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Cultura no oceano? Mas cultura não é coisa de gente?

há 10 minutos
4 min de leitura

Por Natalya Miranda


E se eu te dissesse que os animais marinhos também tem suas tradições, seus sotaques e até suas “técnicas” passadas de geração em geração?

 

Mas atenção! Dessa vez não estamos falando de Cultura Oceânica, um conceito global de trazer, a todos, uma compreensão da influência do oceano na vida do ser humano, bem como a influência do ser humano no oceano. 


Em lugares como Shark Bay (Austrália) e também aqui no sul do Brasil, animais marinhos (golfinhos, baleias e até polvos) aprendem uns com os outros comportamentos que se perpetuam ao longo do tempo.


Para a ciência, cultura é o conjunto de comportamentos transmitidos socialmente dentro de uma população, cuja distribuição não se explica apenas por fatores genéticos ou ambientais. Em outras palavras, é o aprendizado coletivo que se espalha e se mantém: uma herança não biológica. 


Vamos conhecer alguns comportamentos “culturais” do mundo marinho?


Golfinhos que usam ferramentas

Em Shark Bay, na Austrália, os golfinhos-indopacíficos (Tursiops aduncus) usam esponjas marinhas para proteger seu focinho sensível enquanto procuram peixes enterrados no fundo. Esse comportamento é chamado de sponging. Estudos genéticos mostraram que não há explicação ambiental ou genética que justifique esse comportamento: trata-se de aprendizado social vertical, ou seja, passado apenas de progenitor para filhote.


Golfinhos e caiçaras: uma aliança de gerações

Não precisamos atravessar o mundo para observar manifestações culturais no mar. No sul do Brasil, existem populações de botos-de-Lahille (Tursiops gephyreus) que há décadas cooperam com pescadores artesanais para capturar tainha (Mugil liza). Estudos de campo mostram que, em Tramandaí (RS) e Laguna (SC), a presença e o número de golfinhos (regionalmente chamados de botos) explicam diretamente a produtividade da pesca. Há toda uma comunicação golfinho-humano: assobios e sinais corporais, que indicam o momento certo para os pescadores humanos lançarem a rede.


Essas interações são transmitidas entre famílias de pescadores e entre gerações de golfinhos. Uma forma rara e sofisticada de cooperação entre espécies, na qual tradições humanas e não humanas se entrelaçam.


Tem até um post aqui no Bate-Papo com Netuno sobre essa interação para quem quiser saber mais!


À esquerda, golfinho usando esponja como ferramenta de forrageio (Wikimedia Commons / Foto: Michael Krützen / Licença CC BY 3.0). À direita, golfinhos e pescadores artesanais coordenando o lançamento de redes durante a pesca (Wikimedia Commons / Foto: Projeto Botos da Barra / Licença CC BY 3.0).

 

Baleias e seus hits de carnaval

Que as jubartes (Megaptera novaeangliae) machos cantam você talvez já saiba. Mas e se eu contar que essas canções variam entre populações e mudam a cada temporada? Uma população, ao encontrar com outra em suas rotas de migração, pode incorporar elementos novos em suas canções, como se fizesse uma nova versão da sua música inspirada na população vizinha, o que chamamos de evolução cultural. Mas por vezes novas canções substituem completamente as antigas e se espalham entre as populações em pouco tempo. Sabe quando surge um hit novo a cada carnaval? Cientistas chamam essas mudanças abruptas de revoluções culturais.


Populações de jubartes apresentam diferentes canções, como nós com nossos diferentes gêneros musicais

(fonte: próprio autor).


Então quer dizer que cultura é uma coisa de mamífero?

Não exatamente. Mesmo espécies menos “carismáticas” mostram formas de aprendizagem social, como peixes e polvos que conseguem copiar soluções ou estratégias ao observar outros indivíduos. Esses comportamentos mostram que a capacidade de aprender com o outro não é exclusiva dos mamíferos.


Por outro lado, para a ciência, isso ainda não é suficiente para chamar de cultura.Por mais complexo que seja, um aprendizado só pode ser categorizado como cultural se ele não for explicado nem por genética nem por diferenças ambientais. Além disso, deve ser transmitido por toda uma população e mantidos ao longo de várias gerações, uma tradição.


Tá, e por que isso importa? E o que perdemos quando uma cultura marinha desaparece?

  1. Cultura pode ser uma estratégia de sobrevivência: Pode gerar mudanças comportamentais mais rápidas do que a seleção genética, adaptando-se mais rapidamente diante de uma nova pressão evolutiva.


  1. Cultura importa para a conservação: Populações com tradições únicas, como as orcas (Orcinus orca) e suas estratégias específicas de caça, podem responder de formas muito diferentes às mesmas ameaças. Reconhecer essas diferenças entre populações de uma mesma espécie é essencial para políticas de conservação certeiras e eficazes.


  1. A perda cultural é irreversível: Quando uma população desaparece, desaparece com ela um repertório único de comportamentos, sons e saberes que não pode ser reconstituída. Não basta preservar o DNA; é preciso preservar também as tradições que o tornam vivo.


Preservar espécies também é preservar seus saberes.

  

Referências ou sugestão de leitura:


Brakes, Philippa; Whiten, Andrew. 2020. Culture and conservation: beyond genes to knowledge and identity. BioScience, 70(6):451–463. https://doi.org/10.1093/biosci/biaa036


Garland, Ellen C.; Goldizen, Anne W.; Rekdahl, Melinda L.; Constantine, Rochelle; Garrigue, Claire; Hauser, Nan D. et al. 2011. Dynamic horizontal cultural transmission of humpback whale song at the ocean basin scale. Current Biology, 21(8):687–691. https://doi.org/10.1016/j.cub.2011.03.019


Keith, Sally A.; Bull, Joseph W.; Milner-Gulland, E. J. 2020. Extinction of cultural diversity: the loss of behaviour, knowledge and identity among non-human animals. Trends in Ecology & Evolution, 35(7):537–546. https://doi.org/10.1016/j.tree.2020.02.002


Laland, Kevin N.; Hoppitt, William. 2003. Do animals have culture? Evolutionary Anthropology, 12(3):150–159. https://doi.org/10.1002/evan.10111


Simões-Lopes, Paulo C.; Fabian, Maria E. 1999. Cooperative feeding between bottlenose dolphins and fishermen in southern Brazil: evidence for mutualism. Marine Mammal Science, 15(4):1228–1237. https://doi.org/10.1111/j.1748-7692.1999.tb00881.x


Smolker, Rachel A.; Richards, Angela F.; Connor, Richard C.; Mann, Janet; Berggren, Per. 1997. Sponge carrying by dolphins (Delphinidae, Tursiops sp.): a foraging specialization involving tool use? Ethology, 103(6):454–465. https://doi.org/10.1111/j.1439-0310.1997.tb00160.x


Projeto Botos da Barra. 2025. Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Disponível em: https://botosdabarra.ufsc.br. Acesso em: 30 out. 2025. 


UNESCO Office Venice and Regional Bureau for Science and Culture in Europe; Intergovernmental Oceanographic Commission. 2020. Cultura oceânica para todos: kit pedagógico. COI. Manuais e Guias, 80 Rev. https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000373445 


Sobre a autora:


Nascida no litoral e graduada em Biologia pela USP, a biodiversidade sempre me fascinou. É fácil me encontrar fotografando por aí: pesquiso sobre ecologia de aves silvestres em ambientes urbanos. Ah! E sou educadora também. 













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