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  • Você já sobreviveu a um concurso?

    Por Ju Leonel Ilustração de Luiza Soares Isso mesmo, não é sobre ser aprovada ou não... é sobre ter sobrevivido a esse processo desgastante tanto físico como emocionalmente (e também financeiramente), que nos suga e nos conduz até nossos limites... Não estou falando de ultramaratona ou treinamento para ser astronauta ou subir o Everest, mas de concurso público para professor de ensino superior. Um processo que geralmente só tem uma vaga disponível, mas dezenas (ou até centenas) de inscritos e que envolve uma maratona de provas escritas, apresentações, dar aula e arguições... e que pode se prolongar por semanas. Apesar de haver diferença no processo seletivo entre universidades/departamentos, há alguns rituais que se repetem: - antes mesmo de chegar a data da seleção tem o processo de documentar o currículo; não importa se seu artigo está na Nature , se não tiver uma cópia em papel dele anexada ao seu currículo (CV), ele não vale de nada... e essa regra se aplica para tudo e qualquer coisa que estiver no seu currículo. Então, não jogue fora nada sem antes escanear e ter cópia em 3 HDs, 2 nuvens virtuais e mandar para seus 7 diferentes endereços de e-mail! Além do CV, tem que escrever o memorial, e que coisa bizarra é escrever algo sobre você mesma tentando exaltar seus feitos enquanto a Síndrome da Impostora bate forte dizendo ao pé do ouvido "Amiga, ninguém liga que você foi convidada para palestrar no congresso mais importante da sua área, isso foi sorte porque você conhecia os organizadores e não competência". Sem falar que o memorial implica em relembrar toda a sua caminhada, quando às vezes têm coisas que a gente quer esquecer e não falar nem na terapia. Por fim, mas não menos trabalhoso, tem o plano de trabalho: que linhas de pesquisa pretende desenvolver (e como fazer isso enquanto nossa ciência é sucateada), projetos que irá executar (tirando dinheiro sabe-se lá de onde), disciplinas que irá ministrar, projetos de extensão que conduzirá e tudo que você acha que irá fazer uma vez contratada. Digo aqui "acha que" porque, depois de contratada, você irá passar mais tempo em reuniões infindáveis e desnecessárias do que pesquisando/ensinando. Ufa... Calma que agora vem o concurso em si: - prova escrita: comumente, no edital são indicados uns 10 tópicos e destes 1 ou 2 serão sorteados no dia da avaliação. Depois os candidatos têm de 4-5 horas para escrever tudo(!) o que sabem sobre o tema. E haja tinta de caneta e reza para que a nossa senhora da ortopedia nos proteja de câimbras e tendinites; - quem sobreviveu até aqui vai para a prova didática: a candidata sorteia um dos tópicos do edital e tem 24 horas para preparar uma aula de 40-50 minutos. Fora a pressão psicológica de não usar 1 minuto a mais ou 1 minuto a menos, tem aquela sensação agradabilíssima (#sqn) de falar para uma sala de aula que não existe enquanto 3 avaliadoras te encaram e olham profundamente como se fossem um comendador da morte e quisessem sugar a sua alma (claro que há exceções e algumas bancas tentam não encarar tanto); Agora acabou? Não!!! - mais um dia e mais um sacrifício ao altar da academia nessa jornada em busca de ocupar um espaço na docência: a apresentação do memorial e do plano de trabalho seguido de uma arguição que nem sempre é conduzida de forma ética e responsável. Infelizmente, aqui há casos de perguntas (quase) inacreditáveis como: "Se contratada, você pretende engravidar?" (sim, é ilegal perguntar isso, mas nem por isso deixam de perguntar); "Seu marido está ok com a mudança de cidade?" (aproveita e já chama o marido para checar se ele autorizou mesmo a esposa a fazer o concurso); "Isso que você propôs é inviável de ser realizado" (geralmente vem da pessoa que não sabe nada sobre a área do projeto proposto); "Só 235 publicações? Isso é muito pouco para um docente de uma instituição federal, precisa publicar mais" (também costuma vir do avaliador que não tem nem 1/5 dessa produção). Nesse momento é cansaço físico, é cansaço emocional, é cansaço psicológico, é desespero financeiro (afinal muitos concursos são em outras cidades e aí é passagem+hotel+alimentação a ser paga e vários dias sem trabalhar com muitas horas de trabalho a serem repostas)... Mas ainda precisamos esperar o resultado que sai igual escola de samba: abrem-se os envelopes selados e a nota de cada etapa para cada concorrente é adicionada em um tabela projetada na parede para todos acompanharem. Soma-se a isso vários dias convivendo com pessoas (algumas muito simpáticas, mas outras nem tanto) que também querem aquela vaga tanto quanto você. Entendeu agora porque não é sobre ser aprovada ou reprovada, mas sobre sobreviver? Nós já tivemos um desabafo pessoal sobre concursos publicado aqui no Bate-Papo com Netuno. Se esse tema te interessa, não deixe de ler o post A exaustão de quem busca uma vaga de professora universitária . #VidaDeCientista #Concurso #CarreiraAcadêmica #Universidade #Professor #JulianaLeonel #LuizaSoares

  • Afinal, como são os ‘recifes’ amazônicos?

