Correntes oceânicas de superfície (Parte III)

Por Jana M. Del Favero


Fluxo Geostrófico e Correntes de Contorno Oeste

Iniciaremos esse post juntando os conceitos apresentados nos dois tópicos anteriores. Então, caso você não se lembre, releia as partes I e II.


Começamos com um vento exercendo um arrasto sobre a superfície do mar no Hemisfério Sul e colocando a água em movimento (Figura 1). Com o movimento, a água da superfície desviará para a esquerda em resposta ao Efeito de Coriolis. Como estamos falando do Hemisfério Sul, o transporte de Ekman será para o sul da direção dos ventos de alísios (que sopram de leste para oeste) e para o norte da direção dos ventos de oeste (que sopram de oeste para leste).

Principais sistemas de ventos (Fonte: Bate Papo Com Netuno com Licença CC BY SA 4.0).

O resultado desses transportes é o empilhamento de água no centro dos giros oceânicos, por causa da convergência da água. Esse “morro” d'água no centro do giro pode chegar a ser até 2 m mais elevado que a borda do giro. No entanto, ao mesmo tempo que o transporte de Ekman empurra água "morro acima" o gradiente de pressão age para empurrar a água "morro abaixo". Novamente, devido ao efeito de Coriolis, a água escorrendo pelo “morro” é desviada para a esquerda, até que gire o suficiente e comece a "subir o morro" novamente até ser puxada morro abaixo pelo gradiente de pressão. Isso se repete até que o equilíbrio entre Coriolis e gradiente de pressão seja atingido. Quando ocorre esse equilíbrio dinâmico, a corrente de água fica constante e estável, circulando o “morro”, e não mais “subindo e descendo”. Essas correntes estacionárias (ou seja, velocidade e pressão constantes em determinado ponto) são chamadas de correntes geostróficas (Figura 2).

Corrente geostrófica (Fonte: Bate Papo Com Netuno com Licença CC BY SA 4.0).

É importante compreender que as correntes em um giro oceânico, que fluem paralelamente aos ventos dominantes, não fluem por causa direta do arrasto do vento, mas sim devido a um fluxo geostrófico, ou seja, devido a um equilíbrio dinâmico entre a deflexão de Coriolis e o gradiente de pressão.


Os continentes são enormes barreiras que interrompem o fluxo das correntes geostróficas. Nas latitudes médias (entre 30 e 60 graus de latitude) , o fluxo da corrente leste é desviado em direção ao equador pelos continentes (isso ocorre lá na quebra da plataforma), enquanto no equador o fluxo das correntes de oeste é desviado em direção aos polos pelos continentes (veja novamente a figura na parte I que ilustra os giros de circulação oceânicos).

A força do efeito de Coriolis depende da velocidade do objeto em movimento e de sua localização na Terra: quanto maior a velocidade do objeto em movimento (ou do fluxo), e quanto maior for a distância do equador, maior será a deflexão de Coriolis. Assim, nas latitudes médias o fluxo da corrente leste é desviado em direção ao equador com mais força e velocidade do que as correntes equatoriais que fluem para o oeste e são desviados em direção aos polos. Isso resulta em um volume muito maior de água desviada para o equador e, consequentemente, um volume muito grande de água no equador derivando para oeste e acumulando nas bordas oeste das bacias oceânicas. Esse acúmulo de águas exige um fluxo geostrófico mais intenso ao longo do lado oeste dos giros oceânicos para atingir o equilíbrio dinâmico, a chamada intensificação das correntes de contorno oeste.


As correntes de contorno oeste são mais estreitas, rápidas e profundas (Figura 3). Um exemplo é a Corrente do Golfo que se move a uma velocidade média de 7,2 km por hora, tem largura média de 70 km e transporta um volume de 55 Sv (Sv é uma medida de volume denominada sverdrup e 1 Sv = 1 milhão de metros cúbicos por segundo). Já as correntes de contorno leste são mais largas, lentas e rasas. Um exemplo é a Corrente das Canárias que se move a uma velocidade média de 2 km por hora e transporta 16 Sv. A Corrente do Brasil, aqui no hemisfério sul, também é um exemplo de corrente de contorno oeste. No entanto, ela é uma corrente oeste atípica, pois sua velocidade e transporte são baixos quando comparadas com outras do mesmo tipo. Isso se deve a presença de uma corrente de subsuperfície fluindo em sentido contrário na maior parte de sua extensão.

Fluxo geostrófico no oceano Atlântico Sul (Fonte: Bate Papo Com Netuno com Licença CC BY SA 4.0).

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