top of page

É difícil ter mulher na ciência. É difícil ser mulher na ciência

há 12 minutos
4 min de leitura

Por Angélica Nagata



No final de agosto, publicamos um estudo na revista científica Scientific Reports que mostra como é difícil ter mulher na ciência e como é difícil ser mulher na ciência. A publicação “Conservation biology leaders face different obstacles depending on gender” é fruto do trabalho e da inquietação de um grupo de amigas pesquisadoras que perceberam o óbvio: apesar de cercadas de cientistas mulheres incríveis, poucas ocupavam posições de liderança. E, como a percepção de uma mulher sempre é questionada, decidimos fazer o que fazemos de melhor: ciência. Investigamos se essa percepção era verdadeira. Afinal, vai que estamos “exagerando”?


Os dados não negaram: poucas chegam até lá. Identificamos 556 líderes de pesquisa na área da biologia da conservação e concluímos que menos de 30% eram mulheres. É difícil ter mulher na ciência. Liderando, então…


Entramos em contato com todos esses líderes para investigar suas histórias de vida e tentar mapear e compreender os desafios enfrentados por eles em sua jornada rumo à liderança. Entre os aspectos da história de vida investigados estavam: se possuíam filhos, com quantos anos tiveram o primeiro filho e com quantos anos concluíram o doutorado. Já entre os desafios profissionais enfrentados pelos pesquisadores, investigamos aspectos sistêmicos, como financiamento, treinamento, jornada de trabalho e questões relacionadas a gênero. Além dessas informações, o estudo ainda avaliou a produção acadêmica desses pesquisadores.


Obtivemos 118 respostas: 54 de mulheres e 64 de homens. E nossa descoberta mais importante foi que a trajetória de sucesso descrita pelas mulheres que chegaram à liderança foi nitidamente diferente daquela descrita pelos homens.


Em um primeiro momento, quando olhamos para a história de vida desses pesquisadores de sucesso, podemos pensar que a questão de gênero é um grande mimimi. Afinal, encontramos um perfil aparentemente padrão de cientista: homens e mulheres concluíram o doutorado com idades semelhantes, tiveram o primeiro filho, em média, entre os 33 - 35 anos de idade, tinham poucos filhos (entre 1 e 2) e não apresentaram diferenças estatisticamente significativas em sua produção acadêmica.


Dois dados, no entanto, chamam atenção:


1º) Quase metade das líderes mulheres (46,3%) relatou dificuldades em equilibrar a vida pessoal e familiar com o trabalho, em comparação com apenas 21,9% dos líderes homens.


2º) Além disso, quando questionados sobre questões de gênero especificamente, NENHUM pesquisador homem relatou ter enfrentado desafios relacionados ao seu gênero, enquanto 29,6% das pesquisadoras apontaram o gênero como um obstáculo em suas trajetórias.


Essas duas informações revelam que o perfil padrão apresentado anteriormente pode esconder alguns fenômenos sociais importantes:


1º — Viés de sobrevivência: nesse estudo estamos descrevendo o perfil daquelas cientistas mulheres que permanecem ativas academicamente, as sobreviventes. E aquelas que abandonaram a carreira? Ou aquelas que não chegaram a posições de liderança? Qual o perfil delas? Será que essas têm mais filhos? Ou engravidaram mais cedo? Nós não sabemos. E justamente aí está uma das limitações do estudo: analisamos apenas aquelas e aqueles que chegaram a posições de liderança.


2º — Sobrecompensação: a produção acadêmica de homens e mulheres pode até não apresentar diferenças estatisticamente significativas, mas a que custo? O esforço empregado pelas mulheres para se manterem produtivas é igual ao empregado pelos pesquisadores homens? O estudo não consegue responder diretamente a essa pergunta. Mas a sobrecompensação aparece como uma possível explicação para o fato de mulheres e homens apresentarem resultados semelhantes em produtividade, apesar de relatarem experiências tão diferentes ao longo da carreira.


3º — Pressões e desafios mais amplos no campo da conservação: estudos na área da biologia da conservação exigem disponibilidade, seja para ir a campo, seja para participar de uma conferência. É difícil conciliar isso com a rotina escolar dos filhos, por exemplo.


Por fim, o estudo identificou ainda que apenas 15% dos líderes que responderam à pesquisa eram originalmente do Sul Global e somente 16% trabalhavam nessa região. Esse dado nos faz refletir sobre um viés importante da desigualdade de gênero: ela não acontece de maneira isolada. A questão de gênero é uma camada adicional de desigualdades sociais e interseccionais presentes em todo o mundo e também está relacionada às desigualdades históricas entre o Norte e o Sul Global. Nosso estudo não foi desenhado para investigar diretamente essas outras dimensões da desigualdade, ainda assim, a baixa representação de pesquisadores originalmente provenientes ou atualmente atuantes no Sul Global chama atenção para uma desigualdade geográfica e histórica na produção científica em conservação.


Diante desses achados, concluímos algo que muitas de nós já sentimos há muito tempo: é difícil ter mulher na ciência. É difícil ser mulher na ciência. 


Espero que as evidências aqui apresentadas não sirvam apenas para mostrar que existem diferenças entre homens e mulheres, mas também que ajude a transformar os espaços que ainda tornam tão difícil a trajetória das mulheres na ciência. Que possam contribuir para que mais mulheres tenham condições de permanecer, crescer e ocupar os espaços de liderança que tantas vezes parecem não ter sido feitos para nós. E que, daqui para frente, outras mulheres precisem lutar um pouco menos para chegar onde desejam.


Essa é uma publicação muito simbólica para mim, pois representa o poder do coletivo feminino. Sua existência prova que, muitas vezes, mulheres precisam de seus pares para não desistir, para acreditar, para fazer acontecer.


Às autoras, o meu muito obrigada!


Muito obrigada por me apoiar.

Muito obrigada por me validar.

Muito obrigada por me incluir.

Sobre a autora:


Bióloga, Professora e Mãe. Nômade desde novinha, tenho o Ceará atualmente como morada. Aqui leciono o que amo e tento recrutar mais pessoas legais para o universo da ciência. A biologia é pra mim um ato de rebeldia, de luta e onde fiz e faço as melhores conexões da minha vida. Sempre digo que o que a Biologia me deu de melhor foram as pessoas. Pessoas que me inspiram e mostram que tem uma porção de gente bacana no mundo, e que somos sim capazes de criar um mundo melhor. 










Comentários


bottom of page