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- Parcerias público-privadas de Unidades de Conservação sob uma ótica socioambiental
As verdades por trás das concessões à iniciativa privada das Unidades de Conservação do Estado de São Paulo. Por Caio Tancredi Zmyslowski Cerco fixo da pesca artesanal - Parque Estadual da Ilha do Cardoso (Fonte: Noeli Neves com licença CC BY SA). Você sabe como funciona a gestão de uma Unidade de Conservação (UC)? Quais são seus objetivos e categorias de proteção? O que representam as parcerias público-privadas nesse contexto? Neste texto vamos explicar mais sobre a realidade das UCs no Brasil e trazer um pouco da experiência do Parque Estadual da Ilha do Cardoso (PEIC), localizado no litoral sul do Estado de São Paulo. O PEIC é um lugar paradisíaco e preservado, bastante visitado pelo público em geral. Lá comunidades tradicionais, que moram na ilha há séculos, hoje travam uma luta pela sua sobrevivência, reprodução cultural e permanência no território. As UCs são uma das principais estratégias internacionais de conservação do patrimônio ambiental e cultural. No Brasil, o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC) regulariza tais territórios, designando diferentes tipos e categorias de áreas protegidas subdivididas em dois grandes grupos: as de proteção integral, cujo objetivo é de preservação integral da biodiversidade, permitindo apenas o uso indireto dos recursos naturais presentes (por exemplo pesquisa, turismo e educação ambiental); e aquelas de uso sustentável, que contam com a presença de populações nesses territórios, de forma que se busca assegurar a sustentabilidade ambiental e a reprodução do modo de vida de comunidades tradicionais. Acontece que, no histórico brasileiro, o processo de implantação das UCs seguiu uma lógica “top-down”, ou seja, de cima para baixo, de forma impositiva. Muitos parques de proteção integral foram implementados em territórios de populações tradicionais que dependem diretamente da natureza, e por isso impactando diretamente seu modo de vida. As populações tradicionais são internacionalmente reconhecidas como aliadas da preservação ambiental, além de possuir direitos fundamentais reconhecidos por convenções e tratados internacionais, a exemplo da Convenção Internacional do Trabalho (OIT nº169), ratificada pelo Brasil através do Decreto nº 5.051 de 2004, que determina que quaisquer decisões tomadas sobre seus territórios necessitam obrigatoriamente e previamente da consulta e aprovação das populações locais. Na prática, infelizmente, esse processo de diálogo muitas vezes não ocorre. Uma alternativa sustentável de sobrevivência para comunidades residentes em UCs tem sido o Turismo de Base Comunitária (TBC), que integra atividades turísticas focadas na valorização da história e cultura local com a preservação ambiental. Neste sentido, o TBC representa uma oportunidade para amenizar conflitos territoriais, destacando a importância das comunidades no interior de UCs e privilegiando agentes sociais com pequeno capital econômico em sistemas cooperativos, solidários e sustentáveis. Ou seja, o TBC é uma atividade econômica associada às práticas produtivas de baixo impacto, como a agricultura de subsistência, a pesca e o artesanato protagonizada pelas comunidades. Além disso, o TBC pode ser entendido como uma estratégia de luta pelos direitos fundamentais dos povos tradicionais de permanência no território. Pesca artesanal feita pelos comunitários do Parque Estadual da Ilha do Cardoso (Fonte: Noeli Neves com licença CC BY SA). No PEIC, essa forma de turismo funciona há mais de 20 anos, organizada e protagonizada de forma comunitária em parceria com a UC. As associações locais oferecem às escolas, grupos, excursões e turistas opções de trilhas e passeios pela natureza, oficinas e demonstrações de práticas tradicionais como a pesca artesanal e o artesanato, educação ambiental em parceria com técnicos e monitores ambientais, alojamento e alimentação de culinária caiçara. Por conta da realidade restritiva de Parque, as comunidades têm investido mais na prática do TBC para sua sobrevivência, sustentabilidade e reprodução do modo de vida caiçara. Comunitária e monitora ambiental, Noeli Neves acompanha um grupo de estudantes no manguezal do Parque Estadual da Ilha do Cardoso (Fonte: Noeli Neves com licença CC BY SA). O processo de planejamento, implantação e gestão das UCs ocorre por meio do poder público (federal, estadual ou municipal) com mecanismos e instrumentos legais de governança (conselhos gestores, planos de manejo) que garantem a manutenção, participação, efetividade e recursos para a promoção do desenvolvimento sustentável da UC. Porém, acontece que grande parte das UCs no Brasil carecem de infraestrutura e recursos necessários para uma gestão efetiva. Frente a isso, somando a precarização dos investimentos do Estado às UCs e a crescente onda do neoliberalismo latino-americano, tende-se a transferir para grandes grupos privados o uso público das UCs. Este é o caso das concessões e parcerias público-privadas, incentivadas pelo ICMBio no âmbito nacional e no Estado de São Paulo dada pela Lei nº 16.260/2016, conhecida como a “lei das concessões”. No dia 29 de junho de 2016 o Estado de São Paulo aprovou, em regime de urgência, e sob forte pressão da Secretaria Estadual do Meio Ambiente, a “lei das concessões”, que trata da regulamentação de 25 Parques Estaduais (incluindo o PEIC), cedendo as concessões de usos e serviços por 30 anos à iniciativa privada. A lei tornou-se polêmica por não ter sido amplamente discutida, especialmente nos municípios que teriam, a princípio, seus parques cedidos à exploração privada. Foi contestada por ambientalistas e organizações locais por ter um caráter abrangente, não participativo e que não atende à especificidade e às características de cada UC. Portanto esse processo acaba seguindo uma lógica mercadológica e de interesses políticos que contradiz os objetivos originais das UCs de preservação do patrimônio ambiental e cultural para a promoção do desenvolvimento sustentável e melhoria da qualidade de vida local. Como consequência, esse conflito de atividades econômicas empresariais e mercadológicas sobre as atividades produtivas comunitárias e tradicionais podem agravar a situação de desigualdade social nessas localidades, além de impactar o modo de vida e a própria permanência da comunidade em seu território. No meu projeto de conclusão de curso, finalizado em 2017 no Instituto Oceanográfico da USP, entrevistei moradores de todas as sete comunidades tradicionais caiçaras da Ilha do Cardoso, e analisei o quanto o TBC é importante socioeconomicamente e culturalmente para as comunidades, além de analisar a percepção dos comunitários frente às concessões para empresas privadas. Observei que o TBC hoje representa grande parte da renda das comunidades. Ele incentiva e reproduz práticas e saberes tradicionais, como pratos da culinária tradicional caiçara, histórias locais, festas culturais com o estilo musical caiçara chamado fandango, entre outras coisas. Na visão dos comunitários, todo esse riquíssimo conhecimento e cultura pode ser impactado e substituído pelo modelo de concessões, principalmente por se tratar de um processo impositivo, sem participação e transparência em que as comunidades não estão fazendo parte. Portanto, proponho a reflexão: até onde as concessões e parcerias público-privadas, tão amplamente difundidas e incentivadas no contexto político atual do Brasil, podem estar ameaçando a sustentabilidade de comunidades tradicionais e suas atividades como o TBC? Por que permitir que empresas privadas de grande porte lucrem sobre o parques públicos e realizem atividades que já são feitas pelas comunidades tradicionais e associações locais? Por que carecemos de incentivo a parcerias público-comunitárias em UCs, favorecendo o desenvolvimento local? Nos cabe agora acompanhar o processo ativamente e exigir que convenções e tratados internacionais sejam cumpridos, incentivando a participação da comunidade local para a melhor aplicação dessas parcerias. Sobre o autor: Meu nome é Caio Tancredi, sou oceanógrafo formado pela Universidade de São Paulo. Desde pequeno sou amante dos oceanos, surfista e neto-bisneto de pescadores e marinheiros. A vivência em comunidades tradicionais me despertou um interesse muito grande em conhecê-las melhor e fazer parte da luta que travam para garantia de seus direitos fundamentais aliada à preservação ambiental. #DivulgaçãoCientífica #TurismoDeBaseComunitaria #ComunidadesTradicionais #UnidadesDeConservação #UCs #Concessões #Caiçara #SocioAmbiental #ParqueEstadualDaIlhaDoCardoso #IlhaDoCardoso #CiênciasDoMar #Convidados
- Vórtices: física e biologia conversam?
Por Filipe Pereira Ilustração: Joana Ho Nós, seres humanos, somos animais terrestres. É natural, portanto, que tenhamos maior familiaridade com os ambientes continentais do que com os oceânicos. Por isso, para mostrar como a física dos oceanos pode afetar a vida dos organismos que nele vivem, principalmente dos produtores primários, vou iniciar nossa discussão fazendo um paralelo entre os giros subtropicais oceânicos e as florestas terrestres. Os produtores primários, como plantas e algas, também chamados de organismos fotossintetizantes, são essenciais para o funcionamento da maioria das cadeias alimentares no planeta. Eles são os únicos seres vivos capazes de transformar a energia da luz do sol na energia química que move a vida na Terra ao produzirem matéria orgânica (comida) por meio da fotossíntese. Para realizar a fotossíntese, eles precisam de luz, água, gás carbônico e nutrientes. Nos ambientes terrestres, a incidência de luz geralmente não é um grande problema, a disponibilidade de gás carbônico muito menos. O que limita o crescimento das plantas terrestres é, usualmente, a disponibilidade de água e de nutrientes. Em condições ideais, a água e os nutrientes estão ao alcance das raízes das plantas e elas podem assim prosperar. Já no ambiente marinho, os principais organismos fotossintetizantes são, em sua maioria, microscópicos e transportados pelas correntes, conhecidos como fitoplâncton. Claro que água não é um problema no mar, gás carbônico também não. Os fatores limitantes para o crescimento do fitoplâncton marinho acabam sendo, portanto, luz e nutrientes. A água do mar tem a propriedade de absorver a luz de forma muito eficiente. A poucos metros de profundidade, o oceano já é um ambiente escuro e, portanto incapaz de sustentar organismos fotossintetizantes. Ou seja, a única zona habitável para o fitoplâncton é uma fina camada superficial que raramente excede os 100 m de profundidade e é chamada de zona eufótica, onde há luz suficiente para sustentar a fotossíntese destes organismos. Os nutrientes são rapidamente consumidos pelo fitoplâncton na zona eufótica e portanto tem baixa concentração na superfície dos oceanos. Por outro lado, parte da matéria orgânica produzida afunda e é remineralizada (decomposta) e transformada em nutrientes novamente em maiores profundidades. Como não há um grande consumo de nutrientes abaixo da zona eufótica, estes são encontrados em maiores concentrações em maiores profundidades. Esquema mostrando a distribuição de água, luz e nutrientes no continente e no oceano. A fotossíntese ocorre em regiões bem iluminadas tanto em terra quanto nos oceanos. A diferença é que no continente o transporte vertical de nutrientes é feito pelas próprias plantas, enquanto que no oceano, este depende de processos físicos para trazer nutrientes para a zona eufótica. MO denota matéria orgânica, e H2O representa água no estado líquido. Licença CC 4.0 BY-SA. Veja, temos um problema aqui: nos grandes giros subtropicais, que correspondem à maior parte dos oceanos, e estão ilustrados na figura abaixo, a maior concentração de nutrientes está em profundidade, longe do alcance dos produtores primários. Ou seja, as concentrações superficiais de nutrientes são baixas e portanto não há um grande crescimento das comunidades