! Sou muito feliz com a vida que escolhi.  Sobre a autora: Lilian P. de Oliveira é bióloga, mestre em Ciências pela Universidade de São Paulo e super mãezona. Participou de vários projetos de pesquisa junto ao Laboratório de Sistemas Planctônicos, no qual desenvolveu seu projeto de Mestrado “Análise comparativa da distribuição das famílias Salpidae e Doliolidae em relação ao zooplâncton total na plataforma continental sudeste do Brasil por meio de técnicas semi-automáticas de identificação e contagem” que descreve a distribuição de salpas e dolíolos (“primos” das águas-vivas), que são ecologicamente importantes no ambiente marinho e se alimentam de organismos planctônicos, inclusive de larvas de peixes. Lilian analisou material biológico coletado na costa do Brasil durante cruzeiros oceanográficos realizados pelo Instituto Oceanográfico, utilizando um scanner a prova de água, chamado ZooScan, que gera imagens dos organismos para facilitar a contagem e mensuração do seu tamanho. Saiba mais sobre o trabalho da Lilian clicando aqui . #carreira #convidados #filhos #silviagonsales #lilianpdeoliveira #mulheresnaciência

  • Three minutes, one slide, and lots of fish eggs

    By Jana M. del Favero Edited by Katyanne M. Shoemaker Would you be able to explain your research to an audience of academics from all different disciplines, in just 3 minutes, with only one slide? That is the premise of a competition called the Three Minute Thesis (3MT). 3MT was created at the University of Queensland, Australia in 2008, and it has been performed at the University of Massachusetts Dartmouth, USA since 2011. (Details about the competition can be found here: http://www.threeminutethesis.org ). While thinking about the goals of this blog, I decided to participate in the competition this year, as it does exactly what we try to do here: talk about science to a diverse audience while keeping it interesting and educational. I signed up thinking only about the training; I would have to prepare and memorize my text and then deliver the presentation (in English!). Of course, I also had the ultimate goal of winning (who turns down a chance to earn $1,000?). Unfortunately, I did not get rich on April 29th, 2015, but as expected, it was great practice and lots of fun. It was interesting to watch presentations about the research from various fields: engineering, arts, administration, etc. There were nervous people and people who seemed to have come straight from a theater stage. You can watch some videos of previous years by visiting the following website: http://www.umassd.edu/graduate/spotlights/three-minutethesiscompetition/ . You can read the transcript of my talk and learn more about my research below: Many people do not know, but fisheries management is not just based on adult population data. It is also important to study early life stages for better stock management. For example, as fish eggs are usually spawned in the water column, knowing when and where they are helps to define spawning sites and periods. But, before doing any kind of fish studies, it is necessary to know who they are. Fish egg identification is time consuming and difficult. After sampling on board, you need to sort all of the fish eggs from the plankton sample, using a microscope. Sorting the eggs from the family I am studying is easy because their eggs have an ellipsoid shape. The problem is reaching the species identification. As each group presents different size and shape, the identification has previously been done by manually measuring each egg and then counting. In my doctoral thesis, I want to verify long-term fluctuations in the abundance and distribution of eggs from a fish named Argentine anchovy on the Brazilian coast. This small fish is one of the most common fisheries resources in Argentina and Uruguay. At the Brazilian coast they haven’t been commercially fished yet, but some studies have suggested that Argentine anchovy can be sustainably fished in Brazilian waters. Coming back to my thesis, when I mentioned that I am studying long-term fluctuations, I didn’t mention that by long-term I meant 40 years of data, totaling almost 2000 samples. That is a huge amount of samples and it would take my whole PhD period just to identify all the eggs. The solution was to create a faster and more accurate methodology, so I did it. I used a digital camera attached to a microscope to image the eggs, and using the photos, I got the measurements. After that, I created a model that automatically gave me the counts of eggs within each species. This new model has over 90% accuracy and can be used by any researcher to optimize their time and effort. In the end, besides taking four years to identify the eggs for my thesis, I identified more than 100,000 anchovy eggs in just one year, allowing enough time to continue my research project.   If you are interested in this methodology, the paper is already in publication, and it can be accessed in the following link or requested by email. http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/jfb.12594/abstract See you soon. #fisheggs #chatjanamdelfavero #ocean #marinescience #chat

