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  • Sororidade nas ciências do mar

    Por Raquel Saraiva Integrantes da SWMS falam como é trabalhar contando com uma rede de apoio entre pesquisadoras. Ilustração por Caia Colla. Ser cientista não é fácil, e nós já abordamos algumas dessas dificuldades aqui no blog. Mas ainda mais complicado é ser pesquisadora em uma sociedade que valoriza cada vez menos a ciência e onde o machismo é normalizado. Para conseguir avançar na pesquisa em condições quase inóspitas, muitas mulheres buscam no apoio de familiares, colegas, professoras e orientadoras o suporte emocional necessário nos momentos de maior dificuldade. Para entender a importância desse amparo, entrevistamos Ana Paula de Martini de Souza e Bruna Fernanda Sobrinho, integrantes da Society for Women in Marine Science (SWMS) no Brasil. A SWMS reúne cientistas de todos os níveis de carreira para discutir as experiências das mulheres nas ciências do mar e promover a visibilidade delas e de seus trabalhos na comunidade acadêmica. Fundada nos Estados Unidos (EUA) em 2014 por um grupo de mulheres do Instituto Oceanográfico Woods Hole (WHOI), desde maio deste ano a SWMS conta com uma filial no Brasil. Vejam como Ana e Bruna começaram a desenvolver pesquisas em paleomagnetismo e algas tóxicas, respectivamente, e como seus caminhos se encontraram na busca de maior reconhecimento das mulheres na ciência. Como vocês se tornaram cientistas marinhas? (ANA) Desde pequena, quando visitava a praia, eu ficava intrigada com o mar. Queria conhecer tudo que se escondia dentro daquelas águas misteriosas. Porém nunca imaginei que poderia fazer disso uma profissão, até que um dia eu li em uma revista sobre a profissão de oceanógrafo e decidi que era isso que eu iria fazer. Em 2011, entrei na Universidade Federal do Paraná (UFPR), imaginando que iria trabalhar com a fauna marinha, até descobrir a oceanografia geológica. Encantada com os processos geológicos que moldam o planeta eu comecei a estagiar no Laboratório de Oceanografia Geológica, trabalhando com processos de morfodinâmica costeira. Costumo brincar que o grande divisor de águas que me fez migrar da oceanografia biológica para a geológica foi a contaminação do meu cultivo de copépodes e a consequente morte de toda população. Assim decidi trabalhar com algo menos vivo, como os minerais, rochas e fósseis. A pura curiosidade me trouxe para a área do paleomagnetismo. Desde pequena eu queria saber o porquê das coisas. Como o planeta Terra evoluiu ao longo dos tempos, por que oceanos abrem e fecham, como e quando surgiram as circulações oceânicas e como elas foram evoluindo com o tempo, e nem me deixe começar a falar sobre as variações climáticas! Usando as rochas como livros para o passado, eu vi no paleomagnetismo e nas reconstruções paleoambientais a minha oportunidade de entender a evolução do nosso planeta. (BRUNA) Não lembro exatamente em que momento eu escolhi a Oceanografia, acho que foi perto dos 13 anos. Imagina só: uma menina do interior do Paraná, a mais de 700 km do litoral falando que queria virar oceanógrafa. Muitas pessoas não entendiam o que eu faria ou o porquê da minha escolha, e acho que até hoje alguns não entendem. Eu não passei de primeira no vestibular da UFPR, mas passei no curso de Letras na UNIOESTE e resolvi ingressar na faculdade. Durante os primeiros meses, trabalhei como monitora de português e inglês na escola que estudei no ensino médio. Apesar de adorar o trabalho, meu olho não brilhava por gramática ou literatura. Larguei o curso, voltei para o cursinho. Prestei vestibular para Oceanografia e Ciências Biológicas em 2010 e, quando fui aprovada nos dois vestibulares, não tive dúvidas de qual escolher. Não foi fácil sair da casa dos meus pais aos 18 anos, mas acho que para ninguém é fácil. Nunca tive dúvidas de que queria cursar Oceanografia e essa certeza só foi se confirmando durante a faculdade. Apesar de nós oceanógrafos ainda termos pouco reconhecimento e poucas oportunidades de trabalho, eu sou muito feliz pela minha escolha. Totalmente ao acaso eu comecei a trabalhar com a minha atual área de pesquisa. Bati na porta do meu atual orientador, morrendo de vergonha, e perguntei se ele conhecia alguém que trabalhava com produção de biocombustível. Não sei por que queria trabalhar com isso na época. Ele não trabalhava, mas me indicou um cara de uma outra cidade e disse que podia me ajudar. Eu pedi para frequentar o laboratório para ir me acostumando com a rotina de pesquisa. E há 7 anos estou frequentando o laboratório dele só para me acostumar com a rotina! Me apaixonei pelas microalgas quando uma colega falou que “elas podem produzir toxinas, mas não se sabe bem ao certo o porquê”. Gosto muito de trabalhar com algas tóxicas e adoro falar sobre florações de algas nocivas. É só conviver comigo um pouquinho que você vai enjoar de escutar sobre tudo isso. Nestes 7 anos já fiz alguns experimentos testando crescimento e produção de toxinas em diferentes condições ambientais, e ainda tem muitas perguntas que quero responder. Quanto mais conheço, mais curiosa fico! E esse é o ciclo natural na ciência: quanto mais respostas você tem, mais perguntas vão surgindo. Você já sofreu algum tipo de assédio no meio acadêmico por ser mulher? (ANA) Felizmente eu não sofri assédio no meio acadêmico por ser mulher. Mas essa é apenas a minha experiência e infelizmente não condiz com a realidade de muitas colegas cientistas. Já presenciei e recebi relatos de colegas de classe em situação de assédio por serem mulheres, já vi amigas desoladas e querendo desistir da carreira por motivos de assédio. Já presenciei professores e coordenadores abafarem denúncias de assédio com a justificativa de que o prosseguimento das denúncias só faria mal às vítimas, desencorajando-as a seguir com os processos. Em vista dessa grande problemática, e reconhecendo a experiência de outras colegas pesquisadoras resolvemos trazer para o Brasil a SWMS, onde queremos criar um canal de comunicação entre mulheres cientistas, nos apoiando e incentivando a ultrapassar os obstáculos. (BRUNA) Eu pessoalmente nunca sofri nenhum assédio no meio acadêmico, mas isso não quer dizer que eu nunca vi ou soube sobre colegas que já sofreram. Eu acredito que toda vez que uma mulher é assediada ou passa por qualquer situação constrangedora só por ser mulher, de alguma forma todas nós somos afetadas também. Nós sabemos da realidade das mulheres dentro das universidades brasileiras: ainda somos a minoria entre os docentes e em cargos administrativos. E isso é apenas uma das justificativas que nos motivou a trazer a SWMS para o Brasil, queremos promover maior reconhecimento das nossas cientistas e nos unirmos cada vez mais! O que torna ainda mais difícil a carreira de pesquisadora? (ANA) Alcançar o nosso espaço. Às vezes parece que somos como o plâncton que não consegue vencer a correnteza, temos que provar o nosso valor todos os dias. Nossa voz não é ouvida, e sim abafada. Somos desacreditadas não pela nossa pesquisa, mas apenas por sermos mulheres. Enfrentamos assédio sexual, assédio moral, somos constantemente desencorajadas a seguir a carreira científica. Ainda mais desencorajadas quando nos tornamos mães e precisamos provar mais uma vez que a maternidade não nos deixa menos capaz. (BRUNA) Se você for mulher, além das dificuldades, a sua estabilidade física e emocional será questionada e testada com uma frequência relativamente alta. Eu acho que a falta de visibilidade, a baixa representatividade docente e em cargos administrativos e o machismo que ainda existe dentro das instituições são apenas alguns exemplos das nossas dificuldades. Ainda somos a minoria entre os bolsistas de produtividade do CNPq, mas por quê? Além disso, se você for mulher, questões banais como preocupação em não usar roupas muito curtas, justas e decotadas em embarques ou até mesmo no cotidiano, serão “comuns” na sua vida. Se você quiser ser mãe ou engravidar durante seu processo de formação, terá mais dificuldade pela frente. E estes são apenas dois exemplos de coisas que nossos colegas homens não precisam se preocupar. Fazer ciência no Brasil, por si só, já é um desafio. É preciso amor pelo que faz e muita força e apoio para não se intimidar com esse cenário que é muitas vezes hostil. E na sua carreira, qual foi a maior dificuldade enfrentada? (ANA) Os maiores sufocos na carreira acadêmica estão relacionados ao sucateamento da ciência no país. Os constantes cortes na ciência e educação dificultaram muito a realização da minha pesquisa e das de outras colegas também. Quase não há dinheiro para as saídas de campo, faltam materiais nos laboratórios, há problemas de estruturação dos prédios da faculdade e muitas vezes temos que investir recursos próprios para seguir realizando pesquisa. Acredito que muitos de nós tenham passado pelos mesmos problemas de falta de verba e investimento na pesquisa, mas seguimos adiante pois acreditamos no importante papel da ciência para a sociedade e por que amamos o que fazemos. (BRUNA) Acredito que o meu maior sufoco está sendo no presente, e ainda estou aprendendo a lidar com ele. Faço mestrado em Botânica, que é uma área diferente da minha formação, e desde passar no processo seletivo até o momento atual está sendo puro desafio. Pedi prorrogação de dois meses do meu prazo para defender e estou na parte final da escrita. Esta é a parte mais cansativa do trabalho. Apesar de trabalhar com microalgas há um tempo, o meu projeto foi novidade para mim: estou descrevendo uma floração anômala de uma espécie nociva que atingiu a costa sul do Brasil. Embora a temática seja muito divertida e motivadora para mim, ela também é muito desafiadora. Tenho dois orientadores que me ajudam e não poupam esforços para revisar o trabalho, deixar ele incrível e publicável em uma revista de alto impacto. Mas o resultado de tanta correção é que já estou exausta e ainda tem chão pela frente. Tem dias que eu produzo muito e tem dias que não consigo escrever uma única frase. Nestes dias mais difíceis, tento lembrar que isso é uma fase que está acabando e tento aproveitar ao máximo esse momento para fazer outras coisas que não tenham relação com a minha dissertação. Sempre que necessário eu me lembro que a minha saúde física e psicológica é muito mais importante que qualquer título, é muito fácil esquecer isso durante o processo. Como integrar a SWMS te influencia? (ANA) Fui criada e ensinada por mulheres fortes e incríveis. Hoje eu sou rodeada de colegas cientistas excepcionais, porém há ainda barreiras que precisamos ultrapassar juntas para ganharmos nosso devido reconhecimento e, acima de tudo, o respeito. A sociedade em si é um movimento especial, no qual temos a oportunidade de conversar e conhecer as dificuldades que outras cientistas ao redor do mundo enfrentam, e como elas superam essas adversidades. É também um local de apoio entre mulheres que estão dispostas a escutar, acolher e ajudar. No Brasil, esse chapter [como a SWMS se refere às filiais] está apenas iniciando, mas contamos com o apoio das fundadoras do movimento, que estão bastante entusiasmadas, e sabemos que juntas podemos ir longe. (BRUNA) Apesar da Sociedade ter começado há pouco tempo, fazer parte desse movimento já me apresentou pessoas que não eram do meu convívio e me aproximou mais de algumas amigas. Além do contato com cientistas de diferentes universidades do Brasil, estamos conhecendo cientistas dos outros chapters da Sociedade que se espalham por várias universidades dos EUA e da Nigéria. Apesar das diferenças que temos, vivemos realidades parecidas: o pouco reconhecimento das mulheres dentro da academia. Nós estamos apenas começando, mas temos grandes ideias e isso é muito motivador, tanto profissionalmente quanto pessoalmente. Me sinto inspirada em saber que somos muitas e que estamos trabalhando em prol do mesmo objetivo: buscar maior visibilidade para as mulheres dentro das ciências marinhas. Quais são suas maiores inspirações na ciência? (ANA) Eu cito de imediato Sylvia Earle e Lisa Tauxe. A Sylvia, primeiramente por suas ações de conservação ao redor do mundo, por ser a mulher em evidência quando o assunto é a saúde dos nossos oceanos, e por sua paixão e devoção pela conservação. A Lisa Tauxe por ser a grande referência acadêmica na minha área de pesquisa, por ser uma cientista premiada e acessível. Mas acima de tudo, todos os dias eu sou inspirada por amigas mulheres cientistas que estão ultrapassando os obstáculos, alcançando cada vez mais espaço no meio científico, e acima de tudo, apoiando outras mulheres (como eu) a alcançar seus objetivos. (BRUNA) Tenho um grupo de colegas cientistas bem inspiradoras, cada uma do seu jeito. Ver as minhas amigas na luta diária, com muito bom humor (às vezes [risos]), saber que sempre arrumamos um tempinho para escutar umas às outras, e que estaremos presentes, nem que seja para reclamar junto e dividir uma cerveja (mesmo que a distância). Isso me motiva muito a “seguir com o barco”, porque sei que não estarei sozinha. Eu também tive algumas professoras durante a graduação que sempre nos motivaram a “falar mais alto” e sempre deixaram as portas abertas para que eu pudesse ir lá contar qualquer ideia ou tomar um café. Quando tivemos a ideia de trazer a Sociedade para o Brasil, corri para a sala delas no Centro de Estudos do Mar (CEM-UFPR) para saber o que elas achavam e se elas queriam se juntar a nós. Elas são o tipo de professora que quero ser. Eu também poderia citar qualquer outra grande cientista que fez um grande trabalho ou teve uma longa carreira com muitas histórias de superação, as quais servem de inspiração para todas. Porém, no dia a dia, quando dá vontade de chutar o balde, quem mais me inspira e motiva é quem caminha junto comigo. Se pudessem dar um conselho para a Ana e a Bruna de dez anos atrás, o que diriam? (ANA) Ai, meu Deus!!! Fico emotiva só de pensar... eu diria para ela não ser tão dura consigo mesma e a aprender a contar com os amigos e a sentir o amor das pessoas ao redor. Diria que mares tempestuosos estão no horizonte, mas que aos poucos ela irá aprender a navegá-los. Diria para não se deixar abater com as opiniões dos outros, pois isso tem mais a ver com os problemas deles do que com você mesma. Eu queria poder ajudá-la a se defender diante do assédio moral dentro do meio acadêmico. Eu queria poder abraçá-la durante as crises de ansiedade e depressão, dizer que ela é mais forte do que pensa e que dias melhores virão. (BRUNA) A Bruna de dez anos atrás tinha 16 anos e estava se preparando para fazer vestibular para Oceanografia. Eu diria para ela: “Tudo bem você querer ser cientista e fazer um curso que ninguém nunca ouviu falar. Não vai ser fácil, mas essa vai ser a melhor escolha que você poderia ter feito. Você vai conhecer grandes pessoas e aprender muito com elas. De alguma forma, você nunca mais será a Bruna que era e isso te deixará muito feliz. Então, não desanime e persista!” E vou aproveitar e dar um conselho para a Bruna de daqui 10 anos: “Não se esqueça que com 26 anos você queria fazer a diferença na realidade que vivia e lutava pelas coisas que acreditava. Então, não se acomode na sua vida e nas suas próprias conquistas, ainda tem muito que você pode fazer para colaborar”. Nunca se sabe quando vou precisar voltar e ler essa minha frase motivadora para mim mesma [risos]! Quer acompanhar as iniciativas da SWMS Brasil? Siga o perfil @swmsbrasil no Instagram e assine a newsletter! Para mais informações, mande e-mail para swmsbrasil@gmail.com Sobre as entrevistadas Ana Paula de Martini de Souza faz parte da SWMS desde o comecinho! “Na realidade a Bruna Fernanda me procurou quando o chapter brasileiro era apenas uma ideia e começamos a reunir mulheres que sabíamos que iriam apoiar o movimento”. Se graduou em Oceanografia pela UFPR, com graduação sanduíche em San Diego pela Universidade da Califórnia (UCSD). Desde 2018 faz mestrado em Oceanografia pela Universidade de São Paulo (USP). Bruna Fernanda Sobrinho é uma das fundadoras do SWMS Brasil. “Nos tornamos um chapter da SWMS oficial em maio de 2019, mas já estamos nos organizando desde setembro de 2018”. É graduada em Oceanografia pela UFPR e mestranda no Programa de Pós-graduação em Botânica - UFPR. #mulheresnaciência #entrevista #raquelmoreirasaraiva #caiacolla #swms

