Mulheres que navegaram contra a história
Você também sente que a vida às vezes parece guiada por incômodos? Estava preparando uma aula que já ministro há alguns anos, onde traço um breve histórico sobre os estudos do plâncton. Esse histórico se confunde com a história da oceanografia, então falo sobre as primeiras navegações para coleta de dados científicos e apresento algumas pessoas importantes, TODOS homens. E faz alguns anos que isso tem me incomodado. Onde estão as mulheres dessa história? Elas têm que existir, eu pensava.
Às vezes o incômodo surge, mas não nos permitimos cuidar dele. Bem, uma semana atrás, o incômodo aumentou e eu decidi que precisava procurar por essas mulheres. Acabei encontrando algumas poucas, mas interessantíssimas histórias. A primeira tem a ver com umas das minhas flores preferidas, a Bougainville! Isso mesmo, acidentalmente, eu descobri quem identificou uma Bougainville pela primeira vez. E apesar de ter sido uma mulher, quem a descreveu, esta linda trepadeira tem esse nome em homenagem a um homem, Louis Antoine de Bougainville, comandante de uma expedição francesa entre 1766 e 1769.
Jeanne Baret (1740 - 1807) é o nome da “descobridora” da Bougainville, que também parece ter sido a primeira mulher a circum-navegar o globo, durante a tal expedição francesa. Ela conquistou este feito disfarçada de homem, pois havia uma proibição de mulheres a bordo de navios da marinha francesa na época. Quando descoberta, foi “convidada” a desembarcar. Jeanne coletou mais de 6000 espécimes de plantas ao longo da vida, mas apenas em 2012, mais de 200 anos depois, ela teve uma espécie nomeada em sua homenagem, a Solanum baretia.
Retrato de Janne Baret, por Cristoforo Dall’Acqua (Domínio público). Bougainville (Domínio público).
Solanum baretiae (CC BY 4.0).
Embora o nome de Maude Delap (1866 – 1953) não apareça nos livros-texto, podemos dizer que ela foi uma naturalista irlandesa, apesar de ter feito homeschooling porque apenas os homens de sua família podiam estudar fora de casa. Maude e sua irmã Constance costumavam remar pelo porto e pelas águas ao redor da Ilha de Valentia, rebocando uma rede para coletar plâncton. Ela levava os animais marinhos para um laboratório improvisado em sua casa, onde os observava, em seu microscópio dourado.
Ela colaborou durante anos com pesquisadores da Estação Biológica Marinha de Plymouth e do University College London, e foi a primeira pessoa no mundo a criar em laboratório medusas e observar todo o seu ciclo reprodutivo. Em 1906, o Plymouth Marine Biological Station lhe ofereceu uma bolsa de estudos, mas seu pai não permitiu que aceitasse: "No daughter of mine will leave home, except as a married woman”.
Agora vamos pular uns 200 anos na história e conhecer a história de uma pós-graduanda do Woods Hole Oceanographic Institution, nos EUA, chamada Roberta Eike. O ano era 1956, mulheres eram proibidas de embarcar. Roberta tinha uma bolsa e precisava embarcar para conseguir amostras para o seu projeto de pesquisa. Após inúmeros pedidos negados, ela embarcou clandestinamente, carregando uma sacola com frutas, biscoitos, poucas roupas e frascos de vidro para coletar amostras de plâncton.
Roberta então se escondeu perto da caldeira do navio, mas foi rapidamente descoberta pelo capitão. Ela precisou sair do esconderijo, pois o mau tempo lhe provocou enjoo. Seu supervisor, George Clarke, colocou-a sobre os joelhos e deu-lhe palmadas. Roberta foi fisicamente punida, humilhada na frente da tripulação e demitida assim que chegou em terra.
Uma série de protestos a favor de Roberta abriram o caminho para que mulheres conquistassem o direito de embarcar em navios de pesquisa, o que aconteceu apenas seis anos depois do ocorrido.
Por outro lado, na Rússia, a geóloga marinha Maria Klenova, do Instituto de Oceanologia de Moscou, liderou grandes expedições no Ártico e no Atlântico já na década de 1930. E foi graças a uma russa que uma mulher embarcou, oficialmente como cientista, pela primeira vez, numa expedição oceanográfica na América do Norte. O caso aconteceu no Scripps Institution of Oceanography, em 1963, quando dois cientistas russos foram convidados a participar de uma grande expedição a bordo do navio de pesquisa Argo. Apenas no momento em que “os” cientistas chegaram, que se descobriu que uma “deles” era mulher.
Embora estas histórias que acabo de contar dêem a impressão de que as mulheres praticamente não embarcavam antes da década de 1960, uma pesquisa realizada por Mariana Caldeira Gonçalves demonstra o contrário. Mariana estudou minuciosamente inúmeros documentos históricos e concluiu que desde às grandes navegações, as mulheres, de diferentes perfis sociais, como mulheres da nobreza, mulheres escravizadas e mulheres em situação de vulnerabilidade, buscavam novas oportunidades ou cumpriam ordens de deslocamento.
O trabalho de Mariana, publicado no livro “Mulheres a Bordo: A face pouco conhecida da expansão portuguesa” nos ensina que os registros históricos sobre mulheres, quando existem, partem do olhar masculino, como por exemplo, quando aparecem relatos sobre a presença feminina causando “desordem, perturbação ou transgressão da ordem pública e moral”.
Tem fotos incríveis nos links ao final deste post de Maude e suas irmãs, em campo, de Roberta Eike e Maria Klenova.
Quando tentei buscar por histórias de mulheres de outras partes do mundo, como Ásia e África, por exemplo, foi ainda mais difícil. Mas alguém aí ainda tem dúvida de que elas existiram?
Este post é um apelo para que a gente não deixe os incômodos de lado. Mesmo que insistam em apagar nossa história, nós existimos e não vamos deixar de existir.
Leituras interessantes:
Bonati, E. & Crane, K. Oceanography and Women: Early Challenges. Oceanography 25(4):32-39. DOI: https://doi.org/10.5670/oceanog.2012.103
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