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A vida não cabe no Lattes



Ilustração: Natasha T. Hoff.


Prazer, meu nome é Jana e eu sou uma mulher multifacetada. Em uma das minhas faces, sou autora da série de livros infantis que explora diferentes ambientes marinhos de forma lúdica, através do olhar do meu cachorro, o Suvaco (quem quiser saber mais pode acessar o instagram @suvaco_cao).


Em setembro de 2023, eu fui convidada para montar uma contação de histórias dentro de um Projeto chamado Nave de Luz, que iria ocorrer nas Cidades das Artes, no Rio de Janeiro. Eu já havia contado as histórias do Suvaco em alguns eventos pequenos. Tenho a sorte de sempre poder levar o personagem real e ele roubar a cena e dar um show. Porém, estar em cartaz nas Cidades das Artes era diferente, era grandioso. Então, fui fazer algo que qualquer pesquisador sabe fazer muito bem – estudar! Comprei um curso online de uma contadora profissional que adoro e mergulhei de cabeça nessa nova experiência. Para os grandes dias me fantasiei de quem eu sou, CIENTISTA. Vestia um jaleco (agora com um adesivo do Suvaco colado no bolso), colocava uma presilha de conchinha de cultivo da Marulho, lembrava dos anos de teatro que fiz quando criança e subia no palco pronta para a contação de história, seguida de um animado bate-papo com as crianças. Foram apresentações incríveis, nas quais eu me diverti e aprendi muito com o público infantil.


Jana, uma mulher branca, de cabelos longos aloirados está sentada de pernas cruzadas com um livro nas mãos. Ela veste um jaleco branco. Suvaco, um cachorro de pelos pretos e brancos, com um olho de pirata todo preto está deitado aos pés da Jana. Ele usa um colete salva-vidas verde. A imagem tem um tom azulado e somente a Jana e Suvaco estão iluminados. No primeiro plano, aparecem cabeças de 4 crianças, de costas, olhando para a Jana.

Jana del Favero contando a história “Suvaco em uma viagem submarina” na Nave de Luz, que estava montada na Cidade das Artes, no Rio de Janeiro. Foto cedida pelo Projeto Nave de Luz, CCBYSA4.0


Entretanto, no primeiro dia que fui para a Cidade das Artes eu escutei uma fala de um dos produtores que ainda ressoa dentro de mim: “Nossa, então você fez mestrado, doutorado. Tantos anos jogados fora, né?!”. Na hora eu respondi que NÃO! Não importa se você continuou na academia ou se a vida te levou por outro rumo, os anos de mestrado e doutorado nunca serão anos desperdiçados!


Nem vou entrar no mérito de que, por mais que eu não esteja ligada a nenhuma universidade esse ano, eu ainda realizo pesquisas científicas, inclusive participando da coautoria de artigos de grupos internacionais. Também não vou entrar no mérito do fato de eu simplesmente ter amado o período em que estive realizando minhas pós-graduações.


O que gostaria de lembrar nesse post é que os anos durante os quais você realizou seu mestrado e doutorado te moldaram a ser exatamente quem você é hoje! E não é assunto de coach não. Quero mesmo é relembrar um post que publicamos em 2015, que lista 10 habilidades profissionais que desenvolvemos fazendo ciência. Não vou listar novamente os 10 pontos levantados pela autora, como também não acho que essas sejam as únicas 10 habilidades. No fundo, quero apenas reforçar que aprendemos muito nos anos de pós-graduação e deveríamos nos valorizar e aprender a vender isso melhor ao mercado e o mercado, por sua vez,  deveria entender essas habilidades para melhor absorver os pós-graduados que decidiram sair da academia. Com frequência escuto, por exemplo, alunos de doutorado que gerenciaram seu próprio projeto, realizaram prestação de contas, fizeram relatórios, orientaram alunos, organizaram campo e dias de laboratório, alegarem que não possuem experiência em gestão de projetos ou de pessoas. E assim deixam de aplicar para uma vaga quando essa habilidade é exigida. E os exemplos não param na gestão de projetos: tem quem crie novas oportunidades, quem use sua tese como inspiração para dança, e mais centenas de histórias do que é viver a vida de cientista.


Não vou conseguir trazer uma receita mágica de como se apresentar melhor numa entrevista ou como responder melhor um comentário como o que eu escutei, a mensagem que eu gostaria de deixar mesmo, ainda mais sendo final de ano, é: valorize o seu caminhar e os seus aprendizados. Ninguém melhor do que você mesmo para saber do que  é capaz de fazer e quais rumos sua vida pode tomar. Se cobre menos e seja feliz!


 

Sobre a autora:


Formada em ciências biológicas pela UFLA, mestre e doutora em oceanografia pela USP, com dupla-titulação com a UMassD. Especializou-se em Gestão Ambiental pelo SENAC e realizou dois pós-doutorados, um no INPE e outro na UFRJ. É sócia e diretora científica na Infinito Mare, fundadora e editora-chefe do Bate-Papo com Netuno e membra convidada do Comitê de Assessoramento da Década do Oceano no Brasil. 


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2 Comments


Cintia Miyaji
Cintia Miyaji
Dec 14, 2023

Ah Jana, primeiro que o cara do comentário não tem um pingo de noção... rs Segundo, a vida acadêmica não tem a ver necessariamente com o objeto da sua pesquisa, mas com as formas com que você se relaciona com a resolução de problemas. Algumas vezes acho que já vivi muitas vidas, e todas trouxeram uma bagagem que carrego para sempre e para diferentes áreas da minha vida. Até elaborar projeto pedagógico para um curso de Processos Metalúrgicos eu já encarei, e se não aprendi nada sobre aciaria a frio, conheci um bocado de gente interessante que se tornaram meus amigos. Quanto mais a gente se abre para novas oportunidades, mais as atrai. E com a maturidade, o que os outros pensam sobre…

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Jana del Favero
Jana del Favero
Dec 22, 2023
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Oi Cinthia. Muito obrigada pelo comentário. Vindo de uma pessoa cuja trajetória tanto admiro, confesso que deixou o coração quentinho. Beijos grandes

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