  • Fazer pesquisa no Brasil não é fácil - e a gente deve falar sobre isso

    Por Raquel Saraiva Cortes orçamentários mostram necessidade da academia levar ciência para a sociedade Ilustração: Joana Ho A vida dos pesquisadores brasileiros nunca foi fácil, mas as expectativas para 2019 são ainda piores. No dia 28 de março, o presidente da república assinou o Decreto 9.741 que bloqueia para todos os ministérios parte dos valores já estabelecidos e aprovados na Lei Orçamentária Anual (LOA). Os cortes são de 24,84% no Ministério da Educação (MEC) e 42,27% no Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC). “Pense se, da noite para o dia, o seu salário fosse reduzido em 30%. Você conseguiria pagar todas as contas e manter seu padrão de vida? Pois esse é o cenário atual das nossas universidades públicas. Como as universidades irão manter pesquisa, ensino e extensão? Quantos sonhos, assim como o meu, correm o risco de serem interrompidos? É frustrante ter chegado até aqui e imaginar que todo o caminho percorrido pode ter sido em vão”, diz Fernanda Bustamante, pesquisadora de citogenética vegetal na UFPE. Divulgação A importância das universidades e seu papel na pesquisa foram bastante explorados pela imprensa nas últimas semanas, além das grandes descobertas feitas no nosso território. “Ciência está em tudo! No remédio, na vacina, no celular, no motor do carro, na preservação da natureza... Ciência é vital para que nosso país se desenvolva de fato e seja capaz de gerar empregos e igualdade social!”, destaca a doutoranda em neurofisiologia pela USP e pela Universidade de Amsterdam, Lívia Clemente. Após o anúncio do governo, fiquei assustada ao ver que muitos brasileiros apoiam os cortes. Ainda pior: muita gente passou a espalhar fotos e notícias, em grande maioria mentirosas, com a intenção de desqualificar a comunidade acadêmica e os trabalhos desenvolvidos por ela. Esse desprezo e a crença nos factóides refletem um profundo desconhecimento do que é produzido e desenvolvido nas universidades públicas. E nós, cientistas, somos responsáveis por isso. Em meio às tantas atividades obrigatórias que temos, divulgar o trabalho para um público não-acadêmico não está entre as prioridades. Imagine um operário de uma fábrica de chocolate tendo que pensar nas receitas, executá-las, cuidar da compra de materiais, de embalar e transportar o produto, cuidar das vendas e atender os clientes. É isso que faz um pesquisador. Trabalhar com ciência requer atuação nas áreas de administração, contabilidade, redação, recursos humanos, matemática e estatística, docência, fluência de leitura e escrita em inglês, conhecimentos básicos de design (para as apresentações e pôsteres), e, em muitos casos, até programação e desenho! O pesquisador tem que aprender sozinho a executar uma série de atividades que normalmente são exigidas de inúmeros profissionais distintos. Em parte por causa do excesso tarefas, a maioria dos pesquisadores não explica nem para familiares e amigos próximos como é sua pesquisa. No entanto, deveria ser regra falar para a sociedade sobre nossas hipóteses, nossos experimentos, nossos resultados e rotinas. Isso certamente gera mais interesse pela área acadêmica e também recruta mais apoiadores a favor das nossas lutas. Além de tudo, se nossos trabalhos são custeados pela sociedade, é nossa obrigação moral dar a ela nossos resultados e mostrar como é o desenvolvimento do trabalho. Diligência O trabalho de pesquisa na pós-graduação demanda uma dedicação absurda e não dá direito a carteira assinada, licença maternidade, 13º e férias. Até folgas e finais de semana muitas vezes têm que ser “negociados” com o orientador. O dinheiro total da bolsa deve ser devolvido ao governo se o pesquisador não apresenta seu resultado ao final do período determinado, lembra a doutoranda em ecologia Alice Reis, da UFBA. “A bolsa de pesquisa representa o salário da maioria dos pesquisadores do país. Um bolsista não pode ter outro trabalho, é obrigado a prestar 40h semanais em estudo ou pesquisa e não tem esse tempo contabilizado na previdência social. Mas a sociedade, principalmente as famílias de quem escolhe fazer pesquisa, não enxerga o “estudante” como trabalhador”, destaca Alice. Além disso, o ambiente acadêmico é emocionalmente muito desgastante. Na academia eu também vi artigo sendo “roubado”, vi professor humilhar e constranger aluno por motivos fúteis no meio do laboratório, vi orientador ser racista e xenófobo com orientando, vi professor desrespeitar e humilhar candidato durante entrevista para programa de doutorado e vi aluno se machucar feio por falta de equipamento de proteção na faculdade. E é deste ambiente desafiador e muitas vezes inóspito que saem trabalhos importantes e cientistas talentosos. Porque ciência brasileira é muito maior que os problemas que existem na academia. “Chegamos até aqui porque somos resistência”, sintetiza Fernanda Bustamante. “Sabemos que 43% das vagas das universidades públicas são ocupadas por alunos das classes mais pobres, e que 95% da produção científica brasileira advém das universidades públicas, sendo que ocupamos a 13ª posição na produção científica global de um total de mais de 190 países”, ressalta. Tem que ser muito forte para aguentar a academia. E também precisa ter estabilidade emocional, suporte emocional e financeiro da família ou de amigos, além de amar muito o que faz - porque sem amor não se sobrevive nesse ambiente. Nas universidades públicas brasileiras não falta gente talentosa e que ama o trabalho. “Ser pesquisador no Brasil é frustrante”, resume a pesquisadora Luiza Freire, do departamento de Física da UFS. “Estou há 4 meses na Universidade Federal de Sergipe prestando serviço voluntário, porque não há verba e pesquisador não pode parar! Iria trabalhar em um projeto na UFMG, o orçamento da Capes está congelado/cortado!”, desabafa. Luiza trabalhou por dois anos na Bélgica, aprendendo uma técnica em dosimetria das radiações com despesas pagas pela Capes. Conhecendo o que é feito e nas condições em que é feito, é impossível não torcer pelo sucesso dos pesquisadores brasileiros! Lembro de alunos se juntando para comprar um aparelho de Datashow para a universidade. Vi vários aprenderem inglês sozinhos lendo artigos científicos, já que não podiam pagar um curso. Vi estudantes dormirem na universidade por várias vezes porque era o único jeito de estar na faculdade de madrugada para fazer saída para campo! Também vi professor pagar por material da aula prática do próprio bolso. E pagar por passagens de avião para o orientando participar de congresso e para o aluno de outro estado estar presente no enterro da mãe. Vi estudantes de iniciação e de pós passarem a véspera e o Natal no laboratório tocando experimento. Por isso tudo fiquei arrasada vendo as universidades e os pesquisadores serem depreciados por tanta gente. Passou da hora de espalhar o que é fazer ciência no Brasil. Sendo assim, por que continuar pesquisando? Diante deste cenário, fazer essa pergunta é inevitável. Veja o que cientistas de diversas áreas dizem: Entenda os cortes O governo contabiliza um corte, que o ministro da educação Abraham Weintraub insiste em chamar de contingenciamento, de R$ 1,7 bilhão do orçamento de todas as universidades. Isso representa 24,84% dos gastos discricionários ou não-obrigatórios, que são os gastos como água, luz, compra de papel higiênico e produtos de limpeza, pagamento de terceirizados, obras, equipamentos e realização de pesquisas, e 3,43% do orçamento total das federais. As chamadas despesas obrigatórias, como assistência estudantil e pagamento de salários e aposentadorias, não foram afetadas. O MCTIC teve reduzido 42,27% de seu orçamento para despesas de investimento. Segundo organizações científicas e acadêmicas, o “contingenciamento” “inviabiliza o desenvolvimento científico e tecnológico do País”. A afirmação foi feita em carta enviada a autoridades do executivo e do legislativo e assinada pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Academia Brasileira de Ciências (ABC), Conselho Nacional de Secretários Estaduais para Assuntos de CT&I (Consecti), Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap) e o Fórum Nacional de Secretários e Dirigentes Municipais de Ciência, Tecnologia e Inovação. “As novas restrições orçamentárias atingem a integridade do programa de bolsas, fonte da formação de novos pesquisadores desde a criação do CNPQ”, diz a carta, ressaltando que o MCTIC já estava com um orçamento “extremamente reduzido em 2019, devido aos sucessivos cortes dos últimos anos”. A técnica administrativa da UFBA Kelly Rangel concorda. “O corte de verbas não é uma novidade do governo Bolsonaro, mas é o mais perverso, sem dúvidas. Os recursos PROAP da CAPES, que mantém os cursos de pós-graduação, ainda não foram repassados, e assim deixamos de custear a vinda de docentes para bancas, auxílio financeiro para apresentação de trabalho de estudante/docente, e mesmo para compra de material de expediente. Passagens e diárias para convidados em eventos e docentes em bancas de concursos estão suspensas. O tom de preocupação só vem piorando”, diz ela, que atua no curso de mestrado e doutorado em Estudos interdisciplinares sobre Mulheres, Gênero e Feminismo da UFBA. Sugestões de leitura: BORGES, Thaís. Da descoberta do zika vírus a nanopartículas em fungos: conheça a 'balbúrdia' da Ufba. Jornal Correio*, Salvador, 05 mai 2019. ESCOBAR, Helton. Fábricas de conhecimento: O que são, como funcionam e para que servem as universidades públicas de pesquisa. Jornal da USP. São Paulo, 05 abr 2019. FAVERO, Jana. Os efeitos da falta de comunicação da ciência com a sociedade. Bate-papo com Netuno, 09 ago 2018. JOSÉ LOPES, Reinaldo. Universidades públicas produzem mais de 90% da pesquisa do país; resta saber até quando. Folha de S. Paulo. São Paulo, 21 abr 2019. MOURA, Mariluce. Talvez haja uma larga saída à frente. Ciência na Rua. São Paulo, 3 maio 2019. RIGHETTI, Sabine & GAMBA, ESTÊVÃO. Sim, as universidades públicas fazem pesquisas. Folha de S. Paulo. São Paulo, 23 abr 2019. #divulgaçãocientífica #cortes #MEC #pósgraduação #joanaho #raquelmoreirasaraiva #vidadecientista

  • “Não tem como recuperar”

