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  • Ondas Oceânicas

    Por Jana M. del Favero É impossível ir à praia e não se encantar pelo vai e vem das ondas. Se a superfície do mar não fosse perturbada pelo vento ou por outros fatores que apresentaremos nesse post (como terremotos), ela seria naturalmente lisa. Porém sabemos que a superfície do mar não é lisa, e sim cheia de ondulações. Uma onda oceânica é uma ondulação na superfície do mar que tem movimento regular: a água sobe formando a crista da onda (ponto de máxima elevação) e desce formando o cavado (ponto de mínima elevação, também chamado de vale ou cava). Assim como as ondas sonoras, que aprendemos no colégio, ou as ondas que formamos ao brincar com uma corda, as ondas oceânicas distinguem-se umas das outras pelas seguintes propriedades: 1) altura - distância vertical que separa a crista do cavado; 2) comprimento - distância horizontal entre a crista de uma onda e a crista da onda seguinte (veja a figura abaixo); e 3) período - tempo que duas cristas sucessivas levam para passar por um ponto fixo, como a perna de um píer. Representação de onda com suas nomeclaturas (Fonte: Bate Papo Com Netuno com Licença CC BY SA 4.0) Uma das maneiras de classificar as ondas é através do período. Por exemplo, as ondas capilares têm períodos de menos de um décimo de segundo. Estas são facilmente vistas em um mar liso e calmo quando uma rajada de vento perturba abruptamente a superfície da água, criando ondas muito pequenas, de curta duração. Já os tsunamis têm períodos longos, da ordem de minutos e horas, e são gerados por perturbações submarinas, como um terremoto. Porém, os períodos de ondas mais longos são das marés. Sim, você não leu errado: marés são ondas com grande comprimento, que ocasionam o aumento e a diminuição do nível do mar com um período distinto, entre 12 e 24 horas dependendo do local em que você estiver na Terra (já falamos sobre marés aqui). Engana-se quem acha que as ondas ocorrem apenas na superfície dos oceanos. Um tipo de onda, chamado de onda interna, ocorre debaixo da água e se move ao longo das picnoclinas, que são as superfícies que separam as massas de água de diferentes densidades. Essas ondas internas viajam a velocidades muito menores do que as ondas de superfície, pois a diferença de densidade entre duas massas de água é bem menor do que entre o ar e a água. No entanto, seu período e comprimento são relativamente longos (medidos em minutos e em centenas de metros, respectivamente). Além disso, as maiores ondas internas podem atingir ou mesmo exceder 100 metros de altura, quase três vezes mais altas do que as maiores ondas na superfície. Mas como estamos habituados com as ondas de superfície geradas pelo vento, focaremos nelas nesse post. Com uma ida à praia você já consegue entender a relação entre a força do vento e o tamanho das ondas: com o aumento da velocidade do vento, aumenta o comprimento, o período e a altura das ondas resultantes, desde que o vento sopre tempo suficiente e a pista (área de água sobre a qual o vento sopra) seja adequada em comprimento. Outra característica que é fácil de notar é o chamado movimento orbital das partículas de água sob as ondas. Vou dar um exemplo: nadadores no mar logo atrás da arrebentação (zona onde as ondas quebram) são empurrados para cima e em direção à praia à medida em que sobem a frente de uma onda até sua crista e em seguida são empurrados para baixo e mar adentro ao passo que descem a parte de trás da onda até seu cavado. Isso mostra que, com a passagem de uma onda, qualquer coisa que esteja flutuando e todas as partículas de água perturbadas pela onda tendem a retornar ao mesmo ponto de onde começaram. Assim sendo, em