fitoplanctônicas. O que faz com que os giros sejam menos produtivos que as regiões costeiras, por exemplo. Mapa global de clorofila superficial medida por satélite (SeaWiFS), as áreas circuladas em vermelho mostram os grandes giros subtropicais com concentrações mais baixas de clorofila. A concentração de clorofila é uma forma indireta de estimar a quantidade de fitoplâncton presente na água. Adaptado de https://earthobservatory.nasa.gov/images/4097/global-chlorophyll. NASA. Como a luz é abundante na superfície e as maiores concentrações de nutrientes estão abaixo da zona eufótica, apenas fenômenos físicos que estejam ocorrendo nessas regiões podem alterar essas condições ambientais. Não tem como fazer a luz ir mais fundo, logo, só quando as águas ricas em nutrientes são levadas de alguma forma à superfície pode haver o aumento da taxa de crescimento do fitoplâncton. Estas condições, de aumento na concentração de nutrientes na superfície, permitem que o ecossistema se torne mais produtivo relativamente ao estado médio, já discutido anteriormente. É aqui que a física dos oceanos é fundamental para entender melhor como esses organismos podem prosperar nestes ecossistemas. Podemos pensar que os processos físicos condicionam o ambiente onde esses organismos vivem. Quando falamos em processos físicos estamos nos referindo basicamente aos movimentos da água. Esses movimentos são horizontais: transportando o fitoplâncton para regiões mais ou menos favoráveis para o seu crescimento ou aprisionando-o em uma área limitada; e verticais: podendo alterar as concentrações de nutrientes disponíveis para o fitoplâncton se as velocidades forem para cima, ou empurrando esses organismos para fora da zona eufótica se as velocidades forem para baixo. Vários processos físicos podem afetar a ecologia nas camadas superficiais do oceano. Um dos mecanismos mais estudados são os vórtices de mesoescala. Estes seriam os fenômenos responsáveis pelo tempo oceânico (aqui tempo se refere à previsão do tempo mesmo!) , podendo ser entendidos a grosso modo, como a versão marinha dos furacões e tufões atmosféricos. Estas estruturas têm tamanho da ordem de centenas de quilômetros, são comuns nos oceanos, vistos facilmente a partir de dados de satélite de temperatura, de altura do nível do mar e inclusive de concentração de clorofila, o pigmento responsável pela fotossíntese nos produtores primários. Os vórtices são áreas de alta ou baixa pressão oceânica e consistem de movimentos circulares, estando em balanço geostrófico, ou seja, tem tamanho suficiente para que sua dinâmica seja governada pela rotação da Terra. Eles são classificados como anticiclones quando giram no sentido oposto ao da rotação da Terra, sendo centros de alta pressão, ou ciclones quando giram no mesmo sentido da Terra, sendo centros de baixa pressão. Esquema de vórtices ciclônicos e anticiclônicos no hemisfério sul. F é a força gerada pela diferença de pressão entre o centro e a borda do vórtice (sempre aponta para pressão mais baixa), essa força é equilibrada pela força C gerada pela rotação da Terra (força de Coriolis). Esse é o balanço geostrófico, e gera velocidades V que giram em torno dos centros de alta (anticiclone) e baixa (ciclone) pressão. A pressão no centro do vórtice implica em velocidades verticais (w) para baixo (seta vermelha) no anticiclone, e para cima (seta azul) no ciclone. A escala vertical da elevação da superfície está exagerada para melhor visualização. Licença CC 4.0 BY-SA. Ok, mas como esses fenômenos influenciam na taxa de crescimento do fitoplâncton? Olha só, um centro de alta pressão implica num “acúmulo” de água no vórtice, esse peso empurra a água para baixo, fazendo com que a água rica em nutrientes seja levada ainda mais para o fundo; inibindo o crescimento do fitoplâncton. Já na situação oposta, num vórtice ciclônico, a baixa pressão gera velocidades verticais para cima, trazendo águas mais ricas em nutrientes para regiões mais superficiais e mais iluminadas, podendo favorecer o crescimento desses organismos. Os fenômenos que apresentei anteriormente seriam as situações ideais mostradas nos livros de oceanografia, mas não é incomum encontrarmos vórtices ciclônicos com baixa produtividade e anticiclônicos com alta… 😅😅😅. A interação do vórtice com o vento, por exemplo, pode inverter o sinal das velocidades verticais nos primeiros metros da coluna de água, gerando um efeito oposto ao esperado: vórtices ciclônicos com velocidades verticais para baixo e anticiclônicos com velocidades verticais para cima! Outros fenômenos de menor tamanho que comumente ocorrem nas bordas dos vórtices, chamados de fenômenos de sub-mesoescala, podem intensificar, e muito, as velocidades verticais nas bordas dos vórtices e estes apresentarem maiores concentrações nas bordas que em seu centro. O que queremos mostrar com essa “enxurrada” de informação é que o oceano é um sistema complexo e caótico. Vários processos estão acontecendo ao mesmo tempo, e a soma de todos esses fenômenos resulta naquilo que observamos na natureza. Tahhh, muito legal isso tudo, né? Mas para quê entender isso? Lembre-se que esses organismos são a base das cadeias alimentares marinhas. Imagine os giros subtropicais como grandes desertos, vórtices de mesoescala seriam oásis onde há elevada produção primária. Eles acabam atraindo outros organismos maiores, como os peixes devido à maior disponibilidade de alimento. Entender a dinâmica desses processos pode ser importante para o manejo de pesca em algumas regiões, por exemplo. Além disso, a fotossíntese dos produtores primários marinhos é uma forma importante de sequestro de carbono da atmosfera, (assim como as florestas) sendo um fator chave na compreensão do ciclo do carbono no nosso planeta e, portanto, tendo efeitos significativos no clima. No fim das contas, a compreensão da distribuição e dinâmica ecológica do fitoplâncton marinho é diretamente afetada pelos movimentos do oceano, e tem implicações importantes sobre as atividades humanas e com certeza afetam nosso modo de vida. *os oceanos têm profundidade média de 4 km Sugestões de leitura: McGillicuddy Jr, D.J., 2016. Mechanisms of physical-biological-biogeochemical interaction at the oceanic mesoscale. Annual Review of Marine Science, 8, pp.125-159. (doi:10.1146/annurev-marine-010814-015606) Mahadevan, A., 2016. The impact of submesoscale physics on primary productivity of plankton. Annual Review of Marine Science, 8, pp.161-184. (doi:10.1146/annurev-marine-010814-015912) Sobre o autor: Filipe é baiano, natural de Alagoinhas. Sempre foi curioso para entender como a Terra funciona e desde a terceira série do ensino fundamental tinha decidido ser cientista. Começou seus estudos em biologia na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), mas logo percebeu que buscava uma formação mais interdisciplinar. Foi para a Universidade Federal da Bahia (UFBA) estudar oceanografia, onde foi encorajado a ir para a Universidade de São Paulo (USP), onde o curso teria uma base mais forte em física. Formou-se oceanógrafo em 2017 pela USP, e atualmente faz doutorado em Oceanografia Física no Programa de Dupla Titulação em Ciências do Mar entre a USP e a Universidade de Massachusetts Dartmouth. Estuda principalmente dinâmica de frentes oceânicas e costeiras em mesoescala e sub-mesoescala, e seus efeitos na ecologia planctônica. Além de apaixonado pela Terra, adora aquarismo e música, sendo cantor do CoralUSP Todo Canto como barítono. #Oceanografia #CiênciasDoMar #CiênciasDaTerra #Vórtices #Fitoplâncton #Ecologia #Convidados #Oceanografia #Biologia #BiologiaMarinha #JoanaHo #Plâncton
- Mais uma fantástica habilidade dos corais: autolimpeza para retirar óleo
Por Leandro Santos Ilustração: Joana Ho. Os corais brasileiros têm fama de serem fortes e resistentes, mas eu queria que eles não precisassem provar isso com tanta frequência como nos últimos tempos. Apesar das águas quentes do Nordeste serem convidativas, o Brasil possui uma água relativamente mais turva que outros locais onde os corais ocorrem no mundo, o que normalmente dificulta o desenvolvimento da maioria das espécies de corais (leia mais sobre a biologia dos corais aqui). Essas condições fazem com que tenhamos um conjunto de espécies muito especial nas águas rasas da nossa costa - aproximadamente metade delas só existem aqui no Brasil! O ano de 2019 começou difícil para os corais do Nordeste. Por causa do El niño, as águas ficaram acima da temperatura ideal para estes animais por muito tempo. Essas condições adversas geram estresse, que pode levar ao processo de branqueamento de colônias de coral. Quando o branqueamento persiste por um longo período, pode causar a morte dos corais. Em alguns lugares, como no Recife de Fora (Porto Seguro – BA), registrou-se a mortalidade de 90% das colônias do Coral de Fogo (Millepora alcicornis). Colônias de Coral de Fogo (Millepora alcicornis) branqueadas em março de 2019. (Fonte: Leandro Santos/ Projeto Coral Vivo com licença CC BY-SA 4.0). Passados o verão e o outono, períodos em que a água ficou mais quente, pudemos observar uma melhora e recuperação nas colônias. No entanto, perto do início da primavera, começamos a ter notícias do desastre relacionado ao misterioso óleo que impactou o Nordeste. Morando e trabalhando com corais em Porto Seguro, que está na área do Banco dos Abrolhos, onde temos a maior diversidade de corais do Atlântico Sul, a preocupação começou a se instalar. Primeiro preocupação pelas populações das cidades já atingidas mais ao norte. Como isso impactaria suas vidas no curto e longo prazo, e quais seriam os impactos nos ecossistemas atingidos? O cenário gerou uma sequência de noites mal dormidas, pesadelos com cenários catastróficos, discussões acirradas entre parceiros sobre as possíveis ações, e uma confusão entre informações conflitantes de vários lados. O Projeto Coral Vivo, uma ONG que trabalha com pesquisa e conservação de corais, montou experimentos com diferentes graus e tipos de contato com o óleo encontrado, buscando entender as consequências deste crime, os potenciais impactos, e gerar dados para subsidiar possíveis tomadas de decisão. Pesquisadores montam experimento com óleo sobre os corais (Fonte: Leandro Santos/ Projeto Coral Vivo com licença CC BY-SA 4.0). Apesar dos pesquisadores já conhecerem toda a força e potência dos corais brasileiros, uma observação nos surpreendeu: a habilidade destes animais removerem o óleo que os cobria. Em diferentes experimentos percebemos que os corais acabavam ficando limpos mesmo quando colocávamos óleo sobre eles. Foi então planejado um experimento só para registrar se isso realmente ocorria. O experimento consistiu em colocar corais vivos ao lado de esqueletos e colocar óleo sobre os dois – assim, se o óleo ficasse no esqueleto, mas saísse do coral, era porque o coral que havia tirado, e não que o óleo tivesse simplesmente boiado. Para os estudos, utilizamos o coral couve-flor (Mussismilia harttii). O coral começou a responder muito rapidamente: em 5 minutos já percebemos grande produção de muco. Eles sempre produzem muco, mas nesse caso houve aumento expressivo de muco e a formação de bolhas. O coral também começou a externalizar alguns de seus filamentos viscerais como resposta ao estresse. O resultado dessa movimentação toda foi que em duas horas todos os corais haviam removido o óleo que estava sobre eles, e esse óleo boiava ainda mais com todo o muco do coral. Enquanto isso, os esqueletos estavam intactos, cheios de óleo. Com isso pudemos registrar a incrível habilidade desses animais, que não só conseguem se limpar do sedimento sobre eles, mas tem estratégias tão poderosas que conseguem remover óleo de suas “cabeças”. Esquema mostrando como funcionou o experimento constatando que os corais conseguem remover o óleo de cima deles. À esquerda o coral vivo, e à direita só o esqueleto (Fonte: Leandro Santos/vetores por Freepik licença CC BY-SA 4.0). Esse experimento nos ensina algumas coisas sobre o funcionamento da ciência, por exemplo, que nem