    Por Nicholas Vale Ilustrado por Joana Ho Os recifes amazônicos têm sido tema de discussão na comunidade científica e na sociedade por sua significativa biodiversidade e pela necessidade de um planejamento da conservação e exploração sustentável. Localizados na Margem Continental Amazônica (MCA), que engloba a parte oceânica das bacias Foz do Amazonas e Pará-Maranhão, representam uma das principais fronteiras de conhecimento no contexto global. Ressalta-se que a bacia Amazônica é a maior do mundo e o rio Amazonas é responsável por aproximadamente 20% da descarga global fluvial no oceano, produzindo uma descarga de sedimentos de aproximadamente 10 x 106 t.ano-1. Portanto, é uma área onde não se esperava que houvesse ambientes recifais, devido ao grande aporte de sedimentos terrígenos na plataforma ao longo do tempo, o que impediria, em teoria, o crescimento de organismos fotossintetizantes. Até o final do século XX, o estado do Maranhão era considerado o limite norte para a ocorrência de recifes coralíneos no Brasil. Contudo, em 2014, a coleta de material por dragagem e rede de arrasto durante expedição oceanográfica a bordo do navio da Marinha do Brasil ( NHo Cruzeiro do Sul ) permitiu a caracterização primária de ‘recifes’, bancos de rodolitos e macróides ao longo da Margem Continental Amazônica A. Os resultados dessa expedição foram publicados nas renomadas revistas científicas Science Advanced e Journal of South American Earth Science - JSAMES . O pesquisador brasileiro Rodrigo Moura, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), juntamente com um grupo de pesquisadores, evidenciou a importância biológica dessas formações em uma publicação na revista Science em 2016, confirmando a ocorrência de um extenso sistema carbonático em um gradiente de condições singulares regidas pela pluma do rio Amazonas ao longo do tempo e do espaço. Em julho de 2017, integrantes da Rede Abrolhos vinculados a diversas instituições brasileiras (Inst. de Pesq. Jardim Botânico do Rio de Janeiro, Univ. Fed. do Espírito Santo, Univ. Fed. do Rio de Janeiro e Univ. Fed. de São Paulo), em parceria com instituições internacionais ( Woods Hole Oceanographic Institution, Dalio Philanthropies/OceanX Initiative e The BBC ), realizaram outra expedição na Margem Continental Amazônica. Desta vez, a bordo do R/V Alucia (Figura 1), o foco foi a porção externa e quebra da plataforma, a fim de avançar na caracterização de estruturas e fundos recifais entre 70 e 378 m de profundidade através de mapeamento acústico, coleta de amostras e obtenção de imagens e vídeos em alta resolução com ajuda de submersíveis tripulados. Figura 1: R/V Alucia navegando na Margem Equatorial Brasileira próximo à pluma do rio Amazonas em Julho/2017. Piloto e pesquisador (Gilberto M. Amado Filho/ in memoriam) à bordo do submersível tripulado utilizado nas coletas (Fonte: Fernando Moraes/Rede Abrolhos com Licença CC BY-SA 4.0) O avanço das explorações permitiu que a então aluna de mestrado da UFRJ, Laís Araújo, em conjunto com outros pesquisadores, definisse a área das formações carbonáticas (cerca de 42.699 km2) ao longo da Margem Continental Amazônica (Figura 2) e avaliasse a extensão espacial das atividades econômicas que impactam a biodiversidade e o funcionamento desses ecossistemas - (por exemplo, pesca, exploração de petróleo e gás, mineração). Os resultados desse estudo foram publicados na revista científica Marine Policy . Em março de 2022, outro trabalho relevante sobre essas estruturas, identificadas como recifes mesofóticos na foz do rio Amazonas, foi publicado na Marine Geology , destacando aspectos sobre sua distribuição espacial, estrutura interna e o contexto no qual se desenvolveram a partir do Último Máximo Glacial. Figura 2: Mapa da Plataforma Continental Brasileira destacando as formações carbonáticas ao longo da Margem Continental Amazônica (Fonte: arquivos pessoais do autor N. Vale com Licença CC BY-SA 4.0) Quando falamos em recifes mesofóticos, consideramos aqueles ambientes com profundidades superiores a 30 m, no qual observamos comunidades bentônicas compostas predominantemente por corais escleractíneos, algas vermelhas (do filo Rhodophyta, conhecidas como algas calcárias/coralináceas) e espécies associadas, particularmente esponjas, que estão distribuídas entre 30-150 m de profundidade em regiões tropicais e subtropicais. São ambientes pouco conhecidos porque os estudos eram limitados até recentemente pela falta de tecnologia ou, quando existe disponibilidade da tecnologia apropriada (por exemplo, veículos operados remotamente -ROV- e submersíveis tripulados), seu uso é bastante custoso. Por isso, a compreensão acerca do potencial de acreção vertical dos recifes mesofóticos e os fatores que controlam seu início, crescimento e desaparecimento, de modo geral, ainda são bastante limitados. Na Margem Continental Amazônica, uma série de afloramentos rochosos são ocupados por comunidades bentônicas incrustantes. A transição entre a plataforma externa e a quebra da plataforma no setor Norte, onde recebe maior influência da pluma do rio Amazonas, traz consigo estruturas proeminentes de alto relevo, onde os topos destas feições estão entre 110-165 m de profundidade. A composição interna e a datação por carbono 14 (com idades entre 14 e 16 mil anos) das amostras sugerem que essas formações originaram-se durante um período de nível do mar mais baixo, através da erosão dos arenitos Pleistocênicos. Os depósitos carbonáticos e siliciclásticos acumulados no topo dessas feições durante o Último Máximo Glacial e deglaciação precoce foram gradualmente submersos pela elevação do nível do mar e pelo afundamento da plataforma. As superfícies dessas estruturas (Figura 3) são colonizadas por algas calcárias, pequenas algas verdes (Chlorophyta) e esponjas (principalmente espécies finas e incrustantes, mas algumas com grandes crostas em forma de copo), algumas das quais são produtoras de carbonato de cálcio e contribuem com a produção de uma fina camada de sedimento (grãos siliciclásticos aprisionados em esqueleto de organismos incrustantes) cuja capacidade de acreção é negligente. Os cnidários associados incluem hidróides, corais negros e octocorais, juntamente com briozoários, grandes ascídias coloniais e foraminíferos bentônicos. Figura 3: Imagens obtidas com submersível tripulado a 120 m de profundidade no setor Norte da Margem Continental Amazônica (no extremo norte do estado do Amapá) mostrando uma comunidade bentônica crescendo ativamente na superfície das estruturas recifais, com destaque para as algas calcárias (representada pela coloração rosa) (Fonte: Paulo Salomon/Rede Abrolhos com Licença CC BY-SA 4.0) Os ‘recifes’ amazônicos do setor Central, em frente à foz do rio Amazonas, estão associados ao acúmulo de sedimentos do rio e carece de uma ruptura na plataforma. Em profundidades entre 50 e 80 m, ocorre extensos bancos de rodolitos onde as algas coralinas são os principais componentes (Figura 4). Possui idades relativamente recentes e mostram dois períodos de crescimento, sendo uma mais antiga, cerca de 1300 anos, e outra mais recente, entre 1000 e 600 anos. Sugerindo períodos de soterramento devido ao fluxo de sedimentos, com posterior exumação e retomada no seu crescimento, segundo avaliado no trabalho publicado por Nicholas Vale em 2018, no JSAMES . Figura 4. Aspecto geral do banco de rodolitos a 80 m de profundidade no setor Central da MCA (em frente à foz do rio Amazonas). Note a dominância de algas calcárias vivas (coloração vináceas) (Fonte: arquivos pessoais do autor N. Vale com Licença CC BY-SA 4.0). Levantamentos acústicos entre 200 e 1.100 m de profundidade realizados a bordo do Alucia em 2017 revelam a presença de dois cânions, mas o submersível só foi capaz de operar até uma profundidade máxima de 380 m. Uma comunidade de vida diferente nas superfícies de rochas Pleistocênicas expostas e unidas foi registrada a 260 m de profundidade (Figura 5). Desprovidas de algas calcárias, possui cobertura esparsa de esponjas, corais negros, gorgônias, serpulídeos, estrelas do mar, lírios marinhos e estrelas frágeis. Figura 5: Aspecto geral dos afloramentos a 260 m de profundidade no setor Central da Margem Continental Amazônica (em frente à foz do rio Amazonas) com visão mais aproximada mostrando fraturas paralelas alongadas e pequenos organismos bentônicos crescendo na superfície. (Fonte: Fernando Moraes/Rede Abrolhos com Licença CC BY-SA 4.0). O setor Sul é menos influenciado pela pluma do rio e inclui uma plataforma mais rasa e um cânion proeminente. Um extenso banco de rodolitos ocorre entre 23-55 m de profundidade, onde as algas calcárias coralinas são os principais componentes (ver artigo no JSAMES ). A quebra da plataforma é bem definida com um aumento significativo da inclinação a cerca de 225 m de profundidade. Já os afloramentos rochosos mapeados a 180 m de profundidade carregam uma comunidade mesofótica coberta por manchas esparsas de algas calcárias e esponjas vivas (Figura 6), algumas com a estrutura esquelética preservada como molde em cimento carbonato que favorece o acúmulo de um depósito fino ( < 2mm de espessura) de bioclastos, areia de quartzo e lama sobre o substrato rochoso. Enquanto a composição interna apresenta algas calcárias, pequenos e grandes foraminíferos bentônicos e planctônicos, e briozoários como os principais componentes bioclásticos; e esponjas, equinodermos, corais, bivalves, gastrópodes, cracas e serpulídeos como componentes em menores proporções. A análise do radiocarbono em amostras coletadas neste setor apresentaram idades entre 23 e 28 mil anos, indicando que a rocha que forma o substrato dos 'recifes' provavelmente se formou em águas rasas e potencialmente com alguma entrada de sedimentos terrígenos, considerando o baixo nível do mar naquela época, a taxa de subsidência da plataforma e a presença de grãos siliciclásticos na sua composição (18%). Figura 6: O fundo do mar entre 180-225 m de profundidade no setor Sul da Margem Continental Amazônica (em frente o estado do Maranhão) apresenta transições verticais íngremes em platôs estreitos e com sedimentos arenosos no assoalho marinho e uma comunidade bentônica viva composta por algas calcárias (coloração rosa) e esponjas (coloração amarela). (Fonte: Rodrigo Moura/Rede Abrolhos com Licença CC BY-SA 4.0). Portanto, os ‘recifes’ ao longo da plataforma externa na Margem Continental Amazônica são tipicamente bancos de rodolitos e rochas antigas erodidas, colonizadas por organismos incrustantes durante o Último Máximo Glacial e posterior deglaciação formando uma camada carbonática, que agora suporta uma comunidade mesofótica capaz de prosperar em substratos duros sob influência moderada da pluma do rio Amazonas. Os resultados obtidos recentemente fornecem descrições detalhadas desses ambientes e representam uma contribuição para alterar a percepção geral de que a Amazônia brasileira se restringe aos grandes rios, à floresta e sua fauna, uma vez que o ecossistema amazônico se estende pelo Oceano Atlântico, onde, além de proporcionar vultuoso sequestro de carbono, condiciona um sistema recifal ímpar. Adicionalmente, um maior conhecimento sobre o papel desses ambientes recifais mesofóticos nos ecossistemas bentônicos é importante para dar apoio aos programas de planejamento espacial marinho, o que poderia levar a uma utilização mais sustentável desses habitats. Para saber mais: Araújo, L.S., Magdalena, U.R., Louzada, T.S., et al. 2021. Growing industrialization and poor conservation planning challenge natural resources’ management in the Amazon shelf off Brazil. Marine Policy, 128: 104465. DOI: 10.1016/j.marpol.2021.104465 . Coles, V.J., Brooks, M.T., Hopkins, J., et al. 2013. The pathways and properties of the Amazon River Plume in the tropical North Atlantic Ocean. Journal of Geophysical Research: Oceans, 118: 6894– 6913. Documentário: Earth’s Great Rivers - Amazon . BBC. Disponível em: https://www.bbc.co.uk/programmes/ . Moura, R.L., Amado-Filho, G.M., Moraes, F.C., et al. 2016. An extensive reef system at the Amazon River mouth. Science Advanced, 2: e1501252. DOI: 10.1126/sciadv.1501252 . Nittrouer, C.A., DeMaster, D.J., 1996. The Amazon shelf setting: tropical, energetic, and influenced by a large river. Continental Shelf Research, 16(5): 553–573. Vale, N.F.L., Amado-Filho, G.M., Braga, J.C., et al. 2018. Structure and composition of rhodoliths from the Amazon River mouth. Journal of South American Earth Science , 84: 149-159. DOI: 10.1016/j.jsames.2018.03.014 . Vale, N.F.L., Braga, J.C., Moura, R.L., et al. 2022. Distribution, morphology and composition of mesophotic ‘reefs’ on the Amazon Continental Margin. Marine Geology , 447: 106779. DOI: 10.1016/j.margeo.2022.106779 . Sobre o autor: Biólogo, Doutor em Botânica pelo Instituto de Pesquisa Jardim Botânico do Rio de Janeiro e em Ciências da Terra pela Universidad de Granada (Espanha). Atualmente integro o Núcleo Operacional de Análise Ambiental de Imagens Marinhas (NOAA-IM) como Analista Ambiental da empresa Ambipar, contribuindo para a minimização dos impactos da atividade de E&P de petróleo e gás natural sobre ambientes marinhos sensíveis. Possuo experiência nas áreas de Oceanografia Biológica e Botânica Marinha, atuando principalmente nos seguintes temas: caracterização da biodiversidade marinha, estrutura e dinâmica de bancos de rodolitos e evolução paleoecológica de plataformas carbonáticas, com foco na determinação do papel dos organismos construtores na estruturação de formações coralíneas na Plataforma Continental Brasileira. nicholasdovale@gmail.com . #CiênciasDoMar #RecifesAmazônicos #RecifesMesofóticos #AlgaCalcária #PlataformaCarbonática #RecifesCoralinos #BancoDeRodolitos #Convidados

