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Convidada para falar, não para ser ouvida

há 3 horas
3 min de leitura

Por Anônima


Será que é possível estar sob holofotes, e  ao mesmo tempo apagada?


Será que é possível estar com um microfone na mão, falando para uma plateia silente e atenta, mas não ser vista ou ouvida?


Pode parecer que estou fazendo analogias, ou tentando construir uma metáfora sobre solidão… mas acredite, estou sendo literal. 


Recentemente, estive em um evento como palestrante convidada. Era um evento muito peculiar porque reuniu um público bem diferente do que estou acostumada. Mas este evento reuniu diferentes setores da sociedade, com representantes do poder público, terceiro setor, universidades e empresários.


Eu estava verdadeiramente animada com a possibilidade de conhecer e dialogar com pessoas com visões de mundo diferentes da minha. Eu não sou ingênua a ponto de imaginar que seria fácil, mas não pensei que seria tão difícil.


Embora o evento tenha sido organizado com o intuito de promover um debate democrático, não foi o que aconteceu. Uma das organizadoras do evento, uma mulher que ocupa um cargo de liderança em seu trabalho, era a todo tempo solicitada a atender os mais diversos pedidos de um homem, da mesma “comissão organizadora”, sendo puxada pelo braço, como se fosse uma menina. Já começou por aí a minha infelicidade em constatar que nós, mulheres, em pleno 2026, seguimos sendo demandadas a servir obedientemente, sem nenhum constrangimento, mesmo quando ocupamos cargos de poder. 


Outra incongruência do evento foi a total ausência de representantes de comunidades tradicionais, profundamente relacionadas ao tema do evento. As mesmas comunidades que serão impactadas, mais do que a qualquer um de nós ali presente, sobre o que fosse ali decidido. Esta situação foi denunciada por um dos ouvintes, que convidou ao palco um representante de uma comunidade da região. A reação dos palestrantes não poderia ser mais esdrúxula. Ao longo do dia, em diversos momentos, esses palestrantes se dirigiram ao representante da comunidade, sem jamais lembrar seu nome, o incitando a trazer soluções para problemas que ele não havia criado. A pessoa que nem tinha sido convidada a opinar, agora era responsável por fazer tudo “dar certo”.


No momento da minha fala, eu já estava exausta, resistindo a uma programação apertada, sem intervalos para o café, aqueles em que conhecemos mais de perto as pessoas, quando se permitem trocas de ideias, ou desabafar com a amiga sobre as piadas machistas que somos obrigadas a ouvir. Enfim, chegou a minha vez, fiz a minha fala, ou seja, estava em cima do palco, sob holofotes numa sala escura, com um microfone na mão. Logo em seguida veio outra mesa redonda, outros palestrantes. Um colega de profissão tentou fazer menção a algo que eu disse, mas incapaz de lembrar o meu nome e se dirigiu a mim como aquela menina da … “citou meu tema de fala”. Assim como ele não lembrou meu nome, não lembro qual menção insignificante ele fez à minha fala. 


Para você entender o meu lugar de fala, sou uma mulher cis, de meia idade, parda de pele clara, cabelos ondulados. Estava vestida num estilo entre o casual e o formal e fui apresentada como a profissional que sou. O meu colega de profissão, não apenas esqueceu o meu nome, mas se referiu a mim como uma menina, mesmo eu tendo mais de 10 anos de experiência na minha área. É uma infelicidade perceber como ainda sou tratada como uma menina que não merece ter seu nome lembrado, quem dirá ter suas ideias ouvidas e levadas em consideração. Enquanto homens, em posição semelhante, são lembrados e reverenciados, e agem como se dispensassem apresentações. E o “debate democrático” virou apenas um espetáculo para fingir coletivismo, enquanto as decisões já foram tomadas entre os amigos do clube.


Voltei pra casa com o estômago embrulhado e precisei de dias para digerir tanta falta de respeito por parte de pessoas que têm o poder de tomar decisões que influenciam a vida das pessoas. Ainda me sinto no dever de estar nesses lugares, insalubres para uma mulher como eu, na expectativa de conseguir ser ouvida, de conseguir influenciar minimamente nas esferas em que tenho acesso. Pois afinal de contas, eu ainda fui convidada, enquanto aquele representante, do qual faço questão de lembrar o nome, não havia sido sequer convidado e ainda assim, estava lá, resistindo. 


Enquanto houver amor, ou ódio, sejamos resistência.


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