sempre as respostas vêm completas. Registramos a remoção do óleo, mas ainda não sabemos exatamente quais os mecanismos usados pelos corais para realizar tal façanha. Temos palpites de que pode ser a produção de muco, o movimento dos cílios na região próxima a boca, ou outras ações, mas elas ainda precisam ser melhor investigadas. Nem sempre conseguimos prever o que está para acontecer, alguns experimentos já haviam sido realizados para estudar o impacto de derivados do petróleo em potenciais desastres, mas não exatamente com as características deste óleo. Momentos de crise demandam muito conhecimento, ou seja, pesquisa, para que as melhores decisões sejam tomadas. O valor dos conhecimentos tradicionais também deve ser reconhecido nesta hora, muitas vezes acumulando mais informação do que muitos modelos. Corais são animais incríveis que estão há anos lutando pela sobrevivência e mostrando verdadeiras façanhas para conseguirem resistir a tantas ameaças. Até agora, o óleo parece não ter causado muitos impactos diretos sobre eles¹²³, mas respostas relacionadas a fatores indiretos, ou de efeito em cascata, ainda podem aparecer. Uma ameaça clara está relacionada às mudanças climáticas, como vimos em 2019. Em 2020 outras regiões do Nordeste apresentaram o estresse do branqueamento e alta mortalidade. O Atlântico Sul, e a nossa especialíssima fauna, se comportam como um refúgio de corais quando comparados a outros corais ao redor do mundo. Mas com tantas ameaças está ficando cada vez mais difícil de se defender, mesmo com truques inesperados. O crime do óleo que atingiu a costa brasileira, e a magnitude que alcançou (3000 km de costa!), foi um exemplo do que pode acontecer quando o poder público não age com velocidade e perícia, e a comunicação entre pesquisadores e gestores é ineficiente. Poucas ações foram tomadas baseadas nos conhecimentos prévios sobre as características oceanográficas. Se houve um estancamento, foi por causa da articulação de voluntários, comunidades tradicionais, e entidades locais. Os impactos do óleo ainda são um mistério, vai demorar um bom tempo para entendermos a sua real dimensão. Foi mais um capítulo para a série de desastres que vêm ocorrendo; assim como o crime que ocorreu em Mariana, que deixou até hoje muitas perguntas sem respostas. --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- Referências ou sugestão de leitura: ¹https://www.oeco.org.br/noticias/oleo-atinge-apa-costa-dos-corais-maior-reserva-marinha-federal-do-brasil/ ²https://www.residenciais.org/2020/01/oleo-no-nordeste-expedicao-revela-impacto-invisivel-nos-recifes-de-corais/ ³https://ufal.br/ufal/noticias/2019/12/expedicao-nao-registra-mortalidade-de-corais-relacionada-ao-oleo Nas águas mais profundas existem outros tipos de corais, muitos especiais também, e você pode saber mais sobre eles por aqui. Santos HF, Santos LFA, Jesus HE, Lacerda CHF, Mies M. In Press. The South Atlantic coral Mussismilia harttii actively and quickly removes heavy crude oil from its surface. Bulletin of Marine Science. https://doi.org/10.5343/bms.2020.0017. --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- Sobre o autor: Biólogo, em eterna formação, graduado pela USP, tenho experiência com zoologia de invertebrados marinhos, ecologia de substratos consolidados, educação ambiental e aquicultura. Atualmente aluno de mestrado na UFSB, pertenço ao Núcleo de Pesquisa e Extensão em Educação Ambiental (NUPPEA/UFSB) e meu projeto envolve educação ambiental em unidades de conservação da Costa do Descobrimento. Quando consigo, gosto de ser pego por umas ondas (um dia chega a vez delas!) e aprendendo as mil artes da capoeira. Acredito na necessidade urgente de mudança de hábitos e que só coletivamente construiremos um futuro. Com todes. #óleononordeste #vazamentoóleo #corais #branqueamento #ciênciasdomar #leandrosantos #joanaho
- Pesca Fantasma: um monstro marinho de verdade
Por Beatriz Mattiuzzo Monstros gigantes, que agarram, afogam e tiram pedaços habitam nosso oceano. Mas não são aqueles seres mitológicos das navegações... Esses monstros modernos que nem sequer são vivos, mas tiram a vida de muitos, são equipamentos de pesca abandonados, descartados ou perdidos que vão continuar a realizar a função para que foram construídos: capturar animais. Muitas vezes, sem ninguém ver ou saber – e por isso o nome fantasma. São redes, linhas, anzóis, espinhéis, armadilhas de covos, potes ou qualquer outro petrecho de pesca já inutilizado que vai parar no oceano – e viram um problema para fauna marinha, além de contribuírem significativamente para a poluição por plástico e prejudicarem a própria pesca. Esse vídeo ilustra bem o problema, mas só assiste se vc achar que tá bem, tá? Pode servir de gatilho. Vídeo cedido por Vinicius Jose Giglio Fernandes , pesquisador da UNIFESP, que registrou retirada de rede fantasma do Arquipélago de Alcatrazes em 07/12/2019. Como esses equipamentos de pesca vão parar no mar? Na maioria das vezes, por acidente. Imagina só: um barco pescando fica com a rede presa... Os pescadores irão tentar liberar a rede – pois também não querem perder o equipamento – mas ela pode rasgar e eles não conseguem recuperá-la. Essa rede que ficou lá vai virar um problemão, e o mesmo vale para armadilhas, linhas ou anzóis perdidos. Anos atrás, quando a consciência ambiental era menor, os pescadores eram muito responsabilizados pelos petrechos e vistos apenas como vilões nessa situação. Atualmente, todo mundo já entendeu que a pesca fantasma é ruim inclusive para a própria pesca – porque mata animais que poderiam ser comercializados pelos próprios pescadores. Então é importante a gente entender que, na grande maioria dos casos, é um acidente de trabalho, parte da realidade da pesca, que prejudica a todos. Mas há exceções: a pesca ilegal também contribui muito para a pesca fantasma. Nesses casos, para evitar serem descobertos, os barcos podem tentar descartar os petrechos de pesca no mar. Ou, se tiverem um acidente, não vão informar às autoridades. Nesses casos, precisamos de mais fiscalização e maneiras de penalizar esses crimes. O que acontece com os animais? O contato com os equipamentos de pesca fantasma pode acontecer de várias formas, e essa imagem resume bem isso: Representação esquemática de diferentes impactos que os animais marinhos podem sofrer por petrechos fantasmas, retirado de Sumário Executivo – Maré Fantasma - World Animal Protection. Como é que a pesca prejudica a própria pesca? A pesca fantasma prejudica a pesca comercial pois aprisiona e mata uma quantidade enorme de espécies marinhas que poderiam ser capturadas e comercializadas de forma regular. Além disso, é uma ameaça à segurança dos próprios pescadores e seus barcos, podendo causar grandes prejuízos. As redes podem ser perigosas até para os banhistas, como o que aconteceu nesse terrível acidente fatal com um surfista que se prendeu em uma rede abandonada recentemente (https://esporte.ig.com.br/maisesportes/surfe/2020-06-18/surfista-morre-apos-ficar-preso-em-rede-de-pesca-no-rio-de-janeiro.html). Se algum dia você encontrar um animal marinho preso em redes de pesca, acione os órgãos ambientais responsáveis e tome muito cuidado. Apesar de dar vontade de ajudar, pode ser bem perigoso, pois você também pode se enrolar e o animal te puxar. Em alguns locais do mundo, equipes profissionais realizam esse trabalho, como na Sicília. Vale a pena acompanhar o trabalho desses profissionais no instagram @ghostdivingorg - https://www.instagram.com/ghostdivingorg/ Qual a dimensão do problema? A pesca fantasma é um problema global. Os registros de interação de petrechos fantasmas com animais se concentram principalmente nos peixes, crustáceos e na megafauna marinha como tartarugas, leões-marinhos, focas, golfinhos, baleias e outros – e podem ser responsáveis por até 30% do declínio populacional de algumas dessas espécies, como indica o relatório técnico da FAO sobre o assunto em 2016. Além disso, os petrechos são de plástico – e vão lentamente se fragmentando e liberando microplásticos no ambiente. Ainda assim, podem durar séculos, gerando uma cadeia cíclica: animais ficam que presos acidentalmente atraem outros animais, especialmente os detritívoros (animais que se alimentam de restos orgânicos). Estes animais também acabam emaranhados nos petrechos, levando-os à morte e atraindo mais indivíduos. Esse ciclo só se encerra quando o petrecho fantasma é retirado ou degradado. Alguns dados da pesca fantasma no Brasil: Faz apenas algumas décadas que acordamos para o problema da pesca fantasma. Segundo o relatório Maré Fantasma da World Animal Protection, lançado no final de 2018, os primeiros estudos do tema no Brasil são de 2009 e apenas três estados (São Paulo, Santa Catarina e Rio de Janeiro) apresentam estudos e ações consistentes no combate à pesca fantasma.Mas há relatos de episódios de pesca fantasma em 12 dos 17 estados costeiros do país, inclusive nos rios do Amazonas. Se formos seguir padrões de estudos internacionais, que mostram uma perda de cerca de 2% dos equipamentos de pesca em equipamentos fantasma, e que o Brasil produz e importa anualmente 6.600 toneladas de redes de pesca, seriam 200 toneladas de rede por ano, ou mais de 500 quilos por dia! Montes de redes para reparos em Angra dos Reis – RJ. Algumas serão costuradas, outras tem que ser descartadas. Foto por Beatriz Mattiuzzo - CC BY SA 4.0. O que fazer? Para ajudar a resolver esse problemão que nós mesmo criamos, há alguns caminhos. Um passo óbvio é frear a pesca ilegal, que já é problemática por outros motivos. Outros passos importantes são marcar as redes, incentivar os relatos de petrechos perdidos e os esforços de recuperação, sempre considerando-os como acidentes de trabalho, e sem culpar os pescadores. Alguns petrechos, como redes, não têm grande valor e por isso alguns pescadores não se motivam a buscar recuperá-las. Por isso outro caminho importante é tornar atrativo para esses profissionais devolverem as redes que não têm mais utilidade. É isso que algumas novas empresas buscam, como a Marulho, uma iniciativa criada por oceanógrafos (inclusive a que está escrevendo esse texto!). Marulho quer dizer barulho do mar, e a missão dessa marca é desenvolver soluções ao plástico de uso único junto com divulgação científica. Um dos jeitos de fazer isso é pegando redes de pesca descartadas e transformando-as em saquinhos de hortifruti, costurados por locais da Ilha Grande - RJ. Assim, ajuda-se a dar um destino ao plástico já existente, evitar a pesca fantasma, não gerar mais plástico no mercado e empoderar uma comunidade tradicional! Esquema de uma Redeco, produto comercializado pela Marulho que dá destino a essas redes! Arte: Beatriz Mattiuzzo - CC BY SA 4.0. Adquirir produtos assim é uma forma de, no âmbito individual, contribuir para a solução do problema. Então se você se interessou pelas redecos, clica aqui . Outros jeitos são tomando cuidado para não financiar a pesca ilegal e compartilhando esse texto, pra mais pessoas ficarem sabendo! Referências ou sugestão de leitura: FAO Fisheries and Aquaculture Technical Paper (FAO). 2016. Abandoned, lost or otherwise discarded gillnets and trammel nets. Volume único: 140 páginas. World Animal Protection (WAP) 2018. Fishing’s phantom menace. Volume único: 33 páginas. Sobre a autora: Beatriz Mattiuzzo A Bia se apaixonou pelo mar mergulhando, fez oceanografia na USP - São Paulo, e quando se formou em 2018 resolveu sair pelo mundo por um ano trabalhando como voluntária em instituições de pesquisa. Nesse período aprendeu muito sobre educomunicação e ao voltar foi trabalhar temporariamente em Ilha Grande. Mas se apaixonou, ficou por lá e fundou a Marulho - uma empresa que busca divulgar a cultura oceânica junto com soluções para o plástico de uso único. Atualmente está começando um mestrado na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro em Práticas de Desenvolvimento Sustentável, trazendo o lado da ciência para o projeto de reutilização de redes de pesca que desenvolve com os locais da Ilha Grande. #Descomplicando #Pesca #PescaFantasma #SoluçõesSustentáveis #PoluiçãoPorPlástico #RedeDePesca #PetrechosPerdidosAbandonadosOuDescartados #LixoNoMar #Convidados