  • The little fish hidden in tide pools

    By Marina Brenha-Nunes English edit b y Lidia Paes Leme and Katyanne Shoemaker *post originally published in Portuguese on July 4, 201 6 This story begins in the Araçá Bay, which is a tidal flat located in São Sebastião, on the northern coast of São Paulo. This flat remains almost entirely uncovered during low tide, but at high tide, it is home to large numbers of fish and rays, which enter the plain to feed and reproduce. The tidal flat is next to the Port of São Sebastião, which expands into the bay area. Scientists from various fields are studying this area in order to serve as a model for other sites that need to develop a management and local development plan. When working with coastal fish, it is very common to collect them during high tide, mainly for two reasons: the first is that at high tide there are more fish close to shore; the second is that many collecting techniques work to capture as many fish as possible in a given area. These techniques include trawling, using a motor boat, and the “picaré” net (beach seining) (see more about fish and beaches here ). During an afternoon of intense work collecting fish at high tide in the Araçá Bay, Professor Carmen Rossi-Wongtschowski (my supervisor), who was observing and supervising everything, noticed that when the tide was going down, some water bodies remained isolated, disconnected from the sea, by the sandy/muddy beach. She also observed that there were many fish living in these pools, and that the samples taken at high tide were not capturing these animals, which also belonged to the study site of Araçá. We talked and talked... we decided that my master's project would be to study the fish that inhabited these bodies of water in the Araçá Bay. Actually, there are already studies with fish that inhabit these bodies of water, which are called tide pools. However, we realized that in Araçá there were two types of tide pools, sandy and rocky. Observing this difference, we began to suspect that this fact could bring variation in the species and abundance of fish that lived in the two types of pools. So that is what we did, we identified which and how many species were present in each type of pool. Sandy pool - Example of a sandy pool used for fish collection in the Araçá Bay. (Photograph by Marina Brenha-Nunes, CC BY-SA) Rocky pool - Example of a rocky pool used for fish collection in Araçá Bay. (Photograph by Marina Brenha-Nunes, CC BY-SA) After reviewing the literature on fish in tide pools, we found that most studies were on rocky pools, with no studies dedicated to sandy pools. This fact caught our attention - why are there no studies on other kinds of pools? We clearly identified two types of pools in the same place, however there were no references that "enlightened" us as to how to collect fish in sandy pools. So, off we went! We developed a protocol for collecting fish from sandy pools that should meet some basic requirements: (1) be reproducible for sandy pools found anywhere on the planet; (2) be relatively low cost, especially so that researchers in developing countries (like Brazil) could replicate the procedure without major financial hardships; (3) it had to be a quick collection, because the tide pool ceases to be a pool from the moment it connects with the rest of the ocean with the rise of the tide, and this takes an average of 3 to 4 hours. So, in order to contribute to the project that was being developed in the Araçá Bay, which was to identify the largest number of fish of various sizes that lived in Araçá, we built a net with mosquito netting, but adapted to catch fish!!! “Picaré” (beach seining) with mosquito netting - Use of Picaré built with mosquito netting in a sandy pool in the Baía do Araçá. (Photograph by Marina Brenha-Nunes, CC BY-SA) Although sandy pools are more labor intensive to collect in the field than rocky pools, mainly due to their enormous size and the short working time available, we were able to achieve a level of 89% capture efficiency with the procedure developed! In other words, if there were 100 fish living in a sandy puddle, we would be able to catch 89 of them. And this is great, because it shows that our protocol was efficient and can be replicated by other researchers, and even improved! Regarding the species found, we identified some different species between the two types of pools. For example, in the sandy ones we captured many individuals of the Brazilian silverside ( Atherinella brasiliensis ), Mojarra (species of the genus Eucinostomus sp.), the Darter goby ( Ctenogobius boleosoma - which inhabits places with a light bottom), and the Ladyfish ( Elops saurus ). On the rocks, we basically captured species that have adaptations to tolerate the conditions of a tidal pool, such as high temperatures and salinity, decreased water levels, and oxygen, as was the case of the Frillfin goby ( Bathygobius soporator - which inhabits sites with darker bottoms and burrows in crevices in the rocks) and a type of Molly miller ( Scartella cristata , which also burrows into cracks). So different from the sandy sites, that experts do not even consider the sandy species as adapted to life in tide pools! Fish collected from rocky pools. Upper photo: Frillfin goby ( Bathygobius soporator ); Bottom photo: Molly miller ( Scartella cristata ). (Photograph by Pedro Félix, available through FishBase , CC-BY-NC) Fish collected in sandy pools, the Mojarra (species of the genus Eucinostomus sp.) (Photograph by Carla Elliff, available through FishBase , CC-BY) and the Ladyfish ( Elops saurus ). (Photograph by Gustavo Guedes, available through FishBase , CC-BY) You must be wondering, "What do you mean? But then, how were they there?" The big difference is that we usually found fish species typical of rocky tide pools from juvenile to adult stages, as was the case with Frillfin goby and Molly miller, but in the sandy pools we found many larvae (early stage of fish development - learn more about fish larvae here ) or only juvenile individuals of species that we usually find at high tide, as is the case with Brazilian silverside and Mojarra. The difference in the number of species and the amount of fish caught between the rocky and sandy pools is quite striking. This brings up a very important ecological issue for the conservation of coastal environments, showing that we need to know about all tide pool types before proposing unique measures for all types of environments. Tide pools have always been ecologically important habitats for several species that participate and balance the coastal food chain, and may also interact with reef fish species and serve as bait for fishermen. Putting into question other types of tide pools, with some different functions from those already known, we understand that the pools may also play a role as shelter for the larvae, escaping from some predators and taking the opportunity to feed with greater "tranquility". Many of the larvae found were of species that are captured by fishermen as adults during high tide for trade or their own consumption. But if we degrade these environments, where will these larvae take shelter? Besides thinking about the future of these larvae, we must also think that along with port construction comes the issue of invasive species (species that are not native to the region). We also detected this scenario in Araçá, once we captured two exotic species (not native), the Omobranchus punctatus (muzzled blenny) and the Butis koilomatodon (mud sleeper) also known as the bellied or sleeper, in sandy pools and which are potential competitors of our native species. In addition to degradation, the environment can be dominated by these species, which unbalance the environment and the life cycles of other species. As an environmentalist, it is necessary to know, protect, and conserve coastal areas so that we can have a productive return for our lives and for our future generations, thinking about the natural ecological balance of the system, to continue harvesting the good fruits of nature. References BRENHA-NUNES, M. R. (2016). Ictiofauna em poças de maré arenosas e rochosas e seus fatores estruturadores em uma planície de maré subtropical. Dissertação de mestrado. Universidade de São Paulo, São Paulo, p. 79. BRENHA-NUNES, M. R.; CONTENTE, R. F.; ROSSI-WONGTSCHOWSKI, C. L. D. B. (2016). A protocol for measuring spatial variables in soft-sediment tide pools. Zoologia 33 (2), 1-4. Disponível em: CONTENTE, R. F.; BRENHA-NUNES, M. R.; SILIPRANDI, C. C.; LAMAS, R. A.; CONVERSANI, V. R. M. (2015). Occurrence of the non-indigenous Omobranchus punctatus (Blenniidade) on the São Paulo coast, South-Eastern Brazil. Marine Biodiversity Records 8 (e73), 1-4. Disponível em: < http://journals.cambridge.org/action/displayAbstract?fromPage=online&aid=9707340&fileId=S175526721500055X> CONTENTE, R. F.; BRENHA-NUNES, M. R.; SILIPRANDI, C. C.; LAMAS, R. A.; CONVERSANI, V. R. M. (2016). A new record of the non-native fish species Butis koilomatodon (Bleeker 1849) for southeastern Brazil. Biotemas 29 (2). Disponível em:< https://periodicos.ufsc.br/index.php/biotemas/article/view/2175-7925.2016v29n2p113/31676> About Marina Brenha-Nunes Biologist, graduated from Universidade Presbiteriana Mackenzie (São Paulo, SP). Since school, I have wanted to live the life of a marine biologist, starting with a crazy desire to participate in the Humpback Whale Institute, then TAMAR and went to work with fish from a volunteer internship at the Oceanographic Institute of the University of São Paulo (IO-USP) in 2011. I worked directly with otolith morphology (bones of the inner ear of bony fishes), going through several environmental consultancies and environment studies with private schools. After that, I joined the master's program at IO-USP and finished it in May 2016 with a thesis on fish in tide pools. Now, I have decided to dedicate myself to basic education as a State high school teacher. Link to Marina’s curriculum #MarineScience #Fish #TidePools #Biology #Fisheries #Oceanography #Guests