  • Mulheres do século 21 com comportamentos do século 20 e tarefas do século 19

    Por Cássia Gôngora Goçalo e Catarina R. Marcolin Desde o século 19 já havia mulheres desempenhando papéis de destaque como cientistas. Por exemplo, Bertha Lutz (filha de Adolfo Lutz) nasceu no século 19 e foi bióloga, ativista, feminista e pioneira na luta pelos direitos das mulheres no início do século 20. Se tornou um ícone para as mulheres cientistas brasileiras. Ela foi sensacional no seu tempo, quebrando tabus e lutando pelo reconhecimento da mulher pela cidadania, num tempo onde isso era inconcebível! Assim como Sylvia Earle, nascida no século 20, que enfrentou a comunidade científica e fez com que as mulheres deste blog tivessem admiração por ela. Leiam mais sobre a vida desta incrível cientista aqui .  Figura 1. Bertha Maria Júlia  Lutz, zoóloga especialista em anuros e ativista feminista durante o século 20.  Fonte E hoje, século 21, ainda vemos diferenças e preconceitos entre os gêneros, o que parece inacreditável, mas nem por isso é menos real! Figura 2. Sylvia Earle, bióloga marinha e pioneira na inclusão de mulheres em expedições científicas.  Fonte Decidimos escrever este post após refletir bastante ao longo das discussões expostas neste blog, na sessão Mulheres nas Ciências. Eu (Cássia) nasci em uma família cujo sobrenome significa Batalha (Gongora), na qual as mulheres não poderiam deixar de fazer jus ao nome, ou seja, são batalhadoras. Tenho orgulho de falar que são mulheres fortes, guerreiras, independentes, bem-sucedidas profissionalmente e financeiramente. E claro: Mães e Avós. Desde pequena escuto esta frase “Menina você deve estudar e trabalhar para ter seu próprio sustento e que nunca na sua vida você tenha que pedir para um homem comprar, nem sequer, um pacote de absorvente para você”. E enfim, hoje sou uma dessas mulheres.  Eu (Catarina) também venho de uma família muito matriarcal, com mulheres fortes que perseguiram seus sonhos profissionais. Somos professoras, agrônomas, pesquisadoras e, como Cássia, também sempre fui incentivada a desenvolver o intelecto e a buscar a realização profissional e a independência financeira. E isso não veio somente das mulheres da família, meu pai sempre me chamava a atenção para que eu pensasse com minha própria cabeça e que formasse minhas opiniões com base em diferentes fontes e pontos de vista. Apesar do meu contexto familiar favorável e de eu ter tido acesso à uma educação razoável, eu não sou imune a pensamentos e comportamentos machistas, vez ou outra. E é por isso que consideramos que a discussão sobre igualdade de gêneros, direitos humanos e muitos outros temas complexos, devem estar sempre presente no nosso dia, se reconstruindo e aprimorando. Um comentário que outrora parecia inofensivo, depois de ouvir outros pontos de vista pode parecer completamente inaceitável. Apesar da discussão sobre igualdade de gêneros ser muito mais ampla nos dias de hoje, o que percebemos, como meras observadoras do mundo à nossa volta, é que estamos ainda longe da tão almejada igualdade. A maioria das nossas amigas/conhecidas assumiram tarefas antes ocupadas pelos homens, mas não abandonaram as tarefas dos séculos passados. Estudamos (muito), trabalhamos (demais), construímos uma carreira (sólida) e administramos uma família (com amor), cuidamos dos afazeres domésticos, da limpeza da casa e do preparo das refeições (com carinho), do pagamentos das contas, além de cuidarmos da saúde (da nossa, do marido/esposa e dos filhos) e da estética, e hoje parece que nos tornamos fortes, porém exaustas, mulheres do século 21. Essa sobrecarga de tarefas pode ser atribuída a uma cultura  inflexível de que as tarefas domésticas são uma obrigação primária da mulher. O homem quase nunca divide as tarefas domésticas e quando o faz, geralmente é  no segundo plano. Além disso, precisamos nos perguntar se nós mulheres queremos realmente essa vida exaustiva e competitiva, acumulando tarefas, tentando fazer o tempo se multiplicar. Por outro lado, as mulheres que escolhem, de forma consciente, não casar e/ou não ter filhos, para se dedicar inteiramente à carreira e aos seus hobbys ou a qualquer outra atividade, frequentemente são vistas/julgadas como egoístas ou solitárias. Essa mulher é vista dessa forma inclusive por nós, mulheres esclarecidas do século 21. Figura 4. A mulher maravilha do século 21. Ilustração de Caia Colla . Nós temos energia, capacidade, disposição e muito orgulho do que conquistamos ao longo dos séculos, mas frequentemente ouvimos relatos de mulheres sobre essa sobrecarga de tarefas, pois ao longo dos anos, o que mais fizemos foi acumular funções (“Enquanto descanso carrego pedras” - frase constantemente citada pela bisavó da Cássia, no sentido de que após o trabalho, ainda há as tarefas caseiras para serem realizadas). Você não se cansa só de pensar sobre isso? E será que estamos mais felizes tentando desempenhar esse papel de mulher maravilha? Este papel é algo que nós escolhemos desempenhar ou nos foi designado? Quando entrevistada, Indra K. Nooyi, CEO da PepsiCo, contou sobre as dificuldades em lidar socialmente com sua escolha de priorizar a carreira e como ela acredita que mulheres de sucesso fingem que podem ter tudo, tentando conciliar um alto cargo executivo e os papéis de mãe, nora, filha, esposa (confira a entrevista completa aqui , é muito interessante!). Mas não estamos aqui para julgar suas escolhas, mulher do século 21, o que pretendemos com esse post é promover uma reflexão sobre isso. O mais importante é que cada mulher consiga encontrar as respostas dentro de si mesma e que seja honesta em seus relacionamentos. Precisamos escolher conscientemente quais atividades iremos desempenhar, sem culpa e sem imposição por terceiros. No momento em que definir sua postura diante da sua própria vida, lembre-se que homens e mulheres do século 21 possuem comportamentos diversos e que apesar de ninguém se autodeclarar machista, muitos de nós ainda se comportam como companheiros(as) do século 20. E isso vale para qualquer tipo de relação onde sejam estabelecidos papéis tradicionais. Independentemente do comportamento alheio, saiba que cada uma de nós influencia as pessoas ao nosso redor, especialmente como futuras mães, tias e avós de homens e mulheres. E ser independente, significa liberdade em escolher os papéis a serem exercidos em nossas vidas (dona de casa, profissional, solteira, casada ou mulher maravilha).  Nossa mensagem é: respeite as opções alheias, dentro do seu seio familiar  e profissional e passe a mensagem de que igualdade de gêneros é muito mais do que dividir tarefas domésticas ou igualdade salarial, é respeitar e reconhecer que entre homens, mulheres, gays, transexuais, transgêneros, etc., somos todos seres humanos. E muitas de nós somos novas mulheres com hábitos antigos... ainda. Não esqueçamos que ainda temos um longo caminho a percorrer. Portanto, aproveite o Dia Internacional da Mulher e dedique-se à você! Referências: Gongora, B. 2002. Recordando passagens da minha vida. iEditora. São Paulo, 102 p. Silva, M. F. da, Silva, J. B. da, Rocha, A. E., Oliveira, F. P., Gonçalves, L. S., Silva, M. F. D., & de Queiroz, O. H. (1995). Inventário da família Orchidaceae na Amazônia Brasileira: parte I. Acta Botanica Brasilica. p. 163 a 175 http://memoria.cnpq.br/web/guest/pioneiras-view/-/journal_content/56_INSTANCE_a6MO/10157/902173;jsessionid=524922C3FCF3F135300954E25C1260A9?p_p_state=pop_up&_56_INSTANCE_a6MO_viewMode=print Sobre Caia Colla , autora do desenho deste post: Sou Caia Colla. Mais uma mulher comum tentando administrar muitas bolas no ar. Trabalho período integral como técnica de laboratório no Instituto Oceanográfico, sou mãe de duas meninas lindas e esposa de um cara incrível. Mas meu dia tem muitos turnos e para sobreviver à pressão e ter prazer nas pequenas coisas preciso ser mais que isso. A arte me salva. Espanto os maus espíritos cantando numa banda e os meus demônios através do desenho. E assim sigo, sendo muitas em uma. #mulheresnaciência #cássiaggoçalo #catarinarmarcolin #caiacolla #carreira

