Ondas de Calor acontecem fora da Europa também, inclusive no oceano

Por Natasha Costa


Nós brasileiros lidamos com o calor de uma forma diferente dos europeus. O calor, para a maioria de nós, é normal. Faz parte da nossa rotina diária de verão procurar diferentes formas de nos refrescar, seja desfrutar da famosa geladinha – ou chup-chup, ou sacolé – ou da piscina dos amigos. Porém, é bem provável que calor demais não seja totalmente normal, nem mesmo para o Brasil. Imagina aqueles dias que você não consegue ver uma nuvem no céu, que uma mera caminhada te faz suar – como tampa de panela. Bom, é possível que você esteja presenciando um evento extremo chamado “onda de calor”. Uma onda de calor é exatamente quando a temperatura está anormalmente alta por alguns dias consecutivos.


Esse ano algumas regiões do Brasil presenciaram uma onda de calor. Os Cuiabanos tiveram a infelicidade de presenciar temperaturas por volta de 44°C – 5°C acima da média, quebrando os recordes de calor dos últimos 100 anos. Cuiabá inclusive foi a cidade mais quente do mundo no dia 30/09, e ficou entre os assuntos mais comentados do Twitter nesse dia. Essa onda de calor resultou em um alerta do Instituto Nacional de Meteorologia para o perigo de morte por hipertermia em algumas regiões do Brasil, como pode ser visto no mapa abaixo. Se você que mora em uma dessas regiões e o calor aí ainda não passou quando esse texto for publicado, se hidrate e se cuide.


Alertas de Onda de Calor. Fonte INMET com licença CC BY SA


Beleza, entendi, calor por dias e dias. Mas qual o problema?

Impactos das ondas de calor. Fonte Natasha Costa com licença CC BY 4.0


1. Saúde: a exposição ao calor extremo pode levar à desidratação, insolação, desmaio e outras emergências médicas, a soma disso tudo pode sobrecarregar o sistema de saúde.


2. Prestação de serviços: pessoas que trabalham em ambientes abertos têm que decidir – quando podem decidir – entre trabalhar sem segurança no calor, ou diminuir suas horas de trabalho, reduzindo sua produtividade.


3. Natureza: estresse térmico tem impacto negativo em animais e plantas.


4. Infraestrutura: durante uma onda de calor há uma crescente demanda por resfriamento e água, o que pode resultar em apagões e falta de água. Além disso, o calor pode causar o derretimento de algumas superfícies, como estradas, tornando-as perigosas e, às vezes, inacessíveis.


5. Economia: todos itens citados acima podem impactar a economia, por exemplo, a diminuição da produtividade devido ao calor no trabalho. Estudos predizem que 2% da produtividade anual global é afetada pelo calor. Essa porcentagem pode ser ainda maior em países em desenvolvimento, que têm maiores índices de informalidade no trabalho. Essa diminuição da produtividade, considerando o dólar hoje, resultaria em uma perda global em torno de 23 trilhões de reais por ano. Isso, inclusive, pode agravar a desigualdade entre países desenvolvidos e em desenvolvimento.

Onda de Calor na China em 2013, com dados de The International Federation of Red Cross and Red Crescent Societies. Fonte Natasha Costa com licença CC BY 4.0


Ondas de Calor estão relacionadas ao aumento da hospitalização de muitas pessoas, afetando principalmente idosos, grávidas, bebês e pessoas de baixa renda. Isso significa que esses eventos trazem à tona problemas sociais que geralmente são esquecidos por muitos. Por exemplo, a onda de calor que aconteceu no Canadá em 2018 matou 54 pessoas de Montreal, das quais a maioria eram idosos que moravam sozinhos e não possuíam ar condicionado.


Bom, eu não vim aqui falar disso – mas com certeza não é um fato que pode ser ignorado. Vim falar com vocês das ondas de calor que ocorrem nos oceanos. E, até onde sabemos, não existem hospitais lá.