  • A exaustão de quem busca uma vaga de professora universitária

    Por: Breylla Campos Carvalho É muito lindo o discurso de que precisamos de mais diversidade em todas as áreas da nossa vida, mas essas ações nunca se materializam. Eu sempre achei que a forma como alguns (a maioria) processos seletivos acontecem, em especial para alcançar cargos públicos, especificamente os cargos para docentes universitários, não são nenhum pouco bons. Primeiro, que você precisa ter um currículo ultragalático, mas ao mesmo tempo precisa ser um(a) total desocupado(a), já que as provas acontecem durante a semana. Quem trabalha e quer ocupar uma posição melhor (como eu?): que se vire! Segundo, só quem está no sistema tem alguma chance de entrar e quem está fora certamente não vai entra r , porque o modelo privilegia quem já faz parte do sistema. Na área das geociências, mais ainda no mundo das geotecnologias, o fato de ser mulher também parece inibir a banca, quase sempre formada em sua maioria por homens. Meu primeiro concurso depois do doutorado foi para uma vaga na área de Cartografia e Geotecnologias da UFPB. Eu tirei a maior nota da prova escrita – a prova era identificada por um código, ninguém sabia se eu era mulher ou não. Então na fase seguinte, na prova didática, o código ganha uma cara – de uma mulher nova (na época eu estava com 31 anos). Tenho certeza absoluta que isso foi determinante para eu ganhar a pior nota. Detalhe: dos 6 concorrentes nesta fase, eu era a única mulher. E eu não dei uma aula para ser desclassificada, eu tenho noção de quando não vou bem. Depois desse concurso, prestei muitos outros, gastei tempo, dinheiro e energia, até que, no ano passado, prestei um concurso na área de Oceanografia Geológica na UFES – uma área que tenho conhecimento por conta do meu doutorado. Não consegui de novo, agora porque o sistema de seleção deles não leva em consideração a experiência de quem não é da universidade. Eu fui financiada pela Comissão Oceanográfica Intergovernamental das Nações Unidas (IOC-UNESCO) para fazer cursos na área de Oceanografia, eu ganhei financiamento da Associação Internacional de Sedimentologia (IAS) e da União Internacional de Pesquisa Quaternária (INQUA) para participar de congressos científicos internacionais, eu trabalho em um dos principais institutos do país (IBGE), junto com uma galera sensacional, mas nada disso contou, porque não sou parte do sistema – bancas e orientações eram pontuados (coisas que eu não tenho, justamente porque não sou do meio acadêmico) e meus cursos e financiamentos, não. Fiquei muito consternada, pensando em desistir de buscar uma opção melhor de trabalho (meu contrato no IBGE é temporário), mas repensei e voltei para o jogo. No começo desse ano, fui nomeada como uma das 50 estrelas em ascensão do mundo geoespacial pela Geospatial World , uma organização vinculada à Divisão de Estatística das Nações Unidas, e como “prêmio” pude participar do Geospatial World Forum , que aconteceu entre os dia 09 e 12 de maio na Holanda. Uma semana incrível, que só não foi melhor, porque mais uma vez o maldito gender bias aconteceu comigo. Desta vez, foi com o concurso da área de Cartografia e Geoprocessamento da UFABC. Eu passei na prova escrita, que tinha feito enquanto estava no Brasil e as outras fases aconteceriam sabe-se lá quando de forma remota. E justamente, aconteceu nos dias em que eu estava na Holanda. Consegui manejar meus compromissos e o fuso horário para participar. Tirei a segunda maior nota na prova escrita. E novamente, foi só mostrar minha cara para tudo desandar de novo. Um homem, que já faz parte do sistema acadêmico (agora veio o combo da falta de diversidade e dos privilégios de quem já está inserido no meio), levou a vaga, porque mesmo eu sendo competente no que eu faço, tendo reconhecimento internacional (além desse prêmio, já tive foto minha em capa de revista internacional, tive o mapa mais votado em um dos fóruns da ESRI (Environmental Systems Research Institute), já dei entrevista sobre minha experiência em Delft e tenho publicações de qualidade em revistas especializadas), nada disso conta: porque eu não sou homem e não estou no sistema. Como eu vou ser parte do sistema se eu não posso entrar? O que me deixa com raiva é a falta de uma política de diversidade na área de tecnologia das universidades, além do gasto de dinheiro e saúde física e mental que esse tipo de seleção provoca. Eu estou me sentindo um lixo, porque, para quem está lá dentro, eu não sirvo para ensinar, eu não sou boa o suficiente para pesquisar e não sei divulgar o meu trabalho. Se eu procuro emprego na iniciativa privada, a coisa piora e muito. Eu não tenho uma rede de contatos muito grande – esse é o mal de se fazer pós-graduação no Brasil! Aplico para milhares de vagas na área geotecnológica; mas não recebo nem um e-mail dizendo porque não me ajusto para aquela vaga. A única vaga para a qual apliquei e me chamaram tinha uma redução na bolsa de pesquisa pelo fato de eu ser professora concursada em Maricá! Talvez se eu tivesse um sobrenome estrangeiro ou se fosse um homem, eu não tivesse esse problema, porém eu nasci mulher, sou mulher e tenho que me satisfazer com empregos temporários, quando têm. E o que me deixou mais "fula" nessa última seleção para professor universitário, que definitivamente vai ser a última de que participo, foi o fato de que deixei de passar tempo com meu pai, que estava hospitalizado quando fiz a prova escrita, e depois deixei de aproveitar 100% um evento incrível que rolou na Holanda. Poucas pessoas vão ler isso, ninguém vai me dar o emprego dos sonhos, vamos continuar tendo bancas de seleção compostas por homens brancos de meia idade e os RHs das empresas vão continuar me ignorando. Mas, pelo menos, eu verbalizei o que eu sentia, enquanto chorei copiosamente com muita raiva, porque não adianta vir com o discurso de que a minha hora vai chegar, que eu sou boa e não posso me abalar e outras pieguices – meu pai está doente neste momento, preciso ampará-lo e dar um mínimo de conforto para ele, mas não tenho condições financeiras de ajudá-lo por muito tempo; eis um dos motivos da minha busca por uma posição melhor remunerada. E eu quero ser mãe, mas como eu posso querer gerar uma vida se eu não tenho meios de sustentá-la? Infelizmente, para mim, as coisas não vão mudar, mas eu realmente espero que a próxima geração de mulheres nas geotecnologias não precisem passar por isso, porque se sentir um lixo, sabendo que não se é, é a pior sensação do mundo. Sobre a autora: Geógrafa (USP) e mestre e doutora em Oceanografia (UERJ). Atualmente é Analista Censitária na Gerência de Infraestrutura da Coordenação de Estruturas Territoriais da Diretoria de Geociências do IBGE e instrutora dos cursos de extensão dos Sistema Labgis/UERJ. Têm experiência na área de Geociências, com ênfase em Geomorfologia Costeira e Dinâmica Sedimentar de Ambientes Costeiros, utilizando ferramentas de Geoprocessamento e Sensoriamento Remoto. E o amor pelas águas salgadas vai além, sendo atleta amadora de natação em águas abertas. #Diversidade #Geotecnologias #VidaDeCientista #ConcursoPúblico #ConcursoUniversitário #CarreiraAcadêmica #Convidada

  • GEOARRETADAS

    Mulheres arretadas que trabalham divulgando as Geociências no ensino médio de escolas públicas baianas Por Ana Cecília Rizzatti de Albergaria Barbosa Mulheres são minoria nas ciências exatas e isso todo mundo já sabe. Mas, como mudar? Pensando nisso, professoras do Instituto de Geociências da Universidade Federal da Bahia criaram o GEOARRETADAS, um programa de extensão onde as Geociências são apresentadas a alunas e alunos do ensino médio, incentivando meninas de escolas públicas da Bahia a entrarem neste fascinante mundo. Cientistas mulheres são geralmente sub-representadas, principalmente dentro das ciências exatas. Nestas, é comum a valorização da imagem masculina, desestimulando as mulheres a seguirem suas carreiras. Os pesquisadores Renan Ramos e Samara Tedeschi, da UNESP e UFSCar, analisando a participação das mulheres no corpo docente e na produção científica do Instituto de Geociências e Ciências Exatas da UNESP de Rio Claro, verificaram uma baixa representatividade e, consequentemente, menor produção bibliográfica feminina em cinco dos sete departamentos analisados. O mesmo foi observado por professoras do Instituto de Geociências da Universidade Federal da Bahia, onde somente 31% dos docentes são mulheres. Essas professoras também observaram que as taxas de evasão das graduandas eram mais altas, agravando a baixa representação feminina não apenas na área acadêmica, como também no mercado de trabalho. Pensando nisso, essas professoras se reuniram e criaram o programa de extensão “GEOARRETADAS: despertando a vocação de meninas para as Geociências na Bahia”. O GEOARRETADAS nasceu em 2018 através de uma ideia da Profa Simone Moraes, com ajuda da Profa Tatiane Combi. Inicialmente, tinha-se como pretensão ministrar palestras sobre as atualidades e aplicabilidades das Geociências em nosso dia a dia para estudantes do sexo feminino matriculadas em escolas públicas de Salvador. Entretanto, após conversas com a Secretaria da Educação do Estado da Bahia, verificou-se a necessidade da divulgação das Geociências a estudantes de ambos os gêneros. Assim, optou-se por ministrar o curso para todos os interessados das escolas públicas parceiras. No entanto, para incentivar as alunas a seguirem o caminho das geociências, as ministrantes e monitoras desse curso deveriam ser mulheres. Assim, as alunas de ensino médio que participassem do grupo poderiam se sentir representadas. A primeira edição do GEOARRETADAS aconteceu em 2019. No total, 7 professoras e 13 alunas de graduação e pós-graduação se envolveram no projeto. Dois colégios participaram das atividades, levando ao Instituto de Geociências da UFBA mais de 70 inscritos; a maioria do sexo feminino. As aulas aconteceram em 8 sábados, começando pela manhã e indo até o final da tarde. Nesses dias, falou-se aos alunos sobre a UFBA e seus programas de assistência estudantil, bem como o que é Oceanografia, Geologia, Geofísica e Geografia. Além de uma apresentação sobre o que cada profissional faz, foram apresentados aos alunos temas geocientíficos relevantes para a sociedade, bem como foram realizadas atividades práticas. Percebia-se nitidamente o interesse dos alunos em todas as aulas, incluindo a surpresa de alguns em saber que a UFBA realizava este tipo de pesquisa e que seus cursos eram acessíveis para eles. No final do curso, os alunos desenvolveram a produção de recursos didáticos, com a publicação de um jornal falando sobre os temas das geociências que eles aprenderam. Figura 1: Atividades práticas realizadas com alunos do Ensino Médio no Projeto GEOARRETADAS. (Fotos: Simone Moraes) Figura 2: Jornal desenvolvido pelos alunos do Ensino Médio de escolas baianas participantes do GEOARRETADAS de 2019. (Figura: Simoe Moraes) Em 2020 e 2021, por causa do isolamento ocasionado pela pandemia do COVID-19, as atividades presenciais foram suspensas. Mas nada abalou as GEOARRETADAS, que se reuniram novamente mudando um pouco o formato do projeto. As professoras envolvidas optaram por fazê-lo remotamente, mas dessa vez voltado a professores do ensino médio. A intenção era incentivá-los a incluir temas relacionados às geociências em suas aulas. As inscrições foram abertas para todos os professores de escola pública da Bahia. No primeiro ano, foram ministradas palestras com temas de interesse geral, como Antártica, poluição, tectônica de placas, mudanças climáticas, entre outros. No final, os cursistas realizaram a construção de recursos didáticos relacionados a um ou mais dos temas ministrados. Esses recursos foram construídos de maneira que eles pudessem usar em suas aulas. Em 2021, optou-se por escolher um tema comum de abrangência às quatro áreas das Geociências e que tivesse impacto nos alunos do ensino médio da Bahia: poluição. A Geologia trabalhou com eles um caso de rejeitos de mineração em um município da Bahia. A Oceanografia tratou do derrame de petróleo que aconteceu na costa nordestina em 2019. A Geofísica explicou sobre métodos geofísicos para estudos de aterros e lixões. A Geografia explanou sobre a contaminação dos alimentos por pesticidas utilizados em plantações de grande porte. Nesse ano, os cursistas também realizaram a construção de materiais didáticos que pudessem ser usados depois em suas aulas. As docentes e monitoras envolvidas no curso fizeram uma cartilha que está sendo editada e será distribuída a escolas da Bahia. Agora, em 2022, prevê-se a execução do projeto novamente de maneira presencial para estudantes do ensino médio de um colégio público de Salvador. Até o momento, a execução desse projeto de extensão tem sido um sucesso, nos três formatos que ele já foi realizado. Nesses três anos, houve diversos elogios feitos tanto pelos alunos quanto pelos professores do ensino médio que participaram das atividades propostas. Além disso, vale destacar que muitos dos cursistas dos dois últimos anos pediram que a atividade se tornasse uma especialização, considerando as possibilidades que ela pode criar. Mas, o principal indicador do sucesso está na entrada de alunas que participaram das atividades de 2019 nos cursos ofertados pelo Instituto de Geociências da UFBA. Isso mostra que o objetivo inicial do projeto está sendo cumprido. O trabalho conjunto de mulheres retadas, como as que fazem parte do GEOARRETADAS, consegue inserir mais mulheres nas Geociências e demonstrar a sua importância para a sociedade. Esperamos que nosso projeto inspire outras mulheres retadas a divulgarem a Geociências em suas cidades. Referências ou sugestão de leitura: Ramos, Renan Carvalho; Tedeschi, Samara Pereira. A participação das mulheres na produção científica da UNESP, câmpus de Rio Claro. Caderno Espaço Feminino , 28(1):140-151 2015 Silveira, Camila; Ferreira, Gabriela, Souza, Alicia Aparecida de. A representação feminina nas ciências exatas de uma universidade federal. Revista Feminismo , 7(3):32-46, 2019. Naideka, Naiani; Santosa, Yane H.; Soares, Patrícia; Hellingera, Renata, Hacka, Thayna; Orth, Elisa S. Mulheres cientistas na química brasileira. Química Nova , 43(6):823-836, 2020. Sobre a autora: Sou oceanógrafa, pela Universidade de São Paulo, com mestrado e doutorado em Oceanografia, pela mesma Universidade. Realizei um período de estágio sanduíche na Universidade de Bremen (Alemanha) e realizei pós-doc na PUC do Rio de Janeiro, ambos com geoquímica marinha. Desde 2014, sou professora do Departamento de Oceanografia da Universidade Federal da Bahia, onde sou apaixonada pela docência e ciência. Além de trabalhar com uma área muito linda, minha profissão me proporcionou muitas coisas, como ótimos amigos, experiências e viagens para lugares incríveis. Nestes, posso incluir: Antártica, ilhas remotas, outros países e cruzeiros oceanográficos. Trabalho com Oceanografia Química e Geoquímica Marinha, onde minhas principais linhas de pesquisa são: poluição marinha, biomarcadores de contaminação e análise de processos da matéria orgânica. Desde que comecei a docência, venho incentivando minhas alunas a se posicionarem no mercado de trabalho, principalmente naqueles espaços onde a maioria dos atuantes são homens. Estou envolvida com o projeto GEOARRETADAS desde sua criação. Em 2021, ganhei um prêmio da L’oreal, UNESCO e ABC para mulheres nas ciências (“ For Woman in Science ”), dentro da área química. Desde pequena, sempre tive uma relação muito boa, de amor mesmo, com o mar. Já falava que iria fazer oceanografia ou biologia marinha, desde os meus 11 anos. Nas feiras de ciências de minha escola, sempre apresentava alguma coisa voltada para os oceanos. Já no colegial, ganhei menção honrosa num programa de ciências da UNESCO apresentando um trabalho sobre espessantes tirados de algas marinhas. Quando criança, fiz curso de vela, e na adolescência, de mergulho. Mantive esses hobbies por muito tempo. Agora, adulta, estou me aventurando no surf. Além disso, quando possível, gosto muito de correr na orla (ajuda a manter o corpo saudável e descansa a mente) e de levar meu filhote para brincar nas ondas e areia das praias baianas, no intuito dele ter o mesmo gosto que os pais pelo mar e o respeito pelo meio ambiente. E-mail: cecilia.albergaria@ufba.br , Instagram: @ana_ce83, @geoarretadas. #MulheresNasCiências #DivulgaçãoCientífica #Geoarretadas #MulheresNasGeociências #MulheresEmExatas #ForWomenInScience #Oceanografia #Geologia #Geofísica #Geografia #UFBA #Convidados