  • História de Pescador

    Por Ana Helena Bevilacqua Tudo começou em 2007, quando a paulistana deixou o berço da cidade natal e decidiu viver na Amazônia. Os objetivos da mudança eram fazer o mestrado, estudar fisiologia de peixes de água doce, conhecer a floresta, aprender a pescar e ganhar asas. Destes todos, a pesca deixou a desejar... O projeto de mestrado contava com muitas atividades e coletas em campo durante longos períodos pelo interior do Amazonas. Coletava peixes, fazia experimentos, conhecia gente, aprendia os costumes da mata e vivia intensamente a floresta e suas tradições. E nesse mar de novas experiências, nasceu a paixão pela conversa de pescador! Naquela época, a conversa não era o objetivo do estudo, mas rapidamente passou a ser o objetivo pessoal. E assim, os longos e mornos finais de tarde foram preenchidos pela companhia de pescadores e suas famílias, sempre cheios de crianças, cachorros e, claro, um bom cafezinho, bem doce e fresco, como a tradição local não deixa faltar. A partir desse papo, informal e descompromissado, foram nascendo as ideias para o futuro doutorado, até então apenas em planos porque o mestrado devia ser finalizado. E o tempo foi passando, as coletas acabando, o mestrado defendido, e a vontade de continuar as conversas só crescia. Mas e agora? E aí que já estava traçado o tema do doutorado: ecologia humana de pescadores de pequena escala. E foi assim que a migração para a ciência marinha aconteceu tão naturalmente quanto aquelas longas conversar na beira do rio, dando lugar a conversas mais direcionadas, na companhia de prancheta, lápis e com um oceano de água salgada à nossa frente. Que delícia, ir para a praia para passar o dia conversando com pescadores! Era tudo o que eu queria! Mas como nesse momento o objetivo já era outro, as conversas já não eram mais descompromissadas e leves. Neste momento haviam perguntas a serem respondidas, uma metodologia a ser seguida, resultados a serem buscados e algo a ser concluído! Afinal, eu já estava fazendo as coletas do doutorado! O objetivo do doutorado era entender um pouco mais a pesca de pequena escala no litoral do nordeste brasileiro e trazer para perto da ciência acadêmica o conhecimento tradicional do pescador. Basicamente o que eu queria fazer era aliar o conhecimento tradicional às ciências marinhas e provar que este pode ajudar, e muito, a preencher as lacunas que existem na ciência e, assim, melhor embasar os planos de manejo e as políticas públicas. Mas para isso precisava provar que por trás da “conversa de pescador” havia conhecimento. Então, o que eu queria era comparar se as informações que conseguia com os pescadores estavam de acordo com o conhecimento científico, usando um modelo virtual de um ecossistema marinho. Esse modelo virtual tenta representar todas as relações ecológicas que existem no ecossistema real, como crescimento, reprodução, predação, entre outros. Para isso, criei dois modelos: um apenas baseado nas informações que obtive durante as “conversas” com os pescadores artesanais e outro criado com informações da literatura científica. E depois seria só comparar os dois! Para a criação desse modelo de ecossistema marinho usei um software livre chamado Ecopath with Ecosim , que nada mais é do que um programa de computador onde inserimos todas as informações de um ecossistema real e conseguimos um ecossistema virtual. Este programa foi criado por Villy Christensen e Daniel Pauly em 1992, no Centro de Pesca da Universidade da British Columbia em Vancouver, Canadá, e que continua a ser aprimorado até hoje. Está baseado em equações de balanço de energia que definem a dinâmica natural presente no ambiente marinho e as relações ecológicas que ocorrem ali, ou seja, toda a energia disponível é ciclada entre as espécies presentes e é responsável pelo crescimento e reprodução dos organismos. Para isso é comparada as informações da quantidade de alimento necessária por dia para os predadores com as informações sobre o crescimento e reprodução das presas. O programa é capaz de criar uma “fotografia ecológica” do que está acontecendo no ecossistema naquele momento (Se quiser saber mais sobre o software acesse www.ecopath.org ou de uma olhada nas referências abaixo). Para a criação do ambiente virtual marinho (ou de água doce, se preferir) precisamos definir o tamanho da área, colocar todas as espécies ou grupos presentes, inserir informações sobre a dieta dos organismos, definir quem são os predadores, o quanto cada um come por dia e a taxa de crescimento de cada espécie, sem esquecer de inserir a pesca por tipo de embarcação e apetrecho. Definido tudo isso, o programa cria todas as interações biológicas e monta uma teia trófica de quem come quem, igualzinho ao esquema abaixo. A vantagem desse modelo é que além de criar um ecossistema de fácil visualização, ainda podemos inserir a pressão de pesca sobre determinada espécie alvo, como também o chamado by-catch (expressão usada pela ciência pesqueira para definir a pesca de espécies acessórias que são capturadas acidentalmente junto com a espécie alvo). E o mais legal é que com esse modelo conseguimos “prever” como o ecossistema inteiro reagiria a um aumento (ou diminuição) da pressão de pesca, restrição de determinado apetrecho, fechamento de áreas ou mesmo a proibição total da pesca ou de determinada espécie alvo. Com isso, conseguimos um melhor entendimento sobre o futuro, caso algumas ações de manejo e conservação sejam (ou não) tomadas. Mas e os pescadores? Ah sim! O resultado foi incrível: o modelo dos pescadores e o modelo científico são praticamente iguais! Ou seja, os pescadores possuem conhecimento que pode ser equiparado ao conhecimento científico em algumas questões, e este pode ser usado para preencher as lacunas de informações científicas sobre determinada área e/ou espécie. Além de ser de baixo custo, este tipo de informação pode ser acessada em um tempo bem menor em comparação à certas pesquisas científicas. Mas claro que os pescadores não tem todas as respostas. Assim como na ciência, algumas questões continuam a ser uma grande incógnita para todos os seres humanos. Portanto, aliar a ciência ao conhecimento tradicional dos usuários dos recursos pode trazer um melhor entendimento sobre as relações ecológicas e facilitar a implantação de planos de manejo para a utilização destes mesmos recursos. Para mais informações:  www.ecopath.org Christensen V (2013) Ecological networks in fisheries: predicting the future? Fisheries 38(2):76–81 Christensen V, Pauly D (1992) ECOPATH II—a software for balancing steady-state ecosystem models and calculating network characteristics. Ecol Model 61:169–185 Coll, M., et al. (2015) Modelling dynamic ecosystems: venturing beyond boundaries with the Ecopath approach.  Reviews in Fish Biology and Fisheries 25.2: 413-424. #ciênciasdomar #anahelenabevilacqua #ecologiahumanadepescadores #ecossistemamarinho #fotografiaecológica

  • Alcatrazes e seus peixes...