- Etnobiologia e a descolonização do pensamento científico
Por Franciany Braga Ilustração: Caia Colla Desde criança eu me imaginava como uma bióloga bastante interativa com as pessoas, pois para mim sempre foi muito clara a ideia de que, se eu quisesse trabalhar com conservação da natureza, inevitavelmente precisaria trabalhar com pessoas; porque questões de conservação na maioria das vezes envolvem questões sociais e também porque todos somos natureza. Ao entrar no curso de biologia, logo na primeira semana de aula eu já estava fazendo estágio e literalmente experimentei de quase todas as áreas um pouco. Porém, ao mesmo tempo, me sentia distante da ciência que fazia meu coração pulsar quando mais jovem. Somente no segundo ano de faculdade levei para o professor Artur Andriolo, meu orientador na época, que eu queria na verdade estudar as relações entre os organismos vivos e os sistemas culturais. Foi quando então Artur disse, ‘’Fran, isto o que você quer fazer tem nome e se chama etnobiologia, é ela que te possibilitará entender todas estas relações através dos estudos da ecologia e evolução dos sistemas socioecológicos”. Imediatamente comecei a estudar sobre o tema e enlouqueci ao ver a aplicação de diversas teorias ecológicas e evolutivas no comportamento social de seres humanos, como a teoria do nicho e do forrageamento ótimo moldando as escolhas de populações extrativistas. Li diversos estudos e escrevi meu primeiro projeto de pesquisa com etnobiologia, cujo trabalho de campo ocorreu em uma área de muita luta e resistência social no Norte de Minas, com as populações potencialmente atingidas pela Barragem de Berizal. Juntos, nós desenvolvemos um documento que descreve a fauna que seria impactada caso a obra da barragem fosse concluída. Eu entrevistei pessoas que me deixaram realmente impressionada ao dividir seu saber acerca dos animais da área e sua paixão e vontade de defender aquele lugar. Graças a este povo, eu me encontrei quanto cientista. Em 2013, já no final da graduação, concorri em um edital para trabalhar com pesquisa em Angola, no qual as próprias candidatas deveriam apresentar o projeto de pesquisa. Fui selecionada e a etnobiologia foi comigo. Pesquisa em Angola Em Angola realizei o primeiro levantamento da diversidade de mamíferos na principal área protegida do país após o início da guerra civil angolana em 1975, que ao desestruturar a segurança angolana, afetou também as pesquisas científicas. Foi uma imersão em um mundo tão impressionante que eu costumava brincar que queria testar todas as teorias do o livro Etnobiologia Bases Evolutivas e Ecológicas (Editor Ulysses Albuquerque). Nessa época, eu virei amiga dos fiscais do parque e filha dos caçadores e caçadoras que também vivem na área, morando em suas casas e sendo tratada como parte da família. Trabalhar com etnobiologia exige também que a gente se adeque ao cotidiano dos informantes. Por exemplo, era comum que o informante falasse: ‘’Mana Francisca precisa me acompanhar até o roçado para fazer a entrevista e eu só posso responder quando o sol esquentar, hora que paro um pouco de trabalhar’’. Porém, como a lavoura era distante eu precisava acompanhá-lo logo cedo. Então, o jeito era acordar de madrugada, cozinhar minha mandioca na lenha e às 4h/4h30 estar pronta em frente à casa do informante. Às vezes minha casa estava a 10 Km da casa do informante e era preciso sair ainda mais cedo - principalmente quando precisava ir a pé. Outras vezes, para chegar até o informante que estava em uma parte mais distante da comunidade, era preciso pegar canoa de madrugada. Mas isso não era um problema e lá ia eu, neste último caso com algum outro morador que conhecesse bem o rio. Alguns informantes eram sublimes caçadores (conhecendo muito dos animais) e eu realmente queria entrevistá-los. Por isto, por vezes, esperei dias em determinada área para conseguir falar com determinada pessoa que, quando chegava, não necessariamente aceitaria participar da entrevista. Neste ponto também gostaria de falar que minhas primeiras entrevistas foram desastrosas. Mas, por qual o motivo algumas pessoas não queriam falar nas primeiras entrevistas? Os mais diversos. Eu trabalhava com caça em uma região onde a atividade era proibida por lei. Por isso, inicialmente eu associei este ‘’desastre’’ ao fato das pessoas não quererem se abrir para falar de um tema que ‘’afinal’’ era proibido por lei. Com o tempo, porém, fui percebendo que o(a) caçador(a) local e sua família viam a caça de subsistência como sua maior e mais bela arte e entendi que as entrevistas eram desastrosas não porquê os caçadores não queriam falar sobre ‘‘a arte da caça’’, mas porquê eu não queria ouvir sobre algo que para mim era um crime. Outro ponto, foi que mesmo depois de ver o significado da caça para aquele povo e conseguir fazer uma entrevista com tranquilidade no rosto, eu ainda não tinha compreendido o significado cosmológico - que ia além do uso - , e nesta fase, por mais que os caçadores se abrissem para conversar comigo, eu não fui capaz de de entender e colocar no papel o que eles de fato queriam dizer. Foi necessário um longo trabalho de descolonização dos meus tabus e mergulho em algo muito mais complexo do que as relações que eu enquanto bióloga costumava ter com a fauna. Outras situações diziam respeito ao medo da/do informante em falar comigo, porque a associação de pessoa de pele branca (como a minha) com colonizadores, que destruíram vidas angolanas, ainda estava em sua mente. É lastimável falar isto, mas Angola se tornou independente de Portugal a pouco mais de quarenta anos e a guerra civil iniciada após a independência perdurou até 2002. Um grande líder de uma das comunidades e um dos maiores mestres que já tive enquanto pesquisadora - soba Francisco do Lutende - me ensinou com muita sabedoria a compreender e aprender com os ‘’nãos’’ das pessoas que se negavam a participar da pesquisa e como isto faz parte do exercício de se fazer etnobiologia. Tudo o que aprendi com o soba sobre isto daria um livro ou no mínimo outro texto no Bate Papo com Netuno. Mestrado Depois de viver mais de um ano em Angola, resolvi regressar ao Brasil para fazer mestrado. Mas deixei meu coração do outro lado do Atlântico e resolvi voltar para pesquisar sobre o efeito de guerras civis sobre a fauna silvestre no Suldoeste da África. Retornei a Angola vivendo meses de total imersão em campo, distante dos centros urbanos, sem contato com a família no Brasil, curtos períodos de sono em uma maca, trilhas em locais que ainda continham minas de guerra, transportes em condições perigosas, sem energia elétrica e com uma alimentação que dependia da chuva. No início eu me enxergava como quem fazia algo heróico, mas então comecei a perceber que aquela minha “aventura inacreditável” não passava da realidade diária das populações locais. Foi então quando comecei a entender que fazer etnobiologia é também ser ponte para pessoas, que muitas vezes são desassistidas, e que a luta deve ser nossa. Nosso maior objetivo agora é desenvolver, junto aos responsáveis pelo parque, um plano de co-manejo que assegure o envolvimento e a soberania das pessoas que vivem na Quiçama com a conservação da biodiversidade. Esta pesquisa também tem gerado publicações fantásticas e uma reviravolta no tema. Alguns de nossos trabalhos podem ser acessados pelos links: https://www.nature.com/articles/s41598-020-71501-0 https://doi.org/10.1016/j.biocon.2020.108744 Os trabalhos também viraram matéria em dois canais de TV importantes, CBS e TPA, que podem ser assistidas pelos links: https://www.youtube.com/watch?v=a-xOzICzRGI https://www.youtube.com/watch?v=kRokoNEk0L8 Doutorado Atualmente, no doutorado, desenvolvo pesquisa com manejo de animais silvestres em 14 áreas protegidas de uso sustentável e terras indígenas na Amazônia e, mais uma vez, uma de minhas principais fontes de dados é o conhecimento ecológico tradicional. Mas preciso frisar que o conhecimento tradicional é mais do que uma ferramenta para coletar informações de campo, é uma construção epistemológica, tão valiosa quanto o conhecimento científico e que tem revolucionado diversos campos da ciência. Entretanto, o conhecimento destes povos ainda é por vezes negligenciado, inclusive por pesquisadores que nunca tiveram a oportunidade de um dia aprender com o saber tradicional. Nesse ponto retorno ao título deste texto e digo que tal conhecimento tradicional ainda não pode ser percebido por muitos pesquisadores, porque estes ainda precisam descolonizar seu pensamento. Descolonizar para enxergar. É preciso entender também que tais populações tradicionais, como as da Amazônia, são verdadeiras guardiãs. Principalmente agora, diante de um anti Ministério do Meio Ambiente e de um governo que tenta a todo custo entregar as florestas aos grandes latifundiários. Portanto, sem o respeito ao conhecimento destes povos acerca da biodiversidade e de seu reconhecimento como agentes essenciais para a conservação e manejo, não poderemos cuidar do que tanto amamos e acreditamos. Por isso, minha eterna admiração e amor a etnobiologia e aos povos tradicionais. Sobre a autora: Bióloga e doutoranda em Zoologia pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), sendo pesquisadora executiva do Instituto Juruá e ao Laboratórios de Mamíferos e Etnobiologia da UFPB. Atualmente também faz parte da Rede Fauna, um grupo de pesquisadores engajados com a conservação e manejo de fauna amazônica. Desenvolve pesquisas nas áreas de sistemas socioecológicos, conservação da biodiversidade, impacto antrópico sobre fauna e manejo de base comunitária de caça na Amazônia e África subsaariana. #VidaDeCientista #Etnobiologia #EcologiaHumana #Caça #PovosTradicionais #Convidados
- Ondas de Calor acontecem fora da Europa também, inclusive no oceano
Por Natasha Costa Nós brasileiros lidamos com o calor de uma forma diferente dos europeus. O calor, para a maioria de nós, é normal. Faz parte da nossa rotina diária de verão procurar diferentes formas de nos refrescar, seja desfrutar da famosa geladinha – ou chup-chup, ou sacolé – ou da piscina dos amigos. Porém, é bem provável que calor demais não seja totalmente normal, nem mesmo para o Brasil. Imagina aqueles dias que você não consegue ver uma nuvem no céu, que uma mera caminhada te faz suar – como tampa de panela. Bom, é possível que você esteja presenciando um evento extremo chamado “onda de calor”. Uma onda de calor é exatamente quando a temperatura está anormalmente alta por alguns dias consecutivos. Esse ano algumas regiões do Brasil presenciaram uma onda de calor. Os Cuiabanos tiveram a infelicidade de presenciar temperaturas por volta de 44°C – 5°C acima da média, quebrando os recordes de calor dos últimos 100 anos. Cuiabá inclusive foi a cidade mais quente do mundo no dia 30/09, e ficou entre os assuntos mais comentados do Twitter nesse dia. Essa onda de calor resultou em um alerta do Instituto Nacional de Meteorologia para o perigo de morte por hipertermia em algumas regiões do Brasil, como pode ser visto no mapa abaixo. Se você que mora em uma dessas regiões e o calor aí ainda não passou quando esse texto for publicado, se hidrate e se cuide. Alertas de Onda de Calor. Fonte INMET com licença CC BY SA Beleza, entendi, calor por dias e dias. Mas qual o problema? Impactos das ondas de calor. Fonte Natasha Costa com licença CC BY 4.0 1. Saúde: a exposição ao calor extremo pode levar à desidratação, insolação, desmaio e outras emergências médicas, a soma disso tudo pode sobrecarregar o sistema de saúde. 2. Prestação de serviços: pessoas que trabalham em ambientes abertos têm que decidir – quando podem decidir – entre trabalhar sem segurança no calor, ou diminuir suas horas de trabalho, reduzindo sua produtividade. 3. Natureza: estresse térmico tem impacto negativo em animais e plantas. 