    Por Raquel Moreira Saraiva Incêndio no Museu Nacional deixa gerações de pesquisadores órfãos “Como resgatar um espécime-tipo de uma coleção? Como resgatar algo que foi coletado há 50, 100, 200 anos? Como resgatar 200 anos de acervo?”. O professor da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), Luiz Norberto Weber foi um dos cientistas que ficaram órfãos na noite do último domingo (02 de setembro) com a maior tragédia museológica do país, a destruição do Museu Nacional (MN) no Rio de Janeiro em decorrência de um incêndio. Muitas coleções do Museu foram inteiramente perdidas. “Coleção de mais de 5 milhões de insetos foi embora, não sobrou nada, virou cinza. É um perda de anos e anos de estudo, de depósito em coleção e gasto de energia. Tudo foi reduzido a pó em poucas horas”, afirma Weber. De acordo com a BBC News, circula entre os pesquisadores a informação de que os armários onde ficavam as coleções de insetos se quebraram e foram queimados quando o terceiro andar, onde estavam, desabou. Como muitos cariocas, o primeiro contato do pesquisador com o Museu foi ainda na infância. “Era comum nossos pais nos levarem para a Quinta da Boa Vista. Lá tem um zoológico, também tinha o Museu, e nós frequentávamos o local”. Como estudante de graduação do curso de biologia, Weber voltou ao local como estagiário e, anos depois, como mestrando e doutorando, entre 1994 e 2004. “Geralmente as pessoas vinculam o museu a um acervo associado à exposição pública. Mas o museu também é dotado de vários departamentos e laboratórios vinculados a diversas expertises. Ele também concentra um grande número de coleções científicas e, no meu trabalho, eu estava muito vinculado a pesquisar esses bichos que existem em coleção científica, desenvolvendo pesquisa a partir da observação desses animais”, diz, ressaltando que não poderia desenvolver o mestrado e o doutorado se não tivesse tido acesso às referidas coleções científicas. Perdas As coleções que auxiliaram Weber não sofreram com o incêndio porque ficavam em um prédio anexo ao edifício histórico - As coleções de vertebrados, herbário, alguns meteoritos e fósseis, uma biblioteca de 150 anos com quase 500 mil exemplares e parte da coleção de invertebrados também estão a salvo. O Centro de Microscopia Eletrônica de Varredura (MEV) do Departamento de Invertebrados do Museu Nacional, por outro lado, foi inteiramente destruído. “Quando eu cheguei lá, senti como se tivesse em um pesadelo e fiquei esperando eu despertar. Eu não pude entrar, mas a minha sala [localizada no térreo] tinha janela na fachada e pude ver, mesmo distante, a destruição”, lamenta a técnica do MEV Camila Messias. Estimativas iniciais de pessoas que trabalhavam no Museu indicam que cerca de 90% do acervo pode ter sido perdido. A biblioteca de Antropologia e de Ciências Sociais do museu, o acervo de Línguas Indígenas, com gravações desde 1958 dos cantos em muitas línguas sem falantes vivos, o mapa étnico-histórico-linguístico original com a localização de todas as etnias do Brasil - único registro datado de 1945 - e toda a coleção egípcia teriam sido totalmente destruídos. “Não tem como recuperar, você não recupera uma coleção, você recomeça a partir do zero. É lastimável”, diz o professor Weber. O levantamento e o resgate do acervo que sobreviveu não têm prazo para serem concluídos. Embora a dimensão material da tragédia ainda não tenha sido determinada, pesquisadores lamentam a perda de anos de produção científica, de história e cultura. "Perdemos acervos únicos, história, conhecimento cientifico, anos de dedicação de funcionários e alunos que juntos tornavam o Museu Nacional, com todas as dificuldades, um lugar e de beleza e riqueza sem igual", diz Anaíra Lage, doutora em Zoologia pelo Museu Nacional. Descaso Apesar das reformas e manutenções recentes que o laboratório tinha passado no último mês, Camila Messias conta que a falta de conservação do prédio dava sensação de insegurança. “O Museu era uma bomba relógio. Cheio de coleções com espécimes em líquidos inflamáveis e com a História do Brasil dentro dos muros. Foi um ataque a nossa cultura”. Segundo levantamento feito pelo jornal El País, atualmente o Poder Executivo investe mais na lavagem dos 83 carros oficiais da Câmara dos Deputados e na manutenção do Palácio da Alvorada, que está desocupado, de que os cerca de R$ 206 mil que estavam destinados ao MN em 2018 - há cinco anos esse orçamento flutuava entre R$ 1 milhão e R$ 1,9 milhão anualmente. De 2015 para cá, além do orçamento cada vez mais minguado, só 2 dos 49 parlamentares do RJ demonstraram preocupação em angariar recursos para o Museu Nacional . O descaso com o Museu, segundo as fontes ouvidas pelo Bate-papo com Netuno, é antigo e conhecido pelos alunos, professores e funcionários que ali conviviam. “Existe um descaso com a cultura, a ciência e o conhecimento no Brasil. É impressionante, isso parece até um projeto político, com relação à cultura e conhecimento em ciência”, diz Weber. “Apesar de todos os percalços, o museu era abraçado por quem estudava lá e por quem era vinculado como funcionário”, acrescenta Weber. “Para a maioria dos estudantes o museu era como uma casa, afinal, muitos passavam mais tempo no museu que nas suas próprias casas. No MN as coleções eram um pedacinho da gente, e cada um, a seu jeito, cuidava para preservar o que tinha ali”, conta a doutoranda do Museu Nacional Anaíra Lage. Ela defendeu a tese na última sexta-feira (31) e perdeu toda a papelada no incêndio. “Os documentos da minha defesa e a tese impressa foram queimados junto com a secretaria da pós-graduação. Agora é aguardar a PPGZOO se reorganizar para darmos continuidade ao trabalhos da casa. Mas isso é o de menos. A dedicação dos funcionários é destacada pela técnica Camila Messias, que também era estudante de Ciências Biológicas da UFRJ. “Muitos professores tiravam dinheiro do próprio bolso, criaram dívidas, para aumentar suas coleções viajando pelo mundo. Pessoas deixaram famílias para se dedicar ao Museu e à pesquisa” Além da omissão do poder público, o desconhecimento do Museu e da sua importância entre os brasileiros ficou evidente com a tragédia. O Museu não entrava no roteiro dos turistas que visitavam o Rio e, mesmo entre os cariocas, não é difícil encontrar quem nunca tenha visitado o local. "Os motoristas de Uber que me levavam ou me buscavam lá sempre comentavam que iam ao Parque Municipal Quinta Da Boa Vista, mas que nunca tinham entrado no Museu. Os brasileiros não têm a mínima noção do que perderam", diz Cristina Branco, que desenvolveu o projeto do doutorado no Museu e hoje faz pós-doutorado no Smisthsonian Museum, em Washington DC. Memórias Pesquisadores do mundo inteiro visitavam o Museu para desenvolver suas pesquisas nos mais diversos campos do conhecimento, como antropologia, paleontologia, oceanografia, biologia e história. “Cada item na coleção fez parte da construção do que temos de conhecimento hoje. Muitos outros fariam parte se tivesse tido tempo de serem estudados”, ressalta Camila Messias. “Embora vários alunos e ex-alunos meus não conhecessem o museu fisicamente, eles conheceram através de mim. Ao passar informações e conhecimento, de certa maneira todo mundo que passou pelo Museu é um apêndice, como se fosse um meio replicador de todo o conhecimento adquirido lá. E não vai ser mais possível fazer isso”, lamenta Weber. Quem visitou o Museu ao menos uma vez certamente tem alguma boa lembrança: o imponente prédio histórico, as exposições e as coleções científicas impressionavam os visitantes novos e não deixavam de encantar os velhos conhecidos. “Andar no museu era um retorno ao passado, era gratificante poder andar por aquelas escadarias, corredores e adentrar os laboratórios, que infelizmente não existem mais... Aquele referencial físico que eu tinha do museu acabou”, diz Weber. Colaboração: Gabrielle Souza Sugestões de leitura: “Museu Nacional: De dinossauros nunca identificados a línguas extintas, o que a ciência perde com o incêndio” por Camilla Costa, BBC News Brasil. https://www.bbc.com/portuguese/amp/brasil-45404257#click=https://t.co/dhfYG32wYT "Hope emerges for Brazil museum specimens after devastating fire", por Reinaldo José Lopes, Nature. https://www.nature.com/articles/d41586-018-06192-9 "Orçamento para lavar carros de deputados é quase três vezes maior que o do Museu Nacional", por Afonso Benites, El País. https://brasil.elpais.com/brasil/2018/09/04/politica/1536015210_491341.amp.html Entrevistados: Cristiana Castello Branco faz pós doutorado em sistemática e estuda esponjas de mar profundo. Fez graduação e mestrado na UFBA e doutorado no Rio de Janeiro. Passou 4 anos frequentando o Museu quase diariamente e fica feliz de ter levado os pais para conhecer o local e as coleções expostas. Luiz Norberto Weber desenvolve pesquisas de taxonomia de anfíbios. Professor da UFSB, ele começou a carreira como estagiário do setor de paleontologia do Museu. Carioca, Weber mora em Porto Seguro (BA) mas ia ao Museu matar a saudade toda vez que visitava o Rio. Camila Simões Martins de Aguiar Messias, é técnica de laboratório do Centro de Microscopia Eletrônica de Varredura do Departamento de Invertebrados do Museu Nacional e estudante de Biologia da UFRJ. Ela acredita que o incêndio foi um ataque a todos que fazem ciência e que poderia ter sido evitado. Ela trabalhava no Museu desde 2014. Anaíra Lage trabalha com esponjas e defendeu o doutorado no Museu no último dia 31. A última visita à coleção ela fez em junho, na inauguração da exposição sobre os Corais e os 200 anos do Museu. "A ala inaugurada estava linda, cheia de detalhes nos quais era possível ver a dedicação e o carinho que a exposição foi pensada e montada para o público", lembra. #vidadecientista #museunacional #gabriellesouza #raquelmoreirasaraiva #riodejaneiro #incêndio #entrevista

  • Sobre mudar a rota de navegação

    Por Raquel Moreira Saraiva Ilustração: Joana Ho Mudar de carreira não é fácil - bom, pelo menos assim eu pensava quando resolvi abandonar minha carreira na fisiologia animal para encarar uma nova graduação em jornalismo. Grandes mudanças são sempre muito difíceis de encarar. E se elas não nos são impostas pelas circunstâncias da vida, mas partem de uma insatisfação nossa, acho que são ainda mais complicadas. Quem nunca pensou em como seria se tivesse escolhido outra carreira? Passei muitos anos refletindo sobre isso - eventualmente e sem compromisso. Tomar a decisão de mudar foi, para mim, a parte mais difícil da mudança. Encarar o medo de voltar para os estudos de pré-vestibular, de falhar no Enem e medo de estar tomando a decisão errada custou muitas noites insone, muito choro e ansiedade. Decidi pela biologia aos 17 anos. Gostava de embriologia e fisiologia, fantasiava uma carreira na ciência ou no jornalismo científico. Decidi, assim, optar pela área de saúde. Ingressei no curso e descobri aos poucos como era na realidade aquela vida que eu tinha idealizado. Eu poderia listar os problemas da academia e da vida de professor e assim justificar minha mudança. Mas seria injusto. Todos sabemos que qualquer profissão tem seus louros e agruras. Se você gosta do que faz, os louros pesam mais na balança. Eu via muitos profissionais, alguns passando por mais dificuldades que eu, super felizes nos seus laboratórios e no campo - e não entendia como aquilo era possível. Tentei ‘resolver’ minha insatisfação várias vezes. Foram anos de conversas com amigos, com meus pais, procurei ajuda na psicologia e na religião. No mestrado, escolhi trabalhar na área que sempre gostei e com uma orientadora que, além de super competente, era educada, prestativa e gentil. E sou muito feliz pelo trabalho que desenvolvemos juntas. Também fui muito, muito feliz no ano que fui monitora e, anos depois, professora substituta de Fisiologia Animal na UFBA. O Facebook me lembrou essa semana uma publicação que fiz nesse período, quando lecionava. “Minha profissão é a melhor do mundo”, eu escrevi. Foi bom para lembrar dos momentos que curti minha profissão de bióloga. E eu estive feliz em muitos momentos, principalmente na sala de aula. Mas no restante do tempo eu estava insegura e detestava minha rotina. Lembro de um pensamento que era recorrente "vou ser feliz quando eu estiver no mestrado" ou "vou ser feliz quando eu publicar meu artigo do mestrado"... bom, a “felicidade plena” que eu tanto esperei nunca veio - na verdade, ela se limitava a pequenas alegrias com as vitórias que eu tinha. Hoje, mesmo quando estou chateada com algo no curso ou em relação à profissão, eu estou feliz e tenho consciência disso em todos os momentos.  Achei que o recomeço seria difícil - e está sendo. Mas é muito mais gostoso que difícil. Levei muito tempo para me convencer que eu não estava satisfeita e que jamais seria naquela carreira - insight óbvio que só veio com a maturidade. Eu aprendi que a gente tem que ser feliz agora - fazemos planos futuros para a vida pessoal, para a carreira, mas a felicidade deve ser vivida diariamente. Uma frase que não sai da minha cabeça é um verso da música Beautiful Boy, de John Lennon: “Life is what happens to you while you’re busy making other plans” (A vida é o que acontece enquanto você está ocupado fazendo outros planos). Eu ouvi meu coração. Mas não só isso. Tenho muitos amigos próximos que são jornalistas, então conhecia relativamente bem a rotina da profissão. Também procurei ajuda com uma psicóloga que, por sinal, tinha se graduado e feito mestrado em veterinária antes de estudar psicologia, e ela também foi muito importante para me ajudar a enfrentar a mudança. Assumir que jornalismo era mesmo o amor da minha vida foi fácil. Mesmo a área sendo complicada (vide as dezenas de passaralhos [demissões em massa] nas redações nos últimos meses). Sabendo que seria complicado lidar com as opiniões de pessoas próximas ("por que não faz medicina?", "acho que relações internacionais é melhor", “tem que ser forte para aguentar a carreira acadêmica”), compartilhei a novidade apenas depois da minha aprovação na UFBA. Sei que sou privilegiada por ter tido a possibilidade de mudar - por uma série de fatores, muitos não podem fazer isso. Um fator importante foi me sentir amparada e acolhida. Eu contei com apoio da minha família, de meu marido e de poucos amigos mais íntimos. Pessoas que não questionaram minha escolha ao ver meus olhos brilharem e não mediram esforços para me ajudar. Isso foi fundamental para me dar forças para prosseguir na busca do meu sonho. Não me arrependo de ter feito a mudança beirando os 30. Começar um outro curso com mais maturidade é maravilhoso, sinto que estou aproveitando muito mais a nova graduação, com menos medo e fazendo escolhas mais conscientes. A graduação em biologia e o mestrado com toxinologia me ajudaram a escrever de forma mais objetiva e clara, além de terem me dado uma boa bagagem para discutir temas ligados à saúde - como tenho feito aqui no blog com a divulgação científica. Por isso, sinto que estou fazendo o curso de jornalismo na hora certa. E quem sabe não enveredo pelo jornalismo científico um dia? Hoje eu faço planos e penso nas mil (maravilhosas) possibilidades que a carreira me oferece, não me esquivo de falar sobre o jornalismo em qualquer lugar que esteja, não reclamo de ter que fazer coisas do trabalho ou da faculdade tarde da noite ou de madrugada nos finais de semana… pela primeira vez eu estou amando fazer o que faço. O jornalismo é parte da minha vida e não apenas uma profissão. E eu amo viver isso. É bom realizar sonhos e também ter consciência de estar realizando-os. Desfrutar de cada momento, por mais irrelevante que pareça - para os outros. Porque eu sei o quanto sonhei em estar aqui, e não quero deixar nada passar em vão. Sobre Raquel: Estudante de jornalismo, bióloga (2010) e mestre em Zoologia (2014). Trabalhou com neurociências, fisiologia animal e toxinologia. Hoje realiza o sonho de estudar jornalismo, é apaixonada por todas as áreas da comunicação, está no quarto semestre do curso na UFBA e feliz da vida se dedicando ao estágio na redação de um jornal. É editora do blog Bate-Papo com Netuno desde 2016. #carreira #jornalismocientifico #raquelmoreirasaraiva #vidadecientista

