Meu embrião é canibal

Atualizado: Jul 24

Por Cláudia Namiki


Sempre que pensamos em tubarões e raias, imagens de animais majestosos, grandes e (quase) invencíveis geralmente nos vêm à cabeça. Já falamos aqui no blog sobre o fascínio e o medo que estes animais despertam nas pessoas. Falamos também sobre como várias espécies estão sendo ameaçadas de extinção, sem que ninguém saiba. Agora, vamos descomplicar como os elasmobrânquios começam a sua vida nos oceanos.


Os tubarões e raias são peixes cartilaginosos que estão presentes na Terra há milhões de anos e possuem estratégias variadas para garantir a sobrevivência de seus embriões. Algumas espécies produzem ovos, enquanto outras têm maneiras inusitadas e até mesmo assustadoras (do ponto de vista humano, é claro) de gerar seus descendentes.


Todas as espécies desse grupo se reproduzem através de fecundação interna. O macho introduz o esperma na fêmea com auxílio do clásper, que é uma modificação da nadadeira pélvica. Dependendo da espécie, os ovócitos (gametas femininos) podem ser imediatamente fecundados, ou a fêmea pode guardar os espermatozóides para que a fecundação ocorra em outro momento. Isso pode acontecer até mais de um ano depois, como no caso do tubarão-pintado (Scyliorhinus sp.).


Na imagem observamos a abertura urogenital, a nadadeira pélvica

e o clásper de um tubarão-galha-preta macho.

Modificado de Wikimedia Commons com licença: CC BY-SA 3.0.


Após a fecundação, os embriões se desenvolvem no útero da fêmea em espécies vivíparas, ou em ovos depositados no ambiente, em espécies ovíparas. Em todos os casos, os filhotes já nascem como miniaturas de tubarões e raias, ou seja, não possuem uma fase larval como outros peixes. Os pais não cuidam dos filhotes. Os recém-nascidos se escondem imediatamente por instinto, para não serem devorados por predadores, incluindo sua própria mãe, como no caso do tubarão-limão (Negaprion brevirostris).


Parto de um tubarão-limão.


Viviparidade


A viviparidade (desenvolvimento dentro do útero materno) permite que os filhotes nasçam maiores e, com isso, consigam ter mais sucesso na captura de presas, ao mesmo tempo que o número de possíveis predadores diminui. Afinal, no mar, tamanho é documento e geralmente o maior engole o menor. No entanto, o desenvolvimento de filhotes tão grandes, com até 1 metro de comprimento, requer muita energia da mãe para nutrir os embriões. Por isso, em algumas espécies, a gestação pode demorar até dois anos, como no caso do cação-de-espinho (Squalus acanthias), e para a maioria, só ocorre em anos alternados. As peculiaridades dos elasmobrânquios não param por aí; a evolução foi muito criativa em relação ao modo de nutrição do embrião, conforme podemos conferir a seguir.


Viviparidade lecitotrófica ou aplacentária: o embrião tem uma reserva nutricional chamada de vitelo, que fica armazenado no saco vitelínico ligado diretamente ao seu trato digestório. É como se estivesse agarrado numa despensa cheinha de comida. Exemplo: cação-de-espinho (Squalus acanthias).


Embriões de cação-de-espinho (Squalus acanthias) com saco vitelínico. Fonte: David Bryan. Todos os direitos reservados.


Oofagia: após acabar com as reservas do saco vitelínico, o embrião passa a se alimentar diretamente dos ovócitos (gametas femininos) lançados no útero, como por exemplo na espécie chamada de marracho (Lamna nasus). Isso porque, mesmo grávida, a fêmea continua liberando os ovócitos, que são eventualmente fecundados em algumas espécies, como no cação-mangona (Carcharias taurus).


Alerta: informações fortes a seguir!!!


Adelfofagia, embriofagia ou canibalismo embrionário: o embrião mais desenvolvido, após consumir todo seu vitelo, passa a devorar os outros embriões que estão no útero. Este embrião ainda é cego, porém possui dentes afiados e pode nadar pelo útero, sentindo a presença dos demais embriões. Vale ressaltar que, após devorar os irmãos, o embrião sobrevivente continua se alimentando através da oofagia até o seu desenvolvimento completo. Este é o caso do cação-mangona (Carcharias taurus). A fêmea dessa espécie possui dois úteros e consegue dar à luz a dois filhotes de 1,0 m cada um.


Embrião de tubarão se alimenta de outros embriões menos desenvolvidos que estão dentro do útero.