Ondas de Calor Marinhas


Assim como as ondas de calor explicadas anteriormente, as ondas de calor marinhas são eventos que representam um período, 5 ou mais dias, no qual a temperatura do mar se encontra anormalmente alta. Por muito tempo elas passaram despercebidas, mas atualmente a comunidade científica têm dado bastante importância a elas. Muitos artigos têm sido publicados sobre esses eventos, especialmente desde que “The Blob” aconteceu. Esse nome foi dado para a onda de calor mais longa já registrada, com pelo menos 226 dias de calor extremo no Oceano Pacífico, alguns autores afirmam que esse período foi ainda mais longo. Meu palpite é que o nome veio de um filme de 1958 sobre uma bolha assassina que caçava e matava pessoas, o que é basicamente o que as ondas de calor marinhas fazem com os organismos marinhos.


Pera aí, você disse BOLHA ASSASSINA? Que?


O “The Blob” aconteceu entre o Alasca e a Baixa Califórnia, no México. O evento alcançou 2,56 °C de intensidade, ou seja, quase 3 °C acima do que é considerado normal para a região no período analisado. No inverno, por exemplo, o “normal” varia entre 8-9°C, e chegou a 12°C, enquanto no verão as temperaturas passaram de 14-15°C a valores próximos a 20°C. Alguns dos impactos foram: mudança na dinâmica e comportamento de algumas espécies de peixes, deslocamento na distribuição de organismos marinhos e até mortalidade em massa de algumas espécies de aves e mamíferos. E claro, os impactos não acabam aqui; espécies economicamente importantes também são afetadas, resultando em tensões econômicas para região. Podendo até resultar em impasses políticos entre regiões! Um exemplo disso foi o evento de 2012 no Atlântico Norte, que adiou o pico de lagostas, resultando em tensões econômicas entre pescadores do Canadá e Estados Unidos.


Ok, mas e no Brasil? E as Ondas de Calor Marinhas no Oceano Atlântico?


Recentemente, a Profa. Dra. Regina Rodrigues e colaboradores (que por sinal é minha orientadora) não só mostrou que essas ondas de calor acontecem no Atlântico Sul, como também explorou a causa desses eventos na nossa região. Os bloqueios atmosféricos explicam aproximadamente 60% das ondas de calor marinhas no Oceano Atlântico – mais especificamente na porção Sudoeste do Oceano Atlântico, mais pertinho da gente. De acordo com os autores, isso acontece porque o bloqueio atmosférico resulta em uma menor cobertura de nuvens, aumentando a incidência de radiação solar. Além disso, enfraquece os ventos, fazendo diminuir a perda de calor do oceano. Ou seja, mais calor entrando do que saindo. Outros pesquisadores do Uruguai também analisaram esses eventos no Atlântico Sul, detectando 75 ondas de calor marinhas em um período de apenas 30 anos.


Porém, não sabemos muito sobre os impactos desses eventos nesta região. Quem é do Sul já deve ter ouvido falar do famoso berbigão, ele é mais conhecido como recheio de pastel ou servido com um limãozinho, como na foto abaixo. Esse bivalve tem uma graaaande importância econômica e cultural para comunidades costeiras do Atlântico Sul e um estudo recente mostra altas taxas de mortalidade desse bivalve quando expostos a ondas de calor marinhas, vou deixar a referência no final para quem quiser saber mais sobre.


Prato de Berbigão ao bafo. (Fonte: ICMBio).

Fonte: ICMBio com licença ALRoos / CC BY-SA


E no futuro, hein?


Esses eventos acontecem naturalmente, porém, assim como outros eventos extremos - inundações, secas etc. - as ondas de calor estão se intensificando com as mudanças climáticas. Alguns estudos já mostram que esses eventos estão se tornando cada vez mais frequentes, intensos e duradouros. Isso significa que todos os impactos mencionados anteriormente podem se intensificar e talvez até surgir novos que nem imaginávamos. Para que possamos nos preparar para os possíveis impactos, o primeiro grande passo é entender melhor sobre esses eventos e o possível futuro deles.