  • Discussão científica na mesa do bar

    Por Raquel Moreira Saraiva Quem imaginaria um bar lotado para ouvir palestra de um pesquisador numa noite de segunda-feira? Isso aconteceu em várias cidades dos 11 países que sediaram o Pint of Science em 2017, ocorrido nos dias 15, 16 e 17 de maio. O festival, que começou na Inglaterra em 2013, acontece no Brasil desde 2015 e chegou a Salvador (BA) este ano. No dia da estréia, a conversa sobre “História Ambiental da Baía de Todos os Santos” foi comandada pelo professor Eduardo Mendes, do Instituto de Biologia da UFBA, no Caranguejo do Porto, bar localizado na Barra. O pesquisador abordou aspectos econômicos, históricos e naturais de Salvador para explicar a trajetória da Baía de Todos os Santos (BTS), desde a chegada dos portugueses à região, no ano de 1.501, até os dias atuais. A BTS é a segunda maior baía do litoral brasileiro, com 1.233 km², e a única a possuir uma extensão expressiva de recifes de coral, além de estuários e manguezais. As características geológicas da BTS a tornam de fácil navegação, o que facilitou o desenvolvimento econômico da região através do acesso de embarcações de médio e grande porte. Por outro lado, a atividade portuária intensa é um dos principais fatores causadores de impacto ambiental na BTS, como ressaltou o professor no Pint of Science. O acidente geográfico que caracteriza a BTS resulta principalmente de atividade tectônica e confere à região uma paisagem encantadora. Além disso, o clima tropical e a grande diversidade natural que compõe o sistema bentônico costeiro fazem de Salvador um importante pólo turístico e atrai cada vez mais o turismo de natureza, ou “ecoturismo”. A atividade humana, entretanto, tem gerado poluição e invasão de espécies exóticas, dois dos maiores problemas ambientais que a BTS tem enfrentado. Eduardo Mendes ressaltou a falta de atuação do poder público para reverter ou mesmo amenizar o quadro. Francisco Barros, professor do Instituto de Biologia da UFBA, prestigiou o evento e ressaltou que a popularização da ciência através de iniciativas como o Pint of Science é de extrema importância para conscientizar a população e para que medidas profícuas sejam tomadas em relação à preservação ambiental “O poder público quer o que a população quer. Se nós não estivermos bem informados, não temos muita chance de pressionar o poder público”. No Brasil, a comunicação científica ainda se concentra nos periódicos acadêmicos, que disseminam os resultados das pesquisas para os pares. As iniciativas de popularização da ciência, por sua vez, em geral se restringem a museus e estão atreladas a incentivos governamentais. Nesse cenário, o Pint of Science inova ao levar o conhecimento gerado na academia a um ambiente informal em um evento aberto ao público. Em 2017, o Pint of Science aconteceu em 22 cidades brasileiras, incluindo Salvador (BA), Teresina (PI) e Goiás (GO). Um evento como este tem grande importância e significado, especialmente nas regiões cientificamente menos tradicionais. Embora tanto o número de publicações quanto as redes colaborativas venham aumentando nos últimos anos, a hegemonia da produção científica nacional está longe de ser reduzida. O pesquisador Otávio Sidone, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP, mostrou em um trabalho publicado no ano passado que, no período entre 2007 e 2009, sete universidades das regiões sul e sudeste foram responsáveis por mais da metade dos produtos científicos do Brasil. Essas regiões concentram não só universidades e institutos de pesquisa consolidados, mas também recursos humanos e financeiros. De acordo com Lima e colaboradores, em trabalho publicado em 2008, a descentralização do conhecimento gerado nas universidades e centros de pesquisa contribui inclusive para criar condição de ascensão social através da apropriação de conhecimento pela população, o que tem significado ainda mais importante no contexto de desigualdade social que o país apresenta. A linguagem acessível permitiu a compreensão da fala do professor Eduardo Mendes até para quem não é da área de biológicas. Cleiton Lima, servidor público da área de tecnologia e mestrando em Ciências da Computação, foi convidado para a palestra sobre a Baía de Todos os Santos por amigos, e avaliou a experiência como muito positiva “Eu acho que a relação da academia com a sociedade é muito distante, e eventos como esse fazem com que as pessoas despertem para temas que são importantes de discutir mas que estão enclausurados na universidade”. O evento parece ter cumprido seu papel. O garçom Vinícius de Lima se surpreendeu com o comportamento do público “Normalmente o salão é bem barulhento, e hoje, mesmo cheio, tava silencioso”. Vinícius disse que, por causa do trabalho, ouviu muito pouco da palestra, “mas gostei bastante do que ouvi, amanhã vou tentar prestar mais atenção”. Ana Leonor, professora da Faculdade de Farmácia da UFBA, participou da produção do evento e ressalta que basta estar no local para participar do Pint of Science “Mesmo o cara que tava em uma mesa no cantinho e nem sabia do evento, escuta e se interessa. Assim o senso crítico da população é estimulado”. Não só a comunidade não-acadêmica ganha com o evento. Antônio Dórea, estudante de mestrado de ecologia na UFBA, destaca que eventos como esse enriquecem também quem faz a ciência “A discussão que surge nesses ambientes, com pessoas diferentes, de outras áreas e com pontos de vista diferentes, pode abrir nossas mentes inclusive para a prática científica”. Cleiton Lima já faz planos de assistir nos próximos anos e até de participar como palestrante “A partir de hoje me considero parte do evento. Eu gostaria de trazer o conceito de inteligência natural para o público entender como a matemática pode participar do dia a dia”. O professor Francisco Barros faz uma ressalva: “Vou fazer de tudo para participar nos próximos dias, mas não sei se consigo tomar outra cerveja durante a semana”. A produção do evento também avaliou a estreia como um sucesso. “O público aderiu e a discussão fluiu bem, a tendência é isso aumentar cada vez mais”, disse Ana Leonor. Um brinde ao sucesso da ciência no bar! Para saber mais: Baía de todos os santos Aspectos oceanográficos Vanessa Hatje Jailson B. de Andrade Brasil turbina produção de mestres e doutores fora do eixo Rio-São Paulo Ensino, pesquisa e extensão universitária Popularization of Science in Brazil: getting onto the public agenda, but how? Márcia Tait Lima, Ednalva Felix das Neves, Renato Dagnino Pint of Science #bahia #baiadetodosossantos #mesadebar #pintofscience #raquelmoreirasaraiva #salvador #ufba #vidadecientista

  • 10 animais marinhos que inspiraram pokémons

    Por Raquel Moreira Saraiva Já perceberam que a realidade sempre é utilizada como referência para a representação de seres da ficção? Seja em filmes, games ou em desenhos-animados, parece que a natureza já é criativa de tal forma que é mais fácil para os desenhistas ou roteiristas modificarem aquele modelo que conhecemos. A figura exótica da tela (ou dos quadrinhos) pode ter sido inspirada em um animal trivial. Em alguns casos, o modelo assustador da realidade é transformado em uma figura fofa na ficção. Em outros, até as relações ecológicas existentes no mar são mantidas na fantasia. Com a febre que o jogo Pokémon Go se tornou em 2016, nós pensamos em mostrar como seriam alguns pokémons na vida real. Conheça agora 10 animais marinhos que inspiraram pokémons! 1. Mantine > Raia Manta Cara de um, focinho do outro. Assim como as raias, o Mantine é um pokémon com corpo achatado dorsoventralmente e nadadeiras  longas que parecem continuar o corpo. Até as antenas do Mantine se assemelham aos lobos cefálicos da raia Manta! As raias são muito próximas filogeneticamente dos tubarões - ambos são da subclasse Elasmobranchii; mas as fendas branquiais, que são laterais nos tubarões, são localizadas no ventre das raias devido ao seu formato achatado. A água que entra pela boca da raia sai através das fendas branquiais, passando antes pelas brânquias, onde ocorre a troca gasosa. Além das semelhanças morfológicas, o comportamento das raias mantas e do Mantine é bem parecido: mesmo pelágicos, ambos conseguem “voar”! Mais precisamente, as raias manta conseguem executar saltos de quase 3 metros de altura sobre a coluna d’água! As razões para esses saltos não são bem compreendidas - os pesquisadores sugerem que as raias mantas saltam para realizar o parto, como parte do comportamento de corte, para se divertir ou retirar as rêmoras (veja o próximo pokémon, digo, o próximo animal da lista) do dorso. Embora a acrobacia dos saltos seja encantadora (veja neste link as raias mantas saltando), os “pousos” são mais desajeitados - a “barrigada” que as raias mantas dão no mar criam um barulho tão alto que pode ser percebido a longas distâncias por outros indivíduos - e assim elas se comunicam umas com as outras. 2. Remoraid > Rêmora O Mantine tem uma relação interessante de comensalismo com outro pokémon: o Remoraid. A mesma relação que a rêmora possui com diversos organismos marinhos, dentre eles (advinhem) a raia manta! O Remoraid, assim como a rêmora (será que os nomes parecidos são coincidência?), pegava carona nas nadadeiras do Mantine, bem como a rêmora nas raias, tubarões e tartarugas. As nadadeiras do Remoraid e sua relação simbiótica com o Mantine são suas únicas características que remetem à rêmora. Diferentemente do pokémon, a rêmora tem a nadadeira dorsal modificada em uma ventosa. Assim o animal consegue se aderir aos outros animais, viajar por longas distâncias sem mover um músculo e ainda aproveita as sobras da alimentação do hospedeiro. 3. Octillery > Polvo O Remoraid, quando evolui, dá origem ao Octillery (haja mutação para gerar tantas modificações anatômicas, hein?). Tanto o pokemón quanto o cefalópode têm o corpo constituído por uma cabeça de onde partem oito tentáculos. Diversas ventosas são distribuídas ventralmente em ambos. Enquanto a boca do Octillery é localizada frontalmente na cabeça do pokémon, a boca dos polvos é localizada ventralmente, no meio da coroa de tentáculos. Além disso, os polvos têm na boca um bico rígido, diferente da boca em formato de sifão do Octillery. Ambos são marinhos e, quando em perigo, soltam tinta para confundir o predador. 4. Horsea > Cavalo-marinho O Horsea e suas formas evoluídas (Seadra e Kingdra) são pokémons de água que são a cara - e o corpo - dos cavalos-marinhos. Cabeça alongada com filamentos (lembrando a crina de um cavalo), boca localizada na extremidade do focinho tubular, natação com o corpo na vertical e até o cuidado dos ovos é igual - diferente do usual no reino animal e pokémônico, os machos que os carregam, não as fêmeas. A diferença entre eles está na velocidade de locomoção: os cavalos-marinhos são considerados um dos peixes mais lentos dos oceanos, enquanto o Horsea e suas evoluções nadam super rápido (para saber mais sobre cavalos-marinhos leia nosso post “Querida, estou grávido!”). 5. Gyarados e Dratini > Peixe-remo O peixe-remo (Regalecus glesne) pode chegar a mais de 10 m de comprimento, tem corpo serpentiforme e se move como uma cobra. Ele nada verticalmente, diferente dos pokémons Gyarados e Dratini - a não ser quando se encontra em águas rasas. O peixe-remo assusta pelo seu tamanho, e deu origem a várias lendas antigas sobre serpentes marinhas que afundavam embarcações. Aparentemente, as lendas sobre o peixe-remo inspiraram o Gyarados: este pokémon com cara de mau tem temperamento feroz e tendência a destruição desenfreada. No entanto,  o peixe-remo é inofensivo e raramente visto  - além de bons camufladores, eles vivem entre 150 e 300 m de profundidade. Até o ano passado, haviam sido registradas apenas cerca de 500 observações deste animal. Assim, o peixe-remo se assemelha mais ao Dratini: inicialmente, pensava-se que era um mito, mas o Dratini foi encontrado vivendo em águas profundas. E aí, qual dos dois você acha que se assemelha mais ao peixe-remo? 6. Parasect > Caranguejo-eremita Os caranguejos-eremitas são bastante conhecidos por andarem carregando uma concha de molusco abandonada ou outras estruturas semelhantes. Além de servir de abrigo, isso possibilita que estes animais protejam seu abdômen que é bastante mole. Para aumentar a proteção contra predadores, alguns membros do táxon Paguroidea, ao qual os caranguejos-eremitas pertencem, transportam anêmonas. Assim, além da proteção física da concha, eles ganham a proteção química das toxinas dos tentáculos da anêmona! O pokémon Parasect, por sua vez, carrega um cogumelo que também produz toxinas. Entretanto, o Parasect é parasitado pelo fungo, enquanto os Paguroidea têm relação de protocooperação com as anêmonas que carregam sobre a concha. 7. Gorebyss > Rhinochimaeridae O nome Rhinochimaera vem do grego rhinos = nariz e do latim chimaera = monstro marinho. Os peixes desse gênero possuem um focinho estreito e pontiagudo e um corpo alongado, muito semelhante ao Gorebyss. A diferença é a fofura: enquanto o peixe, como outros animais de zonas abissais (peixes do gênero Rhinochimaera vivem entre 300 e 1500 m de profundidade), têm uma aparência singular, o Gorebyss poderia facilmente pertencer ao que chamamos de fauna carismática (leia mais sobre isso no nosso post “Quem estuda o feio, bonito lhe parece”) - note que o espinho do peixe foi transformado em uma delicada e flexível projeção na cabeça do pokémon. 8. Staryu > Estrelas-do-mar Tanto o pokémon Staryu quanto as estrelas-do-mar possuem cinco braços. Se o animal ou o pokémon, que também é marinho, perdem um dos apêndices, outro cresce a partir do disco central - e, no caso das estrelas-do-mar, uma nova estrela pode se desenvolver a partir do braço cortado, processo chamado de reprodução assexuada. Neste disco há um núcleo que parece uma jóia vermelha no Staryu. Analogamente, as estrelas-do-mar possuem em sua superfície aboral o madreporito, uma abertura calcárea por onde passa a água para o sistema ambulacral dos echinodermatas. O núcleo do Staryu pode piscar, o que indica uma ligação do pokémon com as estrelas do céu. Então será que podemos fazer um paralelo com o madreporito das estrelas-do-mar e afirmar que ele indica uma ligação íntima do interior do animal com os oceanos? 9. Shellos > Nudibrânquios Os nudibrânquios são moluscos que possuem uma riqueza de cores no corpo incrível! Isso lhes permite uma camuflagem eficiente nos recifes de coral, onde eles vivem. O pokémon Shellos é idêntico ao Chromodoris lochi, uma espécie de nudibrânquio que ocorre no Indo-Pacifíco. Além do formato achatado e ondulado e da cor do corpo, ambos possuem um par de “antenas” (rinóforos), que são estruturas sensoriais que ajudam a guiar este molusco através da percepção química do ambiente. As “asinhas” do Shellos são na verdade brânquias que ficam “desprotegidas” no dorso dos nudibrânquios - daí o nome do grupo. 10. Stunfisk > Peixe stargazer O peixe stargazer é um dos animais com aparência mais exótica do fundo do mar! Normalmente ele fica escondido na areia - mas fica observando tudo com seus olhos que são localizados no topo da cabeça do animal, e não lateralmente, como na maioria dos peixes. O Stunfisk , com seu corpo largo, achatado e marrom, é o próprio stargazer - no entanto, suas nadadeiras podem bater como asas para fazer o pokemón se locomover pelo ar, coisa que esse peixe não faz, e sua boca é uma espécie de bico. O Stunfisk também gosta de se enterrar, mas mais perto da praia, e não em águas profundas como o peixe. Quando desavisados pisam no pokémon, são eletrocutados por ele, que sorri enquanto dispara a carga elétrica. Bastante semelhante ao peixe, que além de espinhos venenosos perto das suas nadadeiras, consegue dar choques de até 50 volts. Mas ele não sorri enquanto o faz. A natureza serve de inspiração para a arte. Muitos elementos da ficção baseiam-se na vida real. É interessante observar que, ainda mais encantadores que os pokémons, os organismos que vivem ao nosso redor têm uma riqueza incrível de formas e comportamentos! Nesse texto, 10 comparações foram feitas, mas muitas outras existem. E você, lembra de algum outro pokémon, personagem de HQ, de série ou de filme que se assemelhe a animais marinhos? Comente! Para saber mais: 12 horror films that reveal Mother Nature's evil side - Mother Nature Network Bulbapedia (enciclopédia sobre Pokémon) Como vivem os peixes de mar profundo - Revista Mundo Estranho Graham Hawkes: A flight through the ocean - TED Watch these fabulous flying rays (vídeo) - BBC #animaismarinhos #pokemóns #ciênciasdomar #raquelmoreirasaraiva

