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Quem ganha o Super Trunfo® “Melhor Pai do Oceano”?

Ilustração de Joana Ho


Que tal chamar aquela pessoa que você considera um paizão para jogar o Super Trunfo® “Melhor Pai do Oceano” contigo?


Ao longo de milhares de anos, a seleção natural atua sobre as mais diferentes espécies selecionando positivamente adaptações físicas e/ou comportamentais que aumentem a taxa de sobrevivência de seus indivíduos. Dentre algumas dessas estratégias podemos observar o investimento na produção de menor quantidade de gametas pelas fêmeas, porém maiores e mais complexos; a escolha de melhor parceiro(a), seja pelas fêmeas ou pelos machos; e o cuidado parental. Você sabe o que é cuidado parental?


O cuidado parental é qualquer ação realizada pelos pais que favoreça o aumento da probabilidade de sobrevivência do filhote saudável ao custo da própria capacidade de gerar novos descendentes (Tivers 1972). É uma forma de comportamento na qual a mãe e/ou o pai despendem tempo e energia auxiliando na sobrevivência de sua(s) prole(s), aumentando a probabilidade de sua chegada à vida adulta. Como as fêmeas Jacaré-do-Papo amarelo (Caiman latirostris) que após a eclosão dos ovos, carregam os filhotes sobre as costas, mantendo-os aquecidos e alimentando-os. Os cuidados parentais são muito dinâmicos e variam entre as espécies e até mesmo entre os sexos, podendo ser agrupados em quatro categorias: cuidado biparental, cuidado monoparental por fêmeas, cuidado monoparental por machos ou nenhum cuidado parental (Webb et al. 1999).


No reino animal é comum que as fêmeas apresentem mais comportamentos de cuidado com os filhotes do que os machos. Os mamíferos marinhos, por exemplo, têm grande cuidado parental, mas é apenas materno, os machos não possuem comportamento de cuidado de seus filhotes. As fêmeas de Baleias-Jubarte (Megaptera novaeangliae) migram por cerca de 4000 quilômetros para parir e amamentar seus filhotes em águas mais seguras, quentes e costeiras (baleiajubarte.org.br). E os machos?


É bem raro na natureza que os machos cuidem sozinhos dos seus filhotes, sendo parte de um grupo muito exclusivo, nossos trunfos são machos paternais e muito dedicados a seus filhotes.


Pegue as suas cartas do Super Trunfo® “Melhor Pai do Oceano” e vamos ver quem vence em cada jogada.


Apresentando os nossos Super Trunfo®:


Trunfo n°1: Cavalo-marinho (Hippocampus sp.): O pai solteiro e exigente que sente na pele a gravidez!

Hippocampus reidi grávido


Cavalo-marinho macho no momento do parto


Cavalos-marinhos são peixes ósseos e dioicos (sexos separados), que se alimentam de plâncton, crustáceos e pequenos animais. Podem ser encontrados ao redor do mundo, geralmente em regiões tropicais e temperadas, em habitats marinhos e estuarinos, com profundidade entre 8 e 45 m (exceto uma espécie encontrada a 90 m).


Enquanto as fêmeas são disputadas pelos machos na maioria das espécies, no caso de cavalos-marinhos, o oposto é observado. As fêmeas apresentam comportamento competitivo enquanto os machos “escolhem” a melhor fêmea para reprodução, e permanecem monogâmicos durante o período reprodutivo. De maneira simples, o acasalamento envolve o macho sinalizando para a fêmea que está pronto, para que ela coloque seu tubo de postura (ovipositor) em um orifício presente em sua bolsa incubadora. Liberando seus ovócitos dentro da bolsa do macho, que depois se fecha para fecundação pelos espermatozóides do macho. O papai cavalo-marinho carrega os filhotes durante a gestação, sente as “dores do parto” e, por fim, dá à luz! A gravidez é acompanhada de muitas adaptações morfofisiológicas, como a remodelação da bolsa incubadora, o transporte de nutrientes e de resíduos, a troca gasosa, a osmorregulação e a proteção imunológica dos embriões, semelhante aos mamíferos (para saber mais sobre os cavalos marinhos, leia nosso post Querida, estou grávido!).


Trunfo n°2: Pinguim-Imperador (Aptenodytes forsteri): O pai que dá tudo por você!

Pinguim-Imperador incubando em seus pés o ovo recém posto. Foto por ©Stefan Christmann / naturepl.com


Pinguim-Imperador aquecendo seu filhote


O Pinguim-Imperador é uma ave marinha de grande porte. Quando adulto, sua altura pode variar entre 1,0 e 1,32 m e pode pesar entre 25 - 45 kg! Vive em colônias no continente Antártico ou em ilhas subantárticas e suporta temperaturas de -40° C no inverno!


Os pinguins são organismos monogâmicos e colocam apenas um ovo por ano, que é cuidado pelo macho. “Sentado” sobre o ovo para mantê-lo aquecido durante o rigoroso inverno antártico, o papai Pinguim-Imperador fica cerca de 2 meses sem se mexer e sem se alimentar. E, se a mamãe não chegar a tempo, a primeira refeição do filhote será uma substância rica em proteínas produzida pelo papai. Mesmo depois do nascimento, os pais e mães Pinguins-Imperadores permanecem cuidando, alimentando e ensinando seu filhote.


Trunfo n°3: Peixe-palhaço (por exemplo Amphiprion ocellaris): Pai não é quem fertiliza!!