    Por Natasha Hoff Ilustração de Joana Ho . Para falar sobre Alcatrazes, preciso falar da minha história com este lugar incrível. Começou em 2011, quando ouvimos sobre o arquipélago numa palestra e decidimos investir em um projeto na região, que seria desenvolvido no contexto de uma disciplina. Acabou que nosso projeto não foi selecionado pela disciplina, mas fomos convidados pelo pessoal da ESEC Tupinambás para executá-lo. Assim, iniciou-se uma parceira, um projeto, um TCC (Trabalho de Conclusão de Curso!), um mestrado e, agora, um doutorado. Muitos termos e nomes desconhecidos? Então, calma porque eu vou explicar. Alcatrazes é um arquipélago, predominantemente rochoso, formado por ilhas, ilhotes, lajes e parcéis. Está localizado no litoral norte de São Paulo, no município de São Sebastião, a aproximadamente 43 km da costa, partindo do Porto de São Sebastião (Fig. 1). Sua ilha principal, maior e mais imponente (visível de pontos mais altos de São Sebastião e Ilhabela), também leva este nome – Ilha de Alcatrazes. E por quê Alcatrazes? Alcatraz é o nome popular de aves muitos abundantes por lá: os Alcatrazes ( Fregata magnificens , Fig. 2, esquerda), mas também pode se referir a outra espécie, o Atobá ( Sula leucogaster , Fig. 2, direita). E não é a ilha americana onde se tem aquela prisão de segurança máxima! Já recebi perguntas nessa linha... O segundo termo que possa ser desconhecido ao leitor é “ESEC Tupinambás”. ESEC é a abreviação de Estação Ecológica, que é um tipo de Unidade de Conservação de proteção integral. Ou seja, o objetivo central de uma ESEC é a preservação da natureza e a pesquisa científica, não sendo permitida a visitação pública. A ESEC Tupinambás foi estabelecida em 1987 e possui dois núcleos (Fig. 3). O primeiro é formado pelas ilhas das Cabras e das Palmas, que também compõem o arquipélago da ilha Anchieta, em Ubatuba. O segundo núcleo é composto por porções do arquipélago dos Alcatrazes, em São Sebastião (para saber mais sobre a ESEC Tupinambás e outras áreas de proteção marinhas, clique aqui). Mas, por que apenas porções? Acho que foi uma primeira tentativa de mostrar o quanto a região é importante, mas não foi muito aproveitada por nós (sociedade civil e órgãos ambientais), visto que até hoje, as pequenas porções protegidas permanecem as mesmas. Mas isso ainda poderá mudar, e mais para frente eu explico isso! Por último, mas não menos importante, temos a área Delta da Marinha do Brasil. Esta é uma área de  710 km2 delimitada em torno do arquipélago destinada a treinamentos militares. Apesar de ser, teoricamente, importante para o Brasil, os treinos de tiro trouxeram grandes impactos à ilha de Alcatrazes, usada como alvo até 2013. Como exemplos dos impactos causados temos a ocorrência de sucessivos incêndios florestais, a supressão de cerca de 12 % da vegetação original para a construção de estruturas de apoio e a introdução do capim-gordura, espécie exótica invasora. Nenhum trabalho foi feito a fim de averiguar os efeitos na biota marinha. Atualmente, em toda a extensão da área Delta é proibido fundear (lançar âncora; ancorar) e pescar. Apesar de não ser este seu objetivo, a área Delta representa a maior zona de exclusão de pesca da zona costeira do Estado de São Paulo. Tendo isto esclarecido, podemos começar a conversa sobre o trabalho que desenvolvi no meu mestrado. Ao terminar meu TCC, vi que aquele lugar que tanto me fascina é tão carente de informação que eu poderia continuar a gerar informações úteis e relevantes sobre a área. E foi o que eu fiz... eu tive uma ideia que foi muito bem aprimorada pela minha nova orientadora. Eu estava migrando da oceanografia química para a oceanografia biológica (aí está uma das maravilhas de ser oceanógrafa!), e estar aberta a novas proposta foi fundamental! A ideia foi avaliar a integridade biótica dos ecossistemas da região do arquipélago dos Alcatrazes utilizando a ictiofauna marinha demersal (também conhecida como comunidade de peixes marinhos associados à superfície de fundo) como indicadora da qualidade ambiental. E todo mundo me pergunta: o que é integridade biótica? Costumo responder que é o quanto aquele ecossistema consegue se manter saudável, íntegro,  apesar das influências externas, como o tráfego de embarcações, atividade portuária, etc. Os dados que utilizei foram provenientes de três fontes diferentes:  1. Um trabalho publicado em 1989, pelo Prof. Alfredo M. Paiva Filho (ex-diretor do Instituto Oceanográfico da USP) e colaboradores. Foi muito interessante saber a história deste trabalho e como o instinto de pesquisador já nasce com a gente: a ideia de coletar lá surgiu durante uma travessia entre Ubatuba e Santos, como se fosse um daqueles “ clicks ” de ideias brilhantes que a gente tem. Foram lá, coletaram, publicaram e este foi o único trabalho utilizando a ictiofauna demersal publicado até então! 2. Em 2011, juntamente com o nosso levantamento abiótico, foi feito uma coleta que auxiliaria na elaboração do Plano de Manejo da ESEC (isso promoveria uma melhor e mais organizada gestão da ESEC). 3. Nova coleta realizada em 2014 para este projeto. Foi a primeira vez do Barco de Pesquisa Alpha Delphini pescando e uma grande experiência para todos nós! Para avaliar os dados, utilizei dois métodos: o Índice de Integridade Biótica (IIB) e as curvas ABC (Abundance Biomass Comparison). Estes métodos foram estabelecidos na década de 1980, mas ainda são extremamente subutilizados no Brasil. O IIB é baseado em características das comunidades que são consideradas indicadores da saúde do ecossistema. Quais seriam essas características num ecossistema dito saudável? Um maior número de espécies, dentre as quais os indivíduos estejam bem distribuídos; com maior ocorrência de predadores de topo, aqui representados pelos elasmobrânquios, e especialistas em relação à alimentação (piscívoros ou invertívoros, por exemplo). A presença também de um maior número de indivíduos jovens (não aptos a reprodução) pode ser considerada uma característica positiva, indicando que determinado habitat pode estar sendo utilizado como área de alimentação e crescimento dos peixes. Já as curvas ABC se baseiam nas características das