4. Infraestrutura: durante uma onda de calor há uma crescente demanda por resfriamento e água, o que pode resultar em apagões e falta de água. Além disso, o calor pode causar o derretimento de algumas superfícies, como estradas, tornando-as perigosas e, às vezes, inacessíveis. 5. Economia: todos itens citados acima podem impactar a economia, por exemplo, a diminuição da produtividade devido ao calor no trabalho. Estudos predizem que 2% da produtividade anual global é afetada pelo calor. Essa porcentagem pode ser ainda maior em países em desenvolvimento, que têm maiores índices de informalidade no trabalho. Essa diminuição da produtividade, considerando o dólar hoje, resultaria em uma perda global em torno de 23 trilhões de reais por ano. Isso, inclusive, pode agravar a desigualdade entre países desenvolvidos e em desenvolvimento. Onda de Calor na China em 2013, com dados de The International Federation of Red Cross and Red Crescent Societies. Fonte Natasha Costa com licença CC BY 4.0 Ondas de Calor estão relacionadas ao aumento da hospitalização de muitas pessoas, afetando principalmente idosos, grávidas, bebês e pessoas de baixa renda. Isso significa que esses eventos trazem à tona problemas sociais que geralmente são esquecidos por muitos. Por exemplo, a onda de calor que aconteceu no Canadá em 2018 matou 54 pessoas de Montreal, das quais a maioria eram idosos que moravam sozinhos e não possuíam ar condicionado. Bom, eu não vim aqui falar disso – mas com certeza não é um fato que pode ser ignorado. Vim falar com vocês das ondas de calor que ocorrem nos oceanos. E, até onde sabemos, não existem hospitais lá. Ondas de Calor Marinhas Assim como as ondas de calor explicadas anteriormente, as ondas de calor marinhas são eventos que representam um período, 5 ou mais dias, no qual a temperatura do mar se encontra anormalmente alta. Por muito tempo elas passaram despercebidas, mas atualmente a comunidade científica têm dado bastante importância a elas. Muitos artigos têm sido publicados sobre esses eventos, especialmente desde que “The Blob” aconteceu. Esse nome foi dado para a onda de calor mais longa já registrada, com pelo menos 226 dias de calor extremo no Oceano Pacífico, alguns autores afirmam que esse período foi ainda mais longo. Meu palpite é que o nome veio de um filme de 1958 sobre uma bolha assassina que caçava e matava pessoas, o que é basicamente o que as ondas de calor marinhas fazem com os organismos marinhos. Pera aí, você disse BOLHA ASSASSINA? Que? O “The Blob” aconteceu entre o Alasca e a Baixa Califórnia, no México. O evento alcançou 2,56 °C de intensidade, ou seja, quase 3 °C acima do que é considerado normal para a região no período analisado. No inverno, por exemplo, o “normal” varia entre 8-9°C, e chegou a 12°C, enquanto no verão as temperaturas passaram de 14-15°C a valores próximos a 20°C. Alguns dos impactos foram: mudança na dinâmica e comportamento de algumas espécies de peixes, deslocamento na distribuição de organismos marinhos e até mortalidade em massa de algumas espécies de aves e mamíferos. E claro, os impactos não acabam aqui; espécies economicamente importantes também são afetadas, resultando em tensões econômicas para região. Podendo até resultar em impasses políticos entre regiões! Um exemplo disso foi o evento de 2012 no Atlântico Norte, que adiou o pico de lagostas, resultando em tensões econômicas entre pescadores do Canadá e Estados Unidos. Ok, mas e no Brasil? E as Ondas de Calor Marinhas no Oceano Atlântico? Recentemente, a Profa. Dra. Regina Rodrigues e colaboradores (que por sinal é minha orientadora) não só mostrou que essas ondas de calor acontecem no Atlântico Sul, como também explorou a causa desses eventos na nossa região. Os bloqueios atmosféricos explicam aproximadamente 60% das ondas de calor marinhas no Oceano Atlântico – mais especificamente na porção Sudoeste do Oceano Atlântico, mais pertinho da gente. De acordo com os autores, isso acontece porque o bloqueio atmosférico resulta em uma menor cobertura de nuvens, aumentando a incidência de radiação solar. Além disso, enfraquece os ventos, fazendo diminuir a perda de calor do oceano. Ou seja, mais calor entrando do que saindo. Outros pesquisadores do Uruguai também analisaram esses eventos no Atlântico Sul, detectando 75 ondas de calor marinhas em um período de apenas 30 anos. Porém, não sabemos muito sobre os impactos desses eventos nesta região. Quem é do Sul já deve ter ouvido falar do famoso berbigão, ele é mais conhecido como recheio de pastel ou servido com um limãozinho, como na foto abaixo. Esse bivalve tem uma graaaande importância econômica e cultural para comunidades costeiras do Atlântico Sul e um estudo recente mostra altas taxas de mortalidade desse bivalve quando expostos a ondas de calor marinhas, vou deixar a referência no final para quem quiser saber mais sobre. Prato de Berbigão ao bafo. (Fonte: ICMBio). Fonte: ICMBio com licença ALRoos / CC BY-SA E no futuro, hein? Esses eventos acontecem naturalmente, porém, assim como outros eventos extremos - inundações, secas etc. - as ondas de calor estão se intensificando com as mudanças climáticas. Alguns estudos já mostram que esses eventos estão se tornando cada vez mais frequentes, intensos e duradouros. Isso significa que todos os impactos mencionados anteriormente podem se intensificar e talvez até surgir novos que nem imaginávamos. Para que possamos nos preparar para os possíveis impactos, o primeiro grande passo é entender melhor sobre esses eventos e o possível futuro deles. É aí que eu entro, eu estudo sobre o futuro desses eventos... No fim, o objetivo é analisar as mudanças em quantidade, mas também entender como as propriedades desses eventos podem mudar em relação às nossas ações. Ou seja, o objetivo é entender (e claro, compartilhar com vocês) o quanto as nossas ações afetam na quantidade e intensidade das ondas de calor no oceano. E, se existe onda de calor, existe uma grande possibilidade de impacto nos organismos. Por enquanto deixo como reflexão, você acha que suas atitudes afetam o oceano e os organismos que vivem nele? Referências e sugestões de leitura: CARNEIRO, A. P.; SOARES, C. H. L.; MANSO, P. R. J.; PAGLIOSA, P. R., 2020: Impact of marine heat waves and cold spell events on the bivalve Anomalocardia flexuosa: A seasonal comparison. Marine Environmental Research, 156, 104898. HOBDAY, A. J.; ALEXANDER, L. V.; PERKINS, S. E.; SMALE, D. A.; STRAUB, S. C.; OLIVER, E. C.; BENTHUYSEN, J. A.; BURROWS, M. T.; DONAT, M. G.; FENG, M.; HOLBROOK, N. J.; MOORE, P. J., SCANNELL, H. A., SEN GUPTA, A.; WERNBERG, T., A hierarchical approach to defining marine heatwaves. Progress in Oceanography, 141, 227-238, 2016. HOBDAY, A. J.; OLIVER, E. C. J.; GUPTA, A. S.; BENTHUYSEN, J. A.; BURROWS, M. T.; DONAT, M. G.; HOLBROOK, N. J.; MOORE, P. J.; THOMSEN, M. S.; WERNBERG, T.; SMALE, D. A., Categorizing and naming marine heatwaves. Oceanography 31, 162– 173., 2018. RODRIGUES, R. R.; TASCHETTO, A. S.; GUPTA, A. S.; FOLTZ, G. R., Common cause for severe droughts in South America and marine heatwaves in the South Atlantic. Nature Geoscience, 12(8), 620-626, 2019. SINGH, R.; ARRIGHI, J.; JJEMBA, E.; STRACHAN, K.; SPIRES, M.; KADIHASANOGLU, A., Heatwave Guide for Cities. Red Cross Red Crescent Climate Centre, 2019. Nesta quarta, às 15h00, Cuiabá foi a cidade mais quente do mundo | Gazeta Digital. (2020). Retrieved 8 October 2020, from https://www.gazetadigital.com.br/colunas-e-opiniao/fogo-cruzado/nesta-quarta-s-15h00-cuiab-foi-a-cidade-mais-quente-do-mundo/630909 WERNBERG, T.; HOLBROOK, N.; OLIVER, E.; HOBDAY, A., All about MHWs. [online] MARINE HEATWAVES. Available at: http://www.marineheatwaves.org/all-about-mhws.html [Accessed 27 Nov. 2019]. Sobre a autora: Sou Oceanógrafa e mestranda em Oceanografia pela UFSC. Minha grande paixão dentro da Oceanografia é o estudo das Mudanças Climáticas, mas tenho interesses bem amplos e já estagiei até com foraminíferos. Eu sou originalmente de Goianésia, interior de Goiás e a primeira vez que conheci o mar tinha 10 anos. E consigo reviver essa memória como se fosse hoje. Pra mim era - e ainda é - muito curioso você olhar pra algo e não saber onde fica o fim, como funciona, por que é salgado? Demorou para que eu entendesse que estudar o mar seria uma profissão. E claro, como um grande clichê da Oceanografia, tento surfar. Contato: natashavcostaa@gmail.com #OndasDeCalorMarinhas #MudançasClimáticas #DivulgaçãoCientífica #Oceanografia #Descomplicando #Convidados #BiologiaMarinha #Biologia
- Retorno à sala de aula: borboletas no estômago e grilos na cabeça
Por Juliana Leonel O último dia que entrei em sala de aula em 2020 foi na sexta feira 13 de março e os supersticiosos diriam que isso pode não ser um bom sinal… Depois disso as atividades presenciais na universidade foram suspensas por causa do COVID-19 e, no final de abril, entrei em licença maternidade. Agora estou às véspera de meu retorno para a “sala de aula”, no final de outubro de 2020. Um turbilhão de emoções permeiam as semanas que antecedem esse retorno: saudades dos estudantes e das trocas, ansiedade pelo retorno a uma atividade que tanto amo, incertezas com relação à dinâmica das aulas remotas, insegurança quanto ao meu preparo para conduzir as atividades online. Tudo isso vem acompanhado pelo medo de falhar, preocupação em voltar a uma atividade que demanda tempo e dedicação, em um modelo totalmente novo para mim, ao mesmo tempo iniciando a introdução alimentar no meu bebê (algo também completamente novo para mim). São tantas borboletas na barriga que tem noites que sonho com esse retorno, às vezes os sonhos são bons outros nem tanto… sonho que a internet caiu, sonho que esqueci as senhas de acesso a todas as plataformas, sonho até que esqueci o nome da disciplina. Também tenho refletido bastante sobre o que os estudantes esperam de mim e das aulas, quais são suas apreensões e anseios? Se não está fácil para mim que ministrarei uma disciplina, imagina para eles que têm várias disciplinas para acompanhar, com métodos de avaliação e dinâmicas de aula distintos? Tenho tentado focar no porquê me tornei professora. Sim, não fiz concurso para trabalhar em uma universidade pública porque queria fazer ciência apenas, não que esse não fosse um dos objetivos também. Junto à pesquisa eu queria o ensino, a sala de aula, a interação com os estudantes. O desafio de ensinar e, para isso, a necessidade de sempre estudar e aprender coisas novas me fascina, me inquieta, me tira da zona de conforto e me faz feliz. Com isso em mente tenho tentando encarar esse retorno à sala de aula, que agora é remota, como uma oportunidade de aprender novas ferramentas e superar o fato que detesto me ouvir e/ou me ver em vídeos. Vai dar tudo certo? Possivelmente não... Já passei da fase da vida em que se acredita que “tudo no fim dá certo”. Hoje acredito em tentar o melhor, adaptar conforme as necessidades e usar a experiência adquirida para melhorar no próxima semestre. A realidade é que, tanto para docentes como para o estudantes, o tempo é limitado, as ferramentas são novas (e por mais incríveis que elas sejam, não é simples dominá-las), a disponibilidade de tempo e de espaço para estudar/preparar aulas não é igual para todas as pessoas. Além disso, como se concentrar nessas atividades quando morrem, no Brasil, centenas de pessoas por dia devido ao COVID-19? A única certeza por enquanto é que, se a conexão de internet permitir, o primeiro dia do retorno será de uma conversa aberta e franca com os estudantes para entender a realidade deles e para mostrar também a minha, para ouvir suas preocupações e dificuldades com relação às aulas online e para estabelecermos um canal de diálogo para ambas as partes se sentirem confortáveis para, a qualquer momento, poder dizer “para tudo que não estou dando conta”. Aos que quiserem saber como foi a experiência, se ainda houver fôlego, eu conto no final do semestre. #VidaDeCientista #Professora #Educação #Universidade #EnsinoRemoto #VoltaÀsAulas #JulianaLeonel
- Relacionamento abusivo na pós-graduação existe?
