Tartarugas marinhas e a pesca nos oceanos

Atualizado: 2 de Fev de 2019

Por Melissa Marcon


As tartarugas marinhas apresentam-se distribuídas globalmente e podem ser encontradas em mares tropicais e subtropicais de todos os oceanos (MÁRQUEZ, 1990). Das sete espécies de tartarugas marinhas existentes no planeta, cinco utilizam a costa brasileira para alimentação e reprodução (MARCOVALDI & MARCOVALDI 1999).

Figura 1. Cinco espécies de tartarugas marinhas que podem ser encontradas na costa brasileira. A) Tartaruga cabeçuda; B) Tartaruga verde; C) Tartaruga de couro;

D) Tartaruga de pente e Tartaruga oliva. Fonte


As causas da redução na população das tartarugas marinhas estão ligadas direta ou indiretamente à destruição do ambiente pela ação antrópica nas praias de desova (como iluminação, circulação de carros, entre outros), predação dos ninhos, interação com a pesca, e poluição (SPOTILA et al., 2000; BUGONI et. al., 2001; TOMÁS et al., 2001; BARROS et al., 2010). Além disso, a interação das tartarugas marinhas com as artes de pesca é um dos fatores de mortalidade e injúria de indivíduos jovens e adultos em todo o mundo (LUTICAVAGE et al., 1997; PINEDO & POLACHECK, 2004; KOTAS et al., 2004; DOMINGO et al., 2006; GARDNER et al., 2008).


Em minha dissertação de mestrado eu avaliei a interação de tartarugas marinhas de couro (Dermochelys coriacea) e cabeçuda (Caretta caretta) com a pesca de espinhel pelágico na região Sudeste/Sul do Brasil. Meu objetivo principal com esse estudo foi quantificar os padrões de distribuição das capturas acidentais dessas espécies de tartarugas marinhas e correlacioná-los com variáveis ambientais (oceanográficas), biológicas e operacionais, esperando contribuir com a formulação de estratégias de conservação e manejo de pesca que beneficiem a manutenção do ecossistema pesqueiro.


Estimativas da captura incidental dessas tartarugas pelo espinhel pelágico têm gerado preocupação em relação às taxas de mortalidade por pesca, e ao baixo potencial de recuperação dessas populações no Oceano Atlântico. Para entender de forma simples um pouco mais sobre esta arte de pesca clique aqui.

Figura 2. Pesca com espinhel pelágico de superfície. Distribuição dos petrechos de pesca. Fonte


O monitoramento das capturas acidentais, juntamente com o registro dos respectivos dados abióticos e operacionais da pesca, muitas vezes obtidos por observadores de bordo em frotas comerciais, deve ser considerado como uma rica fonte de informação, pois permite melhorar a compreensão do comportamento das populações de tartarugas marinhas, bem como apreciar a importância das variações ambientais sobre a dinâmica das populações.


Em meu estudo pude identificar que a tartaruga cabeçuda foi capturada acidentalmente em maior número que a tartaruga de couro, assim como observado por outros autores. O fato de a maior parte dos indivíduos de tartaruga cabeçuda haver sido fisgado pela boca, é congruente com o fato da espécie se alimentar de peixes, logo esta espécie alimenta-se da isca do espinhel. Já a tartaruga de couro, em sua maioria, foi encontrada com o anzol externamente ao corpo, o que está relacionado com sua alimentação, já que a espécie se alimenta de plâncton gelatinoso.

Figura 3. Tartaruga cabeçuda capturada acidentalmente fisgada pelo bico (esquerda) e tartaruga de couro encontrada emaranhada ao espinhel (direita). Fonte: Venancio Guedes de Azevedo.

Observei também que em relação a sazonalidade, ou seja, estação do ano, as tartarugas foram capturadas em maior número no outono. É possível que nessa estação ocorra algum fenômeno oceanográfico que favoreça a maior abundância relativa de tartarugas. Desse modo, o pico de capturas acidentais encontrado duranto o outono,  pode estar relacionado à migração das mesmas para essa região mais costeira, possivelmente para alimentação, onde, consequentemente, uma maior vulnerabilidade ao espinhel possa ocorrer durante essa estação.


As capturas acidentais da tartaruga cabeçuda analisadas no meu mestrado foi significativamente maior quando lulas foram usadas ​​como isca em operações de pesca, demostrando assim, a preferencia por este tipo de isca por esta espécie. Cabe destacar que observações feitas anteriormente por outros autores havendo encontrado  reduções na captura da tartaruga cabeçuda usando, inclusive, a cavalinha (Scomber scombrus) como isca, assim como autilização do anzol circular para dimunuir os danos da captura acidental. A alimentação oportunista da tartaruga cabeçuda em sua fase juvenil oceânica torna a espécie muito suscetível à captura incidental em espinhel pelágico.


Leia mais sobre métodos para se reduzir a captura acidental de tartarugas marinhas em operações de pesca neste link.

De modo geral, pude identificar padrões de comportamento, como preferência de localidade e tipo de isca, assim como o tipo de anzol e a época do ano em que as tartarugas marinhas destas espécies são capturadas em maior número.


É importante salientar que os dados dependentes da pesca se mostraram muito úteis, podendo ser, às vezes, a única fonte de informação para a análise dos padrões de comportamento migratório, localização e habitat preferido das tartarugas marinhas em diversas partes do mundo. Pode parecer paradoxal que a própria atividade impactante seja a que nos permite conhecer, com mais detalhes, as populações impactadas. Mas esses dados de capturas acessórias ou acidentais, são de fato cada vez mais completos e permitem uma melhor identificação dos potenciais impactos que essas populações sofrem.

Nesse sentido, com base nos resultados do meu mestrado, podem ser propostas diversas iniciativas e medidas visando contribuir com a conservação das espécies de tartaruga marinha estudadas e com o manejo da atividade pesqueira.


A vida nos oceanos não é nada fácil para as nossas belas gigantes marinhas, sendo assim, todos os esforços para conhecê-las e protegê-las, assim como o ambiente que frequentam, é extremamente válido e gratificante.

Sobre Melissa Marcon:

Médica veterinária formada pela Faculdade de Jaguariúna (2009). Apaixonada pelo mar e seus habitantes finalizei meu mestrado em Oceanografia Biológica pelo Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo em 2013. Atuo na área clínica médica e cirúrgica de pequenos animais e animais silvestres. Possuo experiência na área de coleta de material biológico, monitoramento de praia, necropsia, resgate e reabilitação de animais marinhos, em especial, quelônios marinhos.


Melissa já publicou outro post com a gente, acesse "Uma veterinária, a tartarugas marinhas, e a oceanografia"


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