Viviparidade placentária: após o consumo do vitelo, o saco vitelínico se liga à parede do útero, formando uma placenta saco-vitelínica, com um cordão umbilical que transporta nutrientes e oxigênio da mãe para o embrião e as excretas metabólicas do embrião para a mãe. Em alguns casos, como no cação-bicudo (Rhizoprionodon terraenovae) o cordão umbilical desenvolve prolongamentos que servem para absorver o líquido nutritivo produzido pela mãe por meio de células especiais na parede uterina. Esse líquido, chamado de “leite uterino” por causa de suas propriedades nutritivas, também pode ser ingerido pela boca, ou absorvido pela pele ou por filamentos branquiais do embrião. Mas atenção, porque apesar do nome, o leite uterino nada tem a ver com o leite produzido pelos mamíferos.


Desenvolvimento da placenta de um tubarão-limão.


Viviparidade trofoblástica: nas raias Myliobatoide, como a raia-manta, os embriões se desenvolvem dentro de ovos, chamados de cápsulas ovígeras, que permanecem no útero da mãe, onde após a eclosão continuam sendo nutridos pelo leite uterino, sem a formação de uma placenta.


Raia-manta. Fonte: Flickr com licença CC BY 2.0.


No caso do tubarão-tigre (Galeocerdo cuvier), acreditava-se que os embriões se alimentavam apenas do vitelo, já que permanecem em cápsulas. Porém, pesquisadores descobriram que a cápsula contém um líquido nutritivo produzido pela mãe que também alimenta o embrião. Isso assegura o desenvolvimento de um grande número de embriões (entre 18 e 17 ) e permite que os filhotes nasçam com um tamanho relativamente grande; o que não seria possível apenas com o consumo do vitelo. Você pode acessar a publicação e dar uma olhada nas fotos clicando aqui.


Tubarão-tigre (Galeocerdo cuvier). Fonte: Wikimedia Commons com licença CC BY-SA 3.0.


Oviparidade


Na oviparidade a fêmea libera os ovos na água e, embora essa estratégia pareça uma forma mais simples, ela aparece nas espécies mais modernas do grupo. Assim, a viviparidade é considerada uma estratégia mais antiga e a oviparidade uma novidade, em termos evolutivos.


Ovos de tubarão-inflado (Cephaloscyllium ventriosum). Fonte: Aquarium of the Pacific. Todos os direitos reservados.


Tubarão-pintado (Scyliorhinus sp.) adulto e seus ovos com embriões em diferentes fases do desenvolvimento embrionário. Fonte: Banco de dados do Projeto Tamar. Todos os direitos reservados.


O embrião é protegido pela cápsula ovígera, que é uma estrutura queratinosa, medindo entre 2-4 cm e que normalmente fica aderida a algas ou outros substratos, como fendas de rochas. Dentro da cápsula o embrião desenvolve-se continuamente. O desenvolvimento pode ser classificado de acordo com as características apresentadas, como no exemplo da espécie de tubarão-gato, Scyliorhinus stellari, para a qual foram identificados 7 estágios.



Ovo de tubarão-gato Scyliorhinus stellaris. Modificado de Musa et al. 2018 com licença CC BY-SA 4.0.


Desenvolvimento embrionário do tubarão-gato Scyliorhinus stellaris. Modificado de Musa et al. 2018 com licença CC BY-SA 4.0.


Ovos de raia. Fonte: Bate-Papo com Netuno com licença CC BY-SA 4.0.


As espécies ovíparas podem depositar em torno de 60 ovos por ano e o tempo de desenvolvimento dos embriões varia entre muitas semanas e 15 meses. Se a cápsula não for encontrada por nenhum predador, como outros tubarões, linguados, elefantes marinhos e alguns moluscos gastrópodes, o embrião terá grandes chances de sobreviver e alcançará um tamanho relativamente grande ao nascer.


Dizem que a vida é uma aventura desde o nascimento. Mas os tubarões levaram isso muito a sério, tornando a vida uma aventura desde o início do seu desenvolvimento.

Bibliografia:


Castro, J.I., Sato, K., Bodine, A.B. 2016. A novel mode of embryonic nutrition in the tiger shark, Galeocerdocuvier, Marine Biology Research, 12:2, 200-205. DOI:10.1080/17451000.2015.1099677


Castro, J.I., Bubucis, P.M., Neal, A. 1988. The reproductive biology of the chain dogfish, Scyliorhinus rotifer. Copeia, 1988 (3), 740-746.


Hamlett, W.C., A.M. Eulitt, R.L. Jarrell, M.A. Kelly 1993. Uterogestation and placentation in elasmobranchs. Journal of Experimental Zoology, 266:347–367.


Helfman, G.S., Collete, B.B., Facey,D.E., Bowen, B.W. 2010. The Diversity of Fishes-Biology, Evolution and Ecology. Oxford, Wiley-Blackwell, 720 p.


Musa, S.M., Czachur M.V., Shiels H.A. 2018. Oviparous elasmobranch development inside the egg case in 7 key stages. PLoS ONE 13(11):e0206984. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0206984



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