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Especial de Halloween: A Biologia do Tubarão Duende

há 2 horas
4 min de leitura

A fim de levar um susto? 👻 Venha conhecer o Tubarão-Duende, o fantasma das profundezas...


Por Henrique Reginato e Nathalia Kushiyama

Tubarão-duende estilizado com capa de vampiro
Ilustração por Henrique Reginato.

O Tubarão-duende (Mitsukurina owstoni) é uma das criaturas mais enigmáticas (e assustadoras…) das profundezas do oceano. Esse nome já o faz digno de um conto de fadas mas a sua aparência surpreendente está mais para um filme de terror: dentes longos e finos como agulhas, pele rosada e um focinho em forma de lâmina, que parece ter saído de um pesadelo marinho.


Mas este “ser mitológico” não é novo no pedaço. Considerado por alguns como um “fóssil vivo”, os tubarões-duende são, na verdade, animais derivados de ancestrais muito antigos, pertencendo a um grupo que chega a 125 milhões de anos de idade. Em um período evolutivo que compreende milhares de anos, as pressões ambientais das profundezas do oceano selecionaram características bem peculiares, e apesar disso sua aparência é similar a de seus antepassados, sendo a única espécie sobrevivente da família (Mitsukurinidae). 


Cabeça de tubarão em exposição, boca aberta e dentes à mostra, em vitrine de museu sob luzes fracas.
Tubarão Duende (Mitsukurina owstoni) no Museu de História Natural em Viena. Fonte: Wikimedia Commons. 

Enquanto dinossauros e tantas outras criaturas desapareceram, o tubarão-duende está escondido no fundo escuro do mar, em águas que chegam a 1.200 metros de profundidade, onde a luz do sol nunca alcança.


Extremamente raro e dificilmente visto vivo, pensava-se que o tubarão-duende só habitava os mares do Japão e da Austrália, nos Oceanos Índico e Pacífico. Porém, durante o Programa de exploração pesqueira de profundidade (Projeto PROARRASTO) realizado entre os anos de 2002 e 2004, sua presença foi confirmada no Oceano Atlântico. Acredite se quiser, em águas brasileiras, quando pesquisadores capturaram seis exemplares ao largo do Amapá! Um desses tubarões-duende acabou se tornando um dos únicos exemplares preservados na América do Sul. E hoje, dois exemplares estão guardados em duas coleções científicas brasileiras, um na Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e um na Universidade do Vale do Itajaí (Univali), um verdadeiro tesouro das profundezas. Ele pertence ao grupo dos Lamniformes, junto de espécies famosas e carismáticas como o tubarão-branco e o tubarão-baleia.

Cladograma em fundo branco com grupos de tubarões: Heterodontiformes, Orectolobiformes, Carchariniformes e Lamniformes, e rótulo Tubarões com forma de torpedo
Cladograma simplificado das ordens de tubarão com “forma de torpedo” (Heterodontiformes, Orectolobiformes, Carchariniformes e Lamniformes). Fonte: adaptado de Leigh et al., 2017.

Mas afinal, o que faz do tubarão-duende uma criatura tão singular?


Seu longo focinho abriga células sensoriais capazes de detectar campos elétricos, permitindo que ele “sinta” suas presas mesmo na escuridão total. E seu ataque é digno de um susto cinematográfico: suas mandíbulas se projetam para fora do rosto em um movimento rápido e impressionante, agarrando lulas, camarões e peixes antes que possam escapar. 



Apesar de seu visual aterrorizante, o tubarão-duende não é um caçador sanguinário. Ele se move lentamente, economizando energia em um ambiente onde a comida é escassa. Sua alimentação consiste, predominantemente, de peixes teleósteos e invertebrados como lulas, decápodes e isópodes. Sua presença como predador de topo é um símbolo de um ambiente saudável, já que eles controlam as populações de outros organismos, como peixes-ratos e indivíduos doentes. Esse “bicho bizarro” pode ter uma aparência diferente de outros tubarões mas a sua importância ecológica e valor científico são inegáveis, sendo importante a preservação e a proteção dessa espécie rara e única sobrevivente de uma família de milhões de anos na Terra (ou mar… rs).


O tubarão-duende, na lista vermelha de espécies ameaçadas da IUCN (International Union for Conservation of Nature - Red List), é colocado como pouco preocupante, por não possuir dados sobre sua população. No entanto, com ocorrência global e uma maior pressão por pescas de arrastos profundos, essa espécie tão especial e diferente pode começar a sofrer um declínio populacional. Sua carne não é comercializada, porém ainda pode ser pescado acidentalmente.


O tubarão-duende é mais do que um ser “assustador”: é um símbolo da diversidade e da resistência da vida nas profundezas do oceano. Ele nos ensina que cada criatura, por mais estranha que pareça (aos olhos humanos), tem um papel ecológico e uma história evolutiva valiosa. Ver um tubarão-duende é, ao mesmo tempo, um susto e um privilégio. Sua aparência fantasmagórica nos lembra o quanto o oceano ainda guarda segredos, e como a ciência é a lanterna que ilumina o desconhecido.


Referências:

Registro da Ocorrência do Tubarão-Duende, Mitsukurina Owstoni Jordan, 1898 (Lamniformes: Mitsukurinidae) na Região Norte do Brasil https://labomar.ufc.br/wp-content/uploads/2017/01/acm-2008-41-2-13.pdf


The Shark That Goes Gobblin’ Mode Goblin Sharks | U.S. Fish & Wildlife Service




Yano, K., Miya, M., Aizawa, M., Noichi, T. 2007. Some aspects of the biology of the goblin shark, Mitsukurina owstoni, collected from the Tokyo Submarine Canyon and adjacent waters, Japan. Ichthyol Res 54, 388–398. https://doi.org/10.1007/s10228-007-0414-2


Leigh, S., Papastamatiou, Y., German, D. 2017. The nutritional physiology of sharks. Reviews in Fish Biology and Fisheries. DOI:10.1007/s11160-017-9481-2.

 

Sobre os autores:


Henrique Reginato Torres: Nasci em Sorocaba, interior de São Paulo, atualmente sou graduando do último semestre em Oceanografia pela Universidade de São Paulo. Desde sempre fui fascinado pelo oceano, e uns dos meus animais preferidos são os tubarões, principalmente o  tubarão-duende. Atualmente trabalho com oceanografia química, mas possuo grande interesse na interdisciplinaridade com todas as áreas (biologia, física e geologia).







Nathalia Kushiyama: Nasci no interior da Bahia e sou inerentemente curiosa (você definitivamente vai me encontrar lendo). Na minha opinião o tubarão-duende é bizarro, mas ainda assim um dos tubarões mais legais que existe! Atualmente sou mestranda no Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo e trabalho com ictioplâncton marinho. Sou apaixonada pelos animais (não só marinhos) e gosto muito quando é possível relacionar a biologia com outras áreas, como a física e a socioambiental.






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