  • A divulgação científica tem o papel fundamental de explicitar o que está acontecendo no nosso mundo

    Entrevista com Mariluce Moura por Raquel Saraiva Ilustração de Caia Colla Resultados de pesquisas científicas de grande interesse do público eventualmente transbordam dos veículos especializados e alcançam veículos de grande circulação. Com a epidemia do zika,  a demanda por dados que explicassem os efeitos do vírus eram urgentes. Nesse contexto, um estudo desenvolvido por pesquisadores da UFRJ e do Instituto D’Or demonstrou os efeitos devastadores do vírus sobre células neurais.  Os resultados do trabalho seguiram o caminho contrário da conduta científica usual e foram divulgados na Folha de SP no artigo “Em testes, vírus da zika ataca neurônios humanos” antes da publicação em uma revista científica. Embora a OMS recomende em casos de emergência a divulgação dos dados mesmo antes da publicação da pesquisa em periódico especializado, a “novidade” gerou estranheza e críticas na comunidade científica. Esse e outros temas tem trazido a ciência brasileira para os holofotes da imprensa. Não só pelos resultados, avanços e inovações, mas por polêmicas que envolvem o próprio fazer científico. Recentemente, após declaração nefasta do governador Geraldo Alckmin, discutimos aqui no blog a importância da ciência básica, e a destruição do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação no post “Ciência nada básica”. Além destas discussões vigentes, outras questões nunca saem da pauta; elas requerem - e tem tido - nossa atenção. Por exemplo, a atuação das mulheres na ciência! Na seção Mulheres na Ciência sempre discutimos questões que estão envolvidas no plano pessoal e profissional da atuação das mulheres no meio acadêmico, desde maternidade (leia O filho que concorreu com a ciência e empatou), a influência do gênero na carreira (O sexo realmente importa?), até estupro (Tragédias também ocorrem no paraíso). Biólogos e oceanógrafos sempre discutem estes e outros temas aqui no blog. Desta vez, convidamos uma jornalista científica para uma entrevista. Profunda conhecedora (de prática e de teoria) da divulgação científica, a profa. Dra. Mariluce Moura, cuja trajetória no ramo se confunde com a própria história da divulgação científica no Brasil nas últimas décadas. Mariluce foi presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Científico, é pesquisadora colaboradora do LabJor (Unicamp), centro de referência da América Latina para estudos e formação de profissionais em divulgação científica, trabalhou como assessora de imprensa e coordenadora de comunicação do CNPq e foi assessora e diretora científica da Fapesp. A jornalista, graduada pela UFBA, também foi a mentora e dirigiu, no período de 1995 a 2014, a mais prestigiada revista científica brasileira, a Pesquisa Fapesp. Atualmente Mariluce é professora da Faculdade de Comunicação da UFBA e coordenadora do projeto Ciência na Rua (ciencianarua.net), blog voltado para a divulgação científica para jovens de 14 a 25 anos. Com a Palavra, Mariluce! Bate-papo com Netuno: Qual a importância da divulgação científica para a sociedade brasileira? Mariluce Moura: É vital! A ciência e a tecnologia são dois dos pilares da estruturação econômica da sociedade. Aliás, não só econômica. A sociedade contemporânea é estruturada sobre o conhecimento científico. Algumas reflexões filosóficas dizem que hoje, se a gente pensar por exemplo no Ciclo Mutações que vai acontecer na UFBA de 03/10 a 25/11, o mundo hoje é um mundo em mutação. O rumo das coisas tem sido muito mais determinado, para bem e para o mal, pelos fatos científicos do que pelas reflexões, pela atividade do pensamento, pelo refletir profundamente sobre para onde vamos e como caminhamos. Assim como os fatos científicos, as descobertas científicas e as tecnologias, as inovações constituem de modo tão entranhado o nosso cotidiano. É fundamental que a sociedade tenha percepção sobre esse fenômeno, e que se dê conta disso, que perceba aquilo que altera o seu próprio cotidiano, sua própria vida. Pense em todas as mudanças das duas últimas décadas: no âmbito digital, da biotecnologia, das novas tecnologias de saúde. A própria troca social entre as pessoas se dá de maneira muito mais diversa que há duas décadas: hoje nós nos falamos menos por voz e muito mais pelo Whatsapp e pelas redes sociais. A divulgação científica tem o papel fundamental de explicitar o que está acontecendo no nosso mundo hoje, aqui e agora. BPCN: Como a senhora vê o jornalismo científico hoje em dia no Brasil? MM: Existem poucos jornalistas de ciência, mas grandes profissionais, como a Sabine Righetti, o Reinaldo José Lopes, o Salvador Nogueira, o Marcelo Leite e o Ricardo Zorzetto.  Há pouco espaço na mídia tradicional para a ciência. Falta espaço em muitos veículos, mas há belas frentes se abrindo, inclusive se alimentada por profissionais de outros campos, como a biologia. Acho que o espaço da internet tende a apresentar um panorama. Infelizmente, ainda não é um campo com o peso que deveria ter na sociedade contemporânea. BPCN: Qual a importância dos blogs para a popularização da ciência? MM: É um veículo muito interessante, para ampliar a divulgação e a popularização da ciência. Penso que os blogs escritos pelos próprios cientistas nem sempre estão muito antenados com o interesse geral da população, mas eu acho que eles trazem uma grande contribuição à disseminação de informação. Acho muito positivo o surgimento dos blogs de ciência. BPCN: A senhora acha que as mulheres fazem diferença na divulgação científica? MM: Sempre faz bem às diversas atividades culturais e científicas que a sociedade esteja bem expressada naquele campo. Se uma determinada área tem muito mais homens brancos, por exemplo, a sociedade como um todo está mal expressada. A esse propósito, não só da divulgação científica mas da própria ciência, nesta semana saiu uma matéria na Nature falando que, em síntese, teríamos melhor ciência se os países pobres também produzissem ciência. É um artigo na mais badalada revista de ciência do mundo! É uma consciência que tem aumentado, sobre a necessidade de se ter nas atividades fundamentais de ampliação do conhecimento, por exemplo, representantes dos muitos segmentos de gênero, étnicos, dentre outros. É preciso  que as mulheres estejam muito mais presentes não só nesta, mas em todas as atividades como as de produção cultural, de arte e de conhecimento. BPCN: Recentemente, a divulgação de resultados de pesquisas na imprensa antes da publicação do trabalho em uma revista científica criou uma polêmica e gerou debates na comunidade científica. O que a senhora pensa sobre a divulgação de resultados antes da publicação em revistas científicas? MM: Em linhas gerais, para o divulgador de ciência, sobretudo para o jornalista de ciência, é bastante interessante que o artigo tenha saído em uma revista científica. Porque sair na revista significa que houve validação pelos pares. Isso dá uma garantia, que não é absoluta porque sabemos da ocorrência de fraudes mesmo em artigos publicados por revistas altamente respeitadas, mas é uma garantia adicional para o jornalista. Mas existem situações de emergência, que é o caso do zika vírus, por exemplo. Havia todo um esforço pelo isolamento do vírus, para entender o que estava causando aquele problema aqui no Brasil, então existem alguns momentos nos quais há uma certa emergência no âmbito da produção científica e no âmbito da divulgação para a sociedade. Com os cuidados naturais de checagem com outras fontes e com outros cientistas que a gente respeite, que são da mesma área e que inclusive possam levantar contraditórios sobre aquilo que está sendo divulgado, eu acho que é o caso de se utilizar sim na divulgação científica. Uma matéria, uma reportagem ou uma notícia deve ter uma informação. E se existe um contraditório possível dessa informação, é bom que o jornalista mostre também esse outro lado. Em ciência isso nem sempre se dá assim. Mas é bom que se respeite esse princípio geral do jornalismo. Então, tomados os cuidados necessários, é possível às vezes sair da regra de ouro de esperar a revista científica publicar sem que se faça uma coisa leviana. Sugestões de leitura: Biólogos aderem à publicação de resultados sem revisão- Bernarno Esteves (Revista Piauí) Desafios antigos para mulheres atuais - Jana del Favero (Bate-papo com Netuno) Descoberta do zika no Brasil provocou mágoa entre pesquisadores - Cláudia Collucci (Folha de SP) Is science only for the rich? - Nature Preprints for the life sciences - Nature Science and inequality - Nature The logic of journal embargoes: why we have to wait for scientific news - The Conversation #divulgaçãocientífica #jornalismocientífico #mulheresnaciência #raquelmoreirasaraiva #MariluceMoura #caiacolla

  • Querida, estou grávido!

