Precisamos falar dos homens nas ciências do mar

Por Juliana Leonel


ATENÇÃO: antes de me cancelar leia o texto até o final.


Ilustração de Alexya Queiroz



Ekman, Coriolis, Navier, Stokes, Reynold, Redfield... Muitos são os homens responsáveis por incríveis descobertas oceanográficas e, por isso, precisamos falar deles. Isso mesmo, você não entendeu errado.


Mas o que eles têm em comum, além de serem homens?


Vejamos alguns conceitos essenciais para a oceanografia e que levam o nome de quem os descobriu/inventou:

- Efeito de Coriolis (Gaspard-Gustave de Coriolis, 1792-1843, era francês)

- Transporte de Ekman (Vagn Walfrid Ekman, 1874-1954, era sueco)

- Equação de Navier-Stokes (Claude-Louis Navier, 1785- 1836, era francês e George Gabriel Stokes, 1819-1903, era irlandês)

- Razão de Redfield (Alfred C. Redfield, 1890-1983, era americano)

- Número de Reynolds (Osborne Reynolds, 1842-1912, era irlandês).


São em sua maioria europeus e realizaram seus feitos científicos em períodos nos quais esperava-se que as mulheres se interessassem apenas por casar, ter filhos e cuidar da família. Naquele tempo, frequentar uma universidade e obter um diploma era bastante incomum para uma mulher, para não dizer quase impossível, ou então restrito a algumas áreas consideradas "mais femininas", como literatura e artes. A presença feminina era temida de tal forma no ambiente científico que até para os pesquisadores homens, associar-se a uma mulher, poderia ser o fim da sua carreira. Vejamos o caso de Stokes que, em 1857, teve que abrir mão da sua posição no Pembroke College (Cambridge) porque o estatuto da instituição não permitia que ele se casasse; ele só retornou ao cargo 12 anos depois quando o estatuto foi revisado.

Retrato em preto e branco de Sir George Gabriel Stokes, um homem branco, de costeletas grandes e vestindo um terno com gravata borboleta

Sir George Gabriel Stokes, co-autor das equações de Navier–Stokes equations, foi impedido de seguir em sua posição no Pembroke College de Cambridge por ter se casado. (Fonte: WikiCommons, domínio público)


Além disso, mesmo que as mulheres conseguissem fazer um curso na área de ciência naturais ou exatas ou engenharia, não lhes era permitido participar das expedições oceanográficas - nos EUA, por exemplo, as mulheres só foram permitidas em embarques científicos a partir de 1959 e a primeira expedição liderada por uma mulher só ocorreu em 1968 com a americana Tanya Atwater.


Retrato da Drª Tanya Atwater, uma mulher branca, de cabelos loiros escuros e ondulados. Ela usa óculos e sorri para a câmera enquanto aponta para um globo terrestre

Drª Tanya Atwater, a primeira mulher a liderar uma expedição oceanográfica. Isso ocorreu apenas em 1968! A pesquisadora segue ativa - aliás, esta é a foto de seu perfil no ResearchGate, vale a pena acompanhar seu trabalho por lá. (Fonte: University of California, Copyright © 2006).


E se fosse o contrário ou se as mulheres também pudessem seguir uma carreira em ciência? Se o Ekman não tivesse a bordo do Fram para estudar a deflexão dos icebergs para a direta do vento predominante? Como se chamaria o Efeito de Ekman hoje? Talvez Efeito de Catarina? Pode parecer exagero imaginar esses cenários, mas vamos relembrar que mesmo quando mulheres fazem descobertas elas são apagadas. Não podemos esquecer dos estudos de Eunice Foote de 1856 sobre dióxido de carbono como gás estufa e os efeitos no aquecimento do clima; no entanto, quem leva os créditos por isso é o irlandês Tohn Tydall que só falou disso em 1861.


Pois é, ciência e descobertas não são sobre genialidade, mas sobre oportunidade (e visibilidade).


Outro cenário: enquanto Ekman se debruçava sobre seus estudos para entender o movimento dos icebergs, quem lavava sua roupa? Quem limpava sua casa? Quem lhe servia uma comida quentinha e gostosa (ok, estou supondo que a comida era quente e gostosa, mas como era sueco talvez sua comida favorita fosse gravlax - que sim, é gostoso, mas não é quente). Os livros não trazem essa parte, mas com certeza tinha uma mulher "dando uma forcinha" nessas tarefas… quem sabe uma mulher negra, visto que a escravidão na Suécia foi mantida até metade do século XIX.


Agora vamos refletir sobre a origem de todos esses grandes pesquisadores, desbravadores e aventureiros… todos vindos do hemisférios norte (= Europa ou EUA). O quanto deixou-se de aprender - ou demorou-se mais para tal - porque o conhecimento vindo de outros povos foi desconsiderado? Por exemplo, no extremo meridional do Saara, está o que sobrou da cidade de Timbuktu, guardiã de milhares de manuscritos científicos antigos. Eles revelam um conjunto de conhecimentos próprios no campo da astronomia, sem que aquele povo tivesse qualquer contato com o desenvolvimento científico da Europa renascentista. Apesar de não ser um exemplo direto sobre oceanografia, serve para ilustrar como a hegemonia européia da ciência excluiu conhecimentos científicos que não vieram dos detentores do lugar de fala (= homem, branco, europeu).


Por isso, precisamos falar sim sobre os homens (e tantos outros recortes) nas ciências do mar.

 

Sugestão de leitura complementar:


“Mulheres e o oceano: invisibilidade ou cegueira?”, por Juliana Leonel e Adriana Lippi para a revista Conexão de Saberes.


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