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- Lixo no mar: da ciência à política pública
Por Carla Elliff , Mariana Andrade , Vitória Scrich e Natalia de Miranda Grilli O lixo no mar é um problema mais complexo do que inicialmente pode parecer. Muitas vezes associado simplesmente à falta de educação de um turista na praia, o lixo que encontramos nos ambientes marinhos e costeiros na realidade nos contam histórias que envolvem toda a sociedade. Quem já participou de mutirões de limpeza de praia já deve ter se perguntado “ de onde vem todo esse lixo? ”. Considerando a variedade de itens que são encontrados (desde embalagens de alimento, cotonetes, pneus, redes de pesca a televisões) a resposta demanda conhecimento sobre a composição desse lixo e suas possíveis fontes. Se não tivermos clareza sobre isso, podemos nos ver numa situação de “enxugar gelo”: continuamente limpando o oceano, mas sem estancar a fonte do problema. Por isso, antes de planejar ações de combate, é necessário monitorar e avaliar a poluição por lixo no mar. É a partir dessa premissa que nasceu o projeto de construção do Plano de Monitoramento e Avaliação do Lixo no Mar para o Estado de São Paulo (PEMALM). Essa construção é uma parceria entre a Secretaria Estadual de Infraestrutura e Meio Ambiente do Estado de São Paulo (SIMA), o Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FUNBIO), a Cátedra UNESCO para a Sustentabilidade do Oceano, o Instituto de Estudos Avançados (IEA) e Instituto Oceanográfico (IO) da Universidade de São Paulo, com financiamento da Embaixada da Noruega. O PEMALM está sendo desenvolvido como uma política pública baseada na ciência e de forma participativa. Isso significa que, ao longo de todo o processo, consultamos a literatura científica, as pessoas e as instituições (chamados de “atores”) envolvidas na temática. Logo no início, foi necessário um grande esforço de levantamento de dados científicos publicados sobre o lixo no mar no litoral paulista e levantar também quem são esses atores que produzem, ou têm o potencial de produzir, informações sobre o assunto. Fizemos um primeiro workshop em dezembro e agora estamos na fase de consulta pública , aberta para qualquer pessoa participar! Mas para quê serve um plano de monitoramento e avaliação de lixo no mar? Atualmente, um dos grandes obstáculos nos esforços de entendimento sobre o problema é a falta de levantamentos de informação sistemáticos e de longo prazo. Os estudos sobre o assunto são relativamente recentes, sejam eles para investigar a distribuição espacial dessa poluição e a composição do material ou os seus riscos. Atualmente é muito difícil apontar tendências e, além disso, as metodologias de coleta nem sempre são comparáveis. Este é um passo importante que precisamos dar para combater o lixo no mar. Outro ponto muito importante considerado no PEMALM são os atores envolvidos na construção dessa política pública. Quando pensamos em pessoas ou instituições relevantes para o assunto lixo no mar, temos que ter uma visão ampla. O setor público e privado, o meio acadêmico e o terceiro setor (ONGs e associações, por exemplo) precisam estar todos representados, já que cada um tem seu papel na complexa cadeia de entendimento sobre o lixo que chega e impacta o mar. Pensando nesse contexto, o PEMALM traz três listas de indicadores sugeridos para o monitoramento e avaliação dessa poluição: indicadores de geração de lixo para o mar, de exposição ao lixo no mar e de efeitos do lixo no mar. Essa abordagem foi desenhada com base num recente relatório do Grupo de Especialistas em Aspectos de Poluição Marinha (GESAMP) e na metodologia DPSIR (na sigla em inglês, que significa Força Motriz-Pressão-Estado-Impacto-Respostas). Esta metodologia é bastante utilizada na gestão ambiental e é uma forma de comunicar problemas complexos, dividindo-os em etapas. Este vídeo , produzido para um curso online da ONU sobre lixo no mar, detalha como essa abordagem pode ser aplicada especificamente a esse problema ambiental. Os indicadores sugeridos também foram desenvolvidos pensando em quem potencialmente pode colaborar com seu monitoramento e com quais temas importantes para as políticas públicas eles se relacionam. No PEMALM, esses temas são: turismo, segurança alimentar, saúde humana e bem-estar, navegação, pesca e aquicultura, bem-estar animal e biodiversidade. Olhando esses temas, fica ainda mais clara a transversalidade do assunto. Por exemplo, um microplástico pode oferecer um risco não só à biodiversidade, mas também à segurança alimentar humana, já que ele pode levar à uma perda na qualidade do pescado que eventualmente ingira esse material. Outro exemplo interessante é ver como atividades potencialmente geradoras, como o turismo e a pesca, são também afetadas pelo lixo no mar. Por isso é tão importante construir de forma participativa uma política pública, para se garantir múltiplas visões que se complementam e tornam o plano mais eficiente e praticável. E quais são os próximos passos para o PEMALM entrar em prática? Como mencionamos, o PEMALM agora está na sua fase de consulta pública até o dia 23/10/2020 . Esta é uma ferramenta fundamental para fortalecer o desenvolvimento de políticas públicas democráticas e legítimas. É neste momento que todos os cidadãos e cidadãs afetadas por uma política pública devem ter a oportunidade de influenciá-la. Todas as contribuições recebidas serão consideradas pela equipe do projeto e o plano seguirá então para sua publicação. Após publicado, esperamos contar com o engajamento da rede de atores já mobilizada e agregar novos indivíduos e instituições! O PEMALM é um primeiro passo e temos um longo caminho a percorrer, seria impossível fazê-lo sem a participação de tantas pessoas buscando soluções para o complexo problema do lixo no mar. Fica aqui novamente nosso convite para participarem da consulta pública. Sem vocês, o PEMALM não fica completo! Sobre as autoras: Mariana Andrade Pesquisa e comunica processos participativos para a conservação do oceano. É membro do Comitê de Governança Nacional, Jovem Embaixadora do Oceano Atlântico no Brasil ( @queridoatlantico / @AllAtlanticYouth) e co-fundadora da @bloom.ocean : agência de mudança para pessoas, projetos e negócios ligados ao oceano. É pesquisadora do Plano de Monitoramento e Avaliação do Lixo no Mar para o Estado de São Paulo , contribui com o Grupo de Trabalho de Empreendedorismo em Ciências do Mar ( @gtecienciasdomar ) e é conselheira da Liga das Mulheres pelo Oceano ( @ligadasmulherespelooceano ). Vitória Scrich Graduada em Ciências Biológicas, pesquisa sobre a importância da interação entre os diferentes setores da sociedade para tratar do problema do lixo no mar. É mestranda no Programa de Ciência Ambiental (PROCAM-IEE/USP) e atua no Laboratório de Manejo, Conservação e Ecologia Marinha do Instituto Oceanográfico (IOUSP). É colaboradora da Cátedra UNESCO pela Sustentabilidade do Oceano e membro da equipe organizadora do Plano de Monitoramento e Avaliação do Lixo no Mar para o Estado de São Paulo . Natalia de Miranda Grilli Graduada em Ciências Biológicas, especialista em Gerenciamento Ambiental e Mestre em Oceanografia, ambos pela USP. É educadora ambiental, consultora de comunicação do Plano de Monitoramento e Avaliação do Lixo no Mar para o estado de São Paulo, colaboradora da Bloom Agência de Mudança, conselheira da Liga das Mulheres pelo Oceano e integrante do Instituto Costa Brasilis e do Laboratório de Manejo, Ecologia e Conservação do IOUSP, e do Youth Climate Leaders. #CiênciasDoMar #LixoNoMar #LixoMarinho #PoluiçãoPorPlástico #PolíticaPública #CiênciaEGestão #Participativo #Monitoramento #PEMALM #CarlaElliff #Convidados
- Para o plâncton, tamanho é documento...