Por Anônimo O momento em que a relação orientador-orientando passa a ser prejudicial... Ilustração: Caia Colla Quando optamos por entrar no mundo acadêmico ou nos aperfeiçoarmos em um determinado assunto através de um Programa de Pós-Graduação, imaginamos que passaremos por situações estressantes e complicadas, mas nunca por um relacionamento abusivo. “Nossa, mas você não acha que está exagerando um pouco?” Não. Relacionamentos abusivos podem ocorrer em qualquer tipo de relação, seja no âmbito amoroso, familiar, profissional ou dentro do círculo de amizades, e envolvem, por parte da pessoa abusada, o sentir-se submissa, ameaçada, inferior, destruída, controlada, dominada, isolada, anulada, dificuldade de dizer não, entre outros. Há alguns anos, o tema “saúde mental na pós-graduação” vem sendo discutido. Já se sabe que, devido às pressões atuais em relação à produtividade e ao ambiente competitivo, discentes de pós-graduação são seis vezes mais propensos a desenvolver transtornos de ansiedade e depressão em relação à população geral. Ainda, para mulheres e transgêneros que fazem doutorado a chance de desenvolver transtornos psiquiátricos é 27% maior do que para homens! Em vista desses preocupantes dados publicados em 2018 por Evans e colaboradores, o assunto vem sendo debatido dentro das universidades, seja no sentido de a própria pessoa (aluno ou aluna) perceber os sintomas, seja no suporte oferecido pelas universidades. Mas estamos falando de um processo em desenvolvimento ainda, havendo muito para se fazer e dialogar... Eu sempre fui uma pessoa que aconselhava quem viesse conversar sobre a escolha de um/uma orientador/a a pensar em alguém com quem o aluno se sentisse à vontade para dialogar, sem ter receio de procurar em caso de dúvidas, que tenha princípios morais como os seus, enfim, alguém com um mínimo de afinidade e respeito. Afinal, seja para um ano de trabalho de conclusão de curso, dois anos de mestrado ou quatro de doutorado, acabaremos por passar, muitas vezes, mais tempo e mais “perrengues” na companhia deles do que com nossa própria família e amigos. Por isso é tão importante estabelecer uma relação orientador/a-orientanda/o saudável. E, então, justo eu - a pessoa que ajudou tantos outros a arrumarem ótimos orientadores -, introduzi no meu doutorado uma peça absolutamente destoante de tudo isso. E quando dei por mim, era um caminho sem volta. Vou explicar o que aconteceu... Durante os primeiros anos do doutorado, recebemos a visita de um professor estrangeiro que nos parecia muito simpático e empolgado, propondo uma coorientação em que eu faria uma parte do doutorado fora do Brasil! Quem não se animaria com isso? Hoje em dia, todo pesquisador em formação quer fazer um mestrado/doutorado sanduíche, em que você fica pelo menos seis meses no exterior, frequentando um laboratório novo, com novas possibilidades... Infelizmente, comecei a ter alguns problemas para conseguir minhas amostras (o mal de depender de uma determinada espécie é que ela pode simplesmente ficar sem ser capturada por um bom tempo sem sabermos a razão), e isso fez com que esse professor começasse a apresentar um comportamento passivo-agressivo. Por fim, chegamos, minha orientadora, ele e eu, a um consenso sobre mudanças no projeto que pareciam promissoras (e de fato, foram!). Neste ponto, eu já tinha receios em relação a ele, que insistia em tornar a coorientação oficial o quanto antes - o que quase não ocorreu por descaso dele - e ficava desconfortável com o tom intimidador com que ele agia. Dois meses depois, estava em um novo país, com uma cultura diferente e cheia de expectativas. Logo de início, ele se colocou como o salvador do meu trabalho, que eu deveria ser muito agradecida, desmerecendo todo o esforço que minha orientadora e eu já vínhamos fazendo. Ele reclamava o tempo inteiro de tudo que as brasileiras do laboratório faziam (e depois descobri que ele espalha por lá que os brasileiros são preguiçosos), cheguei a ouvir dele que nós gostamos de perder tempo e que se eu quisesse, ele tinha uma pia de louça na casa dele para eu lavar. Comecei a não querer ir ao laboratório e a evitá-lo ao máximo, tinha crises de ansiedade com frequência, entrei em depressão e venho lidando com isso até hoje. Minha vontade era simplesmente acabar com tudo aquilo, mas minha orientadora sempre me apoiou e incentivou, logo tudo passaria e eu estaria de volta. Acabou que ele me deixou de mãos atadas todo o tempo em que eu estive lá. Eu enviava o material sobre os artigos que estávamos escrevendo, mas nunca obtinha respostas e, quando vinham, eram tardias. Era uma relação unilateral em que ele exigia de mim respostas rápidas e presença, e eu só recebia chamadas de atenção. Isso, infelizmente, permanece até hoje. Por fim, ele segurou resultados importantes para a minha tese até faltarem 2 meses para o meu prazo final. Tive que pedir prorrogação e o novo prazo coincidia com o período de recesso da minha universidade devido às festas de fim de ano. Por este motivo, enviei os capítulos com antecedência de 3 meses, explicando que gostaria de ter tudo corrigido antes do Natal, para não sobrecarregar ninguém no recesso. Claro que ele só me retornou uma semana antes do Natal, querendo revolucionar o trabalho todo... Fiz o que pude e, finalmente, depositei minha tese nos primeiros dias do ano seguinte! Se eu estava satisfeita com o meu trabalho? Nem de longe... A perturbação não acabou, pois ainda temos que publicar os artigos. Continuei a ser diminuída, humilhada, duvidando de mim mesma e de tudo que fiz, tendo crises de ansiedade só de ver um e-mail dele na caixa de entrada... Espero que isso acabe com a defesa e as três publicações... Ele não é uma pessoa boa, menos ainda, ética... e eu não segui os meus próprios conselhos! =/ O pior disso tudo é ver que eu não sou a única a passar por essa situação, que é muito mais comum do que imaginamos... Eis alguns trechos que já li a respeito da relação de outros/as orientandos/as com seus/suas orientadores/as: - “Adoeci com esse ímpeto emocional [da perda de um familiar], pedi licença ao meu orientador pra me refazer, por uma semana. Ele, através de e-mails pro departamento, começou a ameaçar cortar minha bolsa.” - “Agradeço o seu reconhecimento, mas prefiro que retire o mesmo!!” (Diz a orientadora de mestrado que não deixou o aluno defender após saber que ele havia passado na seleção para o Doutorado em outra instituição). A quem podemos recorrer? Comissões de pós-graduação? Comissão de Direitos Humanos? Ouvidoria? Pesquisadores, de modo geral, não querem se indispor uns com os outros, afinal, ninguém quer ter seu artigo negado por motivos pessoais (o que, infelizmente, sabemos que acontece). Todos querem que seus orientandos façam intercâmbios, o que não pode ser perturbado por um aluno com dificuldades. E para os orientandos, como mudar de orientador sem perder todo o trabalho feito até o momento (sim, pois muitos pesquisadores não permitem a troca de orientador em que o aluno permaneça trabalhando com os mesmos dados)? Quem vai acreditar numa história em que é um peixe grande contra um pequeno? Como se desligar de um coorientador como o meu, sendo que ele fez investimentos financeiros para análises do trabalho? Podem cortar a bolsa? Acabamos por ficar na dependência desse nosso agressor... Essa é a nossa triste realidade como orientanda/o: o desamparo! Haja apoio familiar, tratamento psicológico e atividades extras para aliviar o estresse e toda a tensão! Graças aos mares, eu tenho boas pessoas que, tanto no exterior quanto aqui no Brasil, são um porto seguro, que me apoiaram e me ajudaram, e ainda ajudam, a passar por tudo isso sem maiores complicações, se é que vocês me entendem... Mas eu sou privilegiada, eu sei... Creio que o mais importante para superar esse tipo de situação é sabermos que não estamos sozinhos e que, juntos, passaremos por isso! Se você está passando por isso, procure ajuda, seja dentro do seu Programa de Pós-Graduação, em centros psicológicos ou psiquiátricos, e, até mesmo, em grupos nas redes sociais! Nós podemos nos apoiar e, se não for possível mudar a situação, fazer com que esse período seja menos dolorido e traumatizante. Referências: A vida não cabe no Lattes: saúde mental na Pós-Graduação https://popularizandociencia.wordpress.com/2019/07/17/saude-mental-na-pos-graduacao/ Evans, T., Bira, L., Gastelum, J. et al. 2018. Evidence for a mental health crisis in graduate education. Nat Biotechnol 36, 282–284. https://doi.org/10.1038/nbt.4089 Sobre o/a autor/a: Anônimo #vidadecientista #vidaacadêmica #pósgraduação #relacionamentoabusivo #saúdemental #alertadegatilho #anônimo #caiacolla
- Um contador de histórias chamado otólito e a biologia pesqueira
Por Natasha Travenisk Hoff Muito além de um contador de tempo, como os otólitos podem auxiliar na biologia pesqueira? Ilustração: Joana Ho. No mundo dos peixes ósseos, os otólitos podem ser considerados verdadeiros contadores de histórias: essas estruturas calcificadas, presentes na forma de três pares (sagitta, lapillus e asteriscus) na cabeça dos peixes (Fig. 1) e responsáveis pelo equilíbrio e percepção sonora, crescem em camadas de carbonato e proteína com deposição diária (como se fosse uma cebola, sabe?). Essas estruturas possibilitam que nós, cientistas, façamos inferências sobre seu hábito alimentar, em que tipo de ambiente nasceram, se realizam migrações, entre tantas outras possibilidades. O uso mais comum, e mais conhecido, é em estudos de crescimento de peixes. No post “Como saber a idade de um peixe e outras coisas mais...”, a editora do Bate-Papo com Netuno, Claudia Namiki, fala sobre o que são os otólitos e quanta informação carregam essas pequenas estruturas. Vista lateral do ouvido interno de um peixe teleósteo, incluindo a posição dos três pares de otólitos (sagitta, asteriscos e lapillus), e sua localização na cabeça. Ilustração de Natasha Travenisk Hoff, com licença CC-AS-BY 4.0. Geralmente, quem começa a trabalhar com otólitos inicia seus estudos pela análise de crescimento de seus anéis na graduação ou mestrado, passando para outros tipos de análise mais tarde... Eu comecei meu trabalho com otólitos apenas no doutorado, em 2015, analisando sua forma e composição química aplicadas à oceanografia pesqueira! Era efetivamente tudo novo para mim, o que representou um grande desafio pessoal e profissional! E o mais interessante é que essas estruturinhas sempre me trazem novas curiosidades, aplicações, questionamentos... e isso me faz querer saber cada dia mais sobre elas! O que trago hoje para vocês foi um capítulo do meu doutorado, publicado recentemente no Journal of Applied Ichthyology, em que buscamos avaliar, através da forma do otólito, a estrutura populacional da tortinha (Isopisthus parvipinnis, uma prima das pescadas que é muito capturada mesmo não sendo uma espécie alvo ou tendo muito valor comercial), desde o litoral norte do estado de São Paulo até Santa Catarina, dividido em cinco sub-regiões, em dois momentos bem distintos: em 1975 e 2018/2019 (Fig. 2). Ou seja, nós queríamos saber se a espécie apresenta diferentes unidades populacionais (ou estoques pesqueiros) e se estes variaram ao longo desses 43 anos, especulando sobre as causas dessas variações. Mas “qual a importância disso?”, perguntam vocês. Quando falamos de gestão pesqueira, o conhecimento sobre as diferentes unidades populacionais nos auxilia a ordenar a pesca e a avaliar a possibilidade de recuperação de uma espécie diante da exploração muito intensa (sobrexplotação), seja esta espécie alvo ou não da pesca, ou de alterações ambientais naturais ou devido à ação humana. Por exemplo, se a população de uma espécie está restrita à região de Santos, estaria muito mais vulnerável do que se estivesse distribuída por todo o litoral de São Paulo. Essa é a tortinha (Isopisthus parvipinnis, Sciaenidae) e um mapa contendo os locais onde os indivíduos que analisei foram capturadosem 1975 e 2018/2019 na região costeira dos estados de São Paulo, Paraná e Santa Catarina. Foto e mapa: Natasha Travenisk Hoff, com licença CC-AS-BY 4.0. A forma dos otólitos de cada espécie é única (Fig. 3) e, por isso, muito útil em estudos sobre o hábito alimentar de organismos que se alimentam de peixes, mas os fatores que determinam esse formato ainda não foram completamente compreendidos. O que se sabe é que há uma forte componente genética, que determina a forma geral, mas que também há uma variabilidade relacionada ao sexo, idade, dieta, condições ambientais e outros fatores como temperatura da água, profundidade, tipo de substrato (lama, areia, cascalho etc.). Em virtude dessas influências todas, descobriu-se que poderia haver variações nos otólitos de uma mesma espécie, que possibilitariam o reconhecimento e a distinção das unidades populacionais! Exemplos de diferentes formas de otólitos. Fonte: COSS – Brasil (http://usp.br/cossbrasil/glossario.php), com licença CC-BY 3.0. E essas variações foram observadas por nós, não só espacialmente, mas também entre os dois períodos estudados. Olha o que a gente encontrou: Em 1975, as tortinhas formavam uma única