teoria, não existe movimento de avanço de massa independentemente do número de ondas que passam pela área: é a energia da onda, e não as partículas de água, que se desloca ao longo da superfície do mar. Exemplo de como uma partícula (no caso, uma gaivota) se mantém parada, enquanto a energia da onda se desloca, perturbando a superfície do mar. Fonte Quanto maior for a onda, maior será o tamanho da órbita formada. O tamanho das órbitas diminui rapidamente com a profundidade e não é detectável em profundidades iguais a cerca de metade do comprimento da onda. Os mergulhadores estão bem cientes desse efeito por escaparem de serem empurrados pelas ondas ao nadar em direção ao fundo. Inclusive, há diversos relatos de mergulhadores usando equipamento SCUBA (aquele com cilindro de ar) sobrevivendo a tsunamis por estarem abaixo d’água! Representação de ondas curta (direita) e longa (esquerda). (Fonte: Bate Papo Com Netuno com Licença CC BY SA 4.0) E o que podemos aprender com essas medidas de onda? Bom, ondas que estão em águas menos profundas que a metade do seu comprimento irão interagir com o fundo do oceano e eventualmente quebrar. A água perto do fundo do mar não consegue se mover em uma órbita circular, apenas “para trás e para frente”, ou seja, as órbitas circulares das partículas de água se tornam elipses achatadas por causa da interferência do fundo. Além disso, a interferência do fundo muda a forma e a velocidade da onda, de modo que uma onda de água profunda é transformada em uma onda de água intermediária e, em seguida, em uma onda de água rasa. Uma onda de água profunda é definida como uma onda que se move na água que é mais profunda do que sua base, que é metade de seu comprimento. Uma onda de água intermediária percorre profundidades que estão entre a metade e um vigésimo do seu comprimento. Por fim, uma onda de água rasa está em uma profundidade inferior a um vigésimo do seu comprimento. É importante notar que esta é uma classificação relativa, o que significa que o comprimento da onda é analisado em relação à profundidade da água. Isso quer dizer que é possível ter ondas de águas profundas em uma banheira cheia com alguns centímetros de água, e ondas de água rasa em um oceano profundo. Uma banheira é uma bacia oceânica inteira para uma formiga, ao passo que essa mesma bacia oceânica não é mais que um laguinho para um titã… é tudo relativo! As órbitas descritas pelas partículas sob as ondas são circulares para as ondas de águas profundas (esquerda). Já para as ondas de águas rasas, as órbitas das partículas são comprimidas em elipses alongadas (direita) (Fonte: Bate Papo Com Netuno com Licença CC BY SA 4.0). Quando as ondas começam a interagir com o fundo, elas perdem velocidade por causa do atrito com o fundo. Este atrito também faz com que suas alturas aumentem e seus cavados se tornem achatados. Essa mudança na forma e o aumento da altura refletem a redistribuição da energia da onda com a diminuição da profundidade da água. O que não muda é o período, propriedade fundamental de uma onda. Ou seja, o período de uma onda medido em uma praia será o mesmo ao seu período no momento de sua geração na área de tempestade em mar aberto. Quando a altura é aproximadamente igual a um sétimo do comprimento de onda, a crista fica inclinada e instável; como o atrito com o fundo retarda a base da onda, a parte superior avança e a onda quebra. Esse vídeo explica como as ondas que vemos nas praias se formam e quebram. #janamdelfavero #descomplicando #ondas

  • A formiga e o mar