  • Os pequenos peixes escondidos nas poças de maré

    Por Marina Brenha-Nunes Essa história começa na Baía do Araçá, que é uma planície de maré situada em São Sebastião, no litoral norte de São Paulo. Essa planície permanece quase inteiramente descoberta durante a maré baixa, mas na maré alta abriga um elevado número de peixes e raias, que adentram a planície para se alimentar e se reproduzir. Por estar ao lado do Porto de São Sebastião, que poderá ser expandido para a área da baía, ela tem sido estudada por pesquisadores de diversas áreas do conhecimento, a fim de servir de modelo para outros locais que necessitam desenvolver um plano de manejo e desenvolvimento local. Quando se trabalha com peixes costeiros é muito comum que façamos a coleta deles durante a maré alta (maré cheia), principalmente por dois motivos: o primeiro é que na maré alta ocorre a maior quantidade de peixes próximos à costa; o segundo é que existem muitas técnicas de coleta para capturar o maior número possível de peixes em um determinado local, como por exemplo, a rede de arrasto, utilizando um barco a motor, e a rede picaré, que faz outro tipo de arrasto, manual, realizado na praia (veja mais sobre peixes e praias aqui ). Em uma tarde de trabalho intenso de coletas de peixes durante a maré alta na Baía do Araçá, a professora Dra. Carmen Rossi-Wongtschowski (minha orientadora), quem observava e supervisionava tudo, reparou que, quando a maré começava a baixar, alguns corpos d’água permaneciam isolados, desconectados do mar, na praia de fundo areno-lodoso. Ela observou também que havia muitos peixes vivendo ali nesses corpos, e que as amostragens realizadas na maré alta não estavam capturando aqueles animais, que também pertenciam ao Araçá, local de todo estudo que estávamos fazendo. Conversa vai e conversa vem… decidimos que o meu projeto de mestrado seria estudar os peixes que habitavam esses corpos d’água na Baía do Araçá. Na verdade, já existem estudos com peixes que habitam esses corpos d’água, que são chamados de poças de maré. Porém, percebemos que no Araçá existiam dois tipos de poças de maré, as arenosas e as rochosas. Observando essa diferença, começamos a suspeitar que esse fato poderia trazer variação nas espécies que viviam nos dois tipos de poça e na sua quantidade. E foi isso que fizemos… identificar quais e quantas espécies estavam presentes em cada tipo de poça. Pesquisando na literatura sobre os peixes que habitavam diferentes tipos de poças de maré, encontramos que havia basicamente estudos em poças rochosas, ou seja, não existiam trabalhos em poças arenosas. E isso foi outro fato que nos chamou atenção!...Como assim não estudam todos os tipos de poças que existem?? Pois bem, além de identificarmos dois tipos de poças em um mesmo local, não existia bibliografia que nos “iluminasse” quanto à coleta de peixes em poças arenosas. Assim, lá fomos nós! Desenvolvemos um protocolo/roteiro para a coleta dos peixes em poças arenosas que devesse atender a alguns requisitos básicos: (1) ser reproduzido para poças arenosas encontradas em qualquer lugar do planeta; (2) ser relativamente de baixo custo, principalmente para que pesquisadores de países em desenvolvimento (como o Brasil) conseguissem replicar o procedimento sem grandes problemas financeiros; (3) tinha que ser uma coleta rápida, pois a poça de maré deixa de ser uma poça a partir do momento que ela se conecta com o resto do oceano com a elevação do nível da maré, e isso leva em média de 3 a 4 horas. Dessa forma, com o intuito de contribuir para o projeto que estava sendo desenvolvido na Baía do Araçá, que era identificar o maior número de peixes de diversos tamanhos que viviam no Araçá, construímos uma rede com a tela de mosquiteiro (igual à de barrar mosquito), só que adaptada para pegar peixes!!! Apesar das poças arenosas serem mais trabalhosas para coleta em campo em relação às rochosas, devido principalmente ao seu enorme tamanho e o curto tempo de trabalho disponível, conseguimos chegar a um nível de 89% de eficiência de captura com o procedimento desenvolvido! Ou seja, se em uma poça arenosa tivesse 100 peixes vivendo ali, conseguiríamos capturar 89 deles. E isso é ótimo, pois mostra que o nosso protocolo foi eficiente e pode ser replicado por outros pesquisadores, e até mesmo aprimorado!! Em relação às espécies encontradas, identificamos algumas espécies diferentes entre os dois tipos de poça. Por exemplo, nas arenosas capturamos muitos indivíduos do peixe-rei ( Atherinella brasiliensis ), carapeba (espécies do gênero Eucinostomus sp.), o amboré claro ( Ctenogobius boleosoma – que habita locais de fundo claro), o ubarana ( Elops saurus ). Já nas rochosas, capturamos basicamente espécies que possuem adaptações para tolerar as condições de uma poça de maré, como altas temperaturas e salinidade, diminuição no nível de água e oxigênio, foi o caso do amboré escuro ( Bathygobius soporator – que habita locais de fundo mais escuro e se entoca em frestas das rochas) e um tipo de maria-da-toca ( Scartella cristata , que também se entoca em frestas). Tão diferentes a ponto de nem serem consideradas pelos especialistas adaptadas à vida nas poças de maré! Peixes coletados nas poças rochosas, amboré escuro (Bathygobius soporator) e a maria-da-toca (Scartella cristata). Peixes coletados em poças arenosas, carapeba (espécies do gênero Eucinostomus sp.), ubarana ( Elops saurus ). Vocês devem estar se perguntando: “Como assim? Mas então, como elas estavam lá?” A grande diferença é que geralmente encontramos espécies de peixes típicas de poças de maré rochosas desde fases juvenis até a fase adulta, como foi o caso do amboré escuro e da maria-da-toca, mas nas poças arenosas encontramos muitas larvas (fase inicial do desenvolvimento dos peixes - saiba mais sobre larvas de peixes aqui ) ou somente indivíduos juvenis de espécies que costumamos encontrar basicamente na maré alta, como é o caso do peixe-rei e da carapeba. Isso significa que se alguém considerava que, por ventura, esses dois tipos de poças poderiam abrigar as mesmas espécies de peixes, basicamente as que tinham sido descritas em poças rochosas, houve um grande engano. A diferença no número de espécies e na quantidade de peixes capturados entre elas é bem marcante e traz uma questão ecológica atrelada importantíssima para a conservação de ambientes costeiros, mostrando que precisamos conhecer todos eles antes de propor medidas únicas para todos os tipos de ambiente. Poças de maré sempre foram habitats ecologicamente importantes para diversas espécies que participam e equilibram a cadeia alimentar costeira, além disso, podem interagir com espécies de peixes recifais e servir de isca para os pescadores. Colocando em pauta outros tipos de poças de maré, com algumas funções distintas daquelas já conhecidas, entendemos que as poças também podem vir a desempenhar um papel de abrigo para as larvas, fugindo de alguns predadores e aproveitando para se alimentar com maior “tranquilidade”. Muitas das larvas encontradas foram de espécies que são capturadas pelos pescadores na fase adulta durante a maré alta para o comércio ou seu consumo próprio. Mas, se degradarmos esses ambientes, onde essas larvas irão se abrigar? Além de pensar no futuro dessas larvas, devemos pensar também que junto com uma construção portuária, vem atrelada uma questão de invasão de espécies que não são nativas da região. Também detectamos esse cenário no Araçá, uma vez que capturamos duas espécies exóticas (não nativas da região), o Omobranchus punctatus ( muzzled blenny ) e o Butis koilomatodon ( mud sleeper ) também conhecido como barrigudo ou dorminhoco, em poças arenosas e que são potenciais competidores das nossas espécies nativas. Além da degradação, o ambiente pode ser dominado por essas espécies, que desequilibram o ambiente e os ciclos de vida das demais espécies. Como ambientalista, é necessário conhecer, proteger e conservar áreas costeiras para que possamos ter um retorno produtivo para as nossas vidas e para nossas futuras gerações, pensando no equilíbrio ecológico natural do sistema, para continuarmos colhendo bons frutos da natureza. Referências: BRENHA-NUNES, M. R. (2016). Ictiofauna em poças de maré arenosas e rochosas e seus fatores estruturadores em uma planície de maré subtropical. Dissertação de mestrado. Universidade de São Paulo, São Paulo, p. 79. BRENHA-NUNES, M. R.; CONTENTE, R. F.; ROSSI-WONGTSCHOWSKI, C. L. D. B. (2016). A protocol for measuring spatial variables in soft-sediment tide pools. Zoologia 33 (2), 1-4. Disponível em: < http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-46702016000204000 > CONTENTE, R. F.; BRENHA-NUNES, M. R.; SILIPRANDI, C. C.; LAMAS, R. A.; CONVERSANI, V. R. M. (2015). Occurrence of the non-indigenous Omobranchus punctatus (Blenniidade) on the São Paulo coast, South-Eastern Brazil. Marine Biodiversity Records 8 (e73), 1-4. Disponível em: < http://journals.cambridge.org/action/displayAbstract?fromPage=online&aid=9707340&fileId=S175526721500055X > CONTENTE, R. F.; BRENHA-NUNES, M. R.; SILIPRANDI, C. C.; LAMAS, R. A.; CONVERSANI, V. R. M. (2016). A new record of the non-native fish species Butis koilomatodon (Bleeker 1849) for southeastern Brazil. Biotemas 29 (2). Disponível em:< https://periodicos.ufsc.br/index.php/biotemas/article/view/2175-7925.2016v29n2p113/31676 > Sobre Marina Brenha-Nunes: Bióloga, graduada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (São Paulo, SP). Desde a escola já queria seguir a vida de bióloga marinha, começando com uma vontade louca de participar do Instituto Baleia Jubarte, depois do TAMAR e fui trabalhar com peixes a partir de um estágio voluntário no Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP) em 2011. Trabalhei diretamente com morfologia de otólitos (ossos do ouvido interno dos peixes ósseos), passando por diversas consultorias ambientais e estudos de meio com escolas privadas. Depois disso, ingressei no mestrado do IO-USP e finalizei-o em maio de 2016 sobre os peixes em poças de maré e atualmente resolvi me dedicar à educação básica como professora de Ensino Médio na rede estadual. Link para o currículo de Marina #convidados #peixes #poçademaré