Por Catarina R. Marcolin Para este texto de estreia para a sessão Ciências do Mar resolvi escrever sobre um tema que tem me fascinado muito nos últimos anos, desde quando comecei a trabalhar em meu projeto de doutorado. É muito comum alguém perguntar “Sobre o que é seu doutorado?” e a reação geral do estudante de pós é desconversar, falar o título do projeto (um nome gigante que quase ninguém entende) ou dar uma explicação superficial, pois “dá muito trabalho” explicar direito. Como esta sessão propõe justamente uma aproximação entre a academia e a sociedade, é por isso que neste post eu me proponho a explicar de forma simples, mas não simplista, uma parte do trabalho que desenvolvi durante o meu doutorado. O meu grupo de interesse é o plâncton, mais especificamente o zooplâncton. Não estou falando do vilão do Bob Esponja, mas vale a pena conhecer um pouco mais sobre esses organismos mesmo assim. O zooplâncton compreende pequenos animais aquáticos (geralmente invisíveis a olho nu) tradicionalmente descritos como organismos que vivem “ao sabor das correntes”, porque eles não tem “força” suficiente para nadar contra as correntes, por conta de seu tamanho pequeno. Mas isso não quer dizer que esses bichinhos são preguiçosos, muito pelo contrário, muitos deles conseguem migrar verticalmente na coluna de água por muitos metros, às vezes centenas de metros. O zooplâncton é muito importante nas famosas teias alimentares, e também é peça fundamental em outros processos importantes (assunto para outros posts). Estes organismos comem o fitoplâncton (que são a parte fotossintetizante do plâncton, são para os oceanos o que as árvores são para a floresta amazônica) e são comidos pelos peixes, que são comidos pelo homem e também pelas baleias. Então já viu, se não tem muito zooplâncton na área, “o mar não está pra peixe”, nem para nenhum outro organismo nos níveis tróficos superiores. Ou seja, vai faltar o salmão do sushi, e eu adoro comida japonesa. Exemplo de teia trófica. Fonte: Fitoplâncton Uwe Kils/ Wikimedia Commons CC BY-SA 3.0. Bem, se o zooplâncton é tão importante mediando essa transferência de biomassa e energia desde os produtores primários (fitoplâncton) até os níveis tróficos superiores (peixes, aves, baleias, homem), então precisamos entender essas relações de alimentação de forma mais profunda, certo? Pois bem, uma das regras de ouro nos oceanos é que os organismos sempre (ou quase sempre) se alimentam de organismos menores que ele próprio. Por isso tamanho é documento quando o plâncton está escolhendo o menu do jantar. Levando isso em conta, muitos pesquisadores estudaram o fluxo (passagem) de biomassa e energia ao longo dos níveis tróficos. Por exemplo, calcularam quanto do que o plâncton absorve durante o “jantar” é de fato passado para os peixes, aves e baleias que se alimentam desse mesmo plâncton. E essa informação aparentemente tão simples tem potencial para explicar um monte de coisas sobre nossos oceanos. Mas como? Bem, se você medir o tamanho dos organismos, calcular seu peso e somar a biomassa em cada classe de tamanho, como no gráfico ao lado, você irá perceber que sempre existe mais biomassa acumulada nos organismos pequenos do que nos organismos grandes. Quando falo sobre biomassa acumulada estou me referindo a soma do peso de todos os organismos que pertencem a uma determinada faixa de tamanhos. Mas o que isso quer dizer? Quer dizer que para saciar a fome dos organismos grandes é preciso uma grande quantidade de organismos pequenos, pois precisamos nos lembrar que existe perda de energia durante cada refeição. Isso quer dizer que nem tudo que comemos é absorvido pelo nosso organismo e com o zooplâncton não é diferente. Com base nessas informações foi desenvolvida uma teoria, chamada teoria do espectro de biomassa, que relaciona a forma dessa distribuição da biomassa ao longo das classes de tamanho (bem como índices matemáticos associados a essa distribuição) com propriedades dos ecossistemas. Eu acho simplesmente incrível poder associar um simples índice matemático com a eficiência da transferência de energia num ecossistema, com produtividade, com interações entre predador e presa e com a quantidade de níveis tróficos nos oceanos. E o meu doutorado está fundamentado nessa teoria com nome intimidante (espectro não remete a algo fantasmagórico?), mas que na verdade é bem mais simples do que aparenta. Para conseguir meus dados embarquei em diversos cruzeiros oceanográficos coletando zooplâncton com uma rede como esta da foto abaixo. No laboratório eu escaneei as amostras utilizando um scanner a prova de água (chamado de ZooScan) e usei um software para obter imagens dos organismos, identificar, contar e medir de forma rápida e prática. Eu também aprendi a programar em linguagem R e Matlab para mandar o computador fazer todas essas contas para mim, pois a vida é curta e eu tenho outros hobbys além de ciência para me dedicar, como este blog por exemplo. Rede simples de plâncton. Foto de Cat Marcolin com CC SA-BY 4.0 . Os resultados que encontrei tanto na costa de Ubatuba, SP quanto na região do banco de Abrolhos revelaram que os índices matemáticos associados à teoria do espectro de biomassa podem ser utilizados para identificar diferenças na comunidade do zooplâncton em relação à alterações sazonais (de acordo com as estações do ano) e às características locais (como estratificação da coluna de água, profundidade, proximidade da costa), respectivamente. Isso quer dizer que esses índices são úteis em programas de monitoramento dos ecossistemas oceânicos, especialmente porque são fáceis de serem calculados (se você tiver a tecnologia a seu dispor) e não necessitam da identificação das espécies, que costuma ser algo bem demorado quando se trata de plâncton. Se você se interessou pelo assunto, minha tese de doutorado está acessível através deste link . Ficou com dúvidas? Entre em contato com a gente deixando um comentário ou pelo formulário à sua esquerda. Até o próximo bate-papo. #CatarinaRMarcolin #CiênciasDoMar #Plâncton #Oceanografia #BiologiaMarinha
- Pesca Artesanal
Por Gabrielle Souza No descomplicando netuno de hoje vamos falar sobre pesca artesanal. Você sabe do que se trata? Confira mais informações neste post ;) Fonte Nós costumamos achar que o termo pesca artesanal está sempre ligado a comunidades tradicionais e a subsistência. Mas grande parte de sua produção vai muito além da subsistência. O termo pesca pode ser subdividido de acordo com a nossa legislação. Segundo a cartilha sobre pesca artesanal legal, publicada pelo Ministério Público Federal, esta pode ser dividida em: 1) Pesca artesanal que é praticada de forma individual e autônoma ou por economia familiar, geralmente utilizando meios de produção próprios; 2) Pesca não comercial amadora que é realizada com equipamentos ou petrechos previstos em legislação específica, tendo por finalidade o lazer ou esporte; 3) Pesca não comercial de subsistência que tem como finalidade o consumo doméstico e 4) Pesca comercial industrial que é praticada por pessoa física ou jurídica, envolvendo pescadores profissionais e vínculo empregatício. Em qualquer um dos tipos acima, é possível vermos a Pesca ilegal ou a Pesca predatória. Basta que a operação retire do ambiente uma quantidade de peixes superior à capacidade de reposição ou que utilize equipamentos inadequadas, estas ações podem até constituir crime. Mas vamos logo ao que interessa? O assunto de hoje é pesca artesanal. A gente já falou que pesca artesanal é praticada por pescadores profissionais de forma autônoma, ou por envolvimento familiar. Nesta atividade, se utilizam embarcações de pequeno porte e, portanto, apenas distâncias pequenas são alcançadas, próximo a costa (art. 8º, inciso I, “a”, da Lei Federal nº 11.959/2009 e art. 2º, inciso IV, da Instrução Normativa Interministerial 10/2011). Além disso, os trabalhos ligados a confecção de petrechos de pesca, reparos nas embarcações e processamento do pescado também são de descritos na Lei Federal nº 11.959. Para o reconhecimento dessa atividade, é necessária a obtenção de documentos apropriados, que visam a segurança do pescador nesta atividade e a proteção do meio ambiente. A documentação é extensa e vai desde permissão prévia de pesca, passando por inscrição da embarcação (registrada na Autoridade Marítima e no Registro Geral da Atividade Pesqueira (RGP)) até a regularização da habilitação do pescador, entre outros. Alguns dos petrechos utilizados na pesca artesanal são a linha, redes de espera ou emalhe, redes de arrasto, cerco, armadilha e puçá (coleta manual com aparelho de mergulho), entre outros. Dentro de cada uma dessas modalidades, a legislação ainda caracteriza alguns subtipos, bem como determina as atividades proibidas. A pesca de rede é uma das mais utilizada na pesca artesanal. Figura 1. A - Pesca por rede; B - Pesca por armadilha; C - Pesca por linha; D - Pesca por arrasto. Fonte: Imagem A ; Imagem B ; Imagem C ; Imagem D . Em 2013 o Ministério da Pesca e Aquicultura apontou que dentre as 1,4 milhões de toneladas da produção de peixes de 2011, 803 mil toneladas se originaram da pesca, sendo a pesca artesanal responsável por mais de 50% da produção interna Ao contrário do que imaginamos, é ela a grande responsável pelo maior volume do pescado consumido em nosso país. Apesar de não associarmos a pesca artesanal a impactos negativos no ambiente marinho, não quer dizer que eles não existam. A atividade pesqueira realizada artesanalmente pode contribuir para o cenário de degradação dos ecossistemas costeiros, caso não siga as normas estabelecidas pela legislação. Referências: Pesca artesanal legal : pescador da região Sul/Sudeste : conheça seus direitos e deveres / 6ª Câmara de Coordenação e Revisão, Populações Indígenas e Comunidades Tradicionais. – Brasília : MPF, 2017. Pesca artesanal brasileira. Aspectos conceituais, históricos, institucionais e prospectivos/ Adriano Prysthon da Silva – Palmas : Embrapa Pesca e Aquicultura, 2014. JURÍDICOS, Presidência da República Casa Civil- Subchefia Para Assuntos. LEI Nº 11.959, DE 29 DE JUNHO DE 2009. . Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2009/lei/l11959.htm >. Acesso em: 23 out. 2017. #descomplicando #gabriellesouza #pescaartesanal
- Not all corals want sun and warm water!