espécies: por exemplo, quando houver influência de fatores estressores, as espécies dominantes serão, de modo geral, aquelas de menor porte, numerosas e com rápido ciclo reprodutivo e ciclo de vida curto, o que chamamos de espécies r-estrategistas. Assim, percebemos uma maior quantidade de organismos com pequena biomassa, portanto, a curva de distribuição de abundância predominaria sob a curva de biomassa num ambiente impactado e vice-versa (Fig. 4). Registramos 90 espécies de peixes, sendo 12 de elasmobrânquios. Dentre elas, aquelas que ocorreram nos três períodos e estão dentre as mais abundantes foram: Dactylopterus volitans (coió ou voador-de-fundo), Prionotus punctatus (cabrinha) e Pagrus pagrus (pargo; Fig. 5). Essas, juntamente com mais de 30 outras espécies, são apontadas como fauna acompanhante da pesca camaroeira no sudeste brasileiro, podendo ser descartadas, vendidas como mistura ou vendidas separadamente, como a merluza, o peixe-sapo (ou peixe-diabo), cinco espécies de linguado, etc. Os principais resultados apontam para um ambiente que, apesar de protegido, vem ainda se recuperando. Em 1986, ainda não havia a área Delta nem ESEC, ou seja, não havia nada que protegesse de alguma forma a ictiofauna da região, com exceção da distância da costa. O ambiente foi classificado como pobre e a curva de abundância predominou sob a de biomassa. O ecossistema tinha baixa riqueza de espécies, uma espécie de elasmobrânquio (grupo formado pelas raias, tubarões e cações) e baixo número de predadores de topo de cadeia (no caso, seriam os organismos piscívoros, que se alimentam prioritariamente de peixes). Deste momento até 2011, a fiscalização por parte da ESEC era incipiente e, portanto, atribuí à presença da Marinha do Brasil e da área Delta na área à proteção e melhora da qualidade ambiental neste período. Assim, passou-se de uma qualidade ambiental pobre para moderada e as curvas de abundância e biomassa se aproximaram. Muitas espécies mais foram registradas, inclusive de elasmobrânquios, que passou de uma para nove espécies, além de espécies piscívoras, etc. A partir de 2011, aumentou o contingente e as possibilidades de uma maior efetividade de proteção do arquipélago. Isso, associado à presença da área Delta, garantiu uma melhora ainda maior na qualidade ambiental em 2014, que passou de moderada para boa, mas as curvas de abundância e biomassa permaneceram próximas, indicando que há ainda sinais de estresse na comunidade de peixes. Dessa forma, foi possível observar que, apesar das limitações dos métodos e dos dados utilizados, os resultados foram relevantes e condizentes com o histórico de proteção ambiental do arquipélago dos Alcatrazes e da ESEC Tupinambás, que ainda precisa de maior proteção efetiva. Com tão poucas informações sobre o arquipélago, optamos por realizar um grande levantamento bibliográfico e assim mapear o arquipélago, associando essas informações com dados relacionados  à susceptibilidade de cada trecho do arquipélago ao óleo (para prevenção caso ocorra algum derrame de petróleo que atinja a região. E eu espero que isso não aconteça!). Esse mapeamento gera o que chamamos de Carta de Sensibilidade Ambiental ao Derramamento de Óleo, ou simplesmente Carta SAO (Fig. 6). A carta contempla informações sobre a biota, correntes marinhas, localização de sítios arqueológicos, pontos históricos e o ISL (Índice de Sensibilidade do Litoral, que varia conforme a capacidade de penetração e permanência do óleo nos diferentes pontos da região em estudo), entre outras informações relevantes. Além do próprio mapeamento, ao realizar a carta, foi apontada uma grande lacuna de conhecimentos sobre fitoplâncton (tema já abordado neste blog ) e produtividade primária, espécies de invertebrados marinhos, algas, etc. Finalmente, quanto à alta biodiversidade que o arquipélago dos Alcatrazes apresenta, espera-se que esta se mantenha protegida pelas restrições de pesca e do tráfego de embarcações na área Delta da Marinha do Brasil, pela existência da Estação Ecológica Tupinambás e pela distância da costa. A pesca demersal, por exemplo, afeta não somente as espécies-alvo, mas aquelas removidas pela captura de pesca acidental (ou bycatch ), além de desestruturar os habitat associados à superfície de fundo. O arquipélago dos Alcatrazes ainda representa um região costeira importantíssima, e ainda muito pouco conhecida. Precisamos compreender suas relações ecológicas, ocupação e uso da área pelos diferentes organismos para, assim, subsidiar sua conservação e manejo. Quer saber mais? Unidades de Conservação:  http://www.mma.gov.br/areas-protegidas/unidades-de-conservacao ESEC Tupinambás:  Leite, K. L. (2014), Gestão e integração de uma Unidade de Conservação Marinha Federal (Estação Ecológica Tupinambás) no contexto regional de gerenciamento costeiro do Estado de São Paulo, Dissertação de mestrado, Escola Nacional de Botânica Tropical, Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. Minha dissertação:  http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/21/21134/tde-22092015-135056/pt-br.php Fauna acompanhante e pesca camaroeira: Graça Lopes, R., A. R. G. Tomás, S. L. S. Tutui, E. S. Rodrigues, & A. Puzzi (2002), Fauna acompanhante da pesca camaroeira no litoral do estado de São Paulo, Brasil, B. Inst. Pesca, São Paulo, 28(2), 173–188. Sedrez, M. C., J. O. Branco, F. Freitas Júnior, H. S. Monteiro, & E. Barbieri (2013), Ichthyofauna bycatch of sea-bob shrimp (Xiphopenaeus kroyeri) fishing in the town of Porto Belo, SC, Brazil, Biota Neotrop., 13(1), 165–175. Vianna, M., F. E. S. Costa, & C. N. Ferreira (2004), Length-weight relationship of fish caught as by-catch by shrimp fishery in the southeastern coast of Brazil, B. Inst. Pesca, São Paulo, 30(1), 81–85. Sobre a autora: Possui graduação em Oceanografia pela Universidade de São Paulo, e mestrado em Ciências (Oceanografia, área de concentração Oceanografia Biológica) pela USP. Atualmente, é doutoranda em Ciências pelo programa de pós-graduação em Oceanografia, área de concentração Oceanografia Biológica, pelo Instituto Oceanográfico da USP.  #ciênciasdomar #natashahoff #alcatrazes #convidados #joanaho #peixes #unidadesdeconservação