    Por Juliana Leonel Ilustração: Joana Ho Não, não estamos falando de uma formiga marinha nem de formigueiros no fundo dos oceanos. Mas sim, a formiga e o mar estão relacionados. Venha saber como Os oceanos têm uma ligação muito próxima com tudo que é feito no continente e, de uma forma ou de outra, tudo (ou quase tudo) chega aos oceanos. Então, se usamos algum produto/substância em casa, na agricultura ou na indústria, esse material, um dia, chegará aos oceanos. O Brasil tem um papel importante no abastecimento das fábricas de papel e celulose em diversos países do mundo (principalmente na China e em países da Europa). Por isso, nosso território tem extensas plantações de eucalipto que, devido ao seu rápido crescimento e baixo custo de plantio, é uma excelente fonte de matéria prima para estas indústrias. No entanto, as plantações de eucalipto são um “prato cheio e saboroso” para formigas cortadeiras que podem causar a desfolha total das plantas e levá-las à morte. Atualmente, para controlar esses insetos, são usadas iscas formicidas granuladas, sendo a Sulfluramida a mais usada. Diversos pesquisadores observaram que a Sulfluramida, após ser lançada no ambiente, se transforma em outros compostos químicos depois de algumas semanas. Um deles, o ácido perfluoroctanoico sulfônico (PFOS), é altamente persistente no ambiente e apresenta efeitos tóxicos para a biota, incluindo nós seres humanos. Porém, embora o PFOS seja classificado como um Poluente Orgânico Persistente pela Convenção de Estocolmo (saiba mais aqui), da qual o Brasil é signatário, a cada cinco anos, o país pede autorização para continuar utilizando a Sulfluramida. Alguns trabalhos, realizados em 2012 e 2014, apresentaram valores elevados de PFOS em águas dos mares brasileiros¹,², que não foram condizentes com o uso industrial dos PFOS no país. Com isso surgiu a pergunta: seria a Sulfluramida uma fonte significante de PFOS para a região costeira do Brasil? Para responder esta pergunta os pesquisadores do Laboratório de Oceanografia Química da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) trabalham em colaboração com outras instituições nacionais e internacionais realizando análises de amostras ambientais e experimentos laboratoriais. Dessa forma, pela primeira vez, um estudo³,4 reuniu dados sobre uso, produção, comercialização, exportação e importação do ingrediente ativo da Sulfluramida (EtFOSA – N-ethilperfluoro-octano-1-sulfonamida) mostrando que a importação de EtFOSA pelo Brasil passou de 30 toneladas em 2007 para 60 toneladas em 2014. O mesmo estudo também avaliou a ocorrência de PFOS e outras substâncias perfluoroalquiladas (PFASs) em águas superficiais da Baía de Todos os Santos (Bahia), onde se constatou a presença de um perfil de PFASs que corresponde ao uso da Sulfluramida. Mas a pergunta ainda não estava respondida, pois os estudos que sugerem a degradação da Sulfluramida para PFOS realizaram apenas análises em solos e/ou água e nenhum deles estudou a degradação a partir das iscas formicidas, que são possíveis fontes dessa substância. A partir disso, foi elaborado um experimento para estudar essa degradação em solo, com e sem a presença de cenouras (vegetal escolhido pois é fácil de cultivar em laboratório, tem crescimento rápido e é usado na alimentação humana)5. O estudo concluiu que num período de menos de duas semanas a Sulfluramida era degrada para PFOS em uma quantidade maior que anteriormente estimada. Além disso, observou-se que o PFOS é absorvido do solo pela cenoura, e se distribui entre sua casca, seu interior e suas folhas. Ou seja, alimentos plantados próximos de regiões onde há uso da Sulfluramida podem ser expostos a PFOS. Concomitantemente, dados gerados a partir da análise de amostras (água fluvial, marinha e subterrânea, solo, folha e sedimento) da região de Caravelas e Alcobaça (extremo sul da Bahia) auxiliaram a entender como pode ocorrer