  • Geofísica marinha: como e quais são os métodos para estudar o som no oceano?

    Por Arthur Antônio Machado Ilustração de Luiza Soares Ondas sonoras são utilizadas como um meio de comunicação pelos animais nos oceanos há milhões de anos ( veja o post sobre esse tema ). Porém, para nós seres humanos, tanto a descoberta de ondas sonoras nos oceanos, como a utilização delas para diferentes fins se deu muito mais recentemente - a partir da segunda guerra mundial, quando começamos a desenvolver sonares para descobrir a localização de submarinos. Na oceanografia os primeiros usos da propagação do som na água foram para medir a profundidade dos oceanos, isto é a batimetria , através de equipamentos conhecidos como ecobatímetro ou ecossonda. Antes do desenvolvimento dos ecobatímetros os levantamentos batimétricos eram realizados com o uso de um cabo com peso na ponta. Este cabo descia até o fundo e a profundidade era estimada pela quantidade de cabo na água entre a embarcação e o fundo. Era um processo lento e não muito preciso no caso de águas profundas. O ecobatímetro é um equipamento simples, que mede a profundidade do local, que se baseia na medição do tempo decorrido entre a emissão de um pulso sonoro e a recepção do mesmo sinal após ser refletido pelo fundo. O tempo que o som leva entre o momento de sua emissão e o de sua recepção determina a profundidade entre a superfície da água e o fundo. Se lembrarmos da fórmula da velocidade: V = D T Onde V=velocidade, D=distância e T=tempo. Para o método do ecobatímetro temos que lembrar que o tempo é duplo, isto é, o tempo de ida e volta do pulso sonoro, portanto temos: D = (Vágua*T) 2 Onde Vágua= velocidade do som na água, T = tempo de ida e volta do som entre superfície e fundo, D=profundidade no local. Os primeiros ecobatímetros são conhecidos como ecobatímetros monofeixe (Figura 1), pois eles emitem um pulso sonoro apenas. Atualmente existem os ecobatímetros multifeixe (Figura 1), que emitem vários pulsos sonoros (feixes) permitindo o mapeamento de uma área maior (Figura 2), não apenas o ponto logo abaixo da embarcação. Figura 1 - Diferentes métodos acústicos de geofísica marinha. Fonte: Jorge P. Castello e Luiz C. Krug ,2017 com © Copyright - modificado de USGS Coastal and Marine Geology Project). Figura 2 - Registro de batimetria multifeixe. Fonte NGDE-NOAA em Domínio Público . Nos últimos 60 anos os métodos acústicos de geofísica marinha continuaram avançando juntamente com o crescimento da capacidade computacional, permitindo que grandes quantidades de dados possam ser analisadas praticamente em tempo real, à medida que são adquiridos, possibilitando controle imediato de qualidade do processo de aquisição de dados. Outra vantagem da evolução da tecnologia é em relação à portabilidade dos equipamentos de geofísica marinha, possibilitando o desenvolvimento de estudos em áreas restritas, no princípio, inacessíveis a grandes embarcações. Outros métodos acústicos de geofísica marinha amplamente utilizados são os métodos de perfilagem sísmica , onde o objetivo é o mapeamento das camadas sedimentares em subsuperfície, isto é, abaixo do fundo marinho. Semelhante ao exame de ultrassonografia onde obtêm-se uma imagem interna do corpo humano através da resposta acústica do pulso sonoro refletindo em diferentes camadas do corpo, a perfilagem sísmica gera uma imagem das camadas abaixo do leito marinho (Figura 3). Figura 3 - Seção sísmica do talude continental na Bacia de Santos. Atributos Cosseno da Fase e Amplitude RMS sobrepostos. (B) Fácies sísmicas interpretadas e eixos do canal indicados. Fonte Dutra, 2019 - Licença CC BY_NC 3.0 BR. Um dos maiores especialistas de geofísica rasa do Brasil, o pesquisador Luiz Antonio Pereira de Souza do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT-SP), subdivide os métodos sísmicos principalmente em dois conjuntos (Figura 4), investigação de superfície (batimetria e imageamento) e investigação de subsuperfície (perfilagem sísmica). Figura 4 - Compartimentação da investigação sísmica de áreas submersas rasas. INVESTIGAÇÃO DE SUPERFÍCIE: batimetria - utiliza fontes acústicas que emitem frequências a partir de 30kHz; imageamento - utiliza fontes acústicas que emitem sinais de frequências geralmente superiores a 100kHz. INVESTIGAÇÃO DE SUBSUPERFÍCIE: perfilagem sísmica – utiliza fontes acústicas que emitem frequências geralmente inferiores a 20kHz. Pode ser subdividida em dois grupos: métodos que priorizam a resolução (>2kHz) e os que priorizam a penetração (<2kHz). Fonte Souza, 2006 com © Copyright. O primeiro conjunto de métodos sísmicos utiliza fontes acústicas que emitem espectros contendo altas frequências (> 30 kHz) e que são empregados na investigação da topografia de fundo ou da profundidade da coluna da água e no imageamento da superfície de fundo (Figura 5). Figura 5 - Registro do navio Typo realizado com um sonar de varredura lateral (Side scan sonar). Fonte: Michigan Technological University Great Lakes Research Center ) em Domínio Público . - O segundo conjunto de métodos sísmicos utiliza fontes acústicas que emitem espectros contendo baixas frequências (< 20 kHz), e que são empregados na perfilagem de subsuperfície (Figura 6). Figura 6 - Registro de exsudação de gás obtido por meio do emprego da perfilagem sísmica contínua com fonte acústica do tipo Sparker. Fonte: Arquivo pessoal Arthur Antônio Machado com licença CC BY 4.0. Os métodos acústicos de geofísica marinha estão ficando cada vez mais acessíveis não só para pesquisadores, mas também para a população em geral. Hoje em dia equipamentos (batimetria e imageamento) para embarcações de lazer são bem baratos tendo seus valores semelhantes ao de um notebook. Essa popularização ajuda no entendimento melhor de leigos na morfologia do fundo marinho e na conscientização das atividades turísticas. Referências: DUTRA, I. 2019. Evolução deposicional do canal contornítico de Santos, porção norte da Bacia de Santos (Monografia). Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC. SOUZA LAP. 2006. Revisão crítica da aplicabilidade dos métodos geofísicos na investigação de áreas submersas rasas. Tese de Doutorado. Instituto Oceanográfico, Universidade de São Paulo. 311p. SOUZA LAP, BIANCO R, TESSLER MG & GANDOLFO OCB. 2007. Investigações geofísicas em áreas submersas rasas: qual o melhor método? In: 10º Congresso Internacional da Sociedade Brasileira de Geofísica, Rio de Janeiro-RJ. SOUZA LAP, GANDOLFO OCB. 2021. Geofísica aplicada à geologia de engenharia e ambiental. Editora ABGE, 120p. Sobre o autor: Me chamo Arthur, sou oceanólogo pela FURG, mestre em BioEcologia Aquática pela UFRN e doutor em Oceanografia Física, Química e Geológica pela FURG. Atualmente sou Professor e coordenador do curso de Oceanografia da UFBA. Atuo principalmente nos seguintes temas: Morfodinâmica Costeira, Interação Oceano-Atmosfera, Geofísica Marinha, Ilhas Oceânicas e Mergulho Científico. A minha relação com o mar vem desde cedo, com 7 anos de idade comecei a praticar mergulho livre e desde então o meu interesse pelo mundo subaquático só aumentou. Com o passar dos anos meu interesse pelo mar crescia e diversas perguntas surgiam na cabeça de uma criança curiosa: ‘Por que o mar é salgado?’, ‘Por que os navios fundeados ficavam aproados para o vento?’, ‘Por que o mergulhador oscila no fundo quando tem onda na superfície?’, ‘Por que quando passa uma tempestade as ondas batem no calçadão?’. Com a chegada da adolescência e as perguntas sobre o que iria fazer da minha vida profissional, fui procurar cursos de graduação que teriam relação com o mar. Nessa procura encontrei a Oceanografia. arthur.machado@ufba.br (e-mail) @arthur.oceanografia (instagram) @oceaam (Twitter) #CiênciasDoMar #Geofísica #SomDoOceano #OceanografiaGeológica #Convidados #BatePapoComNetuno

