Rodolitos: ‘Like a rolling stone’

Por Nicholas Vale


Arrastados por correntes marinhas, rolando pelo fundo e aos poucos ganhando uma aparência de seixos, os rodolitos (uma junção dos termos rodófitas = algas vermelhas + oolito = nódulos) se formam pela aglomeração de pequenas algas calcárias (algas do grupo Rhodophyta). Essas algas crescem umas sobre as outras ou incrustadas em fragmentos de concha,grãos de areia outambém aderidas a um substrato contínuo, recobrindo costões rochosos. Os rodolitos ocorrem na maioria dos habitats marinhos, dos trópicos aos pólos, da zona entremarés até 270 m de profundidade, estando entre os organismos mais abundantes a viverem na zona fótica, que é a parte de um ecossistema aquático que recebe luz solar suficiente para que ocorra a fotossíntese.


Figura 1A. Exemplo de rodolitos com macroalga (Stypopodium sp.) associada. Figura 1B. Imagem aproximada de um rodolito com destaque para a cobertura viva (coloração vinácea) e diversas macroalgas associadas. (Fonte: arquivos pessoais do autor N. Vale com Licença CC BY-SA 4.0).


Os rodolitos são chamados vulgarmente de rochas vivas por causa das algas que formam seu exterior, chamados também de organismos construtores, porque acumulam carbonato de cálcio na sua constituição, assim como corais, briozoários e moluscos com conchas, e contribuem para a formação do fundo do oceano. Os rodolitos variam muito em forma e tamanho, podendo estar agregados uns aos outros, transformando fundos de areia em ambientes altamente complexos, com reentrâncias e saliências que servem de abrigo para peixes, crustáceos e invertebrados. Embora tenham uma parte viva, os rodolitos não são recursos renováveis. “São necessários milhares de anos para os rodolitos se formarem e criarem um banco expressivo. Eles aumentam de tamanho (1 - 1,5 mm por ano) à medida que seu esqueleto, rico em carbonato de cálcio (CaCO3), mineraliza”, afirmou o pesquisador brasileiro Rodrigo Moura, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, no artigo publicado na revista científica PloS ONE em 2012, sobre os bancos de rodolitos do Atlântico Sudoeste Tropical.


Os bancos de rodolitos ocorrem nos oceanos do mundo todo e estão entre as maiores comunidades bentônicas marinhas do planeta dominadas por macroalgas, em termos de cobertura espacial. São um dos componentes mais abundantes no recobrimento do fundo de plataformas continentais, especialmente no Brasil, mas também na costa do México e da Austrália.


Mergulhador à 8 m de profundidade, no banco de rodolitos do Parque Nacional Marinho dos Abrolhos ( Fonte: arquivos pessoais do autor N. Vale com Licença CC BY-SA 4.0).


Os primeiros estudos que localizaram fundos de algas calcárias no Brasil, na década de 1970, tinham apenas caráter geológico e focaram na caracterização dos sedimentos da plataforma continental e perspectivas para a potencial exploração mineral deste recurso. A partir de meados dos anos 90, os bancos de rodolitos começaram a ser estudados sob um ponto de vista biológico, provendo informações sobre o mapeamento e estrutura do banco. Porém, apenas a partir do ano 2000, com o incremento de estudos relacionados a diferentes aspectos de bancos de rodolitos, é que foi possível ter informações consideradas consistentes sobre a distribuição em pequena e média escala, estrutura dos bancos, organismos associados, composição de espécies de algas calcárias, produção de CaCO3 e aspectos fisiológicos da formação dos rodolitos.


Os bancos de rodolitos são hotspots de biodiversidade, sendo importantes para a vida de outros organismos por servir de abrigo, onde diversos organismos vivem dentro e em cima do rodolito, como invertebrados, esponjas e outras algas, e proporcionar um ambiente mais rico biologicamente do que um fundo de areia. Eles são essenciais na construção de recifes de corais em regiões tropicais, agindo como cimentadores, protegendo esse ambiente contra ação erosiva de ondas, possibilitando o desenvolvimento e a manutenção desses ecossistemas. Além disso, funcionam como corredores entre os recifes de corais, facilitando a migração de lagostas e peixes. Por isso, existe uma comunidade diversa associada, formada por microrganismos, algas, invertebrados e peixes. “Em geral os recifes de corais concentram as atenções, mas agora se sabe que o Brasil tem essas outras fábricas de carbonato de cálcio de vital importância para a biodiversidade marinha”, comenta o biólogo Jason Hall-Spencer, da Universidade de Plymouth, Inglaterra. No entanto, o pesquisador levanta preocupação ao apontar que “Essas algas coralinas estão entre os organismos calcificantes que parecem mais sensíveis à acidificação dos oceanos”. Do ponto de vista ambiental, os rodolitos têm ainda outra função importante: ajudam a retirar carbono da atmosfera, influenciando a regulação do clima do planeta. Eles absorvem o gás carbônico (CO2) diluído na água e o transformam em calcário.


Exemplo da parte interna de um rodolito. Note a presença de conchas de moluscos bivalves (Lithophaga sp.), fragmento de anelídeo (Sipuncula sp.), pequenos tubos brancos de poliquetas (Serpulidae), espaços vazios possivelmente oriundos da perfuração de organismos erosores e a presença de alga calcária (em coloração esbranquiçada na parte mais externa do rodolito) ( Fonte: arquivos pessoais do autor N. Vale com Licença CC BY-SA 4.0).