By Ágata Piffer, Beatriz Mattiuzzo and Samara Oliveira English edit by Lídia Paes Leme and Katyanne M. Shoemaker * post originally published in Portuguese on Nov 03, 2016 Illustration by Joana Ho . When you think about corals, what images come to mind? I bet they’re of coral reefs in warm, clear and shallow waters, like the ones in the Great Barrier Reef in Australia. Well, I’m here to tell you that not all corals are like those! Corals are commonly associated with tropical and shallow environments, but other kinds are also present in our oceans, including cold-water corals and deep-water coral Contrast between cold water corals, (left) and warm water corals (right). (Source: Image on the left courtesy of the NOAA Office of Ocean Exploration and Research, Windows to the Deep 2019; image on the right by the U.S. Fish & Wildlife Service - Pacific Region's Photo credit: Jim Maragos/U.S. Fish and Wildlife Service). The existence of cold corals has been known since the eighteenth century, however, only within the last few decades have we become aware of the abundance of distribution of these corals, thanks to the growing field of deep water exploration and submersible and acoustic technology. The name of these animals refers to the environment that they’re found in, characterized by water temperature between 4° and 12° C and at a depth of 50 meters, in high latitudes, to about 4000 meters close to the tropics. The cold water corals are azooxanthellate cnidaria, meaning they don’t live with the symbiotic algae typical of the shallow and tropical corals. These algae, called zooxanthellae, are what make photosynthesis possible to warm water corals. Since the cold corals live in areas of very low or no light, photosynthesis is impossible and there is no reason to associate with zooxantels. Instead, cold corals feed by filtering organisms and organic matter from the water around them (bacteria, protozoa, zooplankton and phytoplankton). Deep water corals can be subdivided into four categories: 1) stony corals or Scleratina, that build reefs; 2) soft corals or Octococallia, that do not have a carbonate skeleton and cannot form reefs, 3) Black corals, which are exclusively found in deep water, and 4) hydrocorals, which alternate between polyp, fixed structure, and medusa phases, like a jellyfish. Example of a deep-sea coral reef in Cordell Bank National Marine Sanctuary off the coast of California. (Source: Smithsonian , Jodi Pirtle/Cordell Bank National Marine Sanctuary). It is not yet possible to make significant estimates of the biodiversity associated with these organisms. However, some studies in the Northeast Atlantic point to more than 1300 species living amongst cold corals. This diversity in corals and associated organisms is comparable to that found in tropical reefs. A big difference between the two environments is that only about 10 species of deep corals form permanent structures, leaving behind the so-called true reefs when the animal dies. In warm waters, there are more than 800 species of corals that help build the reef. In Brazil, there are currently 56 registered species of cold corals so far, with Lophelia pertusa and Solenosmilia variabilis being the most abundant. Distribution, Development and Endemism Deep-water corals are restricted to oceanic and relatively cold waters; we still do not have a complete view of their global distribution, which depends a lot on research efforts carried out in different regions of the planet. In other words, the extremely low record in large areas of Africa and South America does not necessarily reflect the absence of these organisms in such places, but rather the few research efforts. Despite the apparent uneven world distribution, new discoveries are constant, and today it is believed that, until a few years ago, scientists underestimated the size of cold reefs. With advances in research, it was already possible to notice some patterns in the distribution of these organisms. The distribution of Scleractinia corals (hard corals) depends mainly on the carbonate chemistry in the water, and for them to exist they must be above the saturation horizon of aragonite (ASH - Aragonite Saturation Horizon, which determines the maximum depth at which we can find this carbonate before it dissolves in water). This helps explain the abundance of records in the Northeast Atlantic, in which the estimate ASH is 92000 meters in depth, meaning that it includes the whole water column. It also explains the absence of reefs in polar areas and in the North Pacific, where ASH is shallow, between 50 and 600 meters in depth, therefore the fauna is dominated by soft corals, as shown in image 2b. Known global distribution of deep corals a) Hard, reef builder corals b) several Gorgonia species (red dots), black corals (black), hydrocorals (blue) and other soft corals (green shades). (Source: NOAA Deep Sea Coral Data Portal ). In addition to depending on the presence of aragonite, cold corals are also associated with primary production on the surface, that is, the production of organic matter and its transport to deep waters, as a high production on the surface means availability of food for these organisms at the bottom. Thus, cold corals are present in places with rapid bottom currents, or in areas far from the coast where waves and tides lead to an increase in the arrival of food for these organisms.They are also found around seamounts, where the dynamics of currents trap nutrient-enriched waters on the banks, favoring the development of deep corals. This is what happens, for example, in the Porcupine Banks and Darwin Mounds, in the Northeast Atlantic, where there is record of organic matter of easy assimilation, like lipids and polyunsaturated acids, up to almost a thousand meters in depth. The apparent dependence on localized circulation patterns, as in seamounts, tends to limit the dispersion capacity and favor many cold-water corals to be species exclusive to a certain area, what scientists call endemism. For example, a recent study in the Southwest Pacific resulted in 34% of the species seen as new and potentially endemic. Just like tropical coral reefs, deep reefs develop after an initial settlement of the larvae on a hard substrate. As the structure grows, other organisms are attracted by the potential habitat and the reef grows as new polyps establish themselves on it, using the skeleton of the oldest portions, which makes these structures last a long time. However, little is known about the reproduction of cold water corals. Some theories argue that seasonal food flows, linked to the seasonal blooms of phytoplankton on the surface, would influence carbon transport and provide the ideal periodic conditions for the reproduction of cold corals. Nevertheless, much research is still needed in this field, and, in this sense, ongoing studies with molecular markers seem promising. Threats There is still a lot to study about cold water corals to be able to determine what can actually threaten these organisms. So far, we are aware of three orientations: bottom trawl fishing, oil or gas exploration and ocean acidification. Their high vulnerability is due to their way of life, so that all cold water corals are extremely fragile and vulnerable to physical disturbances. As they are linked to a fauna and flora of high economic value, they cannot escape heavy trawl drag or sea currents full of pollutants or sediments that can be deposited, causing the polyps to clog. There is evidence of major impacts on cold corals through trawling activities, especially at high latitudes, where these corals are not so deep. Ideally, until the dimension of the impacts are better known, the precautionary principle should be adopted and fishing in such regions should be limited. After all, in the whole world, trawling is proving to be a factor of great habitat destruction, and when it is focused on deepwater fishing it can be even more harmful. The greatest potential threat to deep water reefs, however, is the same to tropical reefs: ocean acidification. Although studies have not yet been conducted exclusively on cold water corals, it is known that the carbonate saturation limit for deeper waters would change by up to hundreds of meters, causing a huge loss of habitat for these organisms. Finally, there is a need to rapidly increase research on cold corals, especially in the Southern Hemisphere. Although the conditions for such studies are expensive and unfavorable, the potential importance of these habitats is increasingly clear in the biological, chemical and geological scopes, reinforcing the need to quickly collect more accurate information. References: Appeltans W, Bouchet P, Boxshall G. A, Fauchald K, Gordon D. P, et al., editors. (2011) World Register of Marine Species. Disponível em: http://www.marinespecies.org . Acesso em 29 de maio de 2016. Cairns, S.D., 2011. Global diversity of the Stylasteridae (Cnidaria: Hydrozoa: Athecatae). PloS one, 6(7), p.e21670. Freiwald, André, and J. Murray Roberts, eds. Cold-water corals and ecosystems. Springer Science & Business Media, 2006. Freiwald, A.; Fosså, J. H.; Grehan, A.; Koslow, T.; Roberts, M.; Arrecifes de coral de agua fría - Fuera de la vista – pero ya no de la mente. Serie de Biodiversidad del Centro. Centro Mundial de Monitoreo de la Conservación del PNUMA. Reino Unido. 2004 NOAA Deep-sea Coral Data – World Map. Disponível em: https:/deepseacoraldata.noaa.gov/ website/AGSViewers/DeepSeaCorals/mapSites.htm . Acesso em: 28 de maio de 2016. Roberts, J.M., Wheeler, A.J. and Freiwald, A., 2006. Reefs of the deep: the biology and geology of cold-water coral ecosystems. Science , 312 (5773), pp.543-547. Roberts, J.M., 2009. Cold-water corals: the biology and geology of deep-sea coral habitats . Cambridge University Press. Rogers, A.D., 2004. The biology, ecology and vulnerability of deep-water coral reefs . IUCN. Turley, C.M., Roberts, J.M. and Guinotte, J.M., 2007. Corals in deep-water: will the unseen hand of ocean acidification destroy cold-water ecosystems?. Coral reefs , 26 (3), pp.445-448. Roberts, J.M., Wicks, L. L. Lophelia.org. Disponível em http://www.lophelia.org/ . Acesso em: 29 de maio de 2016. About the authors: Beatriz Mattiuzzo, 22 years-old, oceanography undergraduate since 2013 and in love with the ocean since forever. Beatriz is adventurous and she is confident that her biggest adventure so far has begun after starting the studies at the Oceanographic Institute of the University of São Paulo. Beatriz is currently studying cetaceans, focusing on bioacoustics. Samara da Cunha Oliveira, 22 years-old, oceanography undergraduate at the Oceanographic Institute of the University of São Paulo. She has been concerned about the environment ever since she learned about the carbon cycle in school, which was when she learned about being an oceanographer and fell in love with the subject. Samara is beginning her studies on environmental perception. Ágata Piffer Braga, 23 years-old, oceanography undergraduate since 2012 at the Oceanographic Institute of the University of São Paulo. Her biggest passion is physical oceanography. Ágata is developing her term paper at the Ocean Dynamics Laboratory, where she is looking into the Santos Bifurcation through new climatology. #Corals #CoralReef #DeepSea #DeepSeaCoral #Oceanography #MarineBiology #Guests #JoanaHo
- Cultura oceânica: Por que temos que falar sobre isso nas escolas?