    Por Raquel Moreira Saraiva e Yonara Garcia. Em homenagem ao dia dos pais, que tal falarmos de um super pai do reino animal, o cavalo-marinho?! Este peculiar organismo é considerado um super pai devido a uma ótima razão: os machos ficam grávidos! Isso mesmo! Os cavalos-marinhos se destacam no reino animal porque são os machos os  responsáveis por todo cuidado parental após a fecundação: eles  carregam os filhotes durante a gestação, sentem as “dores do parto” e por fim  dão à luz! Pesquisas recentes mostram também que os cavalos-marinhos papais têm ainda mais semelhanças com as mamães humanas do que nós pensávamos! Mas antes de contarmos estas peculiaridades, vamos conhecer um pouquinho sobre eles. Os cavalos-marinhos são peixes-ósseos (teleósteos) que pertencem ao gênero Hippocampus e à família dos singnatídeos (Syngnathidae). Esta família tem como característica o desenvolvimento por viviparidade, ou seja, o desenvolvimento embrionário ocorre no interior do corpo, que neste caso é o corpo paterno. Existem mais de 50 espécies de cavalos-marinhos distribuídas pelo mundo, em regiões tropicais e temperadas. Destas, três espécies ocorrem na costa brasileira: Hippocampus reidi, Hippocampus erectus e Hippocampus patagonicus, presentes no ambiente marinho e estuarino. Representantes das três espécies de cavalos-marinhos que ocorrem no Brasil: Hippocampus reidi, Hippocampus erectus e Hippocampus patagonicus, respectivamente. Imagens: Projeto Hippocampus Estes peixes locomovem-se na vertical por meio de movimentos ondulatórios de suas nadadeiras dorsais, que vibram rapidamente, porém este tipo de locomoção vertical os torne mais lentos, a ponto de serem considerados um dos peixes mais lentos dos oceanos. Os cavalos-marinhos são predadores, com uma alimentação à base de plâncton, crustáceos e pequenos animais que são sugados por meio de seu focinho tubular. Eles também são camufladores hábeis: se sentindo ameaçados, podem mudar de cor, desenvolver projeções cutâneas que mimetizam algas e até pólipos de corais, além de conseguir permanecer imóveis, fixando-se em algas e corais por meio de sua cauda preênsil. Mas estes disfarces não são infalíveis: caranguejos, alguns peixes carnívoros (por exemplo, o atum), pinguins, aves marinhas e até mesmo os humanos “predam” os cavalos-marinhos adultos (para saber mais sobre o plâncton, leia nosso post O que você sabe sobre o plâncton?). A maioria dos cavalos-marinhos é monogâmica, de forma que tanto o macho quanto a fêmea de um par formado repelem outros parceiros que tentem interferir na relação. Para o acasalamento, eles realizam um tipo de dança, na qual sincronizam seus movimentos, girando um em torno do outro com as caldas entrelaçadas. A gravidez masculina tem implicações interessantes para os papéis sexuais clássicos no acasalamento. Na maioria das espécies os machos competem pelo acesso às fêmeas, de modo que é comum ver a evolução de características sexuais secundárias* em machos . De acordo com o pesquisador Adam Jones, da Universidade do Texas, no caso dos cavalos marinhos, as fêmeas apresentam um comportamento competitivo, que em geral é apresentado pelos machos. Além disso,  os machos parecem “exigentes” em relação à escolha de suas parceiras, atributo comumente observado em fêmeas. Ilustração: Joana Ho Bem, mas vamos ao que interessa: como os machos deste grupo são capazes de ficar grávidos? O cavalo-marinho macho possui uma bolsa incubadora especializada onde a fêmea coloca seus ovócitos (células reprodutivas). Quando ele está pronto para acasalar, o macho sinaliza a fêmea enchendo a bolsa com água. A fêmea, por sua vez, nada e se pressiona contra ele, colocando seu tubo de postura, chamado ovipositor, em um orifício dilatado, presente na bolsa do macho. Após a transferência dos ovócitos, o orifício se fecha, e então o macho os fecunda. Assim inicia-se o desenvolvimento dos filhotes no interior do corpo do macho. O período de gestação desse grupo varia bastante, de acordo com a espécie e a temperatura da água, podendo ocorrer entre dez dias e seis semanas. Em regiões tropicais, os cavalos-marinhos apresentam um período de gestação em torno de 12 dias, podendo parir mais de 1500 minúsculos bebês totalmente formados. Eles se reproduzem durante todo o ano e a partir do primeiro ano de vida os casais formados são capazes de produzir mais de 1000 larvas por gestação. Cavalo-marinho dando à luz. Os desafios da gravidez são os mesmos para todos os animais, como assegurar o fornecimento adequado de oxigênio e nutrientes para os embriões. Estudos recentes têm demonstrado que diversas linhagens de animais superaram estes desafios de maneira semelhante. Os cavalos-marinhos, como tantos outros embriões de outros vivíparos, adquirem muitos nutrientes a partir do vitelo dos ovos advindos das suas mães, que é equivalente à gema do ovo das galinhas. A pesquisadora Dra. Camilla Whittington e colaboradores da Escola de Ciências Biológicas da Universidade de Sydney (Austrália) demonstraram em estudos publicados na Molecular Biology and Evolution que nutrientes adicionais, como cálcio e alguns lipídios, são secretados pelos papais na bolsa incubadora e então absorvidos pelos embriões. Além disso, a bolsa dos pais também atende aos desafios complexos de fornecer proteção imunológica aos filhotes, além de assegurar a troca gasosa e a remoção das excretas! A gravidez é acompanhada de muitas adaptações morfofisiológicas, como a remodelação da bolsa incubadora o transporte de nutrientes e de resíduos, a troca gasosa, a osmorregulação e a proteção imunológica dos embriões. Outra curiosidade descoberta pelos pesquisadores é que a genética  relacionada a essas adaptações é muito semelhante à expressão genética da reprodução interna de mamíferos, répteis e outros peixes. É surpreendente que, mesmo em animais com “idades evolutivas” tão distantes, as ferramentas genéticas que foram desenvolvidas com função reprodutiva sejam tão semelhantes entre si, mesmo entre vivíparos aplacentários (cavalos-marinhos) e placentários (mamíferos) (Caspermeyer, 2015; Whittington et al., 2015). As populações de cavalos-marinhos estão em declínio no mundo inteiro. Além de sua capacidade limitada de locomoção, a destruição do seu habitat e as pescas incidental e direcionada têm ameaçado a vida destes peixes. A procura por espécimes vivos como peixes ornamentais na aquariofilia é grande. Desidratados, são usados como ingrediente de drogas caseiras e industrializadas e até como peça de decoração, o que os deixa ainda mais vulneráveis. A compra destes peixes, mesmo vivos, incentiva sua captura e comércio, além de contribuir com o desequilíbrio ecológico.  Estudos genéticos, fisiológicos e ecológicos destes animais ajudam não só a compreender sua biologia e os passos evolutivos que levaram à inversão  no comportamento sexual, mas também contribuem para o manejo correto dessas espécies. O melhor a fazer é deixar os cavalos-marinhos no seu hábitat natural, reduzindo a exploração e cuidando dos ambientes em que eles vivem, como recifes de coral e manguezais. Assim pode-se conhecer melhor estes peixes e ajudar na sua preservação. *caracteres secundários: características que se desenvolvem durante a maturidade sexual dos animais, mas que, ao contrário dos órgãos sexuais, não são parte do sistema reprodutor Para saber mais sobre o assunto: Projeto Hippocampus - Iniciativa do Laboratório de Aquicultura Marinha - LABAQUAC para educação ambiental e estudos de conservação de cavalos-marinhos. www.projetohippocampus.org Caspermeyer, J. Unraveling the Genetic Basis of Seahorse Male Pregnancy Mol Biol Evol (2015) 32 (12): 3278 first published online November 17, 2015 doi:10.1093/molbev/msv238 Jones, AG & Avise, JC. Mating Systems and Sexual Selection in Male-Pregnant Pipefishes and Seahorses: Insights from Microsatellite-Based Studies of Maternity J Hered, 2001. Rosa IL, Oliveira TPR, Osório FM, Moraes LE, Castro ALC, Barros GML & Alves RRN. Fisheries and trade of seahorses in Brazil: historical perspective, current trends, and future directions. Biodivers Conserv, 2011. Silveira, R. B. Dinâmica populacional do cavalo-marinho hippocampus reidi no manguezal de Maracaípe, Ipojuca, Pernambuco, Brasil. (2005). Whittington CM, Griffith OW, Qi W, Thompson MB & Wilson AB. Seahorse brood pouch transcriptome reveals common genes associated with vertebrate pregnancy.Molecular Biology and Evolution, 2015. #cavalomarinho #ciênciasdomar #diadospais #joanaho #raquelmoreirasaraiva #yonaragarcia

  • Ciência nada básica!