  • Fatos sobre as Unidades de Conservação no Brasil

    Por Jana M. del Favero No ano de 1934 surgia o primeiro Código Florestal brasileiro, em resposta à grande expansão cafeeira que acontecia na época, principalmente na região Sudeste (quer saber mais sobre o código florestal, clique aqui ). Ele estabeleceu o marco legal dos parques nacionais, sendo que em 1937 criava-se o primeiro parque brasileiro, o do Itatiaia, localizado nas montanhas da Mata Atlântica do estado do Rio de Janeiro. Depois vieram o Parque Nacional da Serra dos Órgãos, também no estado do Rio de Janeiro, e os parques nacionais das Sete Quedas e do Iguaçu, em 1939. E aqui vale fazer uma pequena ressalva, o Parque Nacional das Sete Quedas incluía as Cataratas de Guaíra, maior cachoeira do mundo em volume de água, até o seu desaparecimento com a formação do lago da Usina hidrelétrica de Itaipu. Parque Nacional do Itatiaia, primeiro parque brasileiro. Fonte E desde então diversos outros parques e unidades de conservação (UCs) das mais diferentes categorias foram criadas (leia mais sobre parques aqui ). Mas minha pergunta com esse novo post é a seguinte: qual a situação das UCs no Brasil? Para se ter uma noção mais clara do esforço de conservação em andamento no Brasil, é importante comparar a situação das áreas protegidas para conservação no país com a de outros países. O esforço de conservação mundial tem avançado muito nos últimos anos. Em 1985, apenas 3,5% do território mundial estavam protegidos; em 2008 já eram 12,8%. O Brasil foi o destaque nesse esforço recente, pois foi o responsável por 74% das áreas protegidas mundiais criadas de 2003 a 2008, correspondendo a 703.864 km², principalmente na Amazônia (JENKINS & JOPPA, 2009). Enquanto o Brasil tem aproximadamente 28% de seu território continental e 2% de áreas marinhas protegidas na forma de UCs, no mundo apenas 15,7% dos territórios terrestres e 8,4% das áreas marinhas encontram-se atualmente sobre alguma proteção legal (WDPA, 2014). Em termos relativos à área terrestre sob proteção sobre área total do país, ao compararmos a situação brasileira com a do grupo dos países mais desenvolvidos mais a Rússia, conhecido como G8, o Brasil (20%) fica atrás apenas da Alemanha (38%) e França (26%). Ou seja, o país tem, proporcionalmente, mais áreas protegidas do que os países mais ricos, tais como, Reino Unido (14%), Estados Unidos (13%) e Japão (2%) (WDPA, 2014). Distribuição espacial das áreas protegidas. Verde: áreas terrestres; Azul: áreas marinhas. Fonte:  UNEP-WCMC 2014. Relatório disponível aqui Contudo, apesar do expressivo crescimento do sistema e de sua posição de destaque no cenário internacional, a efetiva implementação das UCs brasileiras ainda deixam muito a desejar já que é grande o número de unidades em todas as esferas governamentais, com inúmeras lacunas e fragilidades: regularização fundiária pendente, falta de funcionários e infraestrutura básica, ausência de plano de manejo ou planos de manejo não revisados, entre outros. A maior parte dos problemas enfrentados tem a mesma causa em comum: recursos insuficientes para sua implementação e manutenção! Os recursos alocados, infelizmente, são insuficientes e não vêm acompanhando a expansão do Sistema Nacional de Unidades de Conservação ( SNUC ). Segundo o MMA (2009), o orçamento federal para as unidades de conservação é praticamente o mesmo desde o ano 2000 (cerca de R$300 milhões/ano), observando um aumento apenas 6,83% entre os anos de 2000 e 2008, enquanto no mesmo período a área somada das UCs federais teve uma expansão de 78,46%. Fonte Somadas todas as fontes de recursos disponíveis, o orçamento federal para as Unidades de Conservação atingiu R$ 331 milhões em 2008, um valor muito abaixo das necessidades mínimas para a gestão efetiva das UCs. De acordo com estimativas, para que o SNUC funcione plenamente, seriam necessários gastos correntes anuais da ordem de R$543 milhões para o sistema federal e de R$ 361 milhões para os sistemas estaduais, além de R$ 611 milhões em investimentos em infraestrutura e planejamento no sistema federal e de outros R$ 1,18 bilhão nos sistemas estaduais (MMA, 2009). Este cenário é mais dramático quando são comparados os orçamentos para as áreas protegidas no Brasil com o de outras nações. Embora na comparação com outros oito países o Brasil ocupe posição intermediária e à frente de países em desenvolvimento, ele se posiciona abaixo da metade dos recursos necessários para consolidação do sistema e representa o menor investimento por hectare. Países como o México e a África do Sul investem entre dez e dezessete vezes mais que o Brasil na manutenção dos seus sistemas por hectare de área protegida. Voltaremos a falar mais sobre Unidades de Conservação, principalmente as marinhas. Aguardem! Deixo aqui meu enorme agradecimento à Barbara Banzato, José Augusto Auroca e Juliana Carbonari, que colaboraram com a elaboração do texto o qual me baseei para resumir nesse post. Referências citadas: Jenkins, C.N.; Joppa, L. 2009. Expansion of the global terrestrial protected area system. Biological Conservation, 142: 2166–2174. MMA. Cadastro Nacional de Unidades de Conservação. 2009. Disponível em: http://www.mma.gov.br/sitio/index.phpido=conteudo.monta&idEstrutura=119&idConteudo=9677&idMenu=11809 WDPA, 2014. World Database on Protected Areas (WDPA). < http://www.wdpa.org >. #ciênciasdomar #janamdelfavero #unidadesdeconservação