o transporte da Sulfluramida e seus produtos de degradação, desde a região de aplicação até a costa. Esta região foi escolhida devido à presença de extensas plantações de eucalipto. Por exemplo, 30,6% da área total da cidade de Caravelas é ocupada por eucalipto. Esse trabalho permitiu confirmar a hipótese que o uso de Sulfluramida nas plantações de eucalipto da Bahia são uma fonte significante de PFOS para a região costeira. Lembrando que é justamente nesta região onde se encontra a maior concentração de recifes de coral do Atlântico Sul, os recifes de Abrolhos. Além disso, a presença de PFOS (e outros compostos perfluorados) em água de poço artesiano foi particularmente preocupante, devido ao potencial de exposição de seres humanos através da ingestão de água. Infelizmente, embora haja estudos em busca de alternativas, a Sulfluramida é considerada o método mais eficiente para o controle de formigas cortadeiras no Brasil e não há uma perspectiva para que seu uso seja proibido. Trabalhos como esse exemplificam porque a liberação indiscriminada de agrotóxicos (foram mais de 100 liberados só em 2019) é tão preocupante, pois, uma vez que são introduzidos no ambiente, esses compostos não atingem somente o local onde ele é aplicado e podem permanecer no ambiente por muito tempo (veja o caso da ocorrência do DDT no ambiente antártico). Além disso, pouco se sabe sobre os produtos de degradação da maior parte dos agrotóxicos usados no Brasil. Referências: Benskin, J.P., Muir, D.C.G., Scott, B.F., Spencer, C., De Silva, A., Kylin, H., Martin,J.W., Morris, A., Lohmann, R., Tomy, G., Rosenberg, B., Taniyasu, S., Yamashita, N., 2012a. Perfluoroalkyl acids in the atlantic and canadian arctic oceans. Environ. Sci. Technol. 46, 5815–5823. González-Gaya, B., Dachs, J., Roscales, J.L., Caballero, G., Jimenez, B., 2014. Perfluoroalkylated substances in the global tropical and subtropical surface oceans. Environ. Sci. Technol. 48, 76–84. Gilljam, J.L., Leonel, J., Cousins, I.T., Benskin, J.P., 2016a. Is ongoing Sulfluramid use in South America a significant source of perfluorooctane sulfonate (PFOS)? Production inventories, environmental fate, and local occurrence. Environ. Sci. Technol. 50, 653–659. Gilljam, J.L., Leonel, J., Cousins, I.T., Benskin, J.P., 2016b. Additions and correction to is ongoing Sulfluramid use in South America a significant source of perfluorooctanesulfonate (PFOS)? Production inventories, environmental fate, and local occurrence. Environ. Sci. Technol. 50, 7930–7933. Zabaleta, I., Bizkarguenaga, E., Nunoo, D.B.O., Schultes, L., Leonel, J., Prieto, A., Zuloaga, O., Benskin, J.P., 2018. Biodegradation and uptake of the pesticide sulfluramid in a soil/carrot mesocosm. Environ. Sci. Technol. 52, 2603–2611. Nascimento, R. A., Nonoo, D. B. O., Bizkarguenaga, E., Schults, L., Zabaletab, I., Benskin, J. P., Spanó, S., Leonel, J. (2018). Sulfluramid use in Brazilian agriculture: A source of per- and polyfluoroalkyl substances (PFASs) to the environment. Envirom. Pol. 242, 1436-1443 #ciênciasdomar #julianaleonel #joanaho #poluiçãomarinha #POPs #praguicidas

  • Mulheres no Oceano

    Por Raphaela Duarte, Andreliza Roberta Terciotti de Oliveira, Yonara Garcia, Thais R. Semprebom, Mariana P. Haueisen e Douglas F. Peiró Acesse a publicação original aqui Mulheres cientistas em treinamento pela NASA, em 1975. Fonte Existem grandes descobertas científicas realizadas por mulheres na ciência, mas nem sempre são elas que se destacam. Uma das áreas em que estão bastante presentes é a Biologia Marinha. As mulheres também amam os oceanos e cuidam deles. Quantas cientistas mulheres você conhece por suas grandes descobertas? Poucas? Nenhuma? Sempre existiram mulheres cientistas