unidade populacional. Mesmo vivendo em ambientes com diferentes características oceanográficas, seja sob influência de grandes estuários no sul de São Paulo e no Paraná (Cananéia e Paranaguá, respectivamente), seja em virtude do fenômeno de ressurgência, que atingem o norte de São Paulo e a região de Santa Catarina Em 2018/2019, uma nova condição foi observada, ocorrendo a formação de quatro unidades populacionais: uma no norte de SP, outra no centro de SP, uma terceira entre o sul de São Paulo e o Paraná, e uma quarta em Santa Catarina. E quais poderiam ser as causas para tais mudanças? Atribuímos essa diferenciação entre locais e anos aos diferentes ecossistemas e processos oceanográficos encontrados na área de estudo, e às alterações na linha de costa, que alteraram a contribuição das águas dos rios no ambiente costeiro nos últimos 40-50 anos, como podemos ver na Figura 4. Esquema evolutivo da desembocadura do Rio Guaraú (próximo ao local de coleta em Peruíbe, SP) nos anos 1966, 1973, 1981 (Tessler et al., 2006, disponível em www.mma.gov.br/publicacoes-mma) e 2020 (Google Maps). Os peixes, assim como todos os seres vivos, são capazes de se adaptar a mudanças ambientais naturais ou induzidas pela ação humana através de modificações na sua fisiologia e comportamento, que não necessariamente estão relacionadas a mudanças genéticas, mas que afetam diretamente a reprodução, morfologia ou sobrevivência. Por esse motivo, é importante ressaltar que nossos resultados não são necessariamente evidências de diferenciação genética. O uso dos otólitos para a avaliação de estoques pesqueiros no Brasil ainda é incipiente e nenhuma outra espécie brasileira havia sido abordada da forma como fizemos, comparando amostras tão antigas com atuais. Como esta foi uma primeira análise com essa espécie, é importante também que outros métodos sejam testados para dar suporte e/ou contestar os resultados obtidos. Alerta de spoiler: a análise da composição química desses mesmos otólitos apresentou resultados muito similares, mas com mais confiança na distinção das unidades populacionais e ainda distinguiu SC das demais localidades estudadas em 1975. Por si só, este estudo gera muitos outros questionamentos, tais como: 1. Será que este mesmo processo aconteceu com outras espécies? 2. Podemos verificar algum impacto na pesca, visto que os estoques podem se comportar de diferentes formas frente à pressão pesqueira? 3. Seria já a diminuição da quantidade de tortinhas capturadas recentemente um reflexo deste processo? Poderia ser, uma vez que a espécie ocorre como captura acidental e pouca atenção é dirigida a ela e tantas outras espécies na mesma situação. 4. Sabendo-se que mudanças na zona costeira devido à ação humana podem impactar direta e indiretamente as populações de peixes, o que nós, como sociedade, podemos fazer diante dessas mudanças? Seja um cidadão crítico: busque saber a origem do pescado que consome (por que carnes precisam de selos para serem vendidas enquanto peixes não?); se são espécies ameaçadas; apoie a pesca local; se o esgoto da cidade litorânea que gosta de visitar é tratado ou o condomínio/prédio/casa em que se hospeda à beira mar possui licença... Enfim, é claro que existem variações naturais ocorrendo no oceano e que poderiam levar a essa distinção de populações, mas temos que ter a consciência da influência que a nossa sociedade exerce (e cada dia mais!) nos diferentes ecossistemas, e nos responsabilizarmos por mudanças que melhorem essas relações entre o ser humano e o ambiente, em especial, o marinho! --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- Referências ou sugestão de leitura: Coleção de Otólitos de Peixes Teleósteos da Região Sudeste-Sul do Brasil (COSS – Brasil). Site: www.usp.br/cossbrasil/ Hoff, N.T., Dias, J.F., Zani-Teixeira, M.L., Correia, A.T. 2020. Spatio-temporal evaluation of the population structure of the bigtooth corvina Isopisthus parvipinnis from Southwest Atlantic Ocean using otolith shape signatures. Journal of Applied Ichthyology, 36: 439-450. doi.org/10.1111/jai.14044 Tessler, M.G., Goya, S.C., Yoshikawa, P.S., Hurtado, S.N. 2006. São Paulo,in Muehe, D. (org.), Erosão e progradação no litoral brasileiro. Brasília: MMA. pp. 297-346. Disponível em: www.mma.gov.br/publicacoes-mma Vignon, M. 2012. Ontogenetic trajectories of otolith shape during shift in habitat use: Interaction between otolith growth and environment. Journal of Experimental Marine Biology and Ecology, 420-421(2012):26-32. doi:10.1016/j.jembe.2012.03.021 Volpedo, A.V., Vaz-dos-Santos, A.M. 2015. Métodos de estudos com otólitos: princípios e aplicações. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: PIESCE - SPU. --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- Sobre a autora: Apaixonada pelo mar, pela música (tocando ou dançando, já até dei aulas de dança de salão!) e pela família. Sou oceanógrafa formada pela Universidade de São Paulo, e mestre em Ciências (Oceanografia, área de concentração Oceanografia Biológica) pelo Instituto Oceanográfico da USP. Atualmente, encontro-me na fase final do doutorado pelo mesmo instituto (só falta a defesa!), sendo química inorgânica, ecologia de peixes, otólitos, e integridade biótica de comunidades ictiícas as minhas principais linhas de pesquisa. Contato: tashahoff@gmail.com #estoquespesqueiros #otólitos #formaotólito #tortinha #Isopisthusparvipinnis #ciênciasdomar #convidados #oceanografia #biologiapesqueira #pesca
- Lixo no mar: da ciência à política pública
Por Carla Elliff, Mariana Andrade, Vitória Scrich e Natalia de Miranda Grilli O lixo no mar é um problema mais complexo do que inicialmente pode parecer. Muitas vezes associado simplesmente à falta de educação de um turista na praia, o lixo que encontramos nos ambientes marinhos e costeiros na realidade nos contam histórias que envolvem toda a sociedade. Quem já participou de mutirões de limpeza de praia já deve ter se perguntado “de onde vem todo esse lixo?”. Considerando a variedade de itens que são encontrados (desde embalagens de alimento, cotonetes, pneus, redes de pesca a televisões) a resposta demanda conhecimento sobre a composição desse lixo e suas possíveis fontes. Se não tivermos clareza sobre isso, podemos nos ver numa situação de “enxugar gelo”: continuamente limpando o oceano, mas sem estancar a fonte do problema. Por isso, antes de planejar ações de combate, é necessário monitorar e avaliar a poluição por lixo no mar. É a partir dessa premissa que nasceu o projeto de construção do Plano de Monitoramento e Avaliação do Lixo no Mar para o Estado de São Paulo (PEMALM). Essa construção é uma parceria entre a Secretaria Estadual de Infraestrutura e Meio Ambiente do Estado de São Paulo (SIMA), o Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FUNBIO), a Cátedra UNESCO para a Sustentabilidade do Oceano, o Instituto de Estudos Avançados (IEA) e Instituto Oceanográfico (IO) da Universidade de São Paulo, com financiamento da Embaixada da Noruega. O PEMALM está sendo desenvolvido como uma política pública baseada na ciência e de forma participativa. Isso significa que, ao longo de todo o processo, consultamos a literatura científica, as pessoas e as instituições (chamados de “atores”) envolvidas na temática. Logo no início, foi necessário um grande esforço de levantamento de dados científicos publicados sobre o lixo no mar no litoral paulista e levantar também quem são esses atores que produzem, ou têm o potencial de produzir, informações sobre o assunto. Fizemos um primeiro workshop em dezembro e agora estamos na fase de consulta pública, aberta para qualquer pessoa participar! Mas para quê serve um plano de monitoramento e avaliação de lixo no mar? Atualmente, um dos grandes obstáculos nos esforços de entendimento sobre o problema é a falta de levantamentos de informação sistemáticos e de longo prazo. Os estudos sobre o assunto são relativamente recentes, sejam eles para investigar a distribuição espacial dessa poluição e a composição do material ou os seus riscos. Atualmente é muito difícil apontar tendências e, além disso, as metodologias de coleta nem sempre são comparáveis. Este é um passo importante que precisamos dar para combater o lixo no mar. Outro ponto muito importante considerado no PEMALM são os atores envolvidos na construção dessa política pública. Quando pensamos em pessoas ou instituições relevantes para o assunto lixo no mar, temos que ter uma visão ampla. O setor público e privado, o meio acadêmico e o terceiro setor (ONGs e associações, por exemplo) precisam estar todos representados, já que cada um tem seu papel na complexa cadeia de entendimento sobre o lixo que chega e impacta o mar. Pensando nesse contexto, o PEMALM traz três listas de indicadores sugeridos para o monitoramento e avaliação dessa poluição: indicadores de geração de lixo para o mar, de exposição ao lixo no mar e de efeitos do lixo no mar. Essa abordagem foi desenhada com base num recente relatório do Grupo de Especialistas em Aspectos de Poluição Marinha (GESAMP) e na metodologia DPSIR (na sigla em inglês, que significa Força Motriz-Pressão-Estado-Impacto-Respostas). Esta metodologia é bastante utilizada na gestão ambiental e é uma forma de comunicar problemas complexos, dividindo-os em etapas. Este vídeo, produzido para um curso online da ONU sobre lixo no mar, detalha como essa abordagem pode ser aplicada especificamente a esse problema ambiental. Os indicadores sugeridos também foram desenvolvidos pensando em quem potencialmente pode colaborar com seu monitoramento e com quais temas importantes para as políticas públicas eles se relacionam. No PEMALM, esses temas são: turismo, segurança alimentar, saúde humana e bem-estar, navegação, pesca e aquicultura, bem-estar animal e biodiversidade. Olhando esses temas, fica ainda mais clara a transversalidade do assunto. Por exemplo, um microplástico pode oferecer um risco não só à biodiversidade, mas também à segurança alimentar humana, já que ele pode levar à uma perda na qualidade do pescado que eventualmente ingira esse material. Outro exemplo interessante é ver como atividades potencialmente geradoras, como o turismo e a pesca, são também afetadas pelo lixo no mar. Por isso é tão importante construir de forma participativa uma política pública, para se garantir múltiplas visões que se complementam e tornam o plano mais eficiente e praticável. E quais são os próximos passos para o PEMALM entrar em prática? Como mencionamos, o PEMALM agora está na sua fase de consulta pública até o dia 23/10/2020. Esta é uma ferramenta fundamental para fortalecer o desenvolvimento de políticas públicas democráticas e legítimas. É neste momento que todos os cidadãos e cidadãs afetadas por uma política pública devem ter a oportunidade de influenciá-la. Todas as contribuições recebidas serão consideradas pela equipe do projeto e o plano seguirá então para sua publicação. Após publicado, esperamos contar com o engajamento da rede de atores já mobilizada e agregar novos indivíduos e instituições! O PEMALM é um primeiro passo e temos um longo caminho a percorrer, seria impossível fazê-lo sem a participação de tantas pessoas buscando soluções para o complexo problema do lixo no mar. Fica aqui novamente nosso convite para participarem da consulta pública. Sem vocês, o PEMALM não fica completo! Sobre as autoras: Mariana Andrade Pesquisa e comunica processos participativos para a conservação do oceano. É membro do Comitê de Governança Nacional, Jovem Embaixadora do Oceano Atlântico no Brasil (@queridoatlantico / @AllAtlanticYouth) e co-fundadora da@bloom.ocean: agência de mudança para pessoas, projetos e negócios ligados ao oceano. É pesquisadora doPlano de Monitoramento e Avaliação do Lixo no Mar para o Estado de São Paulo, contribui com o Grupo de Trabalho de Empreendedorismo em Ciências do Mar (@gtecienciasdomar) e é conselheira da Liga das Mulheres pelo Oceano (@ligadasmulherespelooceano). Vitória Scrich Graduada em Ciências Biológicas, pesquisa sobre a importância da interação entre os diferentes setores da sociedade para tratar do problema do lixo no mar. É mestranda no Programa de Ciência Ambiental (PROCAM-IEE/USP) e atua no Laboratório de Manejo, Conservação e Ecologia Marinha do Instituto Oceanográfico (IOUSP). É colaboradora da Cátedra UNESCO pela Sustentabilidade do Oceano e membro da equipe organizadora do Plano de Monitoramento e Avaliação do Lixo no Mar para o Estado de São Paulo. Natalia de Miranda Grilli Graduada em Ciências Biológicas, especialista em Gerenciamento Ambiental e Mestre em Oceanografia, ambos pela USP. É educadora ambiental, consultora de comunicação do Plano de Monitoramento e Avaliação do Lixo no Mar para o estado de São Paulo, colaboradora da Bloom Agência de Mudança, conselheira da Liga das Mulheres pelo Oceano e integrante do Instituto Costa Brasilis e do Laboratório de Manejo, Ecologia e Conservação do IOUSP, e do Youth Climate Leaders. #CiênciasDoMar #LixoNoMar #LixoMarinho #PoluiçãoPorPlástico #PolíticaPública #CiênciaEGestão #Participativo #Monitoramento #PEMALM #CarlaElliff #Convidados
- Para o plâncton, tamanho é documento...
