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- Descomplicando a Cultura Oceânica
Por Mari Andrade e Jana del Favero Conhecer e entender a influência do oceano em nós e nossa influência no oceano: esta é a essência da Cultura Oceânica ( Ocean Literacy) . Parece em um primeiro momento uma combinação estranha de palavras, mas cultura e oceano tem tudo a ver. Cultura Oceânica é cativar as pessoas para que se reconectem com o oceano, em uma relação baseada em conhecimento de qualidade , na acessibilidade, na diversidade ecossistêmica e cultural e na mudança de comportamento. Mas de onde veio isso? O desejo de reunir elementos para embasar esse desejo de reconexão começou em 2002, quando profissionais da educação e cientistas do mar se uniram nos EUA para desenvolver recursos pedagógicos para o ensino das ciências do mar. Os profissionais da educação identificaram essa lacuna no ensino e conseguiram mobilizar institutos de pesquisa para levar essa demanda para conferências e reuniões técnicas durante 2003 e 2004. Foi um passo importante para identificar a necessidade de aproximar “a próxima geração de cientistas, pescadores, agricultores, empresários e líderes políticos” do mar. Ou seja, a discussão da relação da humanidade com o oceano tinha um potencial muito grande e, portanto, precisaria vencer as ondas e navegar outros mares, com diversidade de atores. Foi assim que surgiu o termo Ocean Literacy e, em 2004 mesmo, houve um esforço para definir seus princípios e conceitos fundamentais, que passaram então a ser tratados em conferências a cada 2 anos nos EUA. ⠀ Alguns anos depois a Ocean Literacy atravessou o Atlântico e chegou na Europa, se unindo às discussões sobre educação e divulgação científica que aconteciam por lá. De 2011 para cá, projetos, eventos e acordos de cooperação internacional passaram a considerar a Ocean Literacy como um assunto crucial a ser trabalhado nas Ciências do Mar. A urgência para tratar dele tornou a Ocean Literacy um assunto intergovernamental. Assim, a UNESCO e a Comissão Oceanográfica Intergovernamental assumiram a responsabilidade de estimular essa discussão global e desenvolver ferramentas para sua implementação. Com o Lançamento da Agenda 2030 em 2015 e o anúncio da Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável em 2017, assumiu-se o desafio de incorporar esse conceito aqui no Brasil. Ocean Literacy em mares brasileiros A primeira tarefa que tivemos por aqui foi a própria tradução do termo Ocean Literacy . Literacy é um termo em inglês que surgiu no século 19 para definir a "habilidade de ler e escrever". Desde então, tem sido usado como "competência ou conhecimento de uma certa área" ou "alfabetização". ⠀ Esse termo até existe em português, a palavra literacia , e tem mais ou menos o mesmo significado. Em português de Portugal, falar em literacia é mais comum do que no Brasil. No português brasileiro, o termo pode passar uma ideia de que precisamos ser "letrados", especialistas no assunto. Mas isso contraria um propósito de reaproximação com o oceano, que é para ser democrático e livre para cada um. Então passamos por literacia do oceano , literacia azul , educação marinha , alfabetização dos mares , entre outras variações do termo para o português do Brasil. Foi só em 2019 que foi decidido usar o termo Cultura Oceânica, quando houve o lançamento de uma versão em português para o Kit pedagógico Cultura Oceânica para Todos da COI-Unesco, de onde vieram muitas inspirações para esse texto, em um evento organizado pelo projeto Maré de Ciência . Cultura é um termo complexo, de muitas dimensões e significados. Mas de todas as maneiras traz um sentimento de conexão e responsabilidade que são importantes e fazem sentido com o Brasil. ⠀ Do que trata a cultura oceânica? Mas como é que a gente conecta as pessoas com o oceano? Do que a gente pode falar? Por onde começar? Todas as discussões dos últimos anos aportaram alguns princípios fundamentais, que são assuntos básicos descritos no kit pedagógico, como pontos de início de conversas marinhas. São eles: ⠀ A Terra tem um Oceano global e muito diverso O Oceano e a vida marinha têm uma forte ação na dinâmica da Terra O Oceano exerce uma influência importante no clima O Oceano permite que a Terra seja habitável O Oceano suporta uma imensa diversidade de vida e de ecossistemas O Oceano e a humanidade estão fortemente interligados Há muito por descobrir e explorar no Oceano ⠀ O kit fornece ferramentas, métodos e recursos inovadores para entender esses complexos processos e funções do oceano para educadores e aprendizes em todo o mundo e, também, para alertá-los sobre as questões mais urgentes dentro do tema. Embora esses princípios sejam resultado do que a ciência oceânica se dedicou a estudar nos últimos tempos, para a comunicação e a conexão acontecer, é crucial que outros tipos de conhecimento sejam somados e despertem oportunidades para reconhecer regionalidades e pessoas, tão diversas por aqui no Brasil. A cultura oceânica nos ajuda a situar a sociedade na presente relação com o mar e a guiá-la no caminho de tratar o oceano com respeito no presente para assegurar as mesmas oportunidades para as gerações futuras. Já está mais do que na hora do oceano estar nas nossas conversas, certo? Sobre a autora: Pesquisa e comunica processos participativos para a conservação do oceano. É membro do Comitê de Governança Nacional, Jovem Embaixadora do Oceano Atlântico no Brasil ( @queridoatlantico / @AllAtlanticYouth) e co-fundadora da @bloom.ocean : agência de mudança para pessoas, projetos e negócios ligados ao oceano. É pesquisadora do Plano de Monitoramento e Avaliação do Lixo no Mar para o Estado de São Paulo , contribui com o Grupo de Trabalho de Empreendedorismo em Ciências do Mar ( @gtecienciasdomar ) e é conselheira da Liga das Mulheres pelos Oceanos ( @ligadasmulherespelosoceanos ). Instagram: @mari.m.andrade . Este texto é baseado na série de posts sobre Cultura Oceânica que Mariana escreveu para o @queridoatlantico. #DécadaDoOceano #ONU #DesenvolvimentoSustentável #MCTI #JanaMDelFavero #Descomplicando #OceanDecade #CulturaOceânica #OceanLiteracy #Unesco #IOC #Convidados
- Uma Stramonita em minha vida
Por Catarina Ruiz Mello * Esse post é dedicado em memória a Luiz Fernando Mello da Silveira (1952-2020), meu pai, meu herói, o responsável por me dar todo o suporte, oportunidades e carinho para que eu alcançasse meus objetivos e possa continuar alcançando Stramonitas … Foto: Catarina Ruiz Mello, com licença CC SA-BY 4.0 . Não me lembro exatamente quando ouvi essa palavra pela primeira vez, e com certeza não tinha a menor ideia que ela faria uma grande diferença na minha vida. A Stramonita é uma espécie de caracol do mar, um molusco gastrópode ( agrupa os animais conhecidos por caracóis, lesmas, lapas e búzios ) marinho da família Muricidae. Ela habita os costões rochosos , principalmente no litoral do sudeste brasileiro. No mediterrâneo oriental era encontrada em abundância, porém entrou em colapso no início do século XXI e desapareceu completamente em 2016 por conta de exploração. Apesar de sua cara simpática, são predadores que se alimentam de mexilhões, ostras, outros gastrópodes, cracas, além de poliquetas. Para se alimentar, perfuram as conchas dos moluscos e as placas das cracas, liberam uma toxina que causa a abertura dos bivalves, e utilizam sua rádula (uma espécie de língua cheia de dentículos) e sua longa probóscide (como a tromba de um elefante, mas milhões de vezes menor), e assim conseguem consumir as presas. Ilustração: Catarina Ruiz Mello , com licença CC SA-BY 4.0 . Ok, agora que ela já está bem apresentada, poderei dizer o que ela tem a ver com a minha vida. Não, eu não trabalho com elas, inclusive não as vejo tem uns 2 anos. Tudo começou há um tempo atrás… no laboratório de genética e biotecnologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), onde eu ainda atuo na área de análise de dados em microbiologia. Foi então que conheci a Xuliana Tutubarão (popularmente conhecida como Juliana de Biasi), uma das pessoas mais inspiradoras que já passou pela minha vida e uma cientista incrível. Ela é apaixonada por Stramonitas , e foi aí que eu ouvi pela primeira vez o nome dessa criaturinha de não mais de 10 cm de comprimento. Juliana era doutoranda no laboratório e atuava na área de estudos de conservação de espécies de importância econômica através de ecologia molecular, a rainha da genética e dos tubarões… Aqui vai uma fotinha dessa belezoca: Foto: Catarina Ruiz Mello com licença CC SA-BY 4.0 . Minha pesquisa é 100% análise de dados com a bioinformática e não envolve atividade de bancada. Então, quando eu queria me distrair, eu ia atormentar a Juliana. Eu reclamava um pouco, conversávamos, ficava perguntando tudo que ela estava fazendo e se eu podia ajudá-la a extrair os DNAs dos tubarões dela. Era o famoso “se eu não posso ajudar, eu irei atrapalhar”. Foi um momento da vida que eu estava bem perdida em relação à graduação. Eu não sabia mais para onde estava indo, não sabia o que queria exatamente, e o que queria de fato parecia tão inalcançável que eu raramente conseguia me lembrar que gostava mesmo de algo. A Juliana foi muito importante nesse processo para mim (mesmo que ela não tenha ideia disso). Ela demonstrava um amor tão grande pelas Stramonitas quando falava delas e dos seus estudos durante a graduação que envolveram essa espécie. Ela também falava sobre a importância de ser resiliente. Isso me fez perceber que eu precisava encontrar a “ Stramonita ” na minha vida, algo que eu realmente gostasse. Alguns meses depois eu tive a oportunidade de participar junto a dois colegas de graduação, a Isabela e o Cássio, no auxílio de campo do estudo de mestrado do André Pardal, através do professor Ronaldo Christofoletti. Fiquei uma semana na base Norte do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo em Ubatuba, São Paulo. Foi a primeira vez em 3 anos de graduação que tive a oportunidade de ir para campo, já que minhas pesquisas nunca envolviam nada além de um belo computador com Linux e códigos (não estou reclamando, eu amo muito isso). E advinha só quem era a espécie utilizada neste estudo? Yeah! STRAMONITAS! Foi uma das melhores experiências que a Unifesp me proporcionou. Cada dia que passava, tinha mais certeza que embora eu ainda não soubesse exatamente a área que queria seguir, estava tudo bem eu gostar de tudo: análise de dados, atividade em campo, as diversas áreas das ciências do mar, em especial a vulcanologia, geologia, oceanografia física e microbiologia. Tive certeza que eu estava no caminho certo e não consigo imaginar minha vida se não for atuando em ciências marinhas, na realidade eu nem tinha um plano B. Essa semana incrível ocorreu em julho de 2018. Levantávamos todos os dias entre 4h30 e 5h da manhã com muito frio, tomávamos café da manhã, íamos para as praias (área de estudo) e à noite construíamos as gaiolas que eram usadas para o controle de Stramonitas e cracas. Nosso trabalho era todo feito em costões rochosos, então algumas coisas atrapalharam, como sempre. Chuva, frio, a maré, a não existência de Stramonitas no local, dentre outras eventualidades… O objetivo do trabalho era estudar a influência do aumento do nível do mar na relação de predação entre Stramonitas e cracas. Alguns dias foram mais difíceis que outros, algumas praias tinham acesso bem complicado, o que piorava nos dias de chuva. Mesmo assim eu estava muito feliz. A cada dia eu gostava mais daquelas Stramonitas fofinhas. Foi a partir dessa experiência que muitas inseguranças dentro de mim desapareceram e por isso comecei a buscar coisas que realmente queria fazer: uma delas era atuar na divulgação científica. Nessa ocasião também ganhei dois amigos incríveis, a Isa e o Cássio, nos ajudamos bastante ao longo dos meses posteriores. Fotos: Catarina Ruiz Mello com licença CC SA-BY 4.0 . E por fim… Desde pequena eu sabia que queria ser pesquisadora, mas eu também queria mostrar isso de alguma forma para a sociedade, sendo com texto, documentários, ou atuando como professora. E hoje estou aqui! Nesse exato momento que escrevo, foi o dia em que me tornei oficialmente editora deste blog (um dos dias mais felizes da minha vida). As Stramonitas atualmente não fazem parte da minha vida, mas elas com certeza simbolizam o marco entre “acho que estou no caminho errado” e “não consigo imaginar outro caminho para minha vida que não seja o que estou hoje.” Gostaria de agradecer à Juliana de Biasi por todo o aprendizado, risadas, e paciência, ao André Pardal e Ronaldo Christofoletti por terem me proporcionado uma das/a melhor experiência na minha graduação, ao Cássio e à Isa, por todo o companheirismo e amizade, mesmo que hoje tenhamos nos afastado por termos seguido caminhos diferentes, e ao blog Bate-Papo com Netuno, por tornar em realidade a única certeza que tenho na minha vida profissional. Curiosidade: Você sabia que uma concha chamada Bolinus brandaris (conhecida também como Murex corante roxo), dessa mesma família Muricidae, era uma das duas principais fontes de roxo tyriano, um corante altamente valorizado e usado nos tempos clássicos para o vestuário da realeza?). Ilustração: Catarina Ruiz Mello , com licença CC SA-BY 4.0 . # CatarinaRMello #VidaDeCientista #Stramonitas #Biotecnologia #Pesquisa #FiqueEmCasa
- 6º International Marine Conservation Congress
Entre 15 e 28 de agosto de 2020, foi realizado o 6º International Marine Conservation Congress (IMCC6). Este congresso bianual é organizado pela Society for Conservation Biology , sendo o evento mais importante da seção Marinha da sociedade. O IMCC6 estava planejado para ocorrer na cidade de Kiel, Alemanha, no entanto, diante da pandemia, os organizadores remodelaram a programação para atender a um formato virtual. O IMCC6 é um congresso bastante inovador. Além de prezar pela acessibilidade e promover ações de inclusão, como o aceite de resumos em diferentes idiomas além do inglês (língua oficial do evento), todo IMCC possui um código de conduta e uma oficial de segurança zelando pelo bem-estar dos participantes. A programação desta edição também foi bastante diversificada, com plenárias sobre divulgação científica, abordagens sociais na área de pesca, e até como usar dança como forma de engajamento nas ciências do mar. Logomarca do IMCC6, feito por Till Hafenbrak ( com licença CC BY SA 4.0 ). O Bate-Papo com Netuno fez parte dessa programação recheada de novidades! Nossa editora Carla Elliff apresentou um resumo sobre cinco aprendizados da equipe do Bate-Papo com Netuno ao longo dos últimos cinco anos de atuação do projeto. A apresentação foi feita por meio do Zoom e com o uso do aplicativo Whova, como mostrado abaixo. Interface do aplicativo Whova durante a apresentação feita por Carla sobre o Bate-Papo com Netun o ( Fonte: Bate-Papo com Netuno com licença CC BY SA 4.0 ). Fique de olho nas nossas postagens para saber mais sobre esses cinco aprendizados! #NetuniandoPorAí #CarlaElliff #IMCC2020 #DivulgaçãoCientífica #Blog
- Tiradas do Netuno #12
Os ATAQUES a seres humanos normalmente ocorrem por engano. Embora tenham criado fama de maus, graças aos filmes da franquia Tubarão e outros filmes trash , o homem não faz parte da dieta desses animais. Os ataques são eventos extremamente raros, aproximadamente 15 casos por ano, e muita coisa pode ser feita para evitar que ocorram. Ainda temos muito que aprender sobre os tubarões 🦈 Para saber mais sobre esses animais fascinantes, acesse os posts da Raquel Lubambo Ostrovski “ Por que achamos que os tubarões são maus ?” e da Cláudia Namiki “ Tubarão: caçador ou caça? ” Criação: Gilberto Junior do Mundos Oceânicos @mundosoceanicos , com palpites das editoras do Bate-Papo com Netuno. #tubarões #raias #animaismarinhos #tiradasdonetuno #gilbertojunior #praias #peixes #ictiologia #zonadesurfe #ecologia
- Uma veterinária, as tartarugas marinhas, e a oceanografia
Pela convidada Melissa Marcon Fui convidada para fazer esse post e falar a respeito do meu mestrado. Eu não vou necessariamente falar sobre a minha dissertação (Quem sabe em outro post?), mas sim como eu, uma veterinária formada em uma faculdade no interior de São Paulo, fui parar no Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo. Vou voltar muitos anos atrás para contar bem esta história. Desde que me conheço por gente, sempre quis ser veterinária. Eu não fui o tipo de criança que brincava com Barbies, eu tinha fazendas de minhocas e vivia colando band aids nos meus cachorros. Mas claro, eu era iniciante! Bom, para o alívio dos meus animais de estimação, eu entrei na faculdade de veterinária aos 17 anos. Durante a faculdade fiz diversos estágios e em diferentes áreas da medicina veterinária, porém, um estágio realizado no Projeto TAMAR em Ubatuba, foi decisivo para eu escolher a área que seguiria depois de formada. Neste estágio tive a oportunidade de conhecer melhor o Projeto, assim como suas ações direcionadas à conservação das tartarugas marinhas. O ponto chave foi ter permanecido na reabilitação e quarentena. Lá recebíamos animais encalhados nas praias vivos ou mortos e também os animais que interagiam com a pesca artesanal local. Tive a oportunidade de realizar diversos procedimentos veterinários, assim como, cuidar do manejo alimentar e limpeza dos tanques dos animais internados. Após esse estágio e mais alguns que se seguiram, eu estava decidida a seguir na área e trabalhar com reabilitação de animais marinhos, assim como no desenvolvimento de pesquisa visando à produção de conhecimento para a conservação. Para saber como conseguiria me inserir no mercado de trabalho realizei diversas pesquisas e conversei com profissionais da área. Decidi então fazer um mestrado em oceanografia. Entrei em contato com alguns professores do Instituto Oceanográfico para saber quais passos deveria seguir e principalmente qual deles poderia me orientar. No começo eu estava muito empolgada e decidida, mas com o início do processo seletivo eu me questionei! Como uma veterinária conseguiria passar em uma prova de conhecimentos gerais de oceanografia? E o inglês? Bom, foram longos quatro meses de muito estudo. Livros e mais livros. E claro, nunca poderia deixar de mencionar as pessoas maravilhosas que encontrei dentro do Instituto Oceanográfico da USP que me ofereceram diariamente apoio, paciência e muito conhecimento. Foi então que em fevereiro de 2011 eu finalmente fui aprovada em todos os processos seletivos e poderia dar início ao meu tão sonhado mestrado em oceanografia biológica. O tema? Claro, as tartarugas marinhas! Por meio de uma parceria estabelecida com o Projeto TAMAR eu tive acesso aos dados da pesca de espinhel pelágico nas regiões sudeste e sul do Brasil e desenvolvi minha dissertação neste tema. A interação das tartarugas marinhas com a pesca, seja ela artesanal ou comercial, é um dos fatores que mais causa a mortalidade destes animais. Estudos vêm crescendo com o intuito de quantificar esta interação, bem como os fatores que influenciam a mesma. Para isso, é necessária uma ênfase particular no conhecimento ecológico sobre as populações, a relação entre sua distribuição e as feições oceanográficas (principalmente parâmetros biológicos e físico-químicos da coluna de água), sua biologia populacional e análises quantitativas da interação das tartarugas marinhas com as artes de pesca. Enfim, minha dissertação foi ganhando formato e eu fui compreendendo cada vez mais a importância deste tipo de estudo. Meu principal foco durante a dissertação foi buscar quais fatores operacionais da frota comercial (tipo de isca, profundidade de operação das embarcações, tipo de anzol, etc) e ambientais (características oceanográficas) influenciavam a captura acidental de tartarugas marinhas por essa arte de pesca. Com o conhecimento destas características poderíamos desenvolver trabalhos propondo manejos e adequações para as frotas pesqueiras para diminuir a captura acidental de tartarugas marinhas, e consequentemente, o óbito e diminuição das populações. Foram meses de muito aprendizado. Não foi fácil! Eu não estava tecnicamente preparada para o meio científico. Analise estatística, softwares estatísticos, assim como tabelas do Excel, tiraram o meu sono e em troca me deram uma gastrite. A leitura de artigos, parte fundamental de uma pesquisa, inicialmente foi um desafio. Como eu poderia compreender metodologias em outros idiomas sem ao menos dominá-las no meu idioma? Mais uma vez, noites em claro e muito estudo foram fundamentais. Muitas vezes eu me perguntei se estava no caminho certo. Lembro-me de não apenas uma vez, mas diversas vezes ouvir perguntas como: Por que uma veterinária está no Instituto Oceanográfico? Por que você não foi fazer mestrado na veterinária? Mas a resposta foi aparecendo ao longo da jornada. Hoje me sinto muito satisfeita e competente com o conhecimento de oceanografia que adquiri ao longo do meu mestrado. Como não poderia? A interdisciplinaridade é fundamental para que se construa um bom trabalho em qualquer área. Nada melhor para um médico veterinário do que conhecer intimamente o ambiente e os processos ocorridos para uma espécie estudada. Com o final do mestrado as oportunidades apareceram. Fui trabalhar em um Projeto de monitoramento de tartarugas marinhas. Meu trabalho consistia em realizar um levantamento de dados sobre as tartarugas marinhas, inédito para a área estudada. Realizávamos resgate e reabilitação das tartarugas e trabalho de campo. O campo se dava por campanhas de mergulho mensais, nos quais, coletávamos dados biológicos (espécie, peso e tamanho, por exemplo) das tartarugas marinhas capturadas intencionalmente, um exame clínico geral era realizado, assim como, uma amostra de sangue era coletada. Os exames hematológicos nos ajudaram a conhecer o estado de saúde dos animais da região, como também, a definir padrões hematológicos locais das tartarugas marinhas. Apesar de me sentir um peixe fora d’água durante certo tempo, hoje, depois de realizar trabalhos com animais marinhos, sejam eles de reabilitação, assim como produção de conhecimento através de pesquisa, estou certa de que o envolvimento entre veterinária, oceanografia, biologia e, porque não matemática, se completam, fazendo do trabalho interdisciplinar o mais adequado para a conservação de qualquer espécie. Hoje, muito feliz e apaixonada pelas escolhas que fiz e todo o conhecimento adquirido durante a caminhada, continuo trabalhando com pesquisa e lógico, pensando no meu doutorado que logo se seguirá. Sobre Melissa Marcon: Médica veterinária formada pela Faculdade de Jaguariúna (2009). Apaixonada pelo mar e seus habitantes finalizei meu mestrado em Oceanografia Biológica pelo Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo em 2013. Atuo na área clínica médica e cirúrgica de pequenos animais e animais silvestres. Possuo experiência na área de coleta de material biológico, monitoramento de praia, necropsia, resgate e reabilitação de animais marinhos, em especial, quelônios marinhos. Melissa já publicou outro post com a gente, acesse " Tartarugas marinhas e a pesca nos oceanos " #convidados #melissamarcon #interdisciplinaridade #oceano #tartarugasmarinhas #mulheresnaciência
- Década do Oceano: 10 anos para nunca mais tirarmos os olhos do mar
Por Jana del Favero e Mariana Andrade Em 2017 a Organização das Nações Unidas (ONU) declarou que o período de 2021 a 2030 será dedicado à Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável . Naquele ano, até abordamos o assunto aqui no blog . E agora, depois de uma longa mobilização da comunidade científica e ativistas, está chegando o momento de todo mundo falar mais sobre o oceano. Apesar de já termos passado por algumas Décadas que trouxeram o tema “água” e “biodiversidade” para a pauta, pela primeira vez teremos uma todinha dedicada para o oceano! Mas uma das principais perguntas feitas quando falamos com animação sobre a Década do Oceano é: “o que são essas Décadas declaradas pela ONU” ? A ideia de declarar uma Década dedicada a um tema surgiu na ONU nos anos 60 e, desde então, mais de 30 Décadas foram criadas sobre diversos temas: desarmamento, mulheres, combate ao racismo, educação etc (conheça todas aqui ). A escolha de um tema para um período de dez anos tem o objetivo de voltar as atenções e esforços dos países membros da ONU para uma meta em comum. Busca-se, desse modo, promover a conscientização da sociedade e possibilitar o desenvolvimento de ações coordenadas para mitigar um determinado problema, além de difundir os propósitos da ONU na sociedade. O que será a Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável (também chamada de Década do Oceano)? Durante um período de dez anos (2021 - 2030) será coordenada e promovida a ampliação da cooperação internacional em pesquisas que visam contribuir para a preservação do oceano e a gestão dos recursos naturais de zonas costeiras. As atividades da Década serão lideradas pela Comissão Oceanográfica Intergovernamental (COI) da UNESCO , órgão da ONU responsável por apoiar a ciência e os serviços oceânicos globais. Notou que usamos oceano no singular ao longo do texto? Pois é, um dos objetivos da Década é que possamos entender o oceano como um só, conectado, sem deixar de considerar sua imensidão e diversidade. Por que o Oceano precisa de uma Década? Ou melhor, por que nós precisamos de uma Década dedicada ao Oceano? Desde o início do blog, em 2015, nos empenhamos em mostrar a importância do oceano na vida das pessoas. Ele estabiliza o clima , armazena carbono , produz oxigênio , possui uma biodiversidade imensa e ainda pouco conhecida , e fornece diversos serviços ecossistêmicos . Mas sabe como nós, em sociedade, temos retribuído? Degradando-o severamente! Lixo , óleo , esgoto , extração de recursos desenfreada , são apenas alguns exemplos de como estamos sendo negligentes com a sua saúde. Precisamos urgentemente encontrar soluções, embasadas na ciência, que nos permitam compreender as mudanças que estão ocorrendo no oceano e desenvolver soluções sustentáveis. Hoje a penas 0,04 a 4% do total de gastos com pesquisa e desenvolvimento em todo o mundo são direcionadas para a ciência oceânica . Ter uma Década de dedicação ao tema irá ajudar a mobilizar parcerias e aumentar o investimento em áreas prioritárias, estimulando o desenvolvimento da capacidade científica global e de recursos humanos para trabalhar por ela. Não é a toa que o lema é “a ciência que precisamos para o oceano que queremos” . Nós adoramos, e você? E o que a Década pretende alcançar? A Década pretende mobilizar recursos e inovação tecnológica em ciência oceânica para buscar: um oceano limpo: fontes de poluição identificadas e removidas ; um oceano seguro: pessoas protegidas dos riscos oceânicos (ex. erosões); um oceano saudável e resiliente: ecossistemas marinhos mapeados e protegidos ; um oceano produtivo e explorado sustentavelmente: garantir benefícios e bem-estar a gerações presentes e futuras ; um oceano previsível: compreender as condições oceânicas presentes e futuras; um oceano transparente: acesso aberto a dados, informações e tecnologias. Unir diversas áreas do conhecimento para entender melhor os oceanos pode ser incrível, e já mostramos um cenário assim quando discutimos como dados de satélite ajudam a entender ovos de peixes ! um oceano conhecido e valorizado por todos (bem o que tentamos fazer aqui no Bate-Papo com Netuno). Ambicioso, não? Por isso precisamos que todas as nações signatárias e os mais diversos atores sociais se envolvam e participem da Década. Aqui no Brasil, esse processo tem sido liderado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicação , que conta com a experiência de agentes e organizações que já estão engajados na mobilização e no desenvolvimento de ações para os próximos 10 anos. Assim, um processo participativo e transformador está sendo organizado. Esse processo visa criar e fortalecer conexões entre cientistas, formuladores de políticas, gestores e usuários dos serviços, de modo que a ciência oceânica possa fornecer grandes benefícios aos ecossistemas marinhos e à sociedade. Ele facilitará o aprendizado mútuo entre pesquisadores e comunidades de partes interessadas, assegurando uma comunicação consistente entre eles. Participamos do Workshop Preparatório para a Década da Ciência Oceânica que ocorreu em novembro de 2019 no Rio de Janeiro. Conseguem localizar a gente? A Década do Oceano é de todos e para todos! Estão prontos para mergulhar nela? Ok, já entendi, e como faço para participar? Se prepare! Tem muita coisa sendo planejada (no Brasil e no mundo todo) e todas elas vão precisar da opinião e atuação de quem também se sente mobilizado por esse tema. Compartilhe suas ideias! Colabore com quem também está pronto para atuar nessa Década. Participe das oficinas regionais de planejamento, que já irão começar no próximo semestre. Fica ligado nesse site para saber mais. Ative suas redes: consulte pessoas interessadas, compartilhe informações acessíveis sobre a Década, e identifique oportunidades de investimento e mobilização de recursos. Junte-se à Década: registre sua organização em https://www.oceandecade.org/ . Acompanhe nossas redes sociais e nosso site ! Divulgue a Década e suas atividades. Sobre a autora convidada: Pesquisa e comunica processos participativos para a conservação do oceano. É membro do Comitê de Governança Nacional, Jovem Embaixadora do Oceano Atlântico no Brasil ( @queridoatlantico / @AllAtlanticYouth) e co-fundadora da @bloom.ocean : agência de mudança para pessoas, projetos e negócios ligados ao oceano. É pesquisadora do Plano de Monitoramento e Avaliação do Lixo no Mar para o Estado de São Paulo , contribui com o Grupo de Trabalho de Empreendedorismo em Ciências do Mar ( @gtecienciasdomar ) e é conselheira da Liga das Mulheres pelos Oceanos ( @ligadasmulherespelosoceanos ). #décadadooceano #onu #desenvolvimentosustentável #mctic #janamdelfavero #descomplicando #oceandecade #convidados #ioc #unesco #marianaandrade
- “Mulheres são melhores em multitarefas”: você conhece essa lenda urbana?
Por Ju Leonel Era uma vez uma (super) mulher que alegremente era capaz de dividir seu tempo entre cuidar da casa, dos filhos, dos pais, ser bem sucedida profissionalmente, se encontrar regularmente com as amigas, ter as unhas feitas e o cabelo cuidadosamente penteado. Ela estava sempre de bom humor e ainda tinha tempo para fazer trabalho voluntário e deixar a leitura em dia. Como toda história que começa com "Era uma vez..." essa também não passa de uma fantasia. Ninguém é "capaz" de dar conta de tudo isso sozinha, ninguém é capaz de dividir seu tempo entre tantas coisas e ainda manter a sanidade mental. Mas as mulheres, diferentemente dos homens, são muito boas em multitarefas (ou multitasking para os mais moderninhos) - você já deve ter ouvido ou mesmo falado isso. Bom, aí está mais uma lenda urbana que se junta ao grupo de "mulheres enxergam melhor a sujeira/bagunça", "mulheres são melhores nos cuidados com os filhos", "mulheres são mais organizadas e detalhistas (por isso são boas para fazer atas de reuniões)", etc. Crescemos, mulheres e homens, ingerindo falsas verdades sobre o que somos/podemos e muitas vezes aceitamos como verdade aquilo que depois vai nos render muitas frustrações, culpas e dissabores com a vida. Mas o que é ser “multitarefas"? É a capacidade de realizar várias tarefas independentes em um período de tempo limitado de forma que há uma sobreposição de processos cognitivos para realizá-las. Ou seja, fazer várias coisas que demandam níveis diferentes de atenção ao mesmo tempo. Elas podem ser divididas em multitarefas sequenciais e multitarefas concorrentes. No primeiro caso, diferentes tarefas requerem atenção ao mesmo tempo. Já no segundo, é necessário alternar a atenção entre atividades distintas. Essa lenda urbana é tão amplamente disseminada que até 80% das pessoas entrevistadas em estudos realizados por pesquisadores na Europa e Estados Unidos acreditam nela . Há até quem possa jurar que trata-se de uma adaptação evolutiva. Em função dessa "crença", mulheres acabam sendo mais cobradas para que, ao mesmo tempo que cuidam dos filhos, gerenciem a casa e sejam bem sucedidas em suas carreiras profissionais. A sociedade não espera que homens participem de reuniões de trabalho enquanto fazem uma lista mental do que precisa ser comprado para o lanche das crianças, nem esperam que revisem o dever de casa das crianças e respondam e-mail de trabalho concomitantemente. Mas, isso é esperado das mulheres. Consequentemente, isso gera uma carga emocional que resulta em mulheres frustradas por não darem conta de tudo, mesmo tendo esse "dom nato para multitarefas”. Defender essa lenda dá força à sociedade patriarcal que está sempre em busca de justificativas para exigir cada vez mais das mulheres, ao mesmo tempo que perpetua formas de impedir que elas alcancem o mesmo sucesso que os homens. Por outro lado, isso normatiza que homens se dediquem somente à sua carreira e não precisem se preocupar com afazeres domésticos ou cuidados com os filhos; afinal de contas, segundo essa mesma sociedade patriarcal, os homens são os provedores e para eles basta o trabalho fora de casa. Mesmo em lares onde a renda da mulher também é necessária para o sustento da família, é apenas a elas delegada e cobrada a execução das demais funções (= terceiro turno de atividades). Em busca de quebrar o estereótipo "mulheres são melhores que os homens em multitarefas", Patricia Hirsh e colaboradoras fizeram um estudo avaliando o desempenho de 48 mulheres e 48 homens realizando tarefas múltiplas (sequenciais e concorrentes). E os resultados mostraram que "ser multitarefas" afeta a velocidade e precisão da realização da atividade tanto para homens como para mulheres, sugerindo que não há diferença substancial na realização de tarefas múltiplas simultaneamente entre mulheres e homens. O que esse estudo nos mostra? Que mulheres não são melhores (nem piores) que os homens na execução de tarefas múltiplas simultaneamente e, por isso, não devem ser cobradas para tal. O estudo diz também que isso não deve ser cobrado de ninguém às custas de perder produtividade e qualidade. Para acabar com alguns vieses de gênero que existem na academia e em outros locais de trabalho, é necessário, como um primeiro passo, desmistificar essa e outras lendas urbanas que circulam por aí. Quais outras lendas urbanas desse tipo vocês conhecem? Referências Hirsch, P., Koch, I., Karbach, J. Putting a stereotype to the test: The case of gender differences in multitasking costs in task-switching and dual-task situations . PLoS ONE, 2019 Strobach T., Woszidlo A. Young and Older Adults' Gender Stereotype in Multitasking . Frontiers in Psychology. 2015; 6 Szameitat A.J., Hamaida Y., Tulley R.S., Saylik R., Otermans P.J.C. “Women are better than men”–Public beliefs on gender differences and other aspects of multitasking . PLoS ONE. 2015 #mulheresnaciência #julianaleonel #multitarefas #terceiroturnodetrabalho #maternidade #lendaurbana #viésdegênero
- Atenção ao embarcar!
Por Catarina R. Marcolin Ilustração: Caia Colla Olá a todos mais uma vez. Faz tempo que não escrevo neste blog, muito mais tempo que não embarco num navio, mas com a passagem do dia mundial dos oceanos, muitas lembranças afloraram. A maioria eram lembranças boas, outras nem tanto. Especialmente de histórias que ouvi. Em alguns outros posts publicados aqui no blog, você pode ter lido sobre as aventuras de trabalhar no mar , de mergulhar até o fundo dos oceanos , ou de viajar pelo mundo em navios estrangeiros . Mas trabalhar embarcado em um navio oceanográfico nem sempre é uma experiência fantástica, especialmente se você é uma mulher. É importante nos lembrarmos de que, quando estamos num navio, estamos também confinados, cercados pelo oceano, sem possibilidade de fazer uma ligação, sem acessar internet, sem ter a possibilidade de visitar um amigo ou familiar, não se pode voltar para casa quando bem entendermos. Um navio também é um ambiente extremamente masculino. A maioria dos tripulantes é composta por homens. Nos pelo menos cinco embarques dos quais participei, conheci uma única mulher tripulante fixa de um navio, ela era a enfermeira de um navio supply , aqueles que dão suporte à plataformas de petróleo. Em navios oceanográficos, não espere encontrar uma mulher tripulante. Quando à tripulação científica, daí sim, é mais fácil encontrar mulheres, apesar de haver uma preferência nítida a homens, pois muitos dos trabalhos envolvem força física. Precisamos carregar caixas, redes, frascos, equipamentos pesados. Mas não é somente isso! São muitas as atividades que, para serem desenvolvidas, necessitam de habilidades como liderança, iniciativa, comunicação, gerenciamento, manuseio de equipamentos, habilidades sociais e intelectuais. O trabalho é realmente duro, mas contrariando o senso comum, conheci mulheres que dão um baile em muitos homens, quando se trata de trabalho embarcado. Inclusive, eu mesma já fui impedida de embarcar num navio, o qual estava programado para realizar tarefas de um projeto do meu doutorado, sob o "argumento" de que não havia instalações adequadas para receber uma mulher. Se você acha que não é um grande problema este desequilíbrio usual na proporção entre homens e mulheres embarcados, talvez você possa perceber uma certa vulnerabilidade que nós mulheres podemos estar sujeitas em um ambiente como esse. Eu sempre embarquei em grupos grandes de pesquisadores e trabalhei com tripulações maravilhosas. Sempre fui tratada com enorme respeito. Infelizmente, nem sempre encontraremos este ambiente respeitoso no dia a dia de um embarque. Para ilustrar essa vulnerabilidade que venho tentando destacar, entrevistei uma bióloga que me relataou situações extremamente inadequadas que ela e outras mulheres viveram num embarque num navio em nossa costa brasileira. Ela preferiu se resguardar pelo anonimato, então a chamarei de M a seguir. BPCN: Alguma vez você já foi excluída de um embarque para "dar espaço" a um homem? M : Não, isso nunca aconteceu comigo, embora em nosso laboratório se dê mais preferência aos homens, pelo argumento de que à bordo há a necessidade eventual de se carregar peso . BPCN: Quantas vezes você já trabalhou embarcada e em quantas dessas vezes você passou por situações desconfortáveis ou inconvenientes, que lhe causasse insegurança? M: Participei de quatro embarques, aconteceram situações chatas em dois deles, mas em apenas um deles me senti insegura. BPCN: Você poderia relatar alguma situação inconveniente que aconteceu com você? M: Eu embarquei duas vezes numa consultoria que contratou um navio para fazer um estudo de monitoramento ambiental. Um funcionário que trabalhava no convés fazia constantes brincadeiras de mau gosto com meu sotaque. Mas ele tinha problemas com outros funcionários também. A segunda situação, a que me deixou insegura, aconteceu num navio, que prefiro não revelar seu nome nem instituição de origem. Eu não imaginava que fosse passar por algo semelhante num navio que pertence a uma instituição de muita credibilidade. Entretanto, já tinha ouvido alguns relatos de expedições anteriores e confesso que já tinha um certo receio de ir nesta expedição, mas não imaginei que aconteceria o que aconteceu. Alguns membros da tripulação tinham um comportamento muito inapropriado. Todos os dias nós dividíamos a sala de refeições com alguns tripulantes. Antes mesmo de acabarmos nossas refeições, alguns tripulantes (de uma importante posição hierárquica dentro do navio) colocavam vídeos musicais de mulheres semi-nuas (funk, axé, pagode), sempre com imagens de homens e mulheres em coreografias insinuantes, fazendo alusão ao ato sexual, com som muito alto. Além disso, todos os dias havia consumo de álcool e os tripulantes nos ofereciam bebidas alcoólicas exaustivamente, especialmente para as mulheres, com intenção clara de nos embebedar. Eles tentavam exaltar seus méritos a todo momento, numa tentativa clara de conquista. Eu sempre me retirava da sala quando começavam com os vídeos e a bebedeira, e aconteceu de alguns deles virem atrás de mim, perguntando porque eu não queria beber, insistindo muito, me assediando. Isso não incomodava somente as mulheres, vários dos nossos colegas homens também se chateavam com a situação, mas em nenhum momento eles se manifestaram. Esta situação foi crescendo, culminando com o próximo caso a ser relatado. É importante destacar que este não era um comportamento de todos tripulantes. Ao mesmo tempo em que fomos assediadas por alguns, outros nos tratavam de forma muito respeitosa. Em um determinado dia houve uma confraternização com churrasco e as bebidas começaram desde cedo, pela manhã ainda. Um dos tripulantes bebeu tanto, que ameaçou se jogar do convés, o que causou enorme confusão. Durante o jantar, um dos nossos colegas (homem) estava jantando enquanto um dos tripulantes, que estava caindo o tempo inteiro de bêbado, derrubou cerveja na mesa, e após sua inútil tentativa de limpeza acabou atingindo com um guardanapo sujo o prato de nosso colega pesquisador, que ficou muito nervoso, pois entendeu que se tratava de um evento de racismo. Diante de tanta confusão nem consegui jantar neste dia por conta de tantos constrangimentos. Me dirigi para a copa para buscar uma fruta e lá parei alguns minutos para conversar com um tripulante sobre a situação. Neste momento entrou um outro tripulante que estava muito bêbado e ficou fazendo perguntas sobre minha amiga (pesquisadora). Eu tentei sair da copa, mas fui impedida pelo tripulante alcoolizado que insistia que eu fosse buscar minha amiga. Fui defendida pelo tripulante com o qual estava conversando e assim consegui sair da copa. Percebi que havia uma sensação de indignação por parte de vários tripulantes, pois este tipo de situação não poderia ser tolerado pela sua classe profissional. O que mais me deixou insegura é que em nenhum momento tivemos acesso ao comandante, nunca podíamos vê-lo e ele nunca respondeu aos nossos chamados e tentativas de contato. Para nossa sorte, um dos tripulantes levou o nosso caso ao comandante, que acabou por tomar uma providência, não sabemos exatamente qual foi, mas não vimos mais o tripulante que nos causava os maiores problemas. Fomos chamados para uma reunião com o imediato que ouviu, enfim, nossos relatos e convocou uma reunião com os causadores de problemas, proibindo o consumo de bebida alcoólica, os vídeos insultantes e os comportamentos que nos causavam desconforto. O comandante solicitou que o assediador se desculpasse publicamente comigo e com o meu colega pesquisador (sobre o evento do jantar), mas nada aconteceu com os outros assediadores. Durante esta expedição, não foi possível realizar os trabalhos de coleta porque houve alguma avaria no navio logo. O navio perdeu sua velocidade e não conseguia mais navegar apropriadamente. O navio não nos desembarcou onde deveria, nos levando direto ao ponto final, e não nos foi comunicado o motivo, bem como não houve alguma explicação sobre o problema. Ficamos sete dias até chegar no nosso destino final, completamente ociosos sem informação do que estava acontecendo. Este mesmo navio e sua tripulação foi novamente disponibilizado para finalizarmos os trabalhos não concluídos nesta segunda expedição. Eu tive ainda que participar desta segunda expedição, mas felizmente não passamos por nenhuma outra situação de insegurança. Entretanto, nos deparamos com uma outra situação muito estressante e preocupante. Estávamos arrastando uma rede bongô, que deveria descer a 200 m de profundidade. Notamos que o arrasto estava durando muito pouco tempo. Descobrimos que o responsável do guincho recebeu ordens de um tripulante (superior ao operador do guincho e responsável pelas operações de convés no meu turno de trabalho) para descer menos corda do que precisávamos para que finalizássemos mais rápido o nosso serviço, comprometendo nossa amostragem e a qualidade dos nossos dados. BPCN: Porque você acha que o responsável pelas operações de convés tentou sabotar/boicotar o trabalho de vocês? Você acha que foi por ignorância ou foi uma tentativa deliberada de "se vingar"? M: Não faço a menor ideia. Não obtivemos nenhuma explicação. Não sabemos se foi vingança, desrespeito por sermos mulheres (uma mulher era a chefe da expedição), preguiça de trabalhar, pressa de voltar para casa, desrespeito pelo seu ambiente de trabalho… Enfim, qualquer que tenha sido o motivo, é muito lamentável por tudo que isso representa, é um gasto indevido de dinheiro público! Também é super importante considerar a perda de uma valiosa informação científica, causada por um trabalho duvidoso/irresponsável por parte da tripulação. Especialmente nesta conjuntura em que nosso país se encontra no momento, obter recursos para a realização de coletas de campo, principalmente em regiões oceânicas, tem se tornado cada vez muito difícil. No fim das contas, os relatos que ouço e repasso demonstram claramente que nos embarques, seja com finalidade de pesquisa científica ou consultoria paralela, ainda existe preconceito sim por parte das tripulações masculinas, que tem a visão da mulher como sexo frágil, o que a torna inapropriada à vida a bordo, onde o dia a dia exige força e adaptações físicas para o trabalho realizado em um ambiente regido pelos movimentos das correntes marinhas. #mulheresnaciência #catarinarmarcolin #assédio #caiacolla #embarque #entrevista #gênero #navio #violênciacontraamulher
- She sells seashells: the women who harvest shellfish
By Gabrielle Souza English edit by Lidias Paes Leme and Carla Elliff Illustration by Joana Ho . In our historical social construction, professions have always been divided between those that are feminine and those that are masculine. This means that some activities were (and sometimes still are) seen as being appropriate only for men, while others that usually do not require so much physical effort, mostly related to pink-collar work (home care, teachers, nurses etc.), have been appointed to women. That being so, many of us as women have been discouraged to carry out certain functions, because we have been told that we are biologically “more fragile and less intelligent”. This short explanation clearly shows that this whole matter is simply an excuse from the patriarchy, right? But you might be asking yourself where I’m getting at. Well, what I mean to say is that, with every passing day, these professional divisions directed to certain individuals are crumbling and women are showing that yes, we can do well in roles and positions that used to be known as being “manly”. A big example of this are the women that harvest shellfish. They are all over the Brazillian coast and their job is to gather different types of seafood from the shore. In Portuguese they are called marisqueiras and this activity is known as mariscagem . It is a form of fisheries, which consists of continuously capturing shellfish in an artisanal way. Mariscagem can be carried out as a small or autonomous production, for individual sustenance or for trade. The shellfish collected through this activity are usually captured in mudflats or sand banks, located in mangroves or near these ecosystems. The most common way to harvest this resource is by hand picking, in which the women scrape the sand using a spoon until they find a shellfish of interest. Female shellfish harvesters in Salinas da Margarida, state of Bahia, Brazil. (Photograph by Ricardo Guabiraba, licensed under the Creative Commons Attribution-Share Alike 3.0 Unported, available at Wikimedia Commons). This activity was initially performed by men, fishermen, who were considered by society as being more apt for the process, since it requires strength and enduring trips to the ocean and mangroves to obtain sustenance for one’s family. On the other hand, women were usually in charge of dealing with the catch, meaning they would clean the fish and shellfish that their husbands, brothers, uncles and fathers would bring from the sea. More recently, women also started taking on the role of extracting shellfish. However, this activity has been all but invisible, despite it being extremely important, both socially and economically. What we can conclude from this is that the lack of acknowledgment of harvesters’ rights regarding this profession, either from their partners and families or from the State through the national social security institute (INSS), which guarantees retirement and other rights, is simply because they are women. The lack of labor’s rights has led to inadequate work conditions for these women, who usually have exceedingly long working hours every day. Studies have sought to carry out a social profile of these women, creating a panorama of socioeconomic aspects and of how they feel about the situations they face. One of these studies was carried out in the community of Barra Grande, municipality of Cajueiro da Praia, state of Piauí, Brazil. This area has a beach strip of 4 km, that is protected by federal decree as an environmental protection area, within the Brazilian category of sustainable use. Most female shellfish harvesters were between 30 and 60 years of age (mean age was 42 years). Educational level was low, with 34.92% of women not having finished elementary school and another 17.46% had no formal education. Regarding marital status, most women were married (44.44%), followed by those that lived with their partners (28.57%). The study also showed that, in average, these women had four children, though the numbers varied from zero to twelve. Many women participating in the study performed other activities to complement their income, such as working as cleaners, making lace, cooking etc. In addition to telling their life stories, they shared the problems they face in this study. These challenges were mostly related to their work conditions and bureaucratic issues, such as demanding the creation of a women’s association of harvesters, since they feel excluded from the fishers’ colonies that already exist. On top of all of this, these women fight sexism on a daily basis. But who says they give up!? A practical example of this fight, besides their persistence in working even in face of so many difficulties, is a project to implement legislation PLC 47/2017. This project defines the profession of Shellfish Harvester and what it entails, including the responsibilities of the government regarding the women in this field, guaranteeing their rights and duties. Women are conquering their place in society and in work organizations, places which are ours by right. However, we know that there is still a long path for us to conquer egalitarian treatment between men and women. Valuing the work of female shellfish harvesters is also a way to value environmental conservation, it is a way to recognize justly a job that is done with care, love and dedication. Recommended video: https://vimeo.com/96543725 Read more about marisqueiras at : https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2017/07/31/politica-de-apoio-a-atividade-de-mulheres-marisqueiras-sera-analisada-na-cdh References: FREITAS, Simone Tupinambá et al. Conhecimento tradicional das marisqueiras de Barra Grande, área de proteção ambiental do delta do Rio Parnaíba, Piauí, Brasil. Ambiente & Sociedade, [s.l.], v. 15, n. 2, p.91-112, ago. 2012. FapUNIFESP (SciELO). http://dx.doi.org/10.1590/s1414-753x2012000200006. Disponível em: < http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-753X2012000200006 >. Acesso em: 01 mar. 2018 Diário do Nordeste. Marisqueiras reivindicam seus direitos. 2003. Disponível em: < http://diariodonordeste.verdesmares.com.br/cadernos/regional/marisqueiras-reivindicam-seus-direitos-1.370455 >. Acesso em: 01 mar. 2018. Senado Notícias. Política de apoio à atividade de mulheres marisqueiras será analisada na CDH. 2017. Disponível em: < https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2017/07/31/politica-de-apoio-a-atividade-de-mulheres-marisqueiras-sera-analisada-na-cdh >. Acesso em: 01 mar. 2018. #chatgabriellesouza #joanaho #chatlídiapaesleme #chatcarlaelliff #mariscagem #marisqueiras #shellfish #shellfishharvesters #fisheries #womeninscience
- 5 é bom, mas 1 é melhor
Por Jana M. del Favero Vou começar esse texto contando uma história que envolve patinhos de plástico, daqueles amarelinhos que crianças brincam em banheiras. Ela começa em janeiro de 1992, quando um navio saiu da China com destino aos EUA, com contêineres carregados desses patinhos. Após uma terrível tempestade no meio do Pacífico, um dos contêineres caiu no mar e despejou sua carga de aproximadamente 29.000 patinhos amarelinhos que começaram uma super jornada. Os primeiros 19.000 patinhos foram em direção ao sul e depois de 3 meses chegaram em praias da Austrália, Indonésia e Chile. Os outros 10.000 se aventuraram para o norte e após percorrerem 32.000 km, alguns foram encontrados no Alasca - EUA. Outros, depois de 3 meses regressaram ao ponto de partida depois de fazer um grande círculo no Pacífico. Até aí, essa jornada já tinha sido de grande interesse para os oceanógrafos, que aprenderam muito sobre as correntes e os giros oceânicos. Mas ela não tinha acabado ainda. Alguns patinhos foram coletados no Hawaii - EUA (quem será capaz de julgá-los por essa escolha?), e outros, mais aventureiros, atravessaram o Estreito de Bering. No Ártico, alguns foram para leste e congelaram em um bloco de gelo que atravessou lentamente o polo viajando a aproximadamente 2 km/ dia. Depois de 5 anos, o pacote de gelo com os patinhos chegou no Atlântico, e, ao derreter, os aventureiros continuaram sua viagem em direção ao sul. Alguns pararam nas praias da margem oeste do Atlântico nos EUA, mas um pequeno grupo seguiu para o leste e, em julho de 2007, depois de 15 anos e mais de 27.000 km, a jornada dos patinhos se encerrou na Escócia, do outro lado do Atlântico. Mais detalhes dessa epopéia podem ser vistas aqui ou no livro Moby Duck , de Donovan Hohn). A jornada dos patinhos de plástico ( via Bate-Papo com Netuno com CC SA-BY 4.0 ) Não é impressionante que patinhos liberados no Pacífico consigam chegar no Atlântico? É por isso que comecei esse texto com essa história, para mostrar que, nesse mundo de água salgada, tudo está conectado. Isso fica bem visível quando olhamos um mapa com a Antártica no centro do mundo (como os desse link aqui ), onde se vê um único oceano global, cobrindo 71% da nossa Terra. As fronteiras que conhecemos e chamamos de Oceano Atlântico, Índico, Pacífico e Ártico surgiram ao longo do tempo por uma variedade de razões históricas, culturais, geográficas, científicas e políticas. Essas “áreas delimitadas por humanos” são também chamadas de bacias oceanográficas e recentemente, além dessas quatro, uma quinta está sendo reconhecida por diversos países, a Austral (Antártica – saiba mais no site da NOAA ). As cinco bacias oceanográficas (via Wikimedia em CC BY-SA 4.0) Mas, por que se preocupar tanto se estamos falando de um ou de cinco oceanos? Porque reconhecer um só oceano é uma importante mudança na maneira como olhamos essa porção do nosso planeta. Isso é especialmente relevante quando trabalhamos para protegê-lo, pois significa que nós todos estamos unidos. Significa entender que, quando fazemos algo em um lugar, os impactos serão sentidos em todos as outras partes desse oceano. Isso impacta muito como nos sentimos em relação à nossa responsabilidade em proteger o oceano, disse Francesca Santoro, coordenadora do programa de cultura oceânica da Comissão Oceanográfica Internacional (COI) - UNESCO em um vídeo gravado à Liga das Mulheres pelo Oceano. E então, vamos juntos derrubar o S e nos conectar através deste único oceano? Para se divertir Nesse site, você consegue colocar patinhos em diversos lugares do oceano e observar para onde eles migrariam ao longo dos anos. http://plasticadrift.org/?lat=39.1&lng=-130.5¢er=-5&startmon=jan&direction=fwd #droptheS #décadadooceano #oceandecade #culturaoceânica #ioc #unesco #oceano #umoceano #oneocean #janamdelfavero #ciênciasdomar
- Massas de água
Por Juliana Leonel Os dados de salinidade e temperatura do mar servem, entre outras coisas, para identificar as massas de água, como já falamos no texto sobre CTD . Mas o que são massas de água? O conceito de massas de água veio da meteorologia, onde surgiu o conceito de massas de ar. No oceano, elas são parcelas de água do mar com origem conhecida e com parâmetros físico-químicos (valores de salinidade, temperatura, nível de oxigênio, etc) característicos, como se fosse uma assinatura. As massas de água têm densidades distintas e, por isso, não se misturam (facilmente). Isso faz com que a coluna de água dos oceanos não seja homogênea, mas sim estratificada em camadas: superficiais (0 - 500 m), intermediárias (500 - 1500 m), profundas/de fundo (> 1500 m). É como se as massas de água fossem os blocos a partir dos quais a estratificação oceânica é construída. A temperatura de uma determinada massa de água é em função da temperatura do ar no momento de sua formação. Isso se aplica até mesmo para as camadas de águas abaixo das superficiais e até já distantes de sua região de formação, suas características foram adquiridas quando estiveram em contato com a atmosfera. Por exemplo, quando formada em regiões polares, uma massa de água terá temperaturas muito baixas devido à perda de calor para a atmosfera. Essa perda de calor, também resulta em águas com maior capacidade de absorver oxigênio (lembre-se: a dissolução dos gases aumenta com a diminuição da temperatura e vice-versa). Essas e outras características das massas de água se preservam mesmo depois que elas afundam, se distanciam das suas regiões de origem e ficam até centenas de anos sem ter contato novamente com a atmosfera. É importante enfatizar que massa de água não é a mesma coisa que corrente oceânica. Na verdade, as correntes são as responsáveis pelo transporte das massas de água. Distribuição das principais massas de água ao longo da América do Sul (norte das Malvinas até a Guiana Francesa) com base nos dados de oxigênio dissolvido coletados pelo World Ocean Circulation Experiment (WOCE - A017) via Juliana L. com CC SA-BY 4.0 . Siglas: ACAS - Água Central do Atlântico Sul, APAN - Água Profunda do Atlântico Norte, AFA - Água de Fundo Antártica, AIA - Água Intermediaria Antártica, UCDW - Água Profunda Circumpolar Superior, LCDW - Água Profunda Circumpolar Inferior. Como se originam as massas de água? As massas de água se formam em regiões distintas dos oceanos (nos pólos ou nos subtrópicos, por exemplo) e mantém as características dessas regiões. Tanto a formação como a circulação dessas massas de águas são guiadas por diferenças na densidade devido a mudanças na temperatura e salinidade . Entre todas as massas de água há duas que têm uma importância especial por serem responsáveis pela oxigenação das águas profundas dos oceanos: a água profunda do Atlântico Norte (APAN) e a água de fundo Antártica (AFA). Sem elas, a existência de organismos aeróbicos em zonas profundas dos oceanos, não seria possível. Além disso, são massas de água chaves na manutenção do clima do nosso planeta. A APAN e a AFA são formadas pelo processo de convecção (afundamento da água da camada de mistura devido ao aumento da densidade) em regiões polares onde a coluna de água é pouco estratificada (ou seja, as águas aqui são bem homogêneas). Enquanto que a formação de águas centrais, tais como a Água Central do Atlântico Sul (ACAS), ocorrem por subducção em regiões subtropicais; a subducção consiste no bombeamento para baixo da água do fundo da camada de mistura, através da convergência formada pelo transporte de Ekman . Isso faz com que a água afunde ao longo das linhas de densidade. Curiosidade: Já tomou banho de mar em Cabo Frio? Achou a água congelante apesar de estar nos trópicos? A ressurgência da ACAS é a responsável pelas baixas temperaturas da água nesta região. Processo de afundamento da água da camada de mistura via Bate-Papo com Netuno com com CC SA-BY 4.0 . Como são formadas a APAN e a AFA? A formação APAN ocorre na região do oceano que lhe dá o nome, mais precisamente no Mar de Labrador. Quando as águas superficiais fluem para o norte, devido à evaporação, elas se tornam mais salgadas e quando chegam no norte do Atlântico Norte ficam mais frias. O aumento da salinidade e a diminuição da temperatura resulta no aumento da densidade dessa água, que afunda. A baixa temperatura dessas águas também favorece a solubilização de gases que, antes de afundarem e quando ainda estão em contato com atmosfera, acabam com uma maior quantidade de oxigênio dissolvido. Assim, a APAN é uma massa de água rica em oxigênio. A AFA é a massa de água mais densa e fria do oceano, com temperaturas até mesmo negativas. Ela é formada no Mar de Weddell e no Mar de Ross, localizadas na Antártica. Quando o vento oriundo do continente Antártico sopra na superfície do oceano, ele afasta parte do gelo superficial da costa, formando estruturas chamadas de polínias. A água superficial nas polínias é bem salgada, porque quando a água congela ela expele o sal, além de muito fria (no limite do congelamento). Consequentemente, ela é também bem densa e acaba afundando na plataforma continental e escoando pelo talude até alcançar o assoalho oceânico. Curiosidade: O termo polínia é emprestado da palavra russa полынья que se refere a buraco natural no gelo; ela foi adotada por explorados polares no século XIX para descrever partes navegáveis do mar. O primeiro registro de uso da palavra é de 1852. Polínias no Mar de Ross via Wikimedia com CC BY 2.0 Como é feita a identificação das massas de água? A técnica tradicional de identificação de massas de água usa parâmetros conservativos, ou seja, aqueles que não têm seus valores alterados por atividades biológicas, como temperatura potencial¹ e salinidade. Eles são representados em um diagrama T-S (Temperatura-Salinidade), método apresentado em 1916 por Helland-Hansen. O diagrama T-S é uma representação gráfica dos valores de temperatura potencial e salinidade, onde a temperatura é representada no eixo y e a salinidade no eixo x. Os valores são comparados com aqueles pré-estabelecidos e consolidados em estudos anteriores para cada massa de água. Cada ponto no gráfico corresponde a uma determinada densidade da água. Como uma mesma densidade pode ser obtida a partir de distintas combinações de temperatura e salinidade também é possível desenhar isolinhas (ou seja, linhas de mesmo valor) de densidade potencial² no diagrama T-S. Um método mais acurado para identificar massas de água é a análise multiparamétrica (ou seja, com o uso de medições de vários parâmetros) que, além dos parâmetros conservativos, usa alguns não-conservativos (oxigênio dissolvido e nutrientes inorgânicos - silicato, fosfato e nitrato). Nesse método, além do diagrama T-S, é possível plotar outros diagramas, como o T-O (temperatura-oxigênio) e S-O (salinidade-oxigênio), por exemplo. Representação de um diagrama T-S com linhas de densidade ao fundo; as cores representam valores de oxigênio dissolvido via via Juliana L. com CC SA-BY 4.0 . Siglas: ACAS - Água Central do Atlântico Sul, APAN - Água Profunda do Atlântico Norte, AFA - Água de Fundo Antártica, AIA - Água Intermediaria Antártica, UCDW - Água Profunda Circumpolar Superior, LCDW - Água Profunda Circumpolar Inferior. As massas de água são responsáveis por distribuírem calor, sal, nutrientes e oxigênio pelas bacias oceânicas. No entanto, elas também transportam contaminantes e por isso, alguns podem ser encontrados em regiões bem afastadas de suas áreas de produção e uso. Nosso oceano é formado por muitas águas, mas todas estão conectadas. ¹ A temperatura potencial é a temperatura de uma parcela de água sem o efeito da pressão da coluna d’água sobre ela, ou seja, aquela que qualquer parcela de água teria se fosse levada até a superfície dos oceanos de forma adiabática (sem troca de calor). ²Densidade potencial é a densidade de uma parcela de água calculada a partir da salinidade, da temperatura potencial e da pressão em um determinado nível de referência na coluna de água . #julianaleonel #descomplicando #massasdeágua #oceanografia #oceano #oceanografiafísica
- Plásticos biodegradáveis: cuidado! Você pode estar sendo enganado
Por Juliana Leonel Ilustração: Joana Dias Ho Plástico é um material orgânico sintético formado por um único tipo de polímero ou mistura destes (polímeros = macromoléculas formadas a partir da repetição de unidades estruturais menores). Dependendo da matriz polimérica usada, diferentes tipos de plásticos, com distintas características e propriedades, serão produzidos. Além do polímero formador do plástico, diversos aditivos podem ser inseridos na sua composição, tais como plastificantes, estabilizantes, corantes, retardantes de chama, entre outros. A principal matéria prima usada para a fabricação de plásticos é o petróleo. Entretanto, podem ser produzidos polímeros a partir de matrizes biológicas, como óleos e gorduras vegetais, amido de milho, feno etc. Esses polímeros recebem o nome de bioplásticos (do inglês bio based plastic ). Além disso, alguns plásticos são produzidos pela mistura de polímeros oriundos dessas duas fontes (petróleo e biológica) [1]. Uma das características que fazem do plástico um material tão atrativo, a durabilidade, também faz com que sejam um problema ambiental e que seus detritos estejam presentes nos ecossistemas de todo o mundo, inclusive em fundos oceânicos a 6000 m de profundidade [2]. Uma vez no ambiente, fragmentos plásticos são responsáveis pela morte de diversas espécies, seja pelo sufocamento, por impedir a natação ou por causarem falsa sensação de saciedade quando ingeridos [3]. Um grupo específico, os microplásticos (plásticos com raio < 5 mm), além de causarem problema físicos à biota [4], podem servir como vetores para a distribuição de contaminantes (tais como praguicidas e elementos traços) que ficam aderidos na sua superfície e podem aumentar a taxa de sedimentação da matéria orgânica alterando a bomba biológica (responsável por remover CO2 atmosférico para o sedimento marinho) [5]. Além disso, a degradação dos plásticos, ainda que lenta, libera metano, um gás estufa com capacidade de aquecimento significativamente maior que o CO2 [6]. Com o objetivo de diminuir o tempo de permanência do plástico no ambiente e minimizar os problemas ambientais associados, novas tecnologias e matérias primas começaram a ser empregadas para produção dos polímeros. Você já pode ter ouvido falar neles, são os tais oxi-biodegradáveis, biodegradáveis, bioplásticos e compostáveis. Embora alguns textos apresentem alguns destes termos como sinônimos, eles podem ser bem diferentes! O termo biodegradável, por exemplo, pode ser bastante controverso. Todo material orgânico, inclusive o plástico, eventualmente irá biodegradar, seja depois de alguns dias ou de milhares de anos. Isso pode levar a ideia de que o termo biodegradável pode ser usado para qualquer tipo de plástico, indiferentemente do seu tempo de permanência no ambiente. Para evitar isso, existem alguns protocolos internacionais que definem de forma mais específica o termo. Um exemplo é a definição dada pela Sociedade Americana para Testes e Materiais (ASTM, American Society for Testing and Materials ): Plástico Biodegradável é aquele em que "todo o carbono orgânico deverá ser convertido para biomassa, água, dióxido de carbono, e/ou metano via a ação natural de microrganismos de ocorrência natural, como bactérias e fungos, em um período de tempo consistente com as condições ambientais do método de disposição" (ASTM D883-18 [7]). Uma outra definição, dada pela Federal Trade Commission [8], considera biodegradável o produto que "se fragmentar completamente e retornar a natureza, isto é, que se decompor em elementos achados na natureza com um período de tempo razoavelmente curto (um ano) após a sua disposição" Em busca de aumentar a degradabilidade dos plásticos, a partir dos anos 2000, os oxi-biodegradáveis (do inglês oxo-degradable ) ficaram muito conhecidos com a proposta de aumentar a velocidade de degradação do material. Para isso, introduziram aditivos aos plásticos convencionais para acelerar o processo de oxidação. Dessa forma, quando expostos a luz UV, oxigênio e calor, o material rapidamente se fragmentava em pedaços menores, os microplásticos, e o problema aparentemente "desapareceria". No entanto, hoje sabe-se que os microplásticos também são um grande problema ambiental, conforme descrito anteriormente. Por isso, o uso de plásticos oxi-biodegradáveis não é mais aceito como uma alternativa ecologicamente correta [9]. Ademais, existe um questionamento sobre quais seriam as consequências ambientais dos aditivos inseridos no polímero para acelerar a fragmentação. No Brasil, existe a norma ABNT PE-308.01 que trata dos critérios dos plásticos oxi-biodegradáveis; vale ressaltar que a norma é de 2004 e muito do nosso conhecimento sobre o assunto já evoluiu desde lá. Além disso, algumas empresas citam os métodos descritos pela ASTM D6954-4 [10] para atestar que seus produtos oxi-biodegradáveis passaram nos testes de oxidação e biodegradação. No entanto, a ASTM D6954-4, tambem de 2004, já foi inclusive suspensa e substituída por outra mais nova (ASTM D6954-18) que incorpora os conhecimentos mais recentes sobre o assunto. Por fim, o próprio Ministério do Meio Ambiente não endossa o uso de plásticos oxi-biodegradáveis em função dos riscos que representam ao ambiente [11]. Preste atenção na embalagem de algumas marcas de canudos e/ou sacolas plásticas e você poderá identificar algumas dessas características: Contém aditivo oxi-biodegradável que atende a norma AST D6954-4, ou seja, aquela de 2004 que já foi suspensa; 36 meses (=2,5 anos) para ser biodegradado totalmente, sendo que até mesmo a AST D6954-4 já exigia biodegradação em no máximo 2 anos. Nos últimos anos, a produção de bioplásticos cresceu bastante e cada vez mais a indústria tem explorado essa matriz vegetal como uma solução para o problema ambiental do plástico. Mas o que é o bioplástico? Conforme explicado anteriormente, é o plástico que tem o seu polímero sintetizado a partir de uma matriz biológica, como cana-de-açúcar, mandioca, etc. É muito importante ficar atento para o fato que bioplástico não é necessariamente sinônimo para plástico biodegradável. Duas vantagens do bioplástico: a) não ser oriundo de uma matriz ligada a diversos problemas sócio-político-econômicos e ambientais (o petróleo, lembram?) e b) a sua produção pode liberar menos carbono que a quantidade que foi assimilada pelas plantas usadas para manufaturar o polímero, um passo importante em favor da diminuição da geração de gases estufas. No entanto, não podemos deixar de levantar pelo menos duas questões: 1. O bioplástico pode ser classificado como biodegradável? 2. Qual o impacto do aumento do uso de matrizes vegetais em questões como desmatamento, segurança alimentar e uso do solo? Para discutir esses tópicos, vamos falar do caso do bioplástico I'm green , produzido pela Braskem a partir da cana-de-açúcar. Recentemente, a Carbon Trust (companhia que ajuda governos, organizações e empresas a reduzirem suas emissões de carbono) reconheceu que o mecanismo de produção do I'm green consome mais carbono do que libera [12], o que é uma coisa boa! No entanto, o I'm green é um polietileno como qualquer outro e tem as mesmas características daquele produzido usando petróleo. Ou seja, se ele não for corretamente destinado depois do uso para uma planta de reciclagem, ele irá parar no ambiente onde permanecerá por centenas de anos. Embora existam bioplásticos que são biodegradáveis, o uso do termo como sinônimos não é correto e leva a interpretações equivocadas dos benefícios ambientais de cada um deles. Um exemplo de bioplástico que é também biodegradável é o ácido poliláctico produzido a partir de amido de milho ou cana-de-açúcar ou mandioca [13]. Com relação ao segundo ponto, a Braskem tem o compromisso de só usar cana-de açúcar de áreas que se expandiram sobre terrenos de pastagens esgotados. No entanto, é preciso considerar que isso pode estimular o desmatamento, uma vez que o agropecuarista irá procurar outras áreas para pastagens. Além de intensificar o efeito estufa, o desflorestamento também pode alterar o regime de chuvas. Esse é um ponto especialmente importante de ser considerado principalmente quando há um Projeto de Lei (PLS 626/2011) que objetiva liberar o cultivo de cana-de-açúcar na Amazônia Legal [14]. Por fim, temos os plásticos compostáveis que, segundo a ASTM 6400 [15], são materiais que, quando em uma planta de compostagem, devem "degradar por processos biológicos e durante a compostagem produzir CO2, água, compostos inorgânicos, e biomassa em uma taxa consistente com o de outros materiais conhecidamente compostáveis, e não deve deixar nenhum resíduo visível, distinguível ou tóxico" em um máximo de 180 dias. Segundo essa definição nem todos os plásticos biodegradáveis são compostáveis. E para evitar confusões, a Califórnia, por exemplo, proibiu o uso do termo biodegradável em sacolas, copos e containers de alimento e só permite o uso do termo compostável, para os materiais que realmente o são [16]. Além da composição do polímero, na hora de avaliar a melhor opção, deve-se levar em conta os aditivos que são incorporados no produto final bem como as condições ambientais na qual o material se encontra no momento da decomposição [17]. Por exemplo, alguns plásticos só irão se decompor em condições específicas de temperatura e oxigênio e às vezes estas só são encontradas em plantas de compostagem específicas; isso significa que se esse material for parar no aterro sanitário a sua decomposição poderá demorar muito mais tempo do que esperado. Nesse contexto, um outro problema associado a permanência dos plásticos no ambiente é a forma como estes são descartados após o uso. No caso de plásticos compostáveis, estes devem ser separados do material reciclável para evitar o comprometimento deste. Da mesma forma, não devem ser misturados com os resíduos que serão enviados para o aterro sanitário. A essa altura, você consumidor já deve estar confuso com tantas opções e tanta falta de padronização. Como saber qual a melhor alternativa do ponto de vista ambiental? Antes de mais nada, é necessário nos mantermos atentos e questionar, pois algumas marcas usam técnica de greenwashing (tradução direta: lavagem verde), ou seja, anunciam um produto com mais benefícios ambientais do que ele realmente tem. Nesse contexto, é comum encontrarmos embalagens com partes verdes, desenhos de folhas, com palavras como " green ", "eco", "bio", sem explicar a que se referem exatamente, mas passando a ideia de um produto menos danoso ao ambiente. Assim como há duas décadas acreditava-se que o plástico oxi-biodegradável era a melhor alternativa, hoje há uma tendência em direção aos bioplásticos devido ao seu potencial de diminuir os impactos de produção. Mas se você quer garantir um menor impacto no mundo, a saída é evitar o consumo de plásticos sempre que possível! Mas como faço isso? Com pequenas mudanças de hábito: 1. Usando reutilizáveis (copo, caneca, canudo, talheres, por exemplo) e, é lógico, lembrando de carregá-lo sempre; 2. Usando sacolas reutilizáveis para as compras; 3. Fazendo compras a granel, pois aí você pode usar vidros ou sacos de plástico/tecido reutilizáveis; 4. Optando por comprar frutas, legumes e demais vegetais que não venham embalado em plástico filme; 5. Substituindo a sacolinha no pote de lixo por um saquinho de papel (pode ser um feito de jornal ou aquele em que vem o pão); 6. Substituindo o absorvente de uso único por calcinhas absorventes, copinhos ou qualquer outra opção disponível no mercado que melhor lhe agrade; 7. Repensando seus hábitos de consumo de uma forma em geral, antes de comprar pare e pense “eu realmente preciso disso?”; 8. Disseminando essas ideias. E, se não for possível evitar, a melhor opção é separar o plástico e destiná-lo para a reciclagem depois do uso. E você, qual dicas têm para adicionar nessa lista? Compartilha com a gente. Referências: 1. Álvarez-Chávez, C. R.; Edwards, S.; Moure-Eraso, R.; Geiser, K. (2012) .Sustainability of bio-based plastics: general comparative analysis and recommendations for improvement. Journal of Cleaner Production 23:47-56. 2. Chiba, S.; Saito, H.; Fletcher, R.; Yogi, T.; Kayo, M., Miyagi, S.; Ogido, M.; Fujikura, K. (2018). Human footprint in the abyss: 30 year records of deep-sea plastic debris. Marine Policy, 96:204-212. 3. Law. K.L. (2017). Plastics in Marine Environment. Annual Review of Marine Science, 9:205-229. 4. Cole, M.; Lindeque, P.; Halsband, C.; Galloway, T.S.(2011). Microplastics as contaminants in the marine environment: a review. Marine Pollution Bulletin, 62:2588-2597. 5. Cole, M.; Lindeque, P. K.; Fileman, E.; Clark, J.; Lewist, C.; Halsband, C.; Galloway, T. S. (2016). Microplastics Alter the Properties and Sinking Rates of Zooplankton Faecal Pellets. Environmental Science and Technology, 50:3239–3246. 6. Royer, S-J.; Ferrón, S.; Wilson, S. T.; Karl, D. M. (2018). Production of methane and ethylene from plastic in the environment. PLoS ONE 13(8):e0200574. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0200574 7. ASTM Standard D883, 2018. Standard Terminology Relating to Plastics, ASTM International, West Conshohocken, PA, DOI: 10.1520/D0883-18, www.astm.org 8. Federal Trade Commission, “Proposed Revisions to Green Guides: Summary of Proposal,” Washington, DC: October 10, 2010, ( http://www.ftc.gov/os/2010/10/101006greenguidesproposal.pdf) - acessado em 02/11/2018 ) 9. Report to the European Parliament and the Council on the impact of the use of oxo-degradable plastic, including oxo-degradable plastic carrier bags on the environment. European Commission. January, 2018. ( http://ec.europa.eu/environment/circular-economy/pdf/oxo-plastics.pdf ) - acessado em 02/11/2018. 10. ASTM Standard D6954-4, 2004, Standard Guide for Exposing and Testing Plastics that Degrade in the Environment by a Combination of Oxidation and Biodegradation, ASTM International, West Conshohocken, PA, DOI: 10.1520/D6954-04, www.astm.org 11. http://www.mma.gov.br/component/k2/item/7660-saiba-mais - acessado em 10 de março de 2019. 12. https://www.biobasedworldnews.com/carbon-trust-endorses-braskems-carbon-negative-claims-for-its-bio-based-plastic - acessado em 02/11/2018 13. Hammad, K.; Kaseemb, M.; Ayyoob, M.; Joo, J.; Deri, F. (2018). Polylactic acid blends: The future of green, light and tough. Progress in Polymer Science, 85:83-127 14. Ferrante, L.; Fearnside, P. M. (2018). Amazon sugarcane: a threat to the forest. Science. DOI: 10.1126/science.aat4208 15. ASTM Standard D6400, 2004, Standard Specification for Compostable Plastics, ASTM International, West Conshohocken, PA, 2004, DOI: 10.1520/D6400-04, www.astm.org 16. Compostable Plastics 101: An overview of compostable plastic sponsored by the California organics recycling council. https://compostingcouncil.org/wp-content/plugins/wp-pdfupload/pdf/8095/Compostable%20Plastics%20101%20Paper.pdf - acessado em 02/11/2018. 17. Kubowicz, S.; Booth, A. M. (2017). Biodegradability of Plastic: Challenges and Misconceptions. Environmental Science and Technology, 51:12058-12060. #descomplicando #julianaleonel #bioplástico #biodegradável #joanaho #plástico