  • 10 habilidades profissionais que você desenvolve fazendo ciência

    Por Lilian Pavani Quem faz (ou já fez) pesquisa científica sabe como é difícil explicar o que faz, uma vez que o seu trabalho não é um estágio ou emprego, você é bolsista de iniciação científica, mestrado ou doutorado, o que te coloca basicamente na posição de estudante. Quem nunca ouviu a frase “você trabalha ou só estuda?”. Ao contrário do senso comum, sim, você trabalha e muito!! Engana-se quem pensa que trabalhar com pesquisa é moleza. Pesquisar vai muito além de ler artigos e livros, e envolve essencialmente a construção de conhecimento novo. Nesse ardoroso caminho, todo cientista é forçado a aprender muita coisa que é valorizada no “mundo real”. Quando eu fazia pesquisa não tinha muita noção de todas as coisas que tinha aprendido, mas quando comecei a trabalhar no mundo empresarial percebi quantas habilidades eu possuía graças à minha iniciação científica e mestrado, ambos em ecologia marinha. Mas independentemente do assunto que você pesquisa, com certeza você concorda com o seguinte: 1. Você sabe usar Word e Excel l Você pode precisar de uma série de softwares complicados para analisar algo específico do seu trabalho, mas jamais vai dispensar uma tabela de dados ou um gráfico feito no Excel, transformando de pizza para barras e trocando cores de séries de dados até achar o modelo que melhor representa seus resultados. E esteja você pleiteando uma bolsa, apresentando resultados ou formatando uma tese, com o perdão do trocadilho, você tira o Word de letra. Você insere tabelas, imagens e referências sem perder de vista a formatação de parágrafos, margens e rodapés. 2. Você sabe fazer belas apresentações em PowerPoint Quem nunca fez um pôster para apresentar em um congresso? E apresentações para uma disciplina da pós ou para sua banca examinadora? Com certeza você desenvolveu um bom senso estético e sabe como escolher a melhor cor de fundo, a melhor fonte, sabe distribuir os elementos do seu slide de forma simétrica e sabe que uma imagem vale mais que mil palavras, apresentando de forma maestral todas as informações importantes adequadas ao tempo disponível, seja 5, 20 ou 50 minutos. 3. Gerenciamento de projetos é algo natural Provavelmente, tudo começou com uma pergunta que você gostaria de responder, uma necessidade que você identificou – etapa de Iniciação. Para responder a essa sua pergunta você precisou escrever um projeto de pesquisa, então teve que levantar informações, definir as atividades necessárias ao seu estudo, estimar os recursos necessários e prazos - etapa de Planejamento.  Com sua bolsa aprovada, você desenvolveu as atividades pré-definidas - etapa de Execução – e enquanto o seu projeto estava sendo desenvolvido, de tempos em tempos algumas atividades e processos foram revistos,  buscando um ajuste e melhorias - etapa de Monitoramento e Controle. Ao final das atividades você apresentou seus resultados em um relatório final e talvez até um artigo, que passou por rigorosa avaliação do seu orientador e outros pares (praticamente uma auditoria) - etapa de Finalização. Pronto, você pode nunca ter ouvido falar em PMBOK ou MS Project, mas sabe tudo de gerenciamento de projetos! 4. Qualidade é obrigação Os níveis de exigência na área acadêmica chegam a ser estratosféricos. Já vi gente sendo desligada da pós graduação porque suas notas não atingiam o desejado pelo programa, o qual tem uma reputação a zelar junto à CAPES e agências financiadoras. Da mesma forma, se seu resumo não estiver satisfatório você não pode apresentar seu trabalho em um congresso e se seu artigo não estiver bem estruturado não será publicado em nenhum periódico. Os pares avaliam tudo e varrem o seu trabalho em busca de um deslize, portanto, fazer bem feito sempre é a ordem. 5. Você se transforma em uma pessoa criteriosa Em vista da obrigação da qualidade, quanto mais criterioso você for no desenvolvimento do seu trabalho, maior a chance de que ele seja bem feito. Sem perceber você acaba adquirindo esse hábito. 6. Argumentar é mais que necessário Tanto para discutir seus resultados quanto para solicitar financiamento ou convencer seu orientador, você precisa saber embasar, defender e provar seus pontos de vista. 7. Você aprende a lidar com pessoas Durante a sua pesquisa você precisa lidar com pessoas diferentes em diversos níveis hierárquicos o tempo todo. No mínimo você tem um orientador, quando não há também co-orientadores. Se você está no mestrado ou doutorado, você terá colaboradores, os alunos de iniciação científica. E sempre haverá a necessidade de se relacionar com outros membros do departamento onde você trabalha, principalmente outros professores. Quem conhece minimamente a área acadêmica sabe que costuma haver uma guerra de egos, e você estará sob o fogo cruzado, fazendo o possível para manter as coisas caminhando sem prejudicar o andamento da sua pesquisa. 8. Você entende que prazos são importantes e os cumpre Se você possui uma bolsa, você estará sempre atento aos prazos de relatórios de acompanhamento, aos prazos de prestação de contas e liberação de verbas. Se você ainda não tem, você está acompanhando os prazos do programa, bem como os editais para saber quando submeter uma proposta. E se você quer apresentar seu trabalho em um congresso, você tem prazo para envio de resumos (em alguns casos os organizadores podem estender o prazo, mas em geral as pessoas aproveitam a extensão de prazo para revisar). 9. Gerenciamento financeiro faz parte Em geral as bolsas de pós-graduação e algumas de iniciação científica possuem uma reserva técnica, uma verba extra que não remunera o pesquisador, mas serve para a aquisição de equipamentos, livros, realização de saídas de campo, enfim, atividades necessárias ao desenvolvimento da sua pesquisa. Essa verba não é   um valor alto e você aprende a gerenciar os recursos financeiros buscando o melhor custo-benefício. Em alguns casos, você aprende até a gerenciar verbas de projetos diferentes para a compra de materiais comuns a todos os envolvidos no laboratório. 10. Você sabe que o seu sucesso depende inteiramente de você O ambiente acadêmico acaba sendo muito hostil, exigindo muita dedicação. Por isso, em geral as pessoas buscam se qualificar o máximo possível e estão sempre em busca do aperfeiçoamento. Portanto, se você tem a intenção de deixar a carreira acadêmica e seguir outra carreira, valorize-se! Você tem muito a oferecer! ;) Sobre Lilian Pavani: Bióloga, mestre em ecologia e especialista em engenharia ambiental pela Universidade Estadual de Campinas, amante de esponjas e outros invertebrados marinhos, principalmente os coloridos. Após navegar entre esponjas, algas, anfípodes e petróleo, as correntes e ventos a levaram literalmente a outras estradas, onde atuou no estudo de fauna atropelada, supervisão e gerenciamento ambiental de obras de rodovias. Nutre interesses muito diversos como educação, inovação e cozinha, toca flauta doce em um grupo amador de música antiga, escreve pensamentos e observa pássaros. Enfim, vive com os pés na areia e meio que assim, entre marés. Lilian Pavani é também autora de outros posts em nosso blog. Clique aqui e leia mais.  #vidadecientista #convidados #lilianpavani #interdisciplinaridade #profissão