que fizeram grandes descobertas para a ciência, mas devido à desigualdade de gênero, poucas foram reconhecidas pelo mundo. Em homenagem ao Dia Internacional das Mulheres, 8 de março, uma data que representa a luta pela igualdade dos gêneros, selecionamos três grandes biólogas marinhas para que você se inspire nestas incríveis profissionais. Rachel Louise Carson Rachel Carson nasceu em Springdale, Pensilvânia, Estados Unidos, no dia 27 de maio de 1907. Foi uma das pioneiras na conscientização ambiental moderna, com publicação de livros e artigos sobre o meio ambiente. Rachel estudou na Faculdade da Pensilvânia para Mulheres, atual Universidade Chatham. Inicialmente ingressou no curso de Língua Inglesa, mas, em janeiro de 1928, transferiu para Biologia, onde graduou-se com honras em 1929. No outono de 1929 ela continuou estudando zoologia e genética na John Hopkins University, após um curso de verão no Laboratório de Vida Marinha. Nesta mesma universidade, obteve o título de mestre em Zoologia, em 1932. Apesar de ter a intenção de investir no doutorado, em 1934 ela deixou John Hopkins para dar aulas e ajudar a família. Sua carreira como bióloga marinha começou no United States Fish and Wildlife Service como escritora. Reconhecida por várias revistas, ela se tornou escritora em tempo integral em 1950. No ano seguinte, escreveu o livro The Sea Around Us, que se tornou um best-seller e ganhou o National Book Award. Seus dois próximos livros, The Edge of the Sea e Under the Sea Wind foram sucesso de vendas também. Essa trilogia explora a vida marinha, desde a zona litorânea até as profundezas. O seu livro mais conhecido é o Silent Spring, ou Primavera Silenciosa, de 1962, em que Rachel descreve os efeitos nocivos de pesticidas, especialmente o DDT, no meio ambiente. Rachel faleceu no dia 14 de abril de 1964 devido a um infarto, provavelmente causado pela sua situação frágil, uma vez que tratava de um câncer de mama em metástase desde 1960. Marta Vannucci Marta Vannucci nasceu em Florença, Itália, no dia 10 de maio de 1921, e se estabeleceu no Brasil em 1930 com sua família. É considerada uma das maiores especialistas em ecossistema de manguezais. Em 1943 formou-se em História Natural e, após um ano, defendeu sua tese de Doutorado em Ciências pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, sob orientação do professor Ernst Marcus, zoólogo renomado mundialmente. Desde então, passou a ser sua assistente no Departamento de Zoologia da mesma faculdade. Em 1946 foi convidada para trabalhar no Instituto Paulista de Oceanografia (IPO) pelo professor russo Wladimir Besnard. Em 1951, ambos conseguiram que o Instituto fosse incorporado na Universidade, quando então surgiu o Instituto Oceanográfico, como uma Unidade de Pesquisa da USP (IOUSP). Atuou fortemente na Seção de Oceanografia Biológica, setor de invertebrados marinhos, e dedicou-se arduamente no estudo do plâncton, publicando mais de 100 trabalhos. De 1964 a 1969, Marta esteve na direção do IOUSP, dedicando-se à construção do prédio do Instituto, na organização dos cursos de pós-graduação e negociando o Navio Oceanográfico “Prof. Wladimir Besnard”, que realizou diversas expedições com pesquisadores e alunos, colaborando com coletas e pesquisas do Instituto até o ano de 2008. Marta assumiu, em 1970, o cargo de perito em oceanografia pela UNESCO em Cochin, no estado de Kerala, sul da Índia, e a partir de 1974 interrompeu suas atividades no IOUSP. Pela UNESCO, contribuiu com expedições marinhas, conferências internacionais, organização de laboratório de triagem de plâncton (México) e com centenas de trabalhos científicos. Publicou diversos livros, sendo um dos mais famosos “Os manguezais e nós”, de 1999, que