Uma curiosidade é que a maioria dos bancos de rodolitos em todo o mundo são compostos por apenas duas ou três espécies de algas e cada rodolito é geralmente constituído por uma única espécie. Os bancos de rodolitos no Brasil são uma exceção, onde seis ou mais espécies podem ser encontradas formando rodolitos em uma área relativamente restrita, e não é incomum encontrar até quatro espécies de algas crescendo em um único rodolito. 


Mesmo sendo tão importantes, os rodolitos estão ameaçados pelas atividades humanas. A maior ameaça é o aumento da acidez do mar, consequência da elevação dos níveis de CO2 na atmosfera – em boa parte por queima de combustíveis fósseis. Outra ameaça aos rodolitos é a exploração econômica do calcário. De acordo dados levantados pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (IBAMA) em 2008, entre 96.000 e 120.000 toneladas deste recurso são extraídos por ano no Brasil. Como são fáceis de coletar, há empresas que os usam como fonte do mineral. Além de calcário, eles contêm quantidades variáveis de outros elementos químicos (ferro, manganês, bromo, níquel, cobre, zinco e molibdênio) usados na agricultura, nas indústrias dietética e de cosméticos, na nutrição animal e no tratamento da água. Assim como a não criação de áreas de preservação de bancos de rodolitos e o descarte de efluentes no mar também são ameaças.


O refinamento de informações sobre a distribuição e a estrutura dos bancos de rodolitos da plataforma continental tem sido apontado pelo IBAMA como necessidade e prioridade para aprimorar o processo de licenciamento ambiental de atividades de exploração e produção de óleo e gás na plataforma continental brasileira. Conhecer os bancos de rodolitos da maneira mais completa possível é essencial e urgente para que se possa gerir esforços no desenvolvimento de estratégias de conservação eficientes, que permitam fazer inferências sobre áreas mais ou menos importantes, áreas com maior ou menor diversidade associada, áreas marginais, dentre outros aspectos, servindo de base para a tomada de decisão pelos órgãos governamentais.

Para saber mais:


Amado Filho, G.M., Moura, R.L. et al. 2012. Rhodolith beds are major CaCO3 bio-factories in the tropical south west Atlantic. PLoS ONE. v. 7(4). DOI: 10.1371/journal.pone.0035171.


Amado Filho, G.M., Pereira-Filho, G.H., Bahia, R.G., Longo, L.L. 2017. South Atlantic Rhodolith Beds: Latitudinal distribution, species composition, structure and ecosystem functions, threats and conservation status. In Riosmena-Rodrigues, R., Nelson, W., Aguirre, J. (eds). Rhodolith/Maërl Beds: A Global Perspective. Coastal Research Library, Springer, 15: 299-318. DOI: 10.1007/978-3-319-29315-8_12.


Kerr, R.Kintisch, E.Stokstad, E. 2010. Will Deepwater Horizon Set a New Standard for Catastrophe?  Science, vol. 328, issue 5979, pp. 674-675. DOI: 10.1126/science.328.5979.674.


M. Nasri Sissini, F. Berchez, J. Hall-Spencer, et al. 2020. Brazil oil spill response: Protect rhodolith beds. Science 367 (6474), 156. DOI: 10.1126/science.aba2582.


Oceanos: Zona Fótica. https://somos.twigworld.com.br/film/oceanos-zona-fotica-7297/


Vale, N.F.L., Amado-Filho, G.M., Braga, J.C., et al. 2018. Structure and composition of rhodoliths from the Amazon River mouth. Journal of South American Earth Science, 84: 149-159.  DOI: 10.1016/j.jsames.2018.03.014.

Sobre o autor:

Biólogo de formação e nascido no Ceará, atualmente sou estudante de Doutorado em Botânica pelo Instituto de Pesquisa Jardim Botânico do Rio de Janeiro (Brasil) e em Ciências da Terra pela Universidad de Granada (Espanha), em regime de cotutela. Realizei minha trajetória científica na área de Oceanografia Biológica e na área de Botânica Marinha, atuando principalmente nas áreas de caracterização da biodiversidade marinha, estrutura e dinâmica de bancos de rodolitos e evolução paleoecológica de plataformas carbonáticas. Atualmente venho atuando mais diretamente na determinação do papel dos organismos construtores (algas calcárias) na estruturação de formações coralíneas da Plataforma Continental Brasileira e na avaliação da evolução paleoecológica da Margem Equatorial Brasileira. A minha ligação com o oceano começou ainda na adolescência, quando assistia os garotos mais velhos surfar nas ondas das praias de Fortaleza/CE nos finais de semana. Não demorou muito a me enturmar e começar a surfar, consequentemente a me aproximar da natureza do mar e do estilo de vida proporcionado pelo esporte. O que me levou inevitavelmente a escolher Biologia como profissão. Na graduação tive a oportunidade de conhecer diversas áreas, mas a que mais me encantou foram as Ciências Marinhas, por estudar a biota e a ecologia dos oceanos, buscando compreender os mecanismos biológicos que funcionam nos oceanos relacionado com a física, a química e a geologia do oceano. Também tenho relevante interesse no estudo paleoambiental, para compreender e interpretar a história evolutiva dos oceanos e da Terra. nicholasdovale@jbrj.gov.br / nicholasvale@correo.ugr.es


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