  • Marina Week 2022: Compromisso para o Futuro do Oceano

    Entre 1 e 5 de junho de 2022, ocorreu a Marina Week - A Semana do Mar de São Paulo , no Memorial da América Latina (São Paulo, SP). Organizado pela Cátedra Unesco para Sustentabilidade do Oceano e pela Scientific American Brasil, o evento, que está em sua terceira edição, contou com uma programação repleta de atrações para todos os gostos: ciência, esportes, música, políticas públicas… No dia 3 de junho, nossa editora Carla Elliff subiu ao palco representando o Bate-Papo com Netuno na celebração da assinatura do “Compromisso para o Futuro do Oceano”, junto a outros signatários. Participação do Bate-Papo com Netuno no Seminário Futuro do Oceano durante a Marina Week 2022 (CC-BY-SA 4.0) Como descrito pela Cátedra Unesco para Sustentabilidade do Oceano, este é um compromisso voluntário que busca criar uma grande aliança para a construção colaborativa de uma agenda em prol do oceano. O evento foi transmitido via YouTube e pode ser acessado aqui: Além disso, o “Compromisso para o Futuro do Oceano” segue aberto para o recolhimento de novas assinaturas. Acesse o site da Cátedra Unesco para Sustentabilidade do Oceano para saber mais e se juntar a esse movimento! #NetuniandoPorAí #FuturoDoOceano #MarinaWeek #DécadaDoOceano #CarlaElliff

  • Tiradas do Netuno #23

    Já dizia a minha avó "nem tudo que reluz é ouro”. Na escuridão do mar profundo, um pontinho de luz pode significar muitas coisas, por isso é melhor ficar esperto! Para saber mais, acesse o post “ Será que existe luz no fundo do mar? ”, publicado em 30/11/2017. Criação: Mariane Soares (@marisoares.dsgn), com palpites das editoras do Bate-Papo com Netuno. #TiradasDoNetuno # MarianeSoares #CiênciasDoMar #Bioluminescência #Luciferina #MarProfundo

  • What if the ocean dried up?

    By Pedro Marone Tura English edit b y Lidia Paes Leme and Katyanne Shoemaker *post originally published in Portuguese on November 23, 201 7 Illustration by Joana Ho . Children ask the best questions. On my last trip to the beach, a child, upon learning that I was an oceanographer, asked me one of the best questions I have ever heard, "What would happen if the sea dried up?" "Do you want to know what would happen to the fish and the weather?" I asked. "No, no. What's down there? If there was no water, what would I see?" I was stunned for a few seconds at both the simplicity and complexity of the question. What could I tell a child about the bottom of the sea that would answer their curiosity and at the same time not bore them to death (the main challenge)? "Much more than shipwrecks and corals," I began. Although this topic is new among the FAQs (Frequently Asked Questions) at beach gatherings - usually related to surfing - I realized that marine geomorphology is a subject that is little appreciated by the general public. Sitting on the beach, have you ever wondered what the sea bottom is like between Brazil and Africa? Is it uniform and boring? Or, do I find the same beach sand filling the entire ocean floor? Two thirds of our planet is underwater and, except when the subject is oil or the Brazilian pre-salt layer, we care little about what lies beyond the waterline. Marine geomorphology tells us incredible stories about the evolution of planet Earth itself. Each beach, plain, parcel, and island is the result of years of sedimentary processes - the balance between deposition and erosion of sediments - on a landscape forged by tectonic forces. How many years? All of them. Even though slow, ocean and coastal environments are always changing. Add human interactions to the equation and the result is the current landscape. But if they are so dynamic, how is it possible to know the history and evolution of these places? Perhaps you have heard the expression: 'The present is the key to the past' (or perhaps ‘history always repeats itself’). Besides being poetic, this phrase represents one of the most important concepts in geology - uniformitarianism. Essentially, if I observe a certain outcome for a certain process today, this was also true throughout geological history. In this way it is possible to reconstruct past environments by looking for clues to what happened. Logical or magical? But of course, no child wants to hear about sedimentary facies , proxies , or reflectors . So I stopped myself. Instead, I started by talking about one of the most fascinating environments for any age group: hydrothermal vents. Worthy of a science fiction setting, amidst the darkness of the deep ocean, there are real chimneys, which constantly spew a variety of chemical elements into the ocean. The sources are concentrated at the boundary between tectonic plates, in regions with no light. In other words, the main process of transforming inorganic matter into organic matter - photosynthesis - does not occur in these regions. Instead of light, the organisms harness energy from chemical reactions, a process known as chemosynthesis. What was at first thought to be a lifeless region has proven to be one of the most amazing from a biogeochemical point of view. Hydrothermal vents and their black fumaroles (also called black smokers or chimneys). Chemical elements are often discharged into the ocean from these vents which are used as an energy source for the organisms living near the vents ( Ocean Networks Canada/Flickr ). (CC BY-NC-SA 2.0) "Now look back. What do you think of the Serra do Mar?" The Serra do Mar is a mountain range with an impressive size and extent. But, with all due respect, it doesn't even compare to the structures we find hidden in the ocean. Imagine walking across a plain and encountering mountains that rise up for kilometers in height, without breaking the surface of the ocean. Uninformed sailors cannot imagine the incredible formations that lie beneath their feet. Such structures are not rare and exist all over the ocean. In fact, a mountain range cuts across the entire Atlantic Ocean, at the meeting of the South American and African tectonic plates, the so-called Mid-Atlantic Ridge. Interestingly, the range emerges from the sea near the Arctic Circle, in Iceland. How about visiting an underwater mountain range on your next vacation? Left: Diving in the Meso-Atlantic range in the Silfra fissure , Iceland. ( Source , CC BY-NC-SA 2.0). Right: Path between the mountain range in Thingvellir National Park , Iceland. ( Source : CC BY-NC-ND 2.0). Shaped like irregular cones, seamounts exist in all ocean basins. The diameter of these structures varies, but generally does not exceed a few kilometers. But of course, there are exceptions. Imagine a structure rising three kilometers above the ocean floor, with an area larger than the state of Santa Catarina. This structure is the Rio Grande Rise. As if its size were not enough, a canyon about 800 meters high and more than 25 km thick cuts through this entire 'geological building.' A Grand Canyon of its own. Impressive? No doubt about it. Due to these numbers, the Rio Grande Elevation has been affectionately called the 'Brazilian Atlantis' by the media and advertising channels. And so the conversation took a good few minutes of our afternoon and added other curious people. There is no shortage of examples . New techniques of bottom measurement and exploration have shown that we still know little about our oceans. In fact, we know more about the surface of the Moon and planets like Mars than we do about the ocean floor. If you have ever felt annoyed that you were born at a time when space travel is still premature, cheer up. You were born at the right time to explore the oceans! For more: https://www.youtube.com/watch?v=D69hGvCsWgA http://www.inovacaotecnologica.com.br/noticias/noticia.php?artigo=pedaco-continente-submerso-meio-atlantico#.WgOJ0eNFyP8 http://geologiamarinha.blogspot.com.br/2011/02/elevacao-do-rio-grande.html http://www.amusingplanet.com/2014/09/the-mid-atlantic-ridge-in-iceland.html About Pedro Marone Tura: I am an oceanographer and currently a doctoral student in biological oceanography at the Oceanographic Institute - USP. I work with the vertical flow of particles in the water and the biogeochemical cycling of elements in the marine environment. Always passionate about oceanography and its interdisciplinarity, today I discovered a new passion: education. I see in it the opportunity to bring society closer to the academic world. #MarineSciences #DeepOcean #Seamounts #Guests #JoanaHo