retrata a importância desse ecossistema para a subsistência das zonas costeiras e produção de nutrientes para fauna e flora. Aposentou-se pela UNESCO em 1989 e atualmente vive em São Paulo. Sylvia Earle Sylvia Alice Earle nasceu em 30 de agosto de 1935 em Gibbstown, New Jersey, Estados Unidos. Curiosa, como uma cientista nata, desde pequena adorava explorar a natureza e era fascinada por todas as formas de vida que ali viviam. Aos 13 anos mudou-se para a Flórida, dedicou-se aos estudos e ganhou uma bolsa de estudo na Florida State University. Durante a graduação aprendeu a mergulhar, recebendo certificado de mergulho autônomo. Sylvia se especializou em botânica e se formou em 1955. Neste mesmo ano, matriculou-se no mestrado em botânica na Duke University. Após o mestrado, casou-se e começou uma família, mas não deixou de explorar a vida marinha. Em 1964, quando seus filhos tinham dois e quatro anos, Sylvia fez parte da expedição da National Science Foundation no Oceano Índico, durante seis semanas. Em 1966, completou seu Ph.D. em ficologia (estudo das algas), também na Duke University. Com sua crescente carreira, ela se tornou pesquisadora na Universidade Harvard e diretora residente do Cape Haze Marine Laboratories, na Flórida. Em 1968, grávida de quatro meses, viajou a trinta metros abaixo das águas das Bahamas no submersível Deep Diver. Em 1969, inscreveu-se para participar do projeto Tektite, onde os cientistas viveram por semanas em um laboratório no fundo do oceano, a 15 metros de profundidade. Apesar de sua grande experiência com mergulho, possuindo mais de mil horas de pesquisa debaixo da água, Sylvia não pode participar do Tektite I, pois algumas pessoas não aceitaram uma mulher viajando com homens em uma longa expedição científica. Mas em 1970, Sylvia liderou o Tektite II, uma expedição exclusivamente feminina, abrindo precedentes para que futuras expedições aquáticas incluíssem mulheres em suas equipes. Earle liderou mais de 100 expedições submarinas durante sua carreira, acumulando mais de 7 mil horas subaquáticas. Suas missões científicas a levaram a lugares como as Ilhas Galápagos, a China e as Bahamas. Bióloga marinha, escritora, empreendedora, atualmente Sylvia Earle é exploradora da National Geographic Society, fundadora da Sylvia Earle Alliance (SEA) / Mission Blue, fundadora da Deep Ocean Exploration and Research Inc. (DOER), presidente do conselho consultivo do Harte Research Institute e ex-cientista-chefe da National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA). Ainda existem muitos nomes que poderíamos citar, tanto por suas histórias de luta quanto por seus grandes feitos na ciência. As mulheres sempre estiveram presentes nas Ciências do Mar trazendo descobertas, novas conquistas e defendendo a vida marinha. E se você ainda quer conhecer novas histórias, a UNESCO lançou o projeto “Mulheres cientistas marinhas compartilham suas histórias” (“Women marine scientists share their stories”), no qual promove a igualdade de gênero por meio de histórias de cientistas marinhas, no intuito de encorajar jovens mulheres a seguir a carreira das ciências do mar. Em homenagem ao dia das mães, o Bate-papo com Netuno escolheu este texto por trazer três mulheres, biólogas marinhas e mães! Marta Vanucci e Sylvia Earle se tornaram mães durante a trajetória de suas carreiras. Já Rachel Louise Carson, apesar de não ter tido filhos biológicos, precisou se tornar mãe e provedora. Em 1934, durante a grande depressão, abandonou a pós-graduação para procurar emprego e ajudar no sustento da família. Com a morte de seu pai, em 1935, Carson se dedicou a cuidar de sua mãe e, dois anos depois, com a morte de sua irmã, assumiu a responsabilidade de cuidar