Uma Stramonita em minha vida

Atualizado: há 6 dias

Por Catarina Ruiz Mello


*Esse post é dedicado em memória a Luiz Fernando Mello da Silveira (1952-2020), meu pai, meu herói, o responsável por me dar todo o suporte, oportunidades e carinho para que eu alcançasse meus objetivos e possa continuar alcançando


Stramonitas


Foto: Catarina Ruiz Mello, com licença CC SA-BY 4.0.


Não me lembro exatamente quando ouvi essa palavra pela primeira vez, e com certeza não tinha a menor ideia que ela faria uma grande diferença na minha vida.


A Stramonita é uma espécie de caracol do mar, um molusco gastrópode (agrupa os animais conhecidos por caracóis, lesmas, lapas e búzios) marinho da família Muricidae. Ela habita os costões rochosos, principalmente no litoral do sudeste brasileiro. No mediterrâneo oriental era encontrada em abundância, porém entrou em colapso no início do século XXI e desapareceu completamente em 2016 por conta de exploração.


Apesar de sua cara simpática, são predadores que se alimentam de mexilhões, ostras, outros gastrópodes, cracas, além de poliquetas. Para se alimentar, perfuram as conchas dos moluscos e as placas das cracas, liberam uma toxina que causa a abertura dos bivalves, e utilizam sua rádula (uma espécie de língua cheia de dentículos) e sua longa probóscide (como a tromba de um elefante, mas milhões de vezes menor), e assim conseguem consumir as presas.

Ilustração: Catarina Ruiz Mello, com licença CC SA-BY 4.0.


Ok, agora que ela já está bem apresentada, poderei dizer o que ela tem a ver com a minha vida. Não, eu não trabalho com elas, inclusive não as vejo tem uns 2 anos.


Tudo começou há um tempo atrás… no laboratório de genética e biotecnologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), onde eu ainda atuo na área de análise de dados em microbiologia.


Foi então que conheci a Xuliana Tutubarão (popularmente conhecida como Juliana de Biasi), uma das pessoas mais inspiradoras que já passou pela minha vida e uma cientista incrível. Ela é apaixonada por Stramonitas, e foi aí que eu ouvi pela primeira vez o nome dessa criaturinha de não mais de 10 cm de comprimento.


Juliana era doutoranda no laboratório e atuava na área de estudos de conservação de espécies de importância econômica através de ecologia molecular, a rainha da genética e dos tubarões…


Aqui vai uma fotinha dessa belezoca:

Foto: Catarina Ruiz Mello com licença CC SA-BY 4.0.


Minha pesquisa é 100% análise de dados com a bioinformática e não envolve atividade de bancada. Então, quando eu queria me distrair, eu ia atormentar a Juliana. Eu reclamava um pouco, conversávamos, ficava perguntando tudo que ela estava fazendo e se eu podia ajudá-la a extrair os DNAs dos tubarões dela. Era o famoso “se eu não posso ajudar, eu irei atrapalhar”.


Foi um momento da vida que eu estava bem perdida em relação à graduação. Eu não sabia mais para onde estava indo, não sabia o que queria exatamente, e o que queria de fato parecia tão inalcançável que eu raramente conseguia me lembrar que gostava mesmo de algo.


A Juliana foi muito importante nesse processo para mim (mesmo que ela não tenha ideia disso). Ela demonstrava um amor tão grande pelas Stramonitas quando falava delas e dos seus estudos durante a graduação que envolveram essa espécie. Ela também falava sobre a importância de ser resiliente. Isso me fez perceber que eu precisava encontrar a “Stramonita” na minha vida, algo que eu realmente gostasse.


Alguns meses depois eu tive a oportunidade de participar junto a dois colegas de graduação, a Isabela e o Cássio, no auxílio de campo do estudo de mestrado do André Pardal, através do professor Ronaldo Christofoletti. Fiquei uma semana na base Norte do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo em Ubatuba, São Paulo. Foi a primeira vez em 3 anos de graduação que tive a oportunidade de ir para campo, já que minhas pesquisas nunca envolviam nada além de um belo computador com Linux e códigos (não estou reclamando, eu amo muito isso).


E advinha só quem era a espécie utilizada neste estudo?

Yeah! STRAMONITAS!


Foi uma das melhores experiências que a Unifesp me proporcionou. Cada dia que passava, tinha mais certeza que embora eu ainda não soubesse exatamente a área que queria seguir, estava tudo bem eu gostar de tudo: análise de dados, atividade em campo, as diversas áreas das ciências do mar, em especial a vulcanologia, geologia, oceanografia física e microbiologia.


Tive certeza que eu estava no caminho certo e não consigo imaginar minha vida se não for atuando em ciências marinhas, na realidade eu nem tinha um plano B.


Essa semana incrível ocorreu em julho de 2018. Levantávamos todos os dias entre 4h30 e 5h da manhã com muito frio, tomávamos café da manhã, íamos para as praias (área de estudo) e à noite construíamos as gaiolas que eram usadas para o controle de Stramonitas e cracas. Nosso trabalho era todo feito em costões rochosos, então algumas coisas atrapalharam, como sempre. Chuva, frio, a maré, a não existência de Stramonitas no local, dentre outras eventualidades…


O objetivo do trabalho era estudar a influência do aumento do nível do mar na relação de predação entre Stramonitas e cracas. Alguns dias foram mais difíceis que outros, algumas praias tinham acesso bem complicado, o que piorava nos dias de chuva.


Mesmo assim eu estava muito feliz. A cada dia eu gostava mais daquelas Stramonitas fofinhas. Foi a partir dessa experiência que muitas inseguranças dentro de mim desapareceram e por isso comecei a buscar coisas que realmente queria fazer: uma delas era atuar na divulgação científica. Nessa ocasião também ganhei dois amigos incríveis, a Isa e o Cássio, nos ajudamos bastante ao longo dos meses posteriores.


Fotos: Catarina Ruiz Mello com licença CC SA-BY 4.0.


E por fim…


Desde pequena eu sabia que queria ser pesquisadora, mas eu também queria mostrar isso de alguma forma para a sociedade, sendo com texto, documentários, ou atuando como professora. E hoje estou aqui! Nesse exato momento que escrevo, foi o dia em que me tornei oficialmente editora deste blog (um dos dias mais felizes da minha vida). As Stramonitas atualmente não fazem parte da minha vida, mas elas com certeza simbolizam o marco entre “acho que estou no caminho errado” e “não consigo imaginar outro caminho para minha vida que não seja o que estou hoje.”


Gostaria de agradecer à Juliana de Biasi por todo o aprendizado, risadas, e paciência, ao André Pardal e Ronaldo Christofoletti por terem me proporcionado uma das/a melhor experiência na minha graduação, ao Cássio e à Isa, por todo o companheirismo e amizade, mesmo que hoje tenhamos nos afastado por termos seguido caminhos diferentes, e ao blog Bate-Papo com Netuno, por tornar em realidade a única certeza que tenho na minha vida profissional.


Curiosidade: Você sabia que uma concha chamada Bolinus brandaris (conhecida também como Murex corante roxo), dessa mesma família Muricidae, era uma das duas principais fontes de roxo tyriano, um corante altamente valorizado e usado nos tempos clássicos para o vestuário da realeza?).


Ilustração: Catarina Ruiz Mello, com licença CC SA-BY 4.0.



#CatarinaRMello #VidaDeCientista #Stramonitas #Biotecnologia #Pesquisa #FiqueEmCasa

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