  • Enfrentando o lixo no mar, mas sem sair de casa

    Por Carla Elliff Ilustração Joana Ho Talvez tenha virado até um clichê falar o quanto a pandemia mudou nossa forma de trabalhar, mas não deixa de ser verdade. Descobrimos dezenas de ferramentas para reuniões online, assistimos lives praticamente todas as semanas e testamos os limites da internet das nossas casas. Foram muitos obstáculos que tivemos que superar (ou pelo menos contornar com gambiarras) para continuar com nossas pesquisas e demandas de trabalho rotineiras (lembram das nossas dicas de “ home lab ”?). Foi no meio deste turbilhão que saiu o Plano Estratégico de Monitoramento e Avaliação do Lixo no Mar para o Estado de São Paulo (PEMALM). Já falei por aqui sobre a relação entre lixo no mar, ciência e políticas públicas. Se você ainda não leu, o spoiler é que eles têm tudo a ver! Quando iniciamos o projeto para construir o PEMALM lá em meados de 2019, colocamos como objetivo conduzir esse processo de forma participativa. Os processos participativos são uma forma de ampliar a inclusão da sociedade nas tomadas de decisão sobre gestão pública. Isso significa ouvir de diferentes setores da sociedade o que eles querem e precisam e, só então, bater o martelo sobre o que será decidido. Para desenvolver o PEMALM, foi importante ouvirmos do setor público, da iniciativa privada, do meio acadêmico, de ONGs, de associações... enfim, ouvimos de centenas de indivíduos e instituições o que eles achavam que um plano de monitoramento e avaliação sobre lixo no mar deveria abordar. Planejamos diversos momentos para interagir e trocar experiências com essas pessoas e instituições (a quem chamamos de “atores”). Tivemos um primeiro workshop realizado no Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IOUSP) e, depois, uma série de reuniões ao longo do litoral, indo até o território onde os atores estão. Uma das reuniões do projeto de construção do PEMALM, realizada na sede do Parque Estadual Xixová-Japuí. A pandemia foi decretada bem no momento em que havíamos forjado esse relacionamento com os atores. Estávamos a pleno vapor, nos preparando para um segundo workshop para validar todo nosso progresso. Tivemos que parar e reavaliar o caminho que iríamos percorrer. O primeiro passo foi entender o novo equilíbrio da nossa dinâmica de trabalho. Nossa equipe era um misto de pessoas vinculadas ao IOUSP e servidores estaduais da Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente (SIMA). São dois ambientes de trabalho bem distintos, cada um com seus desafios. Uma vez assentada a poeira (e instaladas as webcams), estabelecemos uma agenda de reuniões semanais e consultamos nossa rede de atores mobilizados. Precisávamos entender qual a situação em que eles se encontravam: teriam interesse e disponibilidade em continuar nossa co-construção em um ambiente virtual? O que achariam de um workshop online? A resposta foi positiva! Seguimos investindo ainda mais em estratégias de comunicação virtuais (e-mails, site do projeto e até um canal do YouTube foram ficando recheados de informações sobre o andamento do PEMALM) e planejando como fazer um workshop bem interativo e, ao mesmo tempo, que não fosse desgastante para os participantes. O zoom fatigue (ou cansaço virtual) era – e ainda é – um grande companheiro de quem está no trabalho remoto. Sabíamos que não seria possível reproduzir o formato de programação com dois dias inteiros, como fizemos no modo presencial. Também não queríamos sobrecarregar os participantes com várias ferramentas diferentes... Foram muitas as considerações que tivemos que fazer, mas foi essencial nos colocarmos no lugar dos participantes e sermos honestos também sobre o tamanho das nossas próprias pernas figurativas. Precisamos pedir uma extensão no prazo do projeto, mas ao final nasceu, em janeiro de 2021, o PEMALM! O PEMALM pode ser acessado no site www.pemalm.com/o-plano em português, inglês ou espanhol. Dessa experiência toda de adaptação também nasceu um artigo, publicado na Revista Costas: From In-person to Virtual Engagement: Adaptations of a Participative Process for Designing a Marine Litter Public Policy in Brazil . Nele, comparamos a participação dos atores em nossos momentos de interação presencial e virtual. Concluímos que foi possível garantir a qualidade do processo participativo e apontamos que, em vista da normalização do trabalho remoto, pode ser que vejamos mais estratégias híbridas de desenvolvimento de políticas públicas daqui para frente. #CiênciasDoMar #LixoNoMar #LixoMarinho #PoluiçãoPorPlástico #PolíticaPública #CiênciaEGestão #Participativo #Monitoramento #PEMALM #JoanaDiasHo #CarlaElliff

  • E se o mar secasse?

    Por  Pedro Marone Tura Ilustração: Joana Ho As crianças fazem as melhores perguntas. Em minha última viagem à praia, uma criança ao saber que eu era oceanógrafo me fez uma das melhores perguntas que já ouvi. “O que aconteceria se o mar secasse?”. “Você quer saber o que aconteceria com os peixes e com o clima?”- perguntei. “Não, não. O que tem lá embaixo? Se não tivesse água, o que eu veria?”. Fiquei alguns segundos atônito com a simplicidade e complexidade da pergunta. O que eu poderia dizer a uma criança sobre o fundo do mar que respondesse à essa curiosidade e ao mesmo tempo não a matasse de tédio (esse sim, o principal desafio)? “Muito mais que naufrágios e corais”-comecei. Apesar deste tópico ser inédito entre as FAQs ( Frequently Asked Questions - Perguntas mais frequentes) das rodinhas de praia – geralmente relacionadas ao surf – percebi que a geomorfologia marinha é um assunto pouco apreciado pelo público geral. Você, sentado na beira da praia, já se perguntou como é o fundo do mar entre o Brasil e a África? Seria ele uniforme e tedioso? Ou então, será que eu encontro a mesma areia da praia preenchendo todo o fundo oceânico? Dois terços do nosso planeta estão submersos e, salvo quando o assunto é petróleo e pré-sal, pouco nos importamos com o que está além da linha d’água. A geomorfologia marinha nos conta histórias incríveis sobre a própria evolução do planeta Terra. Cada praia, planície, parcel e ilha é o resultado de anos de processos sedimentares – balanço entre deposição e erosão de sedimentos - sobre um cenário forjado pelas forças tectônicas. Quantos anos? Todos eles. Mesmo que lentos, os ambientes oceânicos e costeiros estão sempre mudando. Adicione à equação a ação humana e o resultado é a paisagem atual. Mas se são tão dinâmicos, como é possível saber da história e evolução desses locais? Talvez já tenha ouvido a expressão: ‘O presente é a chave do passado’. Além de poética, essa frase representa um dos conceitos mais importantes da geologia – o uniformitarismo. Essencialmente, se hoje observo um certo resultado para um determinado processo, isso também foi verdade ao longo da história geológica. Dessa forma é possível reconstruir ambientes passados procurando por pistas do que aconteceu. Lógico ou mágico? Mas claro, nenhuma criança quer ouvir sobre fácies sedimentares , próxies ou refletores . Alto lá! Comecei falando de um dos ambientes mais fascinantes para qualquer faixa etária: as fontes hidrotermais . “Dignas de um cenário de ficção científica!”. Em meio à escuridão do oceano profundo existem verdadeiras chaminés, que constantemente jogam no oceano uma variedade de elementos químicos. As fontes se concentram no limite entre placas tectônicas, em regiões com nenhuma luz. Ou seja, o principal processo de transformação da matéria inorgânica em orgânica - a fotossíntese - não ocorre nessas regiões. Ao invés da luz, os organismos aproveitam a energia das reações químicas dos elementos, um processo conhecido como quimiossíntese. O que no início se pensou que fosse uma região sem vida, mostrou-se uma das mais incríveis do ponto de vista biogeoquímico. Fonte hidrotermal e sua fumarola negra. Elementos químicos são constantemente despejados no oceano por essas chaminés. Fonte . “Agora olhe para trás. O que você acha da Serra do Mar?”. A Serra do Mar é uma cadeia de montanhas que impressiona por seu tamanho e extensão. Mas, com todo respeito, nem se compara às estruturas que encontramos escondidas no oceano. Imagine caminhar por uma planície e se deparar com montanhas que erguem-se por quilômetros de altura, sem aflorar na superfície. Navegantes desinformados nem imaginam a incrível formação que está sob seus pés. Essas estruturas não são raras e existem por todo oceano. Aliás, uma cadeia de montanhas corta todo oceano Atlântico, no encontro entre as placas tectônicas sul-americana e africana, a chamada Cordilheira Meso-Atlântica. Caprichosamente, a cadeia emerge próximo ao círculo polar ártico, na Islândia. Que tal nas próximas férias visitar uma cadeia de montanhas submarinas? Esquerda: Mergulho na cordilheira Meso-Atlântica na Silfra fissure , Islândia. Fonte . Direita: Caminho entre a cordilheira no Thingvellir National Park , Islândia. Fonte . Em formato de cones irregulares, os montes submarinos existem em todas as bacias oceânicas. O diâmetro dessas estruturas varia, mas geralmente não ultrapassa poucos quilômetros. Mas é claro, existem exceções. Imagine uma estrutura erguendo-se três quilômetros sobre o fundo oceânico e com uma área maior que o estado de Santa Catarina. Essa estrutura é a Elevação Rio Grande. Não bastasse seu tamanho, um cânion de aproximadamente 800 m de altura e mais de 25 km de espessura corta todo esse ‘edifício geológico’. Um Grand Canyon próprio. Impressionante? Sem dúvida. Devido a esses números, a Elevação Rio Grande foi carinhosamente chamada de a ‘Atlântida brasileira’ pela mídia e canais de divulgação. E assim a conversa tomou bons minutos da nossa tarde e agregou outros curiosos. Exemplos não faltam . Novas técnicas de medição e exploração do fundo tem mostrado que ainda conhecemos pouco dos nossos oceanos. Na realidade, conhecemos mais sobre a superfície da Lua e de planetas como Marte do que do fundo oceânico. Se algum dia você já se sentiu chateado por ter nascido em uma época em que viagens espaciais ainda são prematuras, e navegações em naus e caravelas ultrapassadas, anime-se. Você nasceu na época certa para explorar os oceanos. Para saber mais: https://www.youtube.com/watch?v=D69hGvCsWgA http://www.inovacaotecnologica.com.br/noticias/noticia.php?artigo=pedaco-continente-submerso-meio-atlantico#.WgOJ0eNFyP8 http://geologiamarinha.blogspot.com.br/2011/02/elevacao-do-rio-grande.html http://www.amusingplanet.com/2014/09/the-mid-atlantic-ridge-in-iceland.html Sobre Pedro Marone Tura : Sou oceanógrafo e atualmente aluno de doutorado em oceanografia biológica pelo Instituto Oceanográfico - USP. Trabalho com o fluxo vertical de partículas na água e com o ciclo biogeoquímico dos elementos no ambiente marinho. Sempre apaixonado por oceanografia e sua interdisciplinaridade, hoje descobri uma nova paixão: a educação. Vejo nela a oportunidade de aproximar a sociedade do mundo acadêmico. #ciênciasdomar #convidados #joanaho #marprofundo #PedroMaroneTura

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