de suas duas sobrinhas. Até que em 1957, mais uma tragédia familiar aconteceu, uma de suas sobrinhas morreu aos 31 anos, deixando um filho de 5 anos, Roger Christie. Carson adotou Roger e se mudou com a mãe idosa para Silver Spring, Maryland, onde, apesar dos percalços, continuou a se dedicar aos estudos sobre ameaças ambientais específicas. Bibliografia: Academy of Achievement. Sylvia Earle, Ph.D. Disponível em: http://www.achievement.org/achiever/sylvia-earle/#biography. Acesso em: 11 mar. 2019. Canal Ciência. Cientistas Brasileiros Notáveis. Disponível em: http://www.canalciencia.ibict.br/notaveis/livros/marta_vannucci_38.html. Acesso 19 de fev. de 2019. CNPq. Pioneiras da Ciência no Brasil. Disponível em: http://www.cnpq.br/web/guest/pioneiras-da-ciencia-do-brasil. Acesso 20 de fev. de 2019. IOUSP. A mulher que navegou nos mares do mundo – Marta Vannucci. Disponível em: http://www.io.usp.br/index.php/noticias/10-io-na-midia/716-a-mulher-que-navegou-nos-mares-do-mundo-marta-vannucci. Acesso 15 de fev. de 2019. LEAR, Linda. The Life And Legacy Of Rachel Carson. Disponível em: . Acesso em: 15 mar. 2019. Memória USP. Marta Vannucci. Disponível em: http://200.144.182.66/memoria/por/pessoa/724-Marta_Vannucci. Acesso 20 de fev. de 2019. The Nature Conservancy. The Conservancy and Dr. Sylvia Earle. Disponível em: https://www.nature.org/en-us/about-us/where-we-work/united-states/florida/stories-in-florida/florida-dr-sylvia-earle-ocean-advocate/. Acesso em: 11 mar. 2019. Varela, G. A. Gênero e trajetória científica: as atividades da cientista Marta Vannucci no Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (1946-1969)¹. Niterói, v.13, n.1, p. 123-142, 2. sem. 2012. Wikipedia. Rachel Carson. Disponível em: https://en.m.wikipedia.org/wiki/Rachel_Carson. Acesso em: 05 mar. 2019. Woman in History. Rachel Carson. Disponível em: https://web.archive.org/web/20120808015112/http://www.lkwdpl.org/wihohio/cars-rac.htm. Acesso em: 05 mar. 2019. Sobre os autores: Raphaela Duarte Mestranda em Ecologia Aplicada pela Universidade Federal de Lavras (UFLA) – Lavras, MG – Brasil. Graduação em Ciências Biológicas (Bacharelado) pela UFLA. Graduação sanduíche nos Estados Unidos pelo College of Charleston, Charleston – SC. Graduação à distância no Programa Especial de Formação Pedagógica de Docentes pela Universidade de Franca (UNIFRAN). Especialização em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Editora assistente do Projeto Biologia Marinha Bióicos. Desde que entrei na graduação me identifiquei com a biologia marinha, e apesar de não estar perto do mar sempre procuro saber sobre o assunto e interagir com pessoas, instituições e cursos nessa área. Gosto principalmente de divulgar essas informações, pois acredito que o conhecimento é o nosso maior poder e ferramenta de educação ambiental. Andreliza Roberta Terciotti de Oliveira Sou bióloga formada pela UFSCar campus Sorocaba. Sou professora colaboradora no Projeto Biologia Marinha Bióicos, dedico-me na redação de artigos para Revista de divulgação científica. Sou apaixonada pelo mundo marinho, principalmente pela fauna, e gosto de compartilhar com as pessoas meu conhecimento e minhas experiências. Thais R. Semprebom Sou bióloga formada pela UEL e tenho mestrado em Botânica pelo IB/USP. Sou professora e autora de materiais didáticos, além de dedicar-me à divulgação científica. Gosto de ajudar as pessoas a pensar na Ciência e entendê-la, para que possam compreender melhor o mundo em que estamos e, assim, viver de forma mais consciente e harmoniosa com o ambiente e a vida! Mariana P. Haueisen Graduanda em Ciências Biológicas na PUC Minas. Participa do programa de Residência Pedagógica e trabalha com cartografia no Laboratