DO MAR AO AR: microplásticos em aves marinhas e costeiras

Por Júlia Jacoby de Souza


Todo mundo já viu alguma consequência do plástico no mar, não? Desde lixo na praia até interações com animais marinhos. Mas, e os microplásticos, que quase não enxergamos, como eles afetam a fauna marinha?


Microplásticos são partículas pequenas, menores que 5 milímetros, que podem ser fabricadas nesse tamanho, como os pellets (bolinhas de plástico virgem) e microesferas de cosméticos, ou podem se originar da degradação de plásticos maiores (embalagens, objetos plásticos variados, tecidos sintéticos). O destino final dos resíduos plásticos, transportados através do vento e corpos d’água, no geral, é o oceano.

Microplásticos encontrados na areia da praia no Litoral Norte do Rio Grande do Sul. (Foto: Derek Blaese de Amorim com licença CC BY 4.0)


Essas partículas, que podem atingir tamanhos invisíveis a olho nu, estão disponíveis a uma ampla variedade de organismos, desde o microscópico zooplâncton até grandes peixes, aves e mamíferos, por exemplo. Mas por que que esses animais interagem com o microplástico? Bom, basicamente porque no mar existem microplásticos em todos os lugares: da água superficial até as profundezas, no sedimento das praias e no fundo do mar. Além disso, ele pode ser ingerido por organismos que servem de alimento para outros, virando uma bola de neve, ou melhor, de plástico. Assim é difícil não entrar em contato com algo praticamente onipresente!


Esquema de acumulação do microplástico através da ingestão direta desse material, ou ingestão indireta, através das presas. (Imagem por Júlia Jacoby de Souza com licença CC BY 4.0)


Iniciei os estudos sobre esse tema há cerca de dois anos, quando estava na metade da graduação em Biologia Marinha. Foi nessa época que comecei a me interessar por aves. Então, entrei em contato com o professor que veio a ser meu orientador, o Dr. Guilherme Tavares Nunes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e ele me propôs estudarmos a questão da contaminação por plástico em aves marinhas e costeiras no sul do Brasil.


As aves marinhas são organismos que dependem totalmente dos oceanos em pelo menos parte de suas vidas[1] e que, no geral, reproduzem-se em ilhas. Esse grupo tem se mostrado especialmente suscetível à presença de plásticos no ambiente: dentre todas as espécies de aves já registradas com alguma interação com esse material, quase 80% delas são marinhas[2]! Apesar de alta, essa porcentagemnão surpreende, já que existe plástico em todos os lugares no mar. Outro fator contribuinte é que essas espécies identificam zonas de alimentação pela detecção de dimetil sulfeto (DMS), substância liberada pelo consumo do fitoplâncton pelo zooplâncton. No ambiente marinho, o DMS atua como um “cheiro de restaurante”, indicando que naquele local há alimento disponível. Entretanto, o fitoplâncton que se adere a pedaços de plástico flutuantes também libera DMS, fazendo com que regiões com alta concentração de plástico também sejam identificadas como “restaurantes”, gerando uma armadilha para essas aves[3].


Um dos primeiros registros de ingestão de plástico por aves marinhas data dos anos 60, quando pesquisadores encontraram pedaços de plástico nos estômagos de albatrozes-de-Laysan[4] que se reproduzem no Atol de Midway, no Oceano Pacífico. Esse local fica a mais de 3.000 quilômetros de distância do continente americano, mas recebe enormes quantidades de lixo transportadas pelas correntes marinhas. O fato dessa espécie de albatroz estar vindo à óbito neste atol por ingestão de material plástico foi retratado no documentário “Albatross”, de Chris Jordan. No entanto, essa espécie é apenas uma do grupo no qual se insere (Procellariifomes) e cuja interação com plástico vem sendo amplamente estudada, inclusive no Brasil.

Filhote de albatroz-de-Laysan morto com

pedaços de plástico ingeridos (Foto por

Lindsay C. Young, Cynthia Vanderlip, David C. Duffy,

Vsevolod Afanasyev, Scott A. Shaffer,

com licença CC BY 2.5)


Entretanto, para nossa pesquisa, optamos por fugir dos grupos mais estudados e focar em outros cuja contaminação é pouco conhecida, tanto no Brasil quanto no mundo: aves costeiras. Você já prestou atenção nas aves que você vê quando vai à praia? Então, são justamente essas que estamos procurando estudar! Nosso grupo de estudo abrange aves que utilizam o ambiente costeiro, sendo residentes ou migratórias, que se alimentam no litoral do Rio Grande do Sul em período não-reprodutivo. Entre essas, existem organismos com diversas formas do corpo, dietas e comportamentos. Há espécies que comem peixe (piscívoros), como os trinta-réis e talha-mares, outras que comem invertebrados enterrados no sedimento (bentívoros), como maçaricos e pernilongos, e ainda há espécies, como as gaivotas, que comem praticamente qualquer alimento disponível (generalistas). Assim, falamos que, entre as aves que utilizam o ambiente costeiro, existem diferentes grupos tróficos funcionais,ou seja, grupos de espécies que se alimentam de formas e comidas semelhantes.


Grupos tróficos funcionais: 1- trinta-réis-boreal / 2- talha-mar / 3- maçarico-de-sobre-branco / 4- pernilongo-de-costas-brancas / 5 - gaivota-maria-velha / 6 - gaivotão. (Imagens por Daniela Martins com licença CC BY 4.0)


Então, assumindo que existe microplástico em praticamente todos os lugares dos ambientes marinhos e costeiros, incluindo no sedimento das praias e potencialmente no alimento dessas aves, será que essas espécies, algumas até então sem registro de ingestão de plástico, também estão sendo contaminadas? Será que diferentes dietas e formas de alimentação alteram essa contaminação? Será que as aves costeiras, ou algum grupo trófico específico, são bons indicadores para detectar a presença de plástico no ambiente? Bom, essas são algumas perguntas que estamos tentando responder!


Utilizar as aves costeiras como modelo têm sido desafiador, já que trabalhamos com grupos pouco estudados e partículas muito pequenas. Logo, não existe uma “receita de bolo” que mostre “como encontrar e identificar microplásticos em aves costeiras”. Então, tivemos que testar o que outros pesquisadores já realizaram, com diferentes metodologias e grupos animais (peixes, moluscos, outras espécies de aves) a fim de adaptar “receitas de bolo” já desenvolvidas para nosso grupo de estudo. Estamos trabalhando tanto com amostras de aves vivas (fezes) como de aves que vieram a óbito no Centro de Reabilitação de Animais Silvestres e Marinhos do Centro de Estudos Costeiros, Limnológicos e Marinhos (CECLIMAR/UFRGS). Em nossos testes preliminares, foi possível visualizar fibras coloridas em algumas amostras. Posteriormente, pretendemos realizar a identificação química desse material através da parceria com o Laboratório de Processos Ambientais de Contaminantes Emergentes (LAPACE), do Instituto de Química da UFRGS. Dessa forma, será possível saber o tipo de plástico que originou o microplástico, seja de tecidos, sacolas ou embalagens, por exemplo. Infelizmente, devido à situação de pandemia em que estamos vivendo, tivemos que pausar as nossas atividades, mas pretendemos retomá-las assim que possível.


Fibra azul encontrada em amostra de fezes de trinta-réis-boreal (Foto por Júlia Jacoby de Souza, com licença CC BY SA 4.0)


O plástico abrange um grupo de materiais incríveis e é praticamente impossível não depender deles para nossas atividades diárias, já que eles estão em todos os lugares, incluindo no aparelho que você está lendo esse post! Mas as pesquisas que já foram e que estão sendo realizadas evidenciam o quanto a má gestão desse material, do nível individual ao global, tem impactado todos os organismos, incluindo nós, os seres humanos. A ciência é fundamental para expor e entender suas consequências, a fim de elaborar soluções e alternativas. Pequenas mudanças em nossas ações do dia a dia são essenciais, repensar e evitar o uso de um plástico por dia pode representar milhões de microplásticos a menos!

A nossa pesquisa conta com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (FAPERGS).

Referências


[1]Votier, S. C; Sherley, R. B. 2017. Seabirds. Current Biology, v. 27, n. 11, p. R448–R450. https://doi.org/10.1016/j.cub.2017.01.042


[2]Battisti, C; Staffieri, E; Poeta, G; Sorace, A; Luiselli, L; Amori, G. 2019. Interactions between anthropogenic litter and birds: A global review with ‘black-list’ of species. Marine Pollution Bulletin, vol 138. https://doi.org/10.1016/j.marpolbul.2018.11.017


[3]Savoca, M. S; Wohlfeil, M. E; Ebeler, S. E; Nevitt, G. A. 2016. Marine plastic debris emits a keystone infochemical for olfactorry foraging seabirds. Science Advances, vol 2, n.11. DOI: 10.1126/sciadv.1600395


[4]Kanyon, KW; Kidler, E. 1969. Laysan albatrosses swallow indigestible matter. The Auk.


Sugestões de conteúdo


- Matéria da UFRGS Ciência sobre nossa pesquisa e a do LAPACE.


- Vídeo “Microplástico: de onde vem e para onde vai” produzido pela autora e colegas:

Sobre a autora:

Sou estudante de Biologia Marinha e faço parte da equipe do Projeto de Extensão Aves da Praia, que procura divulgar a biodiversidade das aves e abordar a questão da poluição plástica para a comunidade do Litoral Norte do Rio Grande do Sul. Adoro sair para trabalhos de campo, são oportunidades incríveis de conhecer lugares novos e ter muitas histórias pra contar depois. Gosto muito de desenhar e andar de bicicleta com o Galgo, meu “cãopanheiro”.


E-mail para contato:

julia.jacoby.s@gmail.com

Instagram: @juliajacobys @avesdapraia



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