Grossa ou Assertiva: depende do gênero?

Por Ju Leonel


Texto Alt para Imagem de Divulgação: Uma mulher e um homem com a mesma postura corporal e cada um deles pronunciando a mesma fala “Discordo”. Abaixo do homem está carimbado  a palavra “Assertivo” e abaixo da mulher está carimbado a palavra “grossa”.

Ilustrado por Lídia Paes Leme


Falar usando um tom firme, de forma séria e indo direto ao ponto pode gerar duas interpretações: ou te consideram uma pessoa assertiva ou te consideram uma pessoa grossa. Mas qual a linha que separa uma da outra?


Alguns dirão que a linha é tênue, que depende da situação, do contexto, dos gestos... A verdade é que a linha é bem clara e bem demarcada. Ela é o gênero, também pode ser traçada em função da cor de pele, orientação sexual ou identidade sexual - falarei como mulher branca, cis, hetero, que é o meu lugar de fala, mas fica aberto o convite para quem quiser falar sob outras perspectivas.


Isso mesmo: se eu falo com um tom firme sou taxada de grossa, quando um homem fala a mesma coisa usando o mesmo tom (quiçá até de forma rude) ele é descrito como assertivo. Será que essa percepção corresponde à realidade? - alguns devem estar se perguntando.


Que atire a primeira pedra a mulher que nunca passou e/ou vivenciou essa situação; ou que até mesmo não traçou essa linha. Desde a nossa infância, nós mulheres, somos condicionadas a assumir uma determinada postura; devemos ser delicadas, manter o tom de voz baixo, não devemos nos impor em uma discussão etc, ao ponto em que consideramos grosseira uma mulher que está apenas sendo assertiva e consideramos assertivo um homem que está sendo grosseiro. Essa diferença entre o comportamento que é aceito quando exibido por homem, mas não quando vem de uma mulher, é usualmente observada em sala de aula quando professores aceitam melhor os questionamentos, críticas ou comentários de um estudante do gênero masculino do que os de uma estudante do gênero feminino. Outro exemplo é quando estudantes consideram “normal” o comportamento de determinado professor, mas o mesmo tipo de comportamento não é mais aceitável quando apresentado por uma professora.

Fora do ambiente acadêmico, em reuniões de trabalho, por exemplo, também podemos observar essa diferença: ao homem é dado de antemão o “direito” de interromper, de falar mais alto, de perder a paciência e até mesmo se exaltar, enquanto a mulher que fizer o mesmo será classificada como histérica, desequilibrada ou louca*.


*substantivo feminino muitas vezes usado para invalidar as falas e ou sentimentos de uma mulher


Em meus muitos anos na academia (entre formação e trabalho), já presenciei diversas situações difíceis, entre elas a de um aluno que saiu da sala de aula batendo a porta e bravejando, tudo isso por não aceitar que zerou um trabalho descaradamente plagiado, um crime segundo nosso código penal. Já presenciei um colega, professor doutor, abandonar uma reunião batendo a porta porque foi contrariado pelos demais docentes. No entanto, nunca vi uma mulher (seja aluna ou professora/pesquisadora) ter as mesmas atitudes. O que vi foram mulheres sendo taxadas de "descontroladas", "pessoas que não sabem trabalhar em grupo", "inflexíveis" e a clássica "elas devem estar na TPM" em momentos em que pediram a palavra ou que, simplesmente, esperavam respeito ao discordarem dos demais.


Uma das situações que mais me marcou aconteceu há poucos anos, quando um colega foi extremamente grosso com todo​s ao longo de uma reunião, porque​,​ ​após se referir às mulheres​ ali​ presentes ​como meninas​,​ foi lembrado que "aqui só há mulheres e nenhuma menina". ​E, como era de se esperar, a colega que o lembrou disso recebeu olhares que expressavam o descontentamento com seu comentário, considerado desnecessário pelos presentes. Caso você esteja se perguntando, também comentaram sobre o comportamento dele, mas apenas para justificá-lo, foram usadas frases como "ele está sobrecarregado de trabalho", quase em tom de pena. Pois é, isso é fruto do machismo estrutural impregnado na nossa criação e que nos cerca no dia a dia de tal forma que, muitas vezes, nos faz normalizar o inadmissível.


Mas qual a verdade por trás dessa tentativa de calar as mulheres e/ou nos diminuir: medo de terem sua competência questionada? Medo de comparações e que o mundo se dê conta de que mulheres são tão competentes e capazes quanto os homens? Receio de um sistema mais diverso e, consequentemente, com menos privilégios para os homens? Não é de hoje que a equidade é vista, mesmo que de forma inconsciente, como uma ameaça. Isso porque ela significa romper com a estrutura que sempre privilegiou homens e os colocou como líderes natos, simplesmente por serem homens. Reconhecer que julgamos de forma diferente o discurso do outro por conta de seu gênero, raça, cor e classe é o primeiro dos inúmeros passos para uma sociedade mais justa. Por isso, pare, avalie seus atos e faça a sua parte.


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