Precisamos falar sobre gestão de projetos na Academia

Por Natasha Travenisk Hoff


Se você já se atrapalhou em uma prestação de contas de projetos científicos financiados, este texto é sobre você…


Quando eu estava na graduação, havia uma disciplina chamada “Projetos em Oceanografia”, na qual formamos grupos e, atuando como uma empresa de consultoria, criamos um projeto baseado em alguma demanda regional. Neste projeto, trabalhamos todas as áreas da Oceanografia, da gestão de pessoal, logística, financeira etc. Ao final do semestre, os docentes responsáveis escolhiam um dos projetos que seria aplicado no semestre seguinte.


Naquele ano (2011), a chefe da Estação Ecológica Tupinambás (hoje gerida pelo Núcleo de Gestão Integrada ICMBio Alcatrazes), Kelen Luciana Leite, proferiu uma palestra no Instituto Oceanográfico da USP (IOUSP) sobre a região do Arquipélago dos Alcatrazes (São Sebastião - SP) e o quanto os gestores necessitavam de dados oceanográficos para subsidiar a elaboração do Plano de Manejo da unidade de conservação. Pronto! Ali, tivemos a ideia do nosso projeto. Sabíamos que não seria algo fácil, viabilizar um projeto na região de Alcatrazes, a 35 km de distância da costa, para uma turma de quase 30 alunos de graduação. Depois de muitas reuniões, e-mails trocados, idas e vindas, tudo ficou pronto. Mas só um projeto seria aprovado, certo? E não foi o nosso…


Apesar de não termos sido selecionados, fomos convidados a realizar o levantamento de dados abióticos em Alcatrazes durante as expedições organizadas pelo ICMBio. Ou seja, além da vivência obtida durante a disciplina, pude, então, atuar pela primeira vez como oceanógrafa: participei de reuniões; ajudei na definição dos pontos amostrais em conjunto com outros docentes; fiz solicitações para uso de equipamentos, transporte e base de pesquisa; organizei o material que seria utilizado em campo; entre outras tantas demandas. Se tudo foi um mar de rosas? Nem de longe… teve estresse, choro, tomada de decisão importante (como não ir para um trabalho de campo de disciplina obrigatória e arcar com as consequências disso!), mas também houve muito incentivo, apoio e muito, muito, muito aprendizado. Os trabalhos de campo no arquipélago foram um sucesso e conseguimos contornar as falhas que surgiram.


Já falei que eu era a única mulher no nosso grupo? Pois é… acabei assumindo naturalmente um papel de liderança entre nós.


Foi uma das experiências mais importantes da minha vida profissional e pessoal, que me possibilitou ajudar muita gente que veio depois de mim a entender todos os processos burocráticos da logística na universidade pública, coisa que a maior parte dos nossos colegas passam longe de entender.


Este levantamento de dados primários resultou em um relatório técnico para o ICMBio, meu trabalho de conclusão de curso, minha dissertação de mestrado, publicação no Bate-papo com Netuno, e, por enquanto, dois artigos científicos.


Bom, e por quê contei tudo isso? A verdade é que nós, acadêmicos, não somos preparados para lidar com a gestão de projetos na graduação e nem na pós-graduação (por enquanto!), o que causa muitos desgastes e transtornos que poderiam ser evitados, além de que poderíamos estar exercendo estas atividades de forma mais eficiente! E só percebemos a necessidade de conhecimentos sobre gestão quando já estamos passando "perrengue" com algum projeto. E essa é a mesma sensação que muitas das nossas editoras aqui do Bate-papo com Netuno compartilham: que deveria haver alguém nos projetos que fosse responsável pela gestão, o que é possível mas onera ainda mais um projeto em oceanografia (que sabemos que já não é barato), isso quando há espaço nos editais para a contratação de um especialista; ou buscamos, nós mesmas, o conhecimento para lidar da melhor forma com a gestão de nossos projetos.


Assim, segue a dica: se você está na graduação, participe das empresas juniores e não tenha medo de assumir cargos executivos ou a elaboração de novos projetos, busque disciplinas básicas sobre o assunto e faça, seja como aluno regular ou ouvinte; ou, ainda, procure uma pós-graduação na área (quem sabe você não se torna aquela pessoa que recebe "apenas" para gerir o projeto?).


Sabe o ditado "quem não aprende pelo amor, aprende pela dor"? Então… aprenda pelo amor (se for algo que você tem vontade de aprender, pois, com certeza, será útil)!


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