Por Catarina R. Marcolin Para este texto de estreia para a sessão Ciências do Mar resolvi escrever sobre um tema que tem me fascinado muito nos últimos anos, desde quando comecei a trabalhar em meu projeto de doutorado. É muito comum alguém perguntar “Sobre o que é seu doutorado?” e a reação geral do estudante de pós é desconversar, falar o título do projeto (um nome gigante que quase ninguém entende) ou dar uma explicação superficial, pois “dá muito trabalho” explicar direito. Como esta sessão propõe justamente uma aproximação entre a academia e a sociedade, é por isso que neste post eu me proponho a explicar de forma simples, mas não simplista, uma parte do trabalho que desenvolvi durante o meu doutorado. O meu grupo de interesse é o plâncton, mais especificamente o zooplâncton. Não estou falando do vilão do Bob Esponja, mas vale a pena conhecer um pouco mais sobre esses organismos mesmo assim. O zooplâncton compreende pequenos animais aquáticos (geralmente invisíveis a olho nu) tradicionalmente descritos como organismos que vivem “ao sabor das correntes”, porque eles não tem “força” suficiente para nadar contra as correntes, por conta de seu tamanho pequeno. Mas isso não quer dizer que esses bichinhos são preguiçosos, muito pelo contrário, muitos deles conseguem migrar verticalmente na coluna de água por muitos metros, às vezes centenas de metros. O zooplâncton é muito importante nas famosas teias alimentares, e também é peça fundamental em outros processos importantes (assunto para outros posts). Estes organismos comem o fitoplâncton (que são a parte fotossintetizante do plâncton, são para os oceanos o que as árvores são para a floresta amazônica) e são comidos pelos peixes, que são comidos pelo homem e também pelas baleias. Então já viu, se não tem muito zooplâncton na área, “o mar não está pra peixe”, nem para nenhum outro organismo nos níveis tróficos superiores. Ou seja, vai faltar o salmão do sushi, e eu adoro comida japonesa. Exemplo de teia trófica. Fonte: Fitoplâncton Uwe Kils/ Wikimedia Commons CC BY-SA 3.0. Bem, se o zooplâncton é tão importante mediando essa transferência de biomassa e energia desde os produtores primários (fitoplâncton) até os níveis tróficos superiores (peixes, aves, baleias, homem), então precisamos entender essas relações de alimentação de forma mais profunda, certo? Pois bem, uma das regras de ouro nos oceanos é que os organismos sempre (ou quase sempre) se alimentam de organismos menores que ele próprio. Por isso tamanho é documento quando o plâncton está escolhendo o menu do jantar. Levando isso em conta, muitos pesquisadores estudaram o fluxo (passagem) de biomassa e energia ao longo dos níveis tróficos. Por exemplo, calcularam quanto do que o plâncton absorve durante o “jantar” é de fato passado para os peixes, aves e baleias que se alimentam desse mesmo plâncton. E essa informação aparentemente tão simples tem potencial para explicar um monte de coisas sobre nossos oceanos. Mas como? Bem, se você medir o tamanho dos organismos, calcular seu peso e somar a biomassa em cada classe de tamanho, como no gráfico ao lado, você irá perceber que sempre existe mais biomassa acumulada nos organismos pequenos do que nos organismos grandes. Quando falo sobre biomassa acumulada estou me referindo a soma do peso de todos os organismos que pertencem a uma determinada faixa de tamanhos. Mas o que isso quer dizer? Quer dizer que para saciar a fome dos organismos grandes é preciso uma grande quantidade de organismos pequenos, pois precisamos nos lembrar que existe perda de energia durante cada refeição. Isso quer dizer que nem tudo que comemos é absorvido pelo nosso organismo e com o zooplâncton não é diferente. Com base nessas informações foi desenvolvida uma teoria, chamada teoria do espectro de biomassa, que relaciona a forma dessa distribuição da biomassa ao longo das classes de tamanho (bem como índices matemáticos associados a essa distribuição) com propriedades dos ecossistemas. Eu acho simplesmente incrível poder associar um simples índice matemático com a eficiência da transferência de energia num ecossistema, com produtividade, com interações entre predador e presa e com a quantidade de níveis tróficos nos oceanos. E o meu doutorado está fundamentado nessa teoria com nome intimidante (espectro não remete a algo fantasmagórico?), mas que na verdade é bem mais simples do que aparenta. Para conseguir meus dados embarquei em diversos cruzeiros oceanográficos coletando zooplâncton com uma rede como esta da foto abaixo. No laboratório eu escaneei as amostras utilizando um scanner a prova de água (chamado de ZooScan) e usei um software para obter imagens dos organismos, identificar, contar e medir de forma rápida e prática. Eu também aprendi a programar em linguagem R e Matlab para mandar o computador fazer todas essas contas para mim, pois a vida é curta e eu tenho outros hobbys além de ciência para me dedicar, como este blog por exemplo. Rede simples de plâncton. Foto de Cat Marcolin com CC SA-BY 4.0. Os resultados que encontrei tanto na costa de Ubatuba, SP quanto na região do banco de Abrolhos revelaram que os índices matemáticos associados à teoria do espectro de biomassa podem ser utilizados para identificar diferenças na comunidade do zooplâncton em relação à alterações sazonais (de acordo com as estações do ano) e às características locais (como estratificação da coluna de água, profundidade, proximidade da costa), respectivamente. Isso quer dizer que esses índices são úteis em programas de monitoramento dos ecossistemas oceânicos, especialmente porque são fáceis de serem calculados (se você tiver a tecnologia a seu dispor) e não necessitam da identificação das espécies, que costuma ser algo bem demorado quando se trata de plâncton. Se você se interessou pelo assunto, minha tese de doutorado está acessível através deste link. Ficou com dúvidas? Entre em contato com a gente deixando um comentário ou pelo formulário à sua esquerda. Até o próximo bate-papo. #CatarinaRMarcolin #CiênciasDoMar #Plâncton #Oceanografia #BiologiaMarinha
- Pesca Artesanal
Por Gabrielle Souza No descomplicando netuno de hoje vamos falar sobre pesca artesanal. Você sabe do que se trata? Confira mais informações neste post ;) Fonte Nós costumamos achar que o termo pesca artesanal está sempre ligado a comunidades tradicionais e a subsistência. Mas grande parte de sua produção vai muito além da subsistência. O termo pesca pode ser subdividido de acordo com a nossa legislação. Segundo a cartilha sobre pesca artesanal legal, publicada pelo Ministério Público Federal, esta pode ser dividida em: 1) Pesca artesanal que é praticada de forma individual e autônoma ou por economia familiar, geralmente utilizando meios de produção próprios; 2) Pesca não comercial amadora que é realizada com equipamentos ou petrechos previstos em legislação específica, tendo por finalidade o lazer ou esporte; 3) Pesca não comercial de subsistência que tem como finalidade o consumo doméstico e 4) Pesca comercial industrial que é praticada por pessoa física ou jurídica, envolvendo pescadores profissionais e vínculo empregatício. Em qualquer um dos tipos acima, é possível vermos a Pesca ilegal ou a Pesca predatória. Basta que a operação retire do ambiente uma quantidade de peixes superior à capacidade de reposição ou que utilize equipamentos inadequadas, estas ações podem até constituir crime. Mas vamos logo ao que interessa? O assunto de hoje é pesca artesanal. A gente já falou que pesca artesanal é praticada por pescadores profissionais de forma autônoma, ou por envolvimento familiar. Nesta atividade, se utilizam embarcações de pequeno porte e, portanto, apenas distâncias pequenas são alcançadas, próximo a costa (art. 8º, inciso I, “a”, da Lei Federal nº 11.959/2009 e art. 2º, inciso IV, da Instrução Normativa Interministerial 10/2011). Além disso, os trabalhos ligados a confecção de petrechos de pesca, reparos nas embarcações e processamento do pescado também são de descritos na Lei Federal nº 11.959. Para o reconhecimento dessa atividade, é necessária a obtenção de documentos apropriados, que visam a segurança do pescador nesta atividade e a proteção do meio ambiente. A documentação é extensa e vai desde permissão prévia de pesca, passando por inscrição da embarcação (registrada na Autoridade Marítima e no Registro Geral da Atividade Pesqueira (RGP)) até a regularização da habilitação do pescador, entre outros. Alguns dos petrechos utilizados na pesca artesanal são a linha, redes de espera ou emalhe, redes de arrasto, cerco, armadilha e puçá (coleta manual com aparelho de mergulho), entre outros. Dentro de cada uma dessas modalidades, a legislação ainda caracteriza alguns subtipos, bem como determina as atividades proibidas. A pesca de rede é uma das mais utilizada na pesca artesanal. Figura 1. A- Pesca por rede; B- Pesca por armadilha; C- Pesca por linha; D- Pesca por arrasto. Fonte: Imagem A; Imagem B; Imagem C; Imagem D. Em 2013 o Ministério da Pesca e Aquicultura apontou que dentre as 1,4 milhões de toneladas da produção de peixes de 2011, 803 mil toneladas se originaram da pesca, sendo a pesca artesanal responsável por mais de 50% da produção interna Ao contrário do que imaginamos, é ela a grande responsável pelo maior volume do pescado consumido em nosso país. Apesar de não associarmos a pesca artesanal a impactos negativos no ambiente marinho, não quer dizer que eles não existam. A atividade pesqueira realizada artesanalmente pode contribuir para o cenário de degradação dos ecossistemas costeiros, caso não siga as normas estabelecidas pela legislação. Referências: Pesca artesanal legal : pescador da região Sul/Sudeste : conheça seus direitos e deveres / 6ª Câmara de Coordenação e Revisão, Populações Indígenas e Comunidades Tradicionais. – Brasília : MPF, 2017. Pesca artesanal brasileira. Aspectos conceituais, históricos, institucionais e prospectivos/ Adriano Prysthon da Silva – Palmas : Embrapa Pesca e Aquicultura, 2014. JURÍDICOS, Presidência da República Casa Civil- Subchefia Para Assuntos. LEI Nº 11.959, DE 29 DE JUNHO DE 2009.. Disponível em: . Acesso em: 23 out. 2017. #descomplicando #gabriellesouza #pescaartesanal