    Por Raquel Moreira Saraiva As esponjas são invertebrados bastante estudados. Pertencem ao filo Porífera, e estão presentes no mar e na água doce. Por serem animais sésseis, ou seja, que não se locomovem livremente, elas se protegem contra possíveis predadores produzindo um verdadeiro arsenal de defesas químicas, os chamados metabólitos secundários - que constituem um caldeirão de possibilidades para as indústrias química e farmacêutica. Diversos estudos têm demonstrado uma grande variedade de propriedades terapêuticas dos metabólitos secundários, dentre elas antimicrobianas, antioxidantes, anti-hipertensivas, anticoagulantes, antiinflamatórias, cicatrizantes e até anti-carcinogênicas (para saber mais sobre o assunto, leia nosso post Uma história sobre esponjas). Para que esses estudos sejam possíveis, é fundamental que se desenvolvam trabalhos prévios para conhecer o animal, através de análises taxonômicas, ecológicas, e assim por diante. Também é necessário isolar as moléculas bioativas que o animal produz para testar a estabilidade do composto, determinar sua estrutura química (para sua posterior síntese em laboratório), seus efeitos em diferentes concentrações e condições ambientais, etc. Todos estes constituem estudos de ciência básica. Só a partir desse conhecimento é possível avançar mais passos até que se chegue ao desenvolvimento de remédios, cosméticos e até suplementos nutricionais, a chamada ciências aplicada. Ilustração: Joana Ho. Recentemente, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) criticou a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), o principal órgão de financiamento à pesquisa do estado, alegando que a entidade prioriza o financiamento de estudos que não tem utilidade prática. Declarações como esta são resultado de uma cultura que ignora o papel das pesquisas científicas para o avanço social. Por isso ainda são frequentes as manifestações de rejeição às pesquisas estritamente acadêmicas, mesmo entre as personalidades presumivelmente mais eruditas. Alckmin está certo em um ponto: em todas as áreas da ciência, nem todos os projetos tem utilidade prática. Mesmo a longo prazo. Só entre produtos marinhos bioativos, mais de 15.000 moléculas foram isoladas e testadas em 20 anos. No caso dos estudos de drogas, dentre as substâncias que passaram pela Fase I de testes clínicos entre 2006 e 2015 , apenas 9,6% foram aprovadas para comercialização, segundo a FDA (U.S. Food and Drugs Administration). Então o país está jogando dinheiro fora quando financia pesquisas “sem utilidade prática”? De forma alguma! Em resposta à declaração de Alckmin, o Conselho Superior da FAPESP ressaltou que algumas pesquisas são realizadas “para tornar as pessoas e as sociedades mais sábias e, assim, entenderem melhor o mundo em que vivemos, o que é uma das missões da ciência”. Além disso, o avanço da ciência muitas vezes é imprevisível, e quando desenvolvemos uma pesquisa nós não sabemos onde ela chegará. Ela é motivada de modo simultâneo pela expansão do conhecimento e para aprimorar nossas habilidades para melhorar o mundo. E uma breve olhada na história mostra que inovações importantes também surgiram a partir de pesquisas puramente acadêmicas, desde o velcro até o GPS e o aparelho de ressonância magnética. Atualmente, cada vez mais cientistas rechaçam a separação entre as “ciências” básica e aplicada. A ciência básica é sim de extrema importância para o processo de inovação, ou seja, para a pesquisa extrapolar a bancada do laboratório e tornar-se um produto comercial. O cientista A. A. Toole (2011) ressaltou a importância da ciência básica para o desenvolvimento de inovação na área médica. Segundo o pesquisador, ela “fornece uma base de conhecimento que cria novas oportunidades para abordar os resultados terapêuticos e novas informações para a triagem química”. Ao contrário do que parece, essa dedução não é recente. Na inauguração da Faculdade de Ciências da Universidade de Lille (França), em 1854, Pasteur declarou: ''Caberá a nós, especialmente, não compartilhar a opinião destas mentes estreitas que desprezam tudo o que nas ciências não tem aplicação imediata''. Mas a discussão sobre a importância da ciência básica perdura há décadas. Um reflexo disto é que a promessa de retorno tecnológico advindo da pesquisa básica ainda não tem força para gerar investimentos dos cofres públicos para a ciência pura. Mesmo dentre os acadêmicos, onde supõe-se maior conhecimento sobre a magnitude e a vastidão da ciência, a pesquisa básica precisa ser “justificada”. Participei de muitos congressos na grande área de fisiologia. Tanto nas discussões sobre neurociências quanto sobre toxinologia*, era comum ouvir reclamações sobre a tal “justificativa” da importância do projeto que era exigida nos editais. Aparentemente, os projetos de pesquisa só seriam considerados relevantes se tivessem utilidade prática. Ou seja, só seriam contemplados se fosse alegada uma relação com um problema de saúde pública. E, como um mantra, a sentença “este estudo é importante para o desenvolvimento de novos medicamentos” é repetidamente proferida para justificar a importância prática de pesquisas que, a princípio, são puramente acadêmicas - mas que não são menos relevantes. Uma solução para este modelo organizacional dicotômico foi proposta por Donald Stokes em 1997 (Fig. 1). Ele classifica duas dimensões para a pesquisa e inovação:  a aplicação do conhecimento e o avanço do conhecimento. A partir desta proposição, é estabelecido um gráfico com os seguintes quadrantes: (1) no canto superior à esquerda fica o chamado Quadrante de Bohr - inspirado nas pesquisas do físico Niels Bohr sobre a estrutura do átomo, representando a pesquisa básica sem nenhuma aplicação imediata; (2) o quadrante inferior à direita, o Quadrante de Edison, representando as pesquisas de Thomas Edison sobre lâmpadas elétricas - ou seja, pesquisas que visam diretamente o desenvolvimento tecnológico. O quadrante superior direito é o Quadrante de Pasteur. Nele são classificadas as atividades de pesquisa que podem contribuir para o avanço do conhecimento,  mas que além disso tem grande potencial para aplicação. Assim, essa área consiste numa convergência das ciências puramente básica e aplicada. Com o Quadrante de Pasteur, Stokes demarca o campo científico que contempla os anseios sociais, como as pesquisas sobre o ambiente (i.e., estudos de conservação, ecologia, etc), dentre outros, como a decodificação do DNA e os estudos com as toxinas animais ou mesmo sobre as moléculas bioativas das esponjas. De acordo com Maxime Schwartz (2015), Louis Pasteur era conhecido por refutar a divisão dicotômica. Pasteur foi um cientista cuja carreira transitava entre a ciência básica e a ciência aplicada. Sempre procurando soluções para problemas práticos e refletindo sobre questões teóricas, o químico desenvolveu o método da pasteurização, bem como provou que a “teoria da geração espontânea” não estava correta, dentre outras realizações. A proposta de Stokes substitui o ultrapassado modelo “básica versus aplicada”, cuja “terminologia não reflete a rica conectividade e a interação de muitos tipos de pesquisa, e é uma barreira ao desenvolvimento de políticas construídas nas realidades da ciência e da tecnologia” (Narayanamurti, Odumosu & Vinsel, 2013). O modelo do Quadrante de Pasteur pode fortalecer a ciência básica sócio-politicamente e inspirar novas direções que encerrem o impasse entre política e comunidade acadêmica. Ressalto novamente que toda a ciência carece de prestígio e reconhecimento no Brasil. Em detrimento do forte progresso que fez nos últimos 30 anos, com a criação do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), desde 2015 a ciência brasileira tem sofrido sucessivas derrocadas. No último ano, a presidenta afastada, Dilma Rousseff, fez cortes orçamentários na pasta que alcançaram o valor de 2 bilhões de reais. Mais recentemente,  alegando contenção de gastos devido à crise econômica que o país enfrenta, o presidente interino Michel Temer agravou o quadro ao criar um ministério-quimera resultante da fusão do MCTI ao Ministério das Comunicações (MC). Os cientistas se opuseram fortemente à determinação, pela óbvia incompatibilidade deste enlace e temendo o enfraquecimento político do setor. Esta decisão diverge da prática de outros países, como EUA, Japão, China e Coréia do Sul, que investem em ciência, tecnologia e inovação (incluindo ciência básica) como meio de gerar soluções para sair de crises econômicas. Naturalmente, a comunidade acadêmica conhece mais profundamente a importância das pesquisas para o desenvolvimento do país. Por isso, além de cobrar do governo políticas que fomentem e fortaleçam a pesquisa e a inovação, tem o dever de aumentar a interação entre o setor e a sociedade brasileira. A maior popularização, seja através de divulgação ou de programas de extensão com a comunidade, pode elucidar para todos os brasileiros o significado do conhecimento que é gerado nas universidades e nos centros de pesquisa. O incentivo à pesquisa na sua diversidade é importante! Pasteur escreveu em 1865: ‘‘É típico das descobertas científicas que uma supere a outra. O campo científico é inexaurível. Quanto mais lavrado, mais tesouros ele revela”. Embora não consigamos prever o caminho que ela percorre, podemos ter certeza de que direta ou indiretamente a ciência continuará a trazer benefícios econômicos, sociais e culturais para a sociedade, como tem feito há séculos. *toxinologia: “área que compreende os estudos de venenos e toxinas de origem animal, vegetal e microbiana, incluindo o desenvolvimento de fármacos e da biologia dos animais peçonhentos ou venenosos” (Fonte: Pós Graduação em Toxinologia - Instituto Butantan) Leia mais sobre esse assunto em: Alckmin critica Fapesp por pesquisas 'sem utilidade prática' por Thaís Arbek e Reinaldo José Lopes BIO Industry Analysis. Clinical Development Success Rates 2006-2015. 2016. "Brasil vai perder muitos cérebros com fim do Ministério da Ciência" Deutsch Welle Brasil Larson, Charles F. "The Boom in Industry Research." Issues in Science and Technology 16, no. 4 (Summer 2000). M. Schwartz, Science and the applications of science from Louis Pasteur to Jacques Monod, C. R. Biologies (2015), http://dx.doi.org/10.1016/j.crvi.2015.03.006 Narayanamurti, Venkatesh, Tolu Odumosu, and Lee Vinsel.   "RIP: The Basic/Applied Research Dichotomy." Issues in Science and Technology 29, no. 2 (Winter 2013). Perdicaris S, Vlachogianni T, Valavanidis A (2013) Bioactive Natural Substances from Marine Sponges: New Developments and Prospects for Future Pharmaceuticals. Nat Prod Chem Res 1: 114 doi: 10.4172/ 2329-6836.1000114 Stokes, D E. O quadrante de Pasteur: a ciência básica e a inovação tecnológica. Campinas, SP: UNICAMP, 2005. Toole, A A. The impact of public basic research on industrial innovation: Evidence from the pharmaceutical industry. Policy 41 (1), 1-12, 2011. What's the Use of Basic Science? Por C.H. Llewellyn Smith #ciênciasdomar #ciêncianadabásica #ciênciaetecnologia #ficaMCTI #joanaho #raquelmoreirasaraiva

  • Após a maternidade, de acadêmica a empresária

    Por Raquel Moreira Saraiva Ilustração de Caia Colla Lorena Cruz é bióloga, formada pela UFBA, com mestrado em Ecologia pela mesma universidade. Em 2013, Lorena se tornou mãe de Manuela. Após um ano de dedicação integral e apaixonada à maternidade, começou a conciliar a maternidade e a academia com o empreendedorismo, fundando as empresas “Com Amor de Mãe”, de fabricação de tortas e doces, e “As Festas de Manuca”, que inovou o mercado de festas em Salvador (BA) ao desenvolver decoração de festas infantis com uma proposta ecológica. Lorena deu entrevista ao blog para falar sobre a transformação da sua vida pessoal e profissional após a maternidade, em especial a influência da filha sobre suas decisões em relação à carreira acadêmica. Bate Papo com Neturo (BPCN): Lorena, você foi professora substituta do curso de Biologia da UFBA alguns anos antes e alguns anos após ser mãe. A maternidade mudou a professora Lorena? Lorena: Eu não consigo entender como é que antes eu levava um, dois, três dias para preparar uma aula. Fico pensando ‘Meu Deus, como assim?’. Eu levava tanto tempo pra fazer uma aula! Eu fiquei mais eficiente, porque tinha que fazer a aula, tendo Manu para dividir a minha atenção. É claro que hoje em dia ela vai para a escola, então ela tem alguns horários definidos que me deixam mais livre. Mas durante os finais de semana, por exemplo, temos que dar atenção a ela, brincar e tal, então tenho que chegar em casa e ainda ler artigos para aula de segunda feira - inclusive tenho que fazer isso hoje (risos). Sem dúvida, eu fiquei super eficiente. BPCN: Qual a sua opinião sobre o caso que aconteceu recentemente na UFRGS, quando uma professora impediu uma aluna do curso de Letras de assistir uma aula com sua filha de cinco anos? (Clique aqui para ver a notícia). L: Estou chocada. Se fosse um professor, eu já acharia um absurdo. Sendo mulher, eu não consigo achar nenhuma explicação que justifique isso. Como mulher já entenderia, sendo mãe, entendo mais ainda. Eu já tive alunas que fizeram provas com o filho na sala porque  não tinham com quem deixar a criança, você vai fazer o quê? É justamente disso que eu falo, por que  ocorre tanta evasão de mães nos ambientes acadêmicos: a mulher vai assistir a aula, mas não tem com quem deixar a filha e não tem apoio algum no espaço onde vai estudar. Acho que não é a postura de todos os professores, mas é uma atitude extremamente ridícula e contribui para que as mães abandonem os estudos. Muitas até gostariam de continuar e não conseguem. BPCN: Como uma pesquisadora decidiu migrar da área acadêmica para o empreendedorismo? L: Primeiro, foi uma decisão meio forçada, para não sair de casa... (a entrevista é interrompida por Manuela, chamando nossa atenção para mostrar a “Peppa Pig” na televisão). Eu escolhi o empreendedorismo para ficar em casa com Manu. Eu comecei com a venda de chocolates, venda de doces, mas tinha em mente que não era aquilo que eu queria para minha vida para sempre. Ainda tinha planos de fazer doutorado na área de ecologia, e pensava nessa doceria como projeto pra eu tocar em paralelo ao meu plano principal, que era a academia. No entanto, as coisas foram mudando. Primeiro entrei numa faculdade particular pra dar aula, depois fiz concurso pra professor substituto novamente (Lorena já havia prestado concurso e lecionado como substituta alguns anos antes), e nesse meio tempo surgiu o outro negócio, que são as festas. Também tentei me inserir novamente em um laboratório pra tentar voltar à rotina acadêmica, publicar meu artigo do mestrado para me inscrever no doutorado... Mas meu artigo não foi aceito, está para ser submetido novamente. E com essa coisa do artigo não aceito, além de algumas frustrações dentro do laboratório, vendo que a vida na academia não parecia me proporcionar uma possibilidade de ser criativa, de inventar, eu me sentia meio limitada. Assim, eu voltei pro empreendedorismo, já na concepção das festas, e agora eu me sinto realizada: consigo criar, consigo pensar, consigo ter atividades diferentes, lá na academia eu me sentia mais presa. BPCN: Lorena, após o término do mestrado você engravidou de Manuela e sua vida profissional mudou completamente. Aparentemente, alguns fatores limitaram você a continuar na academia. Quais fatores seriam esses? L: Embora eu pudesse criar meu horário para o laboratório (por exemplo, se eu pudesse ir na segunda-feira, então eu iria toda segunda-feira), sempre foi exigida uma regularidade que eu não podia atender, porque eu ainda dava aula. Só no período de greve eu assumi mais essa regularidade de presença no laboratório. Mas, apesar de ter horário a cumprir, necessidade de rotina, isso é flexível na academia, então não era meu fator limitante. O primeiro fator que me limitou era trabalhar com microorganismos que eu não gostava muito, que eram os fungos. Às vezes eu não gostava do ambiente de trabalho. E também o fato de ter que desenvolver um projeto e ter que pensar e desenvolver perguntas para o projeto. Porque apesar de eu poder criar minha própria pergunta, ao mesmo tempo eu me sentia limitada em relação aos recursos, por exemplo. Então você pode pensar numa pergunta de pesquisa maravilhosa e não ter recurso para executar o projeto, isso me causava uma certa frustração. Mas, principalmente, senti que gostava muito de artesanato; eu gosto muito de coisas manuais, e na academia não posso fazer isso, a não ser que eu fizesse uma armadilha artesanal para os animais (risos), então isso também contribuiu para que eu não continuasse na academia. Na verdade, acho que maternidade e academia ainda estão num processo confuso para mim. Eu gosto da academia, mas não me vejo como pesquisadora dentro da universidade, aquele modelo de professora efetiva, dedicação exclusiva. Eu queria ser mais livre, fazer pesquisa eventualmente. Mas eu admiro muito quem está dentro do ambiente acadêmico, principalmente conciliando com a maternidade. Ainda assim, para quem planeja ter filho e conciliar com a academia eu digo que é totalmente viável. Em todas as profissões existem mães, e na academia não é diferente. BPCN: No artigo “Quando colocar filhos no cronograma?”, discutimos resultados de um trabalho de autoria de Willians & Ceci (2012) (Leia mais aqui), no qual evidencia-se que, entre pós-doutorandos, a chegada de um filho, ou mesmo o plano de ter filhos, tem menos impacto na carreira dos homens do que na carreira das mulheres, que apresentam índices muito maiores de desistência dos estudos. Quais fatores você acha que ajudariam a mulher a conciliar o papel de mãe com o papel de pós-graduanda? L: Acho que a própria universidade precisa criar um espaço de acolhimento maior para a mãe. Por exemplo: creches. Na UFBA existe uma creche, mas para as mães da UFBA conseguirem uma vaga é um suplício. Vez ou outra os funcionários entram em greve e a creche não funciona. Tem mãe que precisa levar o filho para assistir aula. A universidade precisa ter uma estrutura melhor para receber os filhos dessas mães, porque muitas não tem com quem deixar os filhos. Uma pessoa que ganha R$ 2.200,00 de bolsa de doutorado não tem como pagar uma babá. Falta acolhimento das universidades para que as mães possam levar os filhos. BPCN: No mesmo artigo, discute-se que o período biologicamente ‘ideal’ para ter filhos, que seria o período de fertilidade ótima da mulher, não coincide com o melhor período profissional das pós-graduandas, ou o período que a carreira fica mais estável. Quais conselhos você daria para uma mulher pós-graduanda que sonha em ser mãe? L: Dizem que quem para para pensar não é mãe nunca. Então o conselho que eu dou para quem quer ser mãe é: seja. Porque não existe hora certa, não existe ‘quando acabar o mestrado’, ‘quando acabar o doutorado’, porque a cada hora que você acaba um ciclo, aparece sempre um novo projeto e você vai ter que se debruçar sobre ele, e você vai ter que adiar a maternidade. Sem ser clichê, posso dizer que o que sou hoje é por causa de Manuela. Criei duas empresas, uma é “Com Amor de Mãe” - se eu não fosse mãe eu não teria a empresa, e a outra é “As Festas de Manuca” - se não fosse Manuca não teria festa, não teria eu (risos). Eu me descobri mesmo depois dela. Não é romantismo, a maternidade te proporciona você se conhecer melhor. E você fica mais eficiente, isso é fato, você fica extremamente mais eficiente. Na verdade seus planos podem nem mudar tanto, embora os meus tenham mudado muito. Mas você pode adaptar os planos. Acho que a pessoa não vai deixar de concluir o doutorado porque é mãe, não vai deixar de fazer o doutorado porque é mãe. Eu estou deixando de fazer o doutorado em ecologia, mas ainda tenho vontade de fazer em sustentabilidade, alguma coisa que eu consiga aliar com as festas. Porque hoje eu encontrei o ramo da biologia que eu quero trabalhar, que é a sustentabilidade, e eu gosto de trabalhar nessa área na forma de festa. Então meu conselho é não pare para pensar, não pare para ficar planejando que ‘daqui a quatro anos, quando eu pegar meu canudo de doutora eu vou ser mãe’, porque daqui a quatro anos você vai receber uma proposta de pós-doutorado e você não vai poder ser mãe. E o tempo passa, você olha para trás e não consegue ver o que você construiu porque o seu principal objetivo, se for ser mãe, não foi alcançado. Então: seja. #mulheresnaciência #raquelmoreirasaraiva #caiacolla #diadasmães #filhos

  • Plásticos Biodegradáveis fake: a natureza não agradece

    Por Ítalo B. Castro e Paula C. Jimenez Originalmente publicado em: https://unifesp.medium.com/pl%C3%A1sticos-biodegrad%C3%A1veis-fake-a-natureza-n%C3%A3o-agradece-7813275948d2 Nas últimas décadas, a quantidade de detritos plásticos em ambientes naturais tem aumentado de forma drástica, gerando impactos significativos sobre os ecossistemas costeiros, marinhos e terrestres. Paralelamente, os avanços científicos recentes atestam que a produção, uso e descarte de utensílios plásticos representam ameaças maciças ao bem-estar humano e ambiental, praticamente na mesma proporção das mudanças climáticas. De fato, o problema do plástico tem despertado a preocupação tanto de agências ambientais (nacionais e internacionais) como de gestores públicos que, visando amortizar o problema, vêm adotando medidas regulatórias. Embora ações para reduzir o problema ambiental dos plásticos sejam bem-vindas, muitas decisões recentes têm sido tomadas sem a necessária ponderação de especialistas sobre o tema. No último 07 de junho, a página da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo (SEDUC-SP) divulgou matéria informando que, a partir do segundo semestre, as escolas estaduais irão substituir os copos de plástico comum por outros de material biodegradável. A matéria, intitulada “Governo de SP vai extinguir o uso de copos e material plástico nas escolas estaduais”, ainda menciona que os utensílios substitutos serão confeccionados em polipropileno biodegradável e que a fabricação do produto é feita de acordo com supostas resoluções vigentes da ANVISA. À primeira vista, esta pode parecer uma medida nobre e acertada, porém existem dois aspectos importantes a serem analisados na matéria: primeiro, polipropileno biodegradável não existe, e, segundo a ANVISA, regula apenas aspectos ligados à saúde pública (nesse caso, quanto à composição e utilização destes materiais), não sendo de sua competência a avaliação de critérios ecológicos desta vereda, como a biodegradabilidade dos materiais. Embora a matéria não forneça maiores detalhes, as informações veiculadas levam a crer que os novos utensílios a serem usados nas escolas serão feitos de plásticos oxo-biodegradáveis que, apesar da nomenclatura, não sofrem degradação em ambientes naturais e ainda podem acelerar a formação de microplásticos. Esses materiais já foram proibidos em vários países do mundo, inclusive na União Europeia devido aos riscos ambientais e a seu enquadramento como prática de greenwashing (termo em inglês que indica falsas alegações ambientais em produtos comerciais). Nesse aspecto, a Fundação Ellen MacArthur publicou uma declaração pedindo a proibição mundial de plásticos oxo-degradáveis e já recebeu a adesão de 150 organizações, incluindo European Bioplastics, M&S, PepsiCo, Unilever, Veolia, British Plastics Federation, Gulf Petrochemicals, WWF e dez membros do parlamento Europeu. Portanto, a substituição propagandeada pela secretaria de educação é, potencialmente, mais lesiva para a natureza do que os plásticos convencionais atualmente utilizados. No Brasil, não é crime produzir, comercializar e utilizar utensílios feitos com materiais oxo-biodegradáveis, os quais podem ser facilmente encontrados nas gôndolas da maioria dos supermercados, vendidos sob falsas alegações de biodegradabilidade. Por outro lado, quando um produto reconhecidamente prejudicial para o meio ambiente passa a ser adotado como alternativa sustentável por intuições públicas, sobremaneira em escolas estaduais, é importante que explicações sejam requisitadas. Cabe ainda enfatizar que o Brasil é o quarto maior gerador de resíduos plásticos do mundo, sendo essencial que políticas públicas cientificamente orientadas sejam implementadas. Mais além, a leniência com que temos encarado essas questões pode levar consumidores conscientes a abandonar práticas ambientalmente amigáveis reduzindo sua disponibilidade em consumir produtos que sejam realmente biodegradáveis. Na maioria das nações desenvolvidas do mundo, substituições como a proposta pela Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, optou-se pelo uso de utensílios descartáveis que sejam, de fato, biodegradáveis como aqueles feitos de papel, papelão ou madeira. Alternativamente, e ainda mais desejável, seria empregar o recurso disponibilizado e adotar materiais reutilizáveis que reduzem substancialmente a geração de resíduos e, simultaneamente, ajudam a educar as crianças com relação às responsabilidades com seu próprio lixo. De todo modo, para avaliar se esta é uma medida ecologicamente sã, é essencial que o Governo do Estado indique publicamente qual é o tipo de material que será utilizado na referida troca, demonstrando, assim, que a entidade construiu um repertório técnico robusto neste assunto para apoiar, com propriedade e responsabilidade, a hashtag #CombataAPoluiçãoPlástica. Sobre os autores: Ítalo B. Castro: Pesquisador do Instituto do Mar da Universidade Federal de São Paulo (IMAR/Unifesp), é formado em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Fez mestrado em Ciências Marinhas pelo Instituto de Ciências do Mar (LABOMAR/UFC) e doutorado em Oceanografia pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG). É membro efetivo do Society of Environmental Toxicology and Chemistry (SETAC-BRASIL), pesquisador colaborador das instituições onde cursou mestrado e doutorado e Professor Adjunto da (UNIFESP). Dedicou sua carreira acadêmica à pesquisa dos níveis ambientais e efeitos biológicos de produtos químicos e resíduos perigosos. Atualmente, tem se dedicado ao desenvolvimento e otimização de modelos biológicos para avaliação de impactos ambientais em áreas costeiras e marinhas. Paula C. Jimenez: Pesquisadora do Instituto do Mar da Universidade Federal de São Paulo (IMAR/Unifesp), graduou-se em Biologia pela UFC, fez mestrado e doutorado em Farmacologia e pós-doutorado pela UFC. Atualmente é Docente da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e revisora de periódico da Brazilian Journal of Medical and Biological Research (Impresso), da Vitae (Medellín), da Brazilian Journal of Pharmacognosy, da Scientific Reports, da Current Biotechnology, da Anticancer Agents in Medicinal Chemistry e da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. Além disso, é revisora de projetos de fomento da Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia do Estado de Pernambuco e do Fondo Nacional de Desarrollo Científico y Tecnológico. Sua principal linha de pesquisa é em farmacologia com ênfase em produtos naturais marinhos, citotoxicidade, ascídias e Eudistoma vannamei. #CiênciasDoMar #Convidados #Convidadas #Microplástico #Biodegradáveis #PlásticosBiodegradáveis #PoluiçãoMarinha #ContaminaçãoMarinha

  • Um mito sobre para onde vai o oxigênio oceânico

    Artigo escrito por Placido Benzi, IOC-UNESCO Traduzido por Malu Abieri Texto original em https://oceanliteracy.unesco.org/ocean-literacy-commentary-a-myth-on-the-fate-of-oceanic-oxygen/ Histórico e contexto “50% do oxigênio que respiramos vem dos oceanos” “A cada duas respirações, uma vem do oceano” Estes mantras estão constantemente ecoando nos principais canais de comunicação geral e científica, pela televisão e mídias sociais, no rastro do que constitui o maior esforço de culturalização do Oceano Global na história da humanidade: a Década das Nações Unidas da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável. Esta iniciativa global representa uma “onda incrível” que já está inundando um deserto de informações com abordagens multidimensionais para o avanço da Cultura e Ciência Oceânica em todo o mundo. Em paralelo, o público e os governos estão cada vez mais participando de uma infinidade de iniciativas e atividades, gastando uma quantidade considerável de tempo e esforço cognitivo na difusão e consolidação da ciência e conhecimento do Oceano. Apesar do interesse genuíno demonstrado pelos diferentes tomadores de decisão (“stakeholders”) envolvidos, temos observado a difusão e circulação de diversas afirmações relativas aos oceanos que não são, na verdade, corretas. A rápida propagação de informações por meio de etapas recursivas de relatórios e pequenas modificações, como no caso de tabloides reportando fatos emanados por governos ou agências, poderia de fato gerar incontáveis erros de compreensão. Tal processo é especialmente reforçado por uma “seleção artificial”, na qual uma informação considerada bonita ou dramática é coletivamente estabilizada ou fixada, não importando/apesar de sua autenticidade. Nestes casos, a informação falsa assume a conotação de “mantra” e é perpetuamente circulada e eventualmente se torna integrada ao conhecimento público/comum. Um caminho semelhante caracteriza a história de um determinado micro conhecimento relativo à produção de oxigênio pelo Oceano. Os “mantras” supramencionados são repetidamente propagados nas redes sociais e até mesmo importantes instituições – Organização das Nações Unidas (ONU), União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) – e, por melhores que possam parecer, permanecem, de fato, incorretos. E podem induzir a falsas suposições de como o Oceano funciona e regula a vida na Terra. São poucos os comentários escritos que abordam esta questão urgente, de C. Duarte e J-P. Gattuso (1), e, apesar da clareza e brilhantismo de tais intervenções, ainda vigora a propagação de sentenças incorretas sobre o assunto. Abordando o Mito A narrativa comum estabelecida sobre esses factoides vê o Oceano como exportador de um fluxo considerável de oxigênio para a atmosfera, sendo então prontamente consumido por formas de vida terrestres. Em contrapartida ao Oceano, que sob esta ótica produz cerca de 50% do oxigênio que respiramos, está o compartimento Terrestre, que através das plantas gera a cota remanescente de oxigênio disponível. Embora seja verdade que cerca de 50% do oxigênio atualmente produzido na Terra provenha do Oceano, é na verdade falsa a afirmação de que essa cota está realmente disponível para humanos ou qualquer outra forma de vida terrestre. O que a narrativa acima está ignorando é todo o metabolismo oceânico e o status de suas redes tróficas. Comparando o Oceano a um organismo gigante, poderíamos afirmar que o oxigênio produzido via produção primária é também majoritariamente consumido pela respiração do próprio Oceano. Assim, a atual produção líquida de oxigênio do Oceano é próxima de zero. O pensamento sistêmico vem ao resgate em muitos outros momentos semelhantes, como, por exemplo, no caso da Floresta Amazônica, que “supostamente” produz 20% do oxigênio que respiramos. Se considerarmos novamente todos os processos do ecossistema, devemos destacar que o ecossistema da Floresta Amazônica também consome a maior parte do oxigênio que produz, principalmente via respiração e oxidação de compostos orgânicos por plantas, fungos, animais e micróbios. Portanto, a contribuição em termos de oxigênio que respiramos é novamente próxima a zero. A pergunta natural que surge de tais considerações é a seguinte: “se o oxigênio que respiramos atualmente não vem do Oceano, de onde ele vem?”. De todo o carbono orgânico produzido no Oceano, apenas uma ínfima fração escapa à remineralização no ciclo de carbono, e é assim sequestrada ao longo de importantes escalas de tempo. Embora muito pequena, esta fração tem sido historicamente vital, considerando seu papel no acúmulo de oxigênio na atmosfera ao longo de escalas tempo geológicas. A deposição do carbono orgânico e sua preservação ao longo do tempo, evitam sua oxidação. O que significa que o oxigênio gerado durante o mesmo processo fotossintético, que também gerou o carbono orgânico, foi na verdade poupado. Portanto, podemos imaginar uma ligação invisível entre o carbono depositado no Oceano e seu efeito poupando o oxigênio relativo. Assim, o processo baixo e lento de deposição de carbono no Oceano ao longo do tempo, levou a um acúmulo gradual de oxigênio na atmosfera, partindo de valores inferiores a 0,001% ao atual nível de 21% durante a primeira metade da história do planeta (2). Resumo Aproximadamente metade do oxigênio produzido atualmente na Terra é gerado pelo Oceano O oxigênio atualmente produzido pelo Oceano é majoritariamente consumido pelo próprio Oceano Atualmente, o Oceano não produz nenhuma fração significativa do oxigênio que respiramos A deposição e preservação de carbono orgânico no Oceano e parte terrestre ao longo de escalas tempo-geológicas são responsáveis pela atual reserva de oxigênio atmosférico e pela respectiva cota respirada pelos seres humanos. Citações: (1) https://theconversation.com/humans-will-always-have-oxygen-to-breathe-but-we-cant-say-the-same-for-ocean-life-165148 (2) www.nature.com/doifinder/10.1038/nature13068 #CiênciasDoMar #CulturaOceânica #MitosOceânicos #OxigênioOceânico #IOCUNESCO

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