Indivíduo adulto de Amphiprion ocellaris. Foto por ©François Libert / fishi-pedia.com


Papai Peixe-palhaço retirando a sujeira sobre os ovos e oxigenando a água em seu entorno


Os peixes-palhaços podem ser encontrados na região Indo-Pacífico e Mar Vermelho, principalmente no sudeste asiático, Austrália, ilhas ao sul do Japão e até mesmo no leste africano. Alimentam-se de pequenos crustáceos copépodos, larvas de tunicados e algas. Possuem uma estreita relação com as anenonenone...anêmonas (lembra do filme do Nemo?). Estudos indicam que os peixes-palhaço produzem um muco que os protege das “queimaduras” provocadas pelas anêmonas (para saber mais sobre essa relação entre as anêmonas e os peixes-palhaços, leia nosso post Refúgios em ambientes marinhos).


Antes mesmo de ter os ovos, o macho constrói um ninho numa rocha próxima à anêmona onde pretende “morar” com a fêmea, para depois cortejá-la. Depois que a fêmea solta seus ovócitos próximos ao ninho, o macho rapidamente passa e fertiliza-os (fertilização externa). O papai peixe-palhaço fica dentro da anêmona e cuida de forma atenta dos ovos, abanando-os com as nadadeiras (removendo sujeira ou reciclando a água próxima aos ovos) e sendo agressivo com possíveis predadores que se aproximam. Mas nem sempre pai é aquele que fertiliza! Machos solteiros de peixes-palhaço, quando notam um ninho sem proteção, rapidamente adotam aqueles ovos, cuidando e protegendo-os como se fossem seus!


Trunfo n°4: Aranha-do-mar (Classe: Pycnogonida, por exemplo: Anoplodactylus evansi): O pai que carrega as crias para onde for!!

Indivíduo da espécie Anoplodactylus evansi observado na Austrália. Foto por ©johneichler / biodiversity4all.org


Macho de Anoplodactylus evansi carregando os ovos presos aos ovígeros (pernas modificadas). Imagens dorsal (esquerda) e ventral (direita). Foto por © Janine Baker / biodiversity4all.org


Apesar do nome, esses artrópodes não são aranhas de verdade, são da classe Pycnogonida (aranhas são Arachnida). Possuem distribuição cosmopolita, ou seja, ao redor do mundo todo, desde mares tropicais à polares, sendo observados desde regiões entremarés até grandes profundidades, a mais de 6000 m. Mais de 1320 espécies já foram descritas! Seus tamanhos e formas variam muito entre as diferentes espécies, indo desde pequenos indivíduos com pernas curtas até com longas pernas. A maioria das espécies possui 4 pares de patas (8 patas) mas já foram observadas espécies com 5 pares e até mesmo com 6!!


O cuidado parental não é comum entre os artrópodes, mas esse grupo é todo diferentão mesmo! Depois que o macho Aranha-do-mar faz a corte e consegue convencer a fêmea a acasalar, ela libera os ovócitos na água. Rapidamente o macho fecunda esses ovócitos e os recolhe, grudando um no outro, formando uma grande bola. Esse “grande grude” vai ficar preso aos ovígeros, primeiro par de pernas modificados, que têm a função de carregar os ovos bem junto ao corpo do papai Aranha-do-mar, e é transportado para onde ele for até a eclosão das larvas ou, dependendo da espécie, até a fase juvenil!! Esses ovos podem atrapalhar a alimentação e locomoção do macho e até mesmo torná-lo um alvo mais fácil para predadores.


Trunfo n°5: Lula-de-recife “de barbatana grande” (Sepioteuthis lessoniana): Ei!! Eu também cuido e faço faxina como um pai!!

Casal de lulas Sepioteuthis lessoniana cuidando de seus ovos. Foto: Ryan Rossotto, Nat Geo Image Collection


Macho com dupla sinalização, exibindo padrão de corte sexual para a fêmea (roxo brilhante) e um padrão antagônico para o macho competidor (marrom escuro e flashes brancos). Foto: Sampaio et al. 2021


As lulas não são super conhecidas pelos seus fortes cuidados parentais, na maioria das espécies, após o acasalamento, os machos vão embora em busca de novas fêmeas. Mas não o nosso trunfo!!


As Lulas-de-recife são espécies tropicais cosmopolitas, que se distribuem amplamente pelos recifes de corais do mundo, em profundidades de 0 a 100 metros. Os maiores indivíduos, machos adultos, podem chegar a 40,1 cm. São carnívoros vorazes e se alimentam principalmente de moluscos, peixes e camarões. Já foram descritos comportamentos agressivos entre os machos disputando as fêmeas, como coloração agressiva na metade do corpo voltada para o outro macho e outra coloração na metade voltada para a fêmea. Até 2021 não eram considerados como pais cuidadosos, mas após a observação in situ de cientistas, tudo mudou e essa espécie se tornou ainda mais interessante (Sampaio et al, 2021).


Os cientistas observaram e filmaram, em diferentes recifes de corais, que machos Lula-de-recife selecionam melhores localizações para fêmea colocar seus ovos fertilizados, protegidas de correntes, e entram nas fendas até quase metade do corpo por alguns instantes. Deixando a fêmea sozinha e correndo risco de acasalamento com outro machos. Ao entrar na fenda, o macho estaria colocando-se em risco e, supõe-se, garantindo que não haja predadores, outro machos ou outros riscos para os ovos. Além de limpar o local para que a fêmea coloque os ovos em uma superfície estável e limpinha, os cientistas observaram fluxos de sedimentos sendo “atirados” para fora das fendas escolhidas.



E aí, se surpreenderam com as habilidades e funções desses pais? Agora, por que ainda nos espanta tanto ver pais sendo pais?


Na sua opinião, qual desses paizões merece o título de Super Trunfo® “Melhor Pai do Oceano”?

 

Referências ou sugestão de leitura:



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1 comentario


muito bom. Parabéns Mandei este texto pra escola de minha neta. Eu voto no Peixe-Palhaço.

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