É aí que eu entro, eu estudo sobre o futuro desses eventos... No fim, o objetivo é analisar as mudanças em quantidade, mas também entender como as propriedades desses eventos podem mudar em relação às nossas ações. Ou seja, o objetivo é entender (e claro, compartilhar com vocês) o quanto as nossas ações afetam na quantidade e intensidade das ondas de calor no oceano. E, se existe onda de calor, existe uma grande possibilidade de impacto nos organismos. Por enquanto deixo como reflexão, você acha que suas atitudes afetam o oceano e os organismos que vivem nele?

Referências e sugestões de leitura:


CARNEIRO, A. P.; SOARES, C. H. L.; MANSO, P. R. J.; PAGLIOSA, P. R., 2020: Impact of marine heat waves and cold spell events on the bivalve Anomalocardia flexuosa: A seasonal comparison. Marine Environmental Research, 156, 104898.


HOBDAY, A. J.; ALEXANDER, L. V.; PERKINS, S. E.; SMALE, D. A.; STRAUB, S. C.; OLIVER, E. C.; BENTHUYSEN, J. A.; BURROWS, M. T.; DONAT, M. G.; FENG, M.; HOLBROOK, N. J.; MOORE, P. J., SCANNELL, H. A., SEN GUPTA, A.; WERNBERG, T., A hierarchical approach to defining marine heatwaves. Progress in Oceanography, 141, 227-238, 2016.


HOBDAY, A. J.; OLIVER, E. C. J.; GUPTA, A. S.; BENTHUYSEN, J. A.; BURROWS, M. T.; DONAT, M. G.; HOLBROOK, N. J.; MOORE, P. J.; THOMSEN, M. S.; WERNBERG, T.; SMALE, D. A., Categorizing and naming marine heatwaves. Oceanography 31, 162– 173., 2018.


RODRIGUES, R. R.; TASCHETTO, A. S.; GUPTA, A. S.; FOLTZ, G. R., Common cause for severe droughts in South America and marine heatwaves in the South Atlantic. Nature Geoscience, 12(8), 620-626, 2019.


SINGH, R.; ARRIGHI, J.; JJEMBA, E.; STRACHAN, K.; SPIRES, M.; KADIHASANOGLU, A., Heatwave Guide for Cities. Red Cross Red Crescent Climate Centre, 2019.


Nesta quarta, às 15h00, Cuiabá foi a cidade mais quente do mundo | Gazeta Digital. (2020). Retrieved 8 October 2020, from https://www.gazetadigital.com.br/colunas-e-opiniao/fogo-cruzado/nesta-quarta-s-15h00-cuiab-foi-a-cidade-mais-quente-do-mundo/630909


WERNBERG, T.; HOLBROOK, N.; OLIVER, E.; HOBDAY, A., All about MHWs. [online] MARINE HEATWAVES. Available at: http://www.marineheatwaves.org/all-about-mhws.html [Accessed 27 Nov. 2019].

Sobre a autora:

Sou Oceanógrafa e mestranda em Oceanografia pela UFSC. Minha grande paixão dentro da Oceanografia é o estudo das Mudanças Climáticas, mas tenho interesses bem amplos e já estagiei até com foraminíferos. Eu sou originalmente de Goianésia, interior de Goiás e a primeira vez que conheci o mar tinha 10 anos. E consigo reviver essa memória como se fosse hoje. Pra mim era - e ainda é - muito curioso você olhar pra algo e não saber onde fica o fim, como funciona, por que é salgado? Demorou para que eu entendesse que estudar o mar seria uma profissão. E claro, como um grande clichê da Oceanografia, tento surfar.

Contato: natashavcostaa@gmail.com


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