O comportamento natatório dos copépodes e suas respostas ecológicas

Atualizado: 29 de ago.

Por Yonara Garcia


Os copépodes são os animais mais abundantes em ambientes pelágicos, compreendem de 55 a 95% de todo o plâncton e apresentam os maiores valores de biomassa do mesozooplâncton (classe de tamanho dos organismos planctônicos cujo tamanho varia de 0,2-20 mm). Em ecossistemas marinhos, estes organismos constituem um grupo ecologicamente importante e são tradicionalmente considerados como o elo trófico entre os produtores primários e os consumidores secundários de níveis tróficos superiores. Além disso, participam de processos oceanográficos como bomba biológica, teia trófica microbiana, reciclagem de nutrientes e ciclos biogeoquímicos de maneira geral.


Em comunidades zooplanctônicas, são comuns associações de epibiose (associação facultativa entre dois organismos: um organismo substrato - hospedeiro - e um organismo durante a fase séssil de seu ciclo de vida - epibionte -, que se fixa na superfície do hospedeiro) e parasitismo (onde um dos associados se beneficia à custa do outro). São formas de interações interespecíficas em que o hospedeiro é infestado ou infectado pelo simbionte (epibionte ou parasito), que podem apresentar consequências benéficas ou deletérias para um deles. Dentre estas relações simbióticas observadas em copépodes, destacam-se associações a bactérias como o Vibrio cholerae, protistas e outros crustáceos, como isópodes.


Diversos estudos têm revelado que estas relações simbióticas podem apresentar um impacto negativo nos organismos planctônicos. Por exemplo, copépodes infestados por epibiontes podem apresentar uma redução na velocidade de natação, podendo aumentar, por sua vez, a susceptibilidade à predação, devido aos movimentos de natação e escapatória ficarem limitados. Outros estudos mostraram que copépodes parasitados pelo dinoflagelado Ellobiopsis sp. apresentaram uma potencial redução na fecundidade devido a redução do tamanho da vesícula seminal e do desenvolvimento do espermatóforo em machos parasitados.

Um mosaico com quatro imagens e, em cada imagem, há um copépode com o dinoflagelado acoplado à sua carapaça. Os dinoflagelado tem formato de balões presos por uma corda.

Copépodes parasitados pelo dinoflagelado Ellobiopsis sp. Foto: Yonara Garcia


Uma forma para entender como estas associações podem estar afetando copépodes é por meio de estudos relacionados ao comportamento natatório desses organismos. Existem linhas de pesquisas que tem como objetivo descrever os padrões natatórios dos organismos e a partir desses padrões, responder perguntas relacionadas à ecologia comportamental deles, revelando aspectos como: os efeitos das relações simbióticas para os hospedeiros, percepção e aquisição de alimento, acasalamento, interações entre presa e predador, entre outros. Estes estudos envolvem técnicas de filmagem que são desenvolvidas com o uso de equipamentos ópticos conectados a programas de computadores, a fim de obter uma sequência de imagens e, assim, quantificar e qualificar o deslocamento do organismo. Assim, você pode comparar, por exemplo, organismos em simbiose com outros que não apresentam estas associações e entender o quanto elas podem estar sendo deletérias (ou não) para os hospedeiros.


Diversas espécies de copépodes já tiveram seus padrões natatórios descritos na literatura e essa pode ser uma ferramenta para obtermos muitas respostas para questões ecológicas, não só a nível individual e populacional, mas também sobre como as alterações no meio podem afetar esses organismos ou ainda entender se ocorre um “efeito dominó”, já que eles fazem parte de vários processos oceanográficos como citei acima. Como você pode perceber, esses estudos abrem margem para mais perguntas, mais pesquisas. Enfim, nós estamos sempre em busca de respostas, mas o que mais fazemos é abrir cada vez mais o leque de perguntas e isso é o que torna a ciência fascinante!

 

Quer saber mais como estes estudos podem ser feitos? Abaixo seguem algumas indicações de leitura sobre estudos relacionados ao comportamento natatório e associações simbióticas em copépodes:


Bielecka, L., & Boehnke, R. (2014). Epibionts and parasites on crustaceans (Copepoda, Cladocera, Cirripedia larvae) inhabiting the Gulf of Gdańsk (Baltic Sea) in very large numbers. Oceanologia, 56(3), 629-638.


Fields, D. M., & Yen, J. (1997). The escape behavior of marine copepods in response to a quantifiable fluid mechanical disturbance. Journal of Plankton Research, 19(9), 1289-1304.


Strickler, J. R. (1998). Observing free-swimming copepods mating. Philosophical Transactions of the Royal Society of London. Series B: Biological Sciences, 353(1369), 671-680.


Van Duren, L. A., & Videler, J. J. (1995). Swimming behaviour of developmental stages of the calanoid copepod Temora longicornis at different food concentrations. Marine Ecology Progress Series, 126, 153-161.


Visse, M. (2007). Detrimental effect of peritrich ciliates (Epistylis sp.) as epibionts on the survival of the copepod Acartia bifilosa. Proc Estonian Acad Sci Biol Ecol, 56(3), 173-178.


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