Por Carmen Pazoto Será que você já viu uma fotografia do nosso planeta tirada a partir do espaço? Se nunca viu (ou se nunca se cansa de ver!) dê uma olhadinha na fotografia abaixo, obtida pela tripulação da missão Apollo 17 em 1972 e disponível no site da NASA. “Bola-de-gude azul” é o nome dado a essa foto tirada em 1972 pelos tripulantes da missão Apollo 17 e republicada no site da NASA em 22 de abril de 2020 para comemorar o dia da Terra. Embora não seja nova, representa a espantosa visão que os primeiros astronautas tiveram do nosso planeta azul. (Fonte: Nasa ). Uma das características do nosso planeta que mais chamou a atenção dos primeiros astronautas a se aventurarem pelo espaço (e a minha também!) foi a constatação de que ele era predominantemente azul. Como vocês devem saber, isso se deve ao fato de que mais de 70% da superfície da Terra é formada por oceano e mares. E, embora essa seja uma das principais caraterísticas do nosso planeta, as pessoas, no geral, não costumam dar muita importância ao oceano. Digo oceano no singular e não no plural, como de costume, já que as bacias oceânicas estão todas interligadas, formando um único oceano global . A despeito da falta de atenção ou interesse que o oceano desperta no nosso cotidiano, ele é fundamental para as nossas vidas. É só pensar no que aconteceria se ele desaparecesse. Primeiro de tudo, podemos imaginar uma grande mudança da paisagem que predomina na Terra, que se tornaria bem semelhante à de Marte: um mundo marrom, com montanhas, longas planícies e depressões profundas. Sem o oceano perderíamos grande parte da biodiversidade do planeta. Por exemplo, todos os grupos de seres vivos têm representantes no ambiente marinho e alguns grupos são, inclusive, mais diversos nesse ambiente. Entre esses seres marinhos que desapareceriam estão as microalgas, invisíveis aos nossos olhos, mas essenciais à vida, já que produzem mais de 50% do gás oxigênio que respiramos . A atmosfera não seria diferente apenas pela redução da quantidade de gás oxigênio, mas, também, pelo aumento da concentração do gás carbônico, já que o oceano absorve a maior parte desse gás, atuando no controle do clima do planeta. Além disso, grande parte da precipitação que ocorre em terra, vem da evaporação da água do oceano. Deu para perceber que sem o oceano a vida, pelo menos como a conhecemos, não seria possível na Terra? E olha que eu só citei alguns exemplos de sua importância... Se você não estava familiarizado com o papel indispensável desempenhado pelo oceano não se sinta mal! Por muito tempo, se pensou que seus recursos eram infinitos e que sua imensa vastidão seria capaz de suportar tudo o que nele lançássemos, como bem disse a oceanógrafa Sylvia Earle em seu livro A Terra é Azul , de 2017. Mas também não fique parado! Ainda dá tempo de aprender, se interessar e defender o oceano. Afinal, a ignorância talvez seja um dos fatores responsáveis pela negligência da saúde desse ambiente. Uma forma de combater a falta de conhecimento sobre o oceano começou a ser elaborada em 2002, por um grupo de cientistas oceânicos e educadores estadunidenses que começaram a refletir sobre o que todas as pessoas deveriam saber sobre o oceano. Essa iniciativa ficou conhecida como Cultura Oceânica, e foi definida como “uma compreensão da influência dos oceanos na vida do ser humano, bem como a influência do ser humano nos oceanos ”, após um grande workshop online que ocorreu em 2004 (veja o nosso Descomplicando Netuno sobre o tema aqui ). A Cultura Oceânica incorpora a ideia de que quanto mais instruídos em relação ao oceano, mais nós, seres humanos, respeitaremos seus limites, no que tange à sustentabilidade dos ecossistemas marinhos e seus recursos. Uma das formas de alcançar esses objetivos da Cultura Oceânica é introduzir, tanto na educação formal quanto na educação não formal, conteúdos relacionados ao oceano em consonância com os princípios e conceitos em que se baseia a Cultura Oceânica e, mais ainda, inseri-los nos currículos escolares! Desde as fases iniciais da educação escolar podemos abordar assuntos referentes aos ambientes marinhos. Como professora e bióloga marinha fiquei intrigada em saber se e como os conteúdos sobre o oceano e o ambiente marinho são apresentados nas escolas. Para entender um pouco sobre isso, resolvi voltar a estudar e, em 2019, comecei um doutorado na área de biologia marinha pela Universidade Federal Fluminense. A pesquisa que desenvolvo visa entender se a temática oceânica está representada nos currículos escolares brasileiros, como os professores inserem esse conteúdo em suas aulas e qual o nível de conhecimento sobre o oceano apresentados pelos estudantes do estado do Rio de Janeiro. Por enquanto, só a primeira parte da pesquisa está concluída e, por isso, vamos falar apenas dela no momento: existem conteúdos sobre o oceano e ambiente marinho nos currículos escolares? Para responder a essa pergunta fiz uma análise do documento que direciona os conteúdos que devem ser ensinados na educação básica no Brasil, a Base Nacional Curricular Comum (BNCC). Esse documento apresenta os conteúdos obrigatórios para cada disciplina ao longo de cada ano de escolaridade, no ensino infantil, fundamental e médio. Além desses conteúdos, cada estado e cada município podem complementar seu referencial curricular com uma parte diversificada, relacionada à sua cultura, por isso também analisei o Documento Curricular do Estado do Rio de Janeiro. Para esta análise, fiz a leitura desses documentos em busca das palavras oceano e mar, bem como de outras que se referem a esses ambientes e podiam surgir da leitura. E o resultado é que os conhecimentos sobre o oceano não estão em destaque na BNCC. Encontrei 6 palavras relacionadas a essa temática (aquática, mar, marítima, oceânica, oceano e tsunami), que aparecem nos conteúdos de ciências, geografia e história. Ao todo, essas palavras são citadas apenas 10 vezes, e somente na parte do documento que se refere ao ensino fundamental, que vai do 1º ao 9º ano de escolaridade. Considerando que a BNCC tem 600 páginas e se refere a três segmentos de ensino, os conteúdos referentes ao oceano estão bem pouco representados... Infelizmente, essa situação não é diferente no documento curricular do Rio de Janeiro. Nesse texto, o ambiente marinho está um pouquinho mais representado, sendo citadas mais quatro palavras relacionadas ao ambiente marinho, além daquelas já citadas na BNCC: praia, mangue, restinga e litorânea. Ao todo são 15 citações, que continuam aparecendo nos conteúdos das disciplinas de ciências, geografia e história. Contudo, ainda devo dizer que estas ocorrências estão muito aquém dos princípios e conceitos propostos pela Cultura Oceânica em nível internacional. Claro que a Cultura Oceânica não deve se restringir apenas à escola! Mas a escola é um ótimo lugar para compartilhar esses conteúdos, tanto quanto para incentivar uma conexão do ser humano com o oceano. Por isso, aproveito para fazer um apelo aos profissionais de educação, num esforço de implementar nas suas aulas conteúdos sobre o oceano, mesmo que ele não esteja tão presente nos currículos e livros didáticos (vale a pena conhecer o projeto Maré de Ciência ). Como bem colocado pela mergulhadora e marinheira Tosca Ballerini, no kit pedagógico Cultura Oceânica para Todos (que pode ser baixado gratuitamente aqui ), “uma condição necessária para querer proteger algo é conhecê-lo e amá-lo” . Assim, se existe uma necessidade de informar os cidadãos sobre o impacto de suas ações sobre o oceano, de forma que todos os seres vivos possam usufruir de um oceano saudável no futuro, urge a necessidade da propagação e ampliação da Cultura Oceânica para todo morador desse planeta chamado Terra. Afinal, não queremos salvar só o oceano, queremos salvar o NOSSO oceano e todas as formas de vida que dele dependem e é bom dizer que isso inclui a gente, a raça humana! Referências: Cava F, Schoedinger S, Strang C & Tuddenham P (2005). Science content and standards for ocean literacy: A report on ocean literacy. http://coexploration.org/oceanliteracy/documents/OLit2004-05.Final report.pdf . Data de consulta: 04.01.19 Earle, S A (2017). A Terra é azul: Por que o destino dos oceanos e o nosso é um só? São Paulo. SESI-SP Editora. 320p. UNESCO (2020). Cultura oceânica para todos: kit pedagógico. https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000373449 . Data de consulta: 01.06.2020 Sobre a autora: Sou Bióloga Marinha, formada pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e tenho mestrado em Zoologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Desde a minha formação me dedico a uma paixão que surgiu durante o tempo da faculdade, a educação, e atuo como professora de Ciências e Biologia da rede pública e particular do município de Niterói/RJ. Decidida a juntar duas paixões da minha vida: a biologia marinha e a educação, ingressei em 2019 no curso de doutorado pelo Programa de Pós-Graduação em Biologia Marinha e Ambientes Costeiros pela UFF, onde tenho me dedicado a pesquisar a Cultura Oceânica na educação formal brasileira. #CulturaOceânica #OceanLiteracy #DécadaDoOceano #PlanetaAzul #Oceano #UNESCO #OceanDecade #IOC #ONU #Convidados #CiênciasDoMar
- Descomplicando a Cultura Oceânica
Por Mari Andrade e Jana del Favero Conhecer e entender a influência do oceano em nós e nossa influência no oceano: esta é a essência da Cultura Oceânica ( Ocean Literacy) . Parece em um primeiro momento uma combinação estranha de palavras, mas cultura e oceano tem tudo a ver. Cultura Oceânica é cativar as pessoas para que se reconectem com o oceano, em uma relação baseada em conhecimento de qualidade , na acessibilidade, na diversidade ecossistêmica e cultural e na mudança de comportamento. Mas de onde veio isso? O desejo de reunir elementos para embasar esse desejo de reconexão começou em 2002, quando profissionais da educação e cientistas do mar se uniram nos EUA para desenvolver recursos pedagógicos para o ensino das ciências do mar. Os profissionais da educação identificaram essa lacuna no ensino e conseguiram mobilizar institutos de pesquisa para levar essa demanda para conferências e reuniões técnicas durante 2003 e 2004. Foi um passo importante para identificar a necessidade de aproximar “a próxima geração de cientistas, pescadores, agricultores, empresários e líderes políticos” do mar. Ou seja, a discussão da relação da humanidade com o oceano tinha um potencial muito grande e, portanto, precisaria vencer as ondas e navegar outros mares, com diversidade de atores. Foi assim que surgiu o termo Ocean Literacy e, em 2004 mesmo, houve um esforço para definir seus princípios e conceitos fundamentais, que passaram então a ser tratados em conferências a cada 2 anos nos EUA. ⠀ Alguns anos depois a Ocean Literacy atravessou o Atlântico e chegou na Europa, se unindo às discussões sobre educação e divulgação científica que aconteciam por lá. De 2011 para cá, projetos, eventos e acordos de cooperação internacional passaram a considerar a Ocean Literacy como um assunto crucial a ser trabalhado nas Ciências do Mar. A urgência para tratar dele tornou a Ocean Literacy um assunto intergovernamental. Assim, a UNESCO e a Comissão Oceanográfica Intergovernamental assumiram a responsabilidade de estimular essa discussão global e desenvolver ferramentas para sua implementação. Com o Lançamento da Agenda 2030 em 2015 e o anúncio da Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável em 2017, assumiu-se o desafio de incorporar esse conceito aqui no Brasil. Ocean Literacy em mares brasileiros A primeira tarefa que tivemos por aqui foi a própria tradução do termo Ocean Literacy . Literacy é um termo em inglês que surgiu no século 19 para definir a "habilidade de ler e escrever". Desde então, tem sido usado como "competência ou conhecimento de uma certa área" ou "alfabetização". ⠀ Esse termo até existe em português, a palavra literacia , e tem mais ou menos o mesmo significado. Em português de Portugal, falar em literacia é mais comum do que no Brasil. No português brasileiro, o termo pode passar uma ideia de que precisamos ser "letrados", especialistas no assunto. Mas isso contraria um propósito de reaproximação com o oceano, que é para ser democrático e livre para cada um. Então passamos por literacia do oceano , literacia azul , educação marinha , alfabetização dos mares , entre outras variações do termo para o português do Brasil. Foi só em 2019 que foi decidido usar o termo Cultura Oceânica, quando houve o lançamento de uma versão em português para o Kit pedagógico Cultura Oceânica para Todos da COI-Unesco, de onde vieram muitas inspirações para esse texto, em um evento organizado pelo projeto Maré de Ciência . Cultura é um termo complexo, de muitas dimensões e significados. Mas de todas as maneiras traz um sentimento de conexão e responsabilidade que são importantes e fazem sentido com o Brasil. ⠀ Do que trata a cultura oceânica? Mas como é que a gente conecta as pessoas com o oceano? Do que a gente pode falar? Por onde começar? Todas as discussões dos últimos anos aportaram alguns princípios fundamentais, que são assuntos básicos descritos no kit pedagógico, como pontos de início de conversas marinhas. São eles: ⠀ A Terra tem um Oceano global e muito diverso O Oceano e a vida marinha têm uma forte ação na dinâmica da Terra O Oceano exerce uma influência importante no clima O Oceano permite que a Terra seja habitável O Oceano suporta uma imensa diversidade de vida e de ecossistemas O Oceano e a humanidade estão fortemente interligados Há muito por descobrir e explorar no Oceano ⠀ O kit fornece ferramentas, métodos e recursos inovadores para entender esses complexos processos e funções do oceano para educadores e aprendizes em todo o mundo e, também, para alertá-los sobre as questões mais urgentes dentro do tema. Embora esses princípios sejam resultado do que a ciência oceânica se dedicou a estudar nos últimos tempos, para a comunicação e a conexão acontecer, é crucial que outros tipos de conhecimento sejam somados e despertem oportunidades para reconhecer regionalidades e pessoas, tão diversas por aqui no Brasil. A cultura oceânica nos ajuda a situar a sociedade na presente relação com o mar e a guiá-la no caminho de tratar o oceano com respeito no presente para assegurar as mesmas oportunidades para as gerações futuras. Já está mais do que na hora do oceano estar nas nossas conversas, certo? Sobre a autora: Pesquisa e comunica processos participativos para a conservação do oceano. É membro do Comitê de Governança Nacional, Jovem Embaixadora do Oceano Atlântico no Brasil ( @queridoatlantico / @AllAtlanticYouth) e co-fundadora da @bloom.ocean : agência de mudança para pessoas, projetos e negócios ligados ao oceano. É pesquisadora do Plano de Monitoramento e Avaliação do Lixo no Mar para o Estado de São Paulo , contribui com o Grupo de Trabalho de Empreendedorismo em Ciências do Mar ( @gtecienciasdomar ) e é conselheira da Liga das Mulheres pelos Oceanos ( @ligadasmulherespelosoceanos ). Instagram: @mari.m.andrade . Este texto é baseado na série de posts sobre Cultura Oceânica que Mariana escreveu para o @queridoatlantico. #DécadaDoOceano #ONU #DesenvolvimentoSustentável #MCTI #JanaMDelFavero #Descomplicando #OceanDecade #CulturaOceânica #OceanLiteracy #Unesco #IOC #Convidados
- Uma Stramonita em minha vida
Por Catarina Ruiz Mello * Esse post é dedicado em memória a Luiz Fernando Mello da Silveira (1952-2020), meu pai, meu herói, o responsável por me dar todo o suporte, oportunidades e carinho para que eu alcançasse meus objetivos e possa continuar alcançando Stramonitas … Foto: Catarina Ruiz Mello, com licença CC SA-BY 4.0 . Não me lembro exatamente quando ouvi essa palavra pela primeira vez, e com certeza não tinha a menor ideia que ela faria uma grande diferença na minha vida. A Stramonita é uma espécie de caracol do mar, um molusco gastrópode ( agrupa os animais conhecidos por caracóis, lesmas, lapas e búzios ) marinho da família Muricidae. Ela habita os costões rochosos , principalmente no litoral do sudeste brasileiro. No mediterrâneo oriental era encontrada em abundância, porém entrou em colapso no início do século XXI e desapareceu completamente em 2016 por conta de exploração. Apesar de sua cara simpática, são predadores que se alimentam de mexilhões, ostras, outros gastrópodes, cracas, além de poliquetas. Para se alimentar, perfuram as conchas dos moluscos e as placas das cracas, liberam uma toxina que causa a abertura dos bivalves, e utilizam sua rádula (uma espécie de língua cheia de dentículos) e sua longa probóscide (como a tromba de um elefante, mas milhões de vezes menor), e assim conseguem consumir as presas. Ilustração: Catarina Ruiz Mello , com licença CC SA-BY 4.0 . Ok, agora que ela já está bem apresentada, poderei dizer o que ela tem a ver com a minha vida. Não, eu não trabalho com elas, inclusive não as vejo tem uns 2 anos. Tudo começou há um tempo atrás… no laboratório de genética e biotecnologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), onde eu ainda atuo na área de análise de dados em microbiologia. Foi então que conheci a Xuliana Tutubarão (popularmente conhecida como Juliana de Biasi), uma das pessoas mais inspiradoras que já passou pela minha vida e uma cientista incrível. Ela é apaixonada por Stramonitas , e foi aí que eu ouvi pela primeira vez o nome dessa criaturinha de não mais de 10 cm de comprimento. Juliana era doutoranda no laboratório e atuava na área de estudos de conservação de espécies de importância econômica através de ecologia molecular, a rainha da genética e dos tubarões… Aqui vai uma fotinha dessa belezoca: Foto: Catarina Ruiz Mello com licença CC SA-BY 4.0 . Minha pesquisa é 100% análise de dados com a bioinformática e não envolve atividade de bancada. Então, quando eu queria me distrair, eu ia atormentar a Juliana. Eu reclamava um pouco, conversávamos, ficava perguntando tudo que ela estava fazendo e se eu podia ajudá-la a extrair os DNAs dos tubarões dela. Era o famoso “se eu não posso ajudar, eu irei atrapalhar”. Foi um momento da vida que eu estava bem perdida em relação à graduação. Eu não sabia mais para onde estava indo, não sabia o que queria exatamente, e o que queria de fato parecia tão inalcançável que eu raramente conseguia me lembrar que gostava mesmo de algo. A Juliana foi muito importante nesse processo para mim (mesmo que ela não tenha ideia disso). Ela demonstrava um amor tão grande pelas Stramonitas quando falava delas e dos seus estudos durante a graduação que envolveram essa espécie. Ela também falava sobre a importância de ser resiliente. Isso me fez perceber que eu precisava encontrar a “ Stramonita ” na minha vida, algo que eu realmente gostasse. Alguns meses depois eu tive a oportunidade de participar junto a dois colegas de graduação, a Isabela e o Cássio, no auxílio de campo do estudo de mestrado do André Pardal, através do professor Ronaldo Christofoletti. Fiquei uma semana na base Norte do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo em Ubatuba, São Paulo. Foi a primeira vez em 3 anos de graduação que tive a oportunidade de ir para campo, já que minhas pesquisas nunca envolviam nada além de um belo computador com Linux e códigos (não estou reclamando, eu amo muito isso). E advinha só quem era a espécie utilizada neste estudo? Yeah! STRAMONITAS! Foi uma das melhores experiências que a Unifesp me proporcionou. Cada dia que passava, tinha mais certeza que embora eu ainda não soubesse exatamente a área que queria seguir, estava tudo bem eu gostar de tudo: análise de dados, atividade em campo, as diversas áreas das ciências do mar, em especial a vulcanologia, geologia, oceanografia física e microbiologia. Tive certeza que eu estava no caminho certo e não consigo imaginar minha vida se não for atuando em ciências marinhas, na realidade eu nem tinha um plano B. Essa semana incrível ocorreu em julho de 2018. Levantávamos todos os dias entre 4h30 e 5h da manhã com muito frio, tomávamos café da manhã, íamos para as praias (área de estudo) e à noite construíamos as gaiolas que eram usadas para o controle de Stramonitas e cracas. Nosso trabalho era todo feito em costões rochosos, então algumas coisas atrapalharam, como sempre. Chuva, frio, a maré, a não existência de Stramonitas no local, dentre outras eventualidades… O objetivo do trabalho era estudar a influência do aumento do nível do mar na relação de predação entre Stramonitas e cracas. Alguns dias foram mais difíceis que outros, algumas praias tinham acesso bem complicado, o que piorava nos dias de chuva. Mesmo assim eu estava muito feliz. A cada dia eu gostava mais daquelas Stramonitas fofinhas. Foi a partir dessa experiência que muitas inseguranças dentro de mim desapareceram e por isso comecei a buscar coisas que realmente queria fazer: uma delas era atuar na divulgação científica. Nessa ocasião também ganhei dois amigos incríveis, a Isa e o Cássio, nos ajudamos bastante ao longo dos meses posteriores. Fotos: Catarina Ruiz Mello com licença CC SA-BY 4.0 . E por fim… Desde pequena eu sabia que queria ser pesquisadora, mas eu também queria mostrar isso de alguma forma para a sociedade, sendo com texto, documentários, ou atuando como professora. E hoje estou aqui! Nesse exato momento que escrevo, foi o dia em que me tornei oficialmente editora deste blog (um dos dias mais felizes da minha vida). As Stramonitas atualmente não fazem parte da minha vida, mas elas com certeza simbolizam o marco entre “acho que estou no caminho errado” e “não consigo imaginar outro caminho para minha vida que não seja o que estou hoje.” Gostaria de agradecer à Juliana de Biasi por todo o aprendizado, risadas, e paciência, ao André Pardal e Ronaldo Christofoletti por terem me proporcionado uma das/a melhor experiência na minha graduação, ao Cássio e à Isa, por todo o companheirismo e amizade, mesmo que hoje tenhamos nos afastado por termos seguido caminhos diferentes, e ao blog Bate-Papo com Netuno, por tornar em realidade a única certeza que tenho na minha vida profissional. Curiosidade: Você sabia que uma concha chamada Bolinus brandaris (conhecida também como Murex corante roxo), dessa mesma família Muricidae, era uma das duas principais fontes de roxo tyriano, um corante altamente valorizado e usado nos tempos clássicos para o vestuário da realeza?). Ilustração: Catarina Ruiz Mello , com licença CC SA-BY 4.0 . # CatarinaRMello #VidaDeCientista #Stramonitas #Biotecnologia #Pesquisa #FiqueEmCasa
- 6º International Marine Conservation Congress
Entre 15 e 28 de agosto de 2020, foi realizado o 6º International Marine Conservation Congress (IMCC6). Este congresso bianual é organizado pela Society for Conservation Biology , sendo o evento mais importante da seção Marinha da sociedade. O IMCC6 estava planejado para ocorrer na cidade de Kiel, Alemanha, no entanto, diante da pandemia, os organizadores remodelaram a programação para atender a um formato virtual. O IMCC6 é um congresso bastante inovador. Além de prezar pela acessibilidade e promover ações de inclusão, como o aceite de resumos em diferentes idiomas além do inglês (língua oficial do evento), todo IMCC possui um código de conduta e uma oficial de segurança zelando pelo bem-estar dos participantes. A programação desta edição também foi bastante diversificada, com plenárias sobre divulgação científica, abordagens sociais na área de pesca, e até como usar dança como forma de engajamento nas ciências do mar. Logomarca do IMCC6, feito por Till Hafenbrak ( com licença CC BY SA 4.0 ). O Bate-Papo com Netuno fez parte dessa programação recheada de novidades! Nossa editora Carla Elliff apresentou um resumo sobre cinco aprendizados da equipe do Bate-Papo com Netuno ao longo dos últimos cinco anos de atuação do projeto. A apresentação foi feita por meio do Zoom e com o uso do aplicativo Whova, como mostrado abaixo. Interface do aplicativo Whova durante a apresentação feita por Carla sobre o Bate-Papo com Netun o ( Fonte: Bate-Papo com Netuno com licença CC BY SA 4.0 ). Fique de olho nas nossas postagens para saber mais sobre esses cinco aprendizados! #NetuniandoPorAí #CarlaElliff #IMCC2020 #DivulgaçãoCientífica #Blog
- Tiradas do Netuno #12
Os ATAQUES a seres humanos normalmente ocorrem por engano. Embora tenham criado fama de maus, graças aos filmes da franquia Tubarão e outros filmes trash , o homem não faz parte da dieta desses animais. Os ataques são eventos extremamente raros, aproximadamente 15 casos por ano, e muita coisa pode ser feita para evitar que ocorram. Ainda temos muito que aprender sobre os tubarões 🦈 Para saber mais sobre esses animais fascinantes, acesse os posts da Raquel Lubambo Ostrovski “ Por que achamos que os tubarões são maus ?” e da Cláudia Namiki “ Tubarão: caçador ou caça? ” Criação: Gilberto Junior do Mundos Oceânicos @mundosoceanicos , com palpites das editoras do Bate-Papo com Netuno. #tubarões #raias #animaismarinhos #tiradasdonetuno #gilbertojunior #praias #peixes #ictiologia #zonadesurfe #ecologia
- Uma veterinária, as tartarugas marinhas, e a oceanografia
Pela convidada Melissa Marcon Fui convidada para fazer esse post e falar a respeito do meu mestrado. Eu não vou necessariamente falar sobre a minha dissertação (Quem sabe em outro post?), mas sim como eu, uma veterinária formada em uma faculdade no interior de São Paulo, fui parar no Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo. Vou voltar muitos anos atrás para contar bem esta história. Desde que me conheço por gente, sempre quis ser veterinária. Eu não fui o tipo de criança que brincava com Barbies, eu tinha fazendas de minhocas e vivia colando band aids nos meus cachorros. Mas claro, eu era iniciante! Bom, para o alívio dos meus animais de estimação, eu entrei na faculdade de veterinária aos 17 anos. Durante a faculdade fiz diversos estágios e em diferentes áreas da medicina veterinária, porém, um estágio realizado no Projeto TAMAR em Ubatuba, foi decisivo para eu escolher a área que seguiria depois de formada. Neste estágio tive a oportunidade de conhecer melhor o Projeto, assim como suas ações direcionadas à conservação das tartarugas marinhas. O ponto chave foi ter permanecido na reabilitação e quarentena. Lá recebíamos animais encalhados nas praias vivos ou mortos e também os animais que interagiam com a pesca artesanal local. Tive a oportunidade de realizar diversos procedimentos veterinários, assim como, cuidar do manejo alimentar e limpeza dos tanques dos animais internados. Após esse estágio e mais alguns que se seguiram, eu estava decidida a seguir na área e trabalhar com reabilitação de animais marinhos, assim como no desenvolvimento de pesquisa visando à produção de conhecimento para a conservação. Para saber como conseguiria me inserir no mercado de trabalho realizei diversas pesquisas e conversei com profissionais da área. Decidi então fazer um mestrado em oceanografia. Entrei em contato com alguns professores do Instituto Oceanográfico para saber quais passos deveria seguir e principalmente qual deles poderia me orientar. No começo eu estava muito empolgada e decidida, mas com o início do processo seletivo eu me questionei! Como uma veterinária conseguiria passar em uma prova de conhecimentos gerais de oceanografia? E o inglês? Bom, foram longos quatro meses de muito estudo. Livros e mais livros. E claro, nunca poderia deixar de mencionar as pessoas maravilhosas que encontrei dentro do Instituto Oceanográfico da USP que me ofereceram diariamente apoio, paciência e muito conhecimento. Foi então que em fevereiro de 2011 eu finalmente fui aprovada em todos os processos seletivos e poderia dar início ao meu tão sonhado mestrado em oceanografia biológica. O tema? Claro, as tartarugas marinhas! Por meio de uma parceria estabelecida com o Projeto TAMAR eu tive acesso aos dados da pesca de espinhel pelágico nas regiões sudeste e sul do Brasil e desenvolvi minha dissertação neste tema. A interação das tartarugas marinhas com a pesca, seja ela artesanal ou comercial, é um dos fatores que mais causa a mortalidade destes animais. Estudos vêm crescendo com o intuito de quantificar esta interação, bem como os fatores que influenciam a mesma. Para isso, é necessária uma ênfase particular no conhecimento ecológico sobre as populações, a relação entre sua distribuição e as feições oceanográficas (principalmente parâmetros biológicos e físico-químicos da coluna de água), sua biologia populacional e análises quantitativas da interação das tartarugas marinhas com as artes de pesca. Enfim, minha dissertação foi ganhando formato e eu fui compreendendo cada vez mais a importância deste tipo de estudo. Meu principal foco durante a dissertação foi buscar quais fatores operacionais da frota comercial (tipo de isca, profundidade de operação das embarcações, tipo de anzol, etc) e ambientais (características oceanográficas) influenciavam a captura acidental de tartarugas marinhas por essa arte de pesca. Com o conhecimento destas características poderíamos desenvolver trabalhos propondo manejos e adequações para as frotas pesqueiras para diminuir a captura acidental de tartarugas marinhas, e consequentemente, o óbito e diminuição das populações. Foram meses de muito aprendizado. Não foi fácil! Eu não estava tecnicamente preparada para o meio científico. Analise estatística, softwares estatísticos, assim como tabelas do Excel, tiraram o meu sono e em troca me deram uma gastrite. A leitura de artigos, parte fundamental de uma pesquisa, inicialmente foi um desafio. Como eu poderia compreender metodologias em outros idiomas sem ao menos dominá-las no meu idioma? Mais uma vez, noites em claro e muito estudo foram fundamentais. Muitas vezes eu me perguntei se estava no caminho certo. Lembro-me de não apenas uma vez, mas diversas vezes ouvir perguntas como: Por que uma veterinária está no Instituto Oceanográfico? Por que você não foi fazer mestrado na veterinária? Mas a resposta foi aparecendo ao longo da jornada. Hoje me sinto muito satisfeita e competente com o conhecimento de oceanografia que adquiri ao longo do meu mestrado. Como não poderia? A interdisciplinaridade é fundamental para que se construa um bom trabalho em qualquer área. Nada melhor para um médico veterinário do que conhecer intimamente o ambiente e os processos ocorridos para uma espécie estudada. Com o final do mestrado as oportunidades apareceram. Fui trabalhar em um Projeto de monitoramento de tartarugas marinhas. Meu trabalho consistia em realizar um levantamento de dados sobre as tartarugas marinhas, inédito para a área estudada. Realizávamos resgate e reabilitação das tartarugas e trabalho de campo. O campo se dava por campanhas de mergulho mensais, nos quais, coletávamos dados biológicos (espécie, peso e tamanho, por exemplo) das tartarugas marinhas capturadas intencionalmente, um exame clínico geral era realizado, assim como, uma amostra de sangue era coletada. Os exames hematológicos nos ajudaram a conhecer o estado de saúde dos animais da região, como também, a definir padrões hematológicos locais das tartarugas marinhas. Apesar de me sentir um peixe fora d’água durante certo tempo, hoje, depois de realizar trabalhos com animais marinhos, sejam eles de reabilitação, assim como produção de conhecimento através de pesquisa, estou certa de que o envolvimento entre veterinária, oceanografia, biologia e, porque não matemática, se completam, fazendo do trabalho interdisciplinar o mais adequado para a conservação de qualquer espécie. Hoje, muito feliz e apaixonada pelas escolhas que fiz e todo o conhecimento adquirido durante a caminhada, continuo trabalhando com pesquisa e lógico, pensando no meu doutorado que logo se seguirá. Sobre Melissa Marcon: Médica veterinária formada pela Faculdade de Jaguariúna (2009). Apaixonada pelo mar e seus habitantes finalizei meu mestrado em Oceanografia Biológica pelo Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo em 2013. Atuo na área clínica médica e cirúrgica de pequenos animais e animais silvestres. Possuo experiência na área de coleta de material biológico, monitoramento de praia, necropsia, resgate e reabilitação de animais marinhos, em especial, quelônios marinhos. Melissa já publicou outro post com a gente, acesse " Tartarugas marinhas e a pesca nos oceanos " #convidados #melissamarcon #interdisciplinaridade #oceano #tartarugasmarinhas #mulheresnaciência
- Década do Oceano: 10 anos para nunca mais tirarmos os olhos do mar
Por Jana del Favero e Mariana Andrade Em 2017 a Organização das Nações Unidas (ONU) declarou que o período de 2021 a 2030 será dedicado à Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável . Naquele ano, até abordamos o assunto aqui no blog . E agora, depois de uma longa mobilização da comunidade científica e ativistas, está chegando o momento de todo mundo falar mais sobre o oceano. Apesar de já termos passado por algumas Décadas que trouxeram o tema “água” e “biodiversidade” para a pauta, pela primeira vez teremos uma todinha dedicada para o oceano! Mas uma das principais perguntas feitas quando falamos com animação sobre a Década do Oceano é: “o que são essas Décadas declaradas pela ONU” ? A ideia de declarar uma Década dedicada a um tema surgiu na ONU nos anos 60 e, desde então, mais de 30 Décadas foram criadas sobre diversos temas: desarmamento, mulheres, combate ao racismo, educação etc (conheça todas aqui ). A escolha de um tema para um período de dez anos tem o objetivo de voltar as atenções e esforços dos países membros da ONU para uma meta em comum. Busca-se, desse modo, promover a conscientização da sociedade e possibilitar o desenvolvimento de ações coordenadas para mitigar um determinado problema, além de difundir os propósitos da ONU na sociedade. O que será a Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável (também chamada de Década do Oceano)? Durante um período de dez anos (2021 - 2030) será coordenada e promovida a ampliação da cooperação internacional em pesquisas que visam contribuir para a preservação do oceano e a gestão dos recursos naturais de zonas costeiras. As atividades da Década serão lideradas pela Comissão Oceanográfica Intergovernamental (COI) da UNESCO , órgão da ONU responsável por apoiar a ciência e os serviços oceânicos globais. Notou que usamos oceano no singular ao longo do texto? Pois é, um dos objetivos da Década é que possamos entender o oceano como um só, conectado, sem deixar de considerar sua imensidão e diversidade. Por que o Oceano precisa de uma Década? Ou melhor, por que nós precisamos de uma Década dedicada ao Oceano? Desde o início do blog, em 2015, nos empenhamos em mostrar a importância do oceano na vida das pessoas. Ele estabiliza o clima , armazena carbono , produz oxigênio , possui uma biodiversidade imensa e ainda pouco conhecida , e fornece diversos serviços ecossistêmicos . Mas sabe como nós, em sociedade, temos retribuído? Degradando-o severamente! Lixo , óleo , esgoto , extração de recursos desenfreada , são apenas alguns exemplos de como estamos sendo negligentes com a sua saúde. Precisamos urgentemente encontrar soluções, embasadas na ciência, que nos permitam compreender as mudanças que estão ocorrendo no oceano e desenvolver soluções sustentáveis. Hoje a penas 0,04 a 4% do total de gastos com pesquisa e desenvolvimento em todo o mundo são direcionadas para a ciência oceânica . Ter uma Década de dedicação ao tema irá ajudar a mobilizar parcerias e aumentar o investimento em áreas prioritárias, estimulando o desenvolvimento da capacidade científica global e de recursos humanos para trabalhar por ela. Não é a toa que o lema é “a ciência que precisamos para o oceano que queremos” . Nós adoramos, e você? E o que a Década pretende alcançar? A Década pretende mobilizar recursos e inovação tecnológica em ciência oceânica para buscar: um oceano limpo: fontes de poluição identificadas e removidas ; um oceano seguro: pessoas protegidas dos riscos oceânicos (ex. erosões); um oceano saudável e resiliente: ecossistemas marinhos mapeados e protegidos ; um oceano produtivo e explorado sustentavelmente: garantir benefícios e bem-estar a gerações presentes e futuras ; um oceano previsível: compreender as condições oceânicas presentes e futuras; um oceano transparente: acesso aberto a dados, informações e tecnologias. Unir diversas áreas do conhecimento para entender melhor os oceanos pode ser incrível, e já mostramos um cenário assim quando discutimos como dados de satélite ajudam a entender ovos de peixes ! um oceano conhecido e valorizado por todos (bem o que tentamos fazer aqui no Bate-Papo com Netuno). Ambicioso, não? Por isso precisamos que todas as nações signatárias e os mais diversos atores sociais se envolvam e participem da Década. Aqui no Brasil, esse processo tem sido liderado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicação , que conta com a experiência de agentes e organizações que já estão engajados na mobilização e no desenvolvimento de ações para os próximos 10 anos. Assim, um processo participativo e transformador está sendo organizado. Esse processo visa criar e fortalecer conexões entre cientistas, formuladores de políticas, gestores e usuários dos serviços, de modo que a ciência oceânica possa fornecer grandes benefícios aos ecossistemas marinhos e à sociedade. Ele facilitará o aprendizado mútuo entre pesquisadores e comunidades de partes interessadas, assegurando uma comunicação consistente entre eles. Participamos do Workshop Preparatório para a Década da Ciência Oceânica que ocorreu em novembro de 2019 no Rio de Janeiro. Conseguem localizar a gente? A Década do Oceano é de todos e para todos! Estão prontos para mergulhar nela? Ok, já entendi, e como faço para participar? Se prepare! Tem muita coisa sendo planejada (no Brasil e no mundo todo) e todas elas vão precisar da opinião e atuação de quem também se sente mobilizado por esse tema. Compartilhe suas ideias! Colabore com quem também está pronto para atuar nessa Década. Participe das oficinas regionais de planejamento, que já irão começar no próximo semestre. Fica ligado nesse site para saber mais. Ative suas redes: consulte pessoas interessadas, compartilhe informações acessíveis sobre a Década, e identifique oportunidades de investimento e mobilização de recursos. Junte-se à Década: registre sua organização em https://www.oceandecade.org/ . Acompanhe nossas redes sociais e nosso site ! Divulgue a Década e suas atividades. Sobre a autora convidada: Pesquisa e comunica processos participativos para a conservação do oceano. É membro do Comitê de Governança Nacional, Jovem Embaixadora do Oceano Atlântico no Brasil ( @queridoatlantico / @AllAtlanticYouth) e co-fundadora da @bloom.ocean : agência de mudança para pessoas, projetos e negócios ligados ao oceano. É pesquisadora do Plano de Monitoramento e Avaliação do Lixo no Mar para o Estado de São Paulo , contribui com o Grupo de Trabalho de Empreendedorismo em Ciências do Mar ( @gtecienciasdomar ) e é conselheira da Liga das Mulheres pelos Oceanos ( @ligadasmulherespelosoceanos ). #décadadooceano #onu #desenvolvimentosustentável #mctic #janamdelfavero #descomplicando #oceandecade #convidados #ioc #unesco #marianaandrade
- “Mulheres são melhores em multitarefas”: você conhece essa lenda urbana?
Por Ju Leonel Era uma vez uma (super) mulher que alegremente era capaz de dividir seu tempo entre cuidar da casa, dos filhos, dos pais, ser bem sucedida profissionalmente, se encontrar regularmente com as amigas, ter as unhas feitas e o cabelo cuidadosamente penteado. Ela estava sempre de bom humor e ainda tinha tempo para fazer trabalho voluntário e deixar a leitura em dia. Como toda história que começa com "Era uma vez..." essa também não passa de uma fantasia. Ninguém é "capaz" de dar conta de tudo isso sozinha, ninguém é capaz de dividir seu tempo entre tantas coisas e ainda manter a sanidade mental. Mas as mulheres, diferentemente dos homens, são muito boas em multitarefas (ou multitasking para os mais moderninhos) - você já deve ter ouvido ou mesmo falado isso. Bom, aí está mais uma lenda urbana que se junta ao grupo de "mulheres enxergam melhor a sujeira/bagunça", "mulheres são melhores nos cuidados com os filhos", "mulheres são mais organizadas e detalhistas (por isso são boas para fazer atas de reuniões)", etc. Crescemos, mulheres e homens, ingerindo falsas verdades sobre o que somos/podemos e muitas vezes aceitamos como verdade aquilo que depois vai nos render muitas frustrações, culpas e dissabores com a vida. Mas o que é ser “multitarefas"? É a capacidade de realizar várias tarefas independentes em um período de tempo limitado de forma que há uma sobreposição de processos cognitivos para realizá-las. Ou seja, fazer várias coisas que demandam níveis diferentes de atenção ao mesmo tempo. Elas podem ser divididas em multitarefas sequenciais e multitarefas concorrentes. No primeiro caso, diferentes tarefas requerem atenção ao mesmo tempo. Já no segundo, é necessário alternar a atenção entre atividades distintas. Essa lenda urbana é tão amplamente disseminada que até 80% das pessoas entrevistadas em estudos realizados por pesquisadores na Europa e Estados Unidos acreditam nela . Há até quem possa jurar que trata-se de uma adaptação evolutiva. Em função dessa "crença", mulheres acabam sendo mais cobradas para que, ao mesmo tempo que cuidam dos filhos, gerenciem a casa e sejam bem sucedidas em suas carreiras profissionais. A sociedade não espera que homens participem de reuniões de trabalho enquanto fazem uma lista mental do que precisa ser comprado para o lanche das crianças, nem esperam que revisem o dever de casa das crianças e respondam e-mail de trabalho concomitantemente. Mas, isso é esperado das mulheres. Consequentemente, isso gera uma carga emocional que resulta em mulheres frustradas por não darem conta de tudo, mesmo tendo esse "dom nato para multitarefas”. Defender essa lenda dá força à sociedade patriarcal que está sempre em busca de justificativas para exigir cada vez mais das mulheres, ao mesmo tempo que perpetua formas de impedir que elas alcancem o mesmo sucesso que os homens. Por outro lado, isso normatiza que homens se dediquem somente à sua carreira e não precisem se preocupar com afazeres domésticos ou cuidados com os filhos; afinal de contas, segundo essa mesma sociedade patriarcal, os homens são os provedores e para eles basta o trabalho fora de casa. Mesmo em lares onde a renda da mulher também é necessária para o sustento da família, é apenas a elas delegada e cobrada a execução das demais funções (= terceiro turno de atividades). Em busca de quebrar o estereótipo "mulheres são melhores que os homens em multitarefas", Patricia Hirsh e colaboradoras fizeram um estudo avaliando o desempenho de 48 mulheres e 48 homens realizando tarefas múltiplas (sequenciais e concorrentes). E os resultados mostraram que "ser multitarefas" afeta a velocidade e precisão da realização da atividade tanto para homens como para mulheres, sugerindo que não há diferença substancial na realização de tarefas múltiplas simultaneamente entre mulheres e homens. O que esse estudo nos mostra? Que mulheres não são melhores (nem piores) que os homens na execução de tarefas múltiplas simultaneamente e, por isso, não devem ser cobradas para tal. O estudo diz também que isso não deve ser cobrado de ninguém às custas de perder produtividade e qualidade. Para acabar com alguns vieses de gênero que existem na academia e em outros locais de trabalho, é necessário, como um primeiro passo, desmistificar essa e outras lendas urbanas que circulam por aí. Quais outras lendas urbanas desse tipo vocês conhecem? Referências Hirsch, P., Koch, I., Karbach, J. Putting a stereotype to the test: The case of gender differences in multitasking costs in task-switching and dual-task situations . PLoS ONE, 2019 Strobach T., Woszidlo A. Young and Older Adults' Gender Stereotype in Multitasking . Frontiers in Psychology. 2015; 6 Szameitat A.J., Hamaida Y., Tulley R.S., Saylik R., Otermans P.J.C. “Women are better than men”–Public beliefs on gender differences and other aspects of multitasking . PLoS ONE. 2015 #mulheresnaciência #julianaleonel #multitarefas #terceiroturnodetrabalho #maternidade #lendaurbana #viésdegênero