  • A fertilização dos oceanos e as mudanças climáticas

    Por Yonara Garcia Você já ouviu falar de geoengenharia? É uma ferramenta cada vez mais utilizada nos dias de hoje, mas também muitas vezes controversa, pois em alguns casos o resultado pode ser completamente inesperado!  Hoje falaremos sobre um polêmico experimento realizado em julho de 2012, por Russ George, um empresário americano, que despejou cerca de 100 toneladas de sulfato de ferro no Oceano Pacífico como parte de um projeto de geoengenharia na costa oeste do Canadá.  Fertilização do oceano por sulfato de ferro. Fonte O ferro é considerado um elemento fundamental, muitas vezes limitante, para o crescimento do fitoplâncton. O fitoplâncton é composto por microalgas que realizam fotossíntese, processo no qual utilizam a luz solar como fonte de energia e absorvem dióxido de carbono (CO2) e água para produzir matéria orgânica na forma de carboidratos. A partir desses carboidratos e com a adição de outros nutrientes, como nitrogênio, fósforo e ferro, as microalgas produzem outras substâncias, como proteínas, aminoácidos e outras moléculas que formam as células.  Em 1980, o oceanógrafo John Martin propôs que determinadas regiões do oceano (as áreas chamadas HNLC - High Nutrient, Low Chlorophyll ), apesar de ricas em nutrientes, seriam pobres em produção primária por conta da falta de ferro. Assim sendo, a adição de ferro deveria aumentar a produção do fitoplâncton e, consequentemente, afetar o ciclo do carbono, diminuindo os níveis de CO2 na atmosfera. Sua célebre frase “Give me half a tanker ful of iron and I’ll give you an Ice Age” (Me dê metade de um barril de ferro e eu te darei uma era do gelo.) causou grande euforia, pois ele acreditava que se certas áreas do oceano fossem fertilizadas, os efeitos do aquecimento global poderiam ser revertidos, resfriando a terra. Assim surgiu a ideia que o empresário americano colocou em prática. Russ e sua equipe despejaram uma certa quantidade de ferro no mar, acreditando que iriam promover o aumento do número de organismos fotossintetizantes e, assim, aumentar a eficiência dos processos de sequestro de carbono no oceano. Sim, bem parecido com o processo de fertilizar/adubar uma plantação para que ela cresça mais rápido! Este  assunto  gerou muita polêmica, pois entra em conflito com questões éticas e políticas a respeito dos efeitos que uma intervenção como esta traria para um ecossistema tão complexo e ainda pouco conhecido como os oceanos. Para entender melhor porque a ideia deste projeto é tão polêmica, vamos primeiro falar sobre alguns processos importantes que ocorrem no “maravilhoso mundo oceânico”. Você já ouviu falar em “bomba física”? E “bomba biológica”? Não, não é um tipo de arma de guerra para dizimar uma população inimiga! Bomba física é o processo relacionado com a solubilidade do CO2 no oceano (solubilidade = quantidade máxima que uma substância pode ficar dissolvida em um líquido). Já a bomba biológica ocorre depois deste processo, quando  uma fração do carbono dissolvido é absorvida pela atividade biológica, através da fotossíntese, nas camadas superficiais do oceano, e transportada para o fundo. Então, vamos entender melhor como ocorre este transporte de carbono no oceano… O CO2 é um gás capaz de se dissolver na superfície dos oceanos. Este mecanismo de solubilidade está relacionado com a concentração desse gás na atmosfera e com a temperatura da água: quanto mais CO2 houver na atmosfera e quanto menor for a temperatura, maior será a quantidade desse gás dissolvido na superfície dos oceanos. Uma vez dissolvido na água, o CO2 passa para uma nova fase do ciclo, na qual será absorvido por organismos fotossintetizantes marinhos. Uma parte da matéria orgânica formada na fotossíntese é utilizada na respiração celular e liberada em forma de CO2. A outra fração, que foi utilizada na formação da célula, é consumida pelo zooplâncton (consumidores primários nas tramas tróficas marinhas - leia mais aqui ) e/ou  transportada por gravidade para o fundo dos oceanos através da chamada “neve marinha”, formada por fragmentos alimentares e pelotas fecais oriundos da alimentação do zooplâncton, conchas e microrganismos mortos. Esse processo de transferência de carbono para o oceano profundo diminui a quantidade de carbono na zona eufótica (zona que recebe luz solar suficiente para que ocorra a fotossíntese ) fazendo com que bilhões de toneladas de carbono sejam sequestrados (retirados) da atmosfera por ano. Alguns estudos estimam que a bomba biológica seja responsável por remover cerca de 5-15 gigatoneladas de carbono por ano (Henson et al., 2011). Marine Phytoplankton. Source E vocês podem imaginar como essa retirada é importante tendo em vista a quantidade enorme de carbono que nossas atividades industriais, carros, aviões têm emitido na atmosfera ao longo dos últimos anos. É importante relembrar que o tão discutido aquecimento global, entre outros problemas, é provocado em grande parte por um excesso de carbono na atmosfera. De acordo com o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) 2014, somente em 2010, 49 gigatoneladas de carbono foram emitidas na atmosfera por atividades antropogênicas. E é justamente por isso que esses experimentos com o ferro ganharam tanta popularidade. Parece simples, não?! Pronto, resolvido o problema do aquecimento global! Vamos fertilizar os oceanos! Mas a coisa não é tão simples assim. Interferir em ecossistemas naturais é um assunto extremamente delicado, que pode causar danos incalculáveis e irreparáveis. Alguns pesquisadores realizaram experimentos semelhantes ao do empresário americano e concluíram  que, apesar da fertilização aumentar a taxa de fotossíntese, a mesma pode desencadear alterações na composição química do oceano, alterando o funcionamento de todo o sistema. Por exemplo, o aumento da taxa fotossintética do fitoplâncton é diretamente proporcional à quantidade de dimetilsulfeto (DMS - enxofre volátil na forma reduzida) excretado por essas microalgas na água, que se volatiliza e vai parar na  atmosfera (ou seja, mais fotossíntese pelo fitoplâncton, mais dimetilsufeto no ar). Na atmosfera, estas partículas facilitam a formação de nuvens, o que seria ótimo, pois com a maior formação de nuvens poderia haver maior reflexão da radiação solar e assim maior resfriamento do planeta. Contudo, nem todos os tipos de nuvens têm a propriedade de resfriar o planeta. Estudos recentes apontam que outros fatores climáticos  também podem afetar a distribuição e as propriedades das nuvens,  podendo aumentar a temperatura do planeta. Além disso, foi observado que a fertilização também aumenta a produção de óxido nitroso (N2O), molécula que aquece 320 vezes mais que o CO2. Outro estudo, publicado em abril de 2014 na Geophysical Research Letters, mostrou que mais de 66 % do carbono sequestrado pelo oceano retorna à atmosfera dentro de 100 anos. Ou seja, se por um lado  a bomba biológica ameniza a temperatura da Terra, sequestrando o carbono da atmosfera, por outro lado ainda não sabemos o que acontecerá quando houver o retorno deste carbono após certo tempo. Controverso o suficiente pra você? Desta forma, apesar dos processos que ocorrem nos oceanos serem responsáveis pela redução da concentração do CO2 na atmosfera, interferir no sistema pode não ser a melhor solução, pois existem muitos processos químicos, físicos e biológicos que, por não serem compreendidos inteiramente, poderiam resultar em prejuízos não previstos. Enquanto não chegamos numa compreensão mais integrada destes processos, a redução das emissões de CO2 seria muito mais eficiente e segura do que tentar remediar um problema manipulando um processo tão complexo e ainda pouco compreendido. Até a próxima! Literatura consultada: http://www.nature.com/ngeo/journal/v6/n9/full/ngeo1921.html http://www.nature.com/nature/journal/v446/n7139/full/nature05700.html https://www.ipcc.ch/publications_and_data/ar4/wg1/en/ch7s7-3.html http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/2013GL058799/full https://www.ipcc.ch/pdf/assessment-report/ar5/syr/AR5_SYR_FINAL_SPM.pdf Henson, S. A., R. Sanders, E. Madsen, P. J. Morris, F. Le Moigne, and G. D. Quartly (2011), A reduced estimate of the strength of the ocean's biological carbon pump, Geophysical Research Letters, 38 #ciênciasdomar #yonaragarcia #algas #bombabiológica #equilíbrio #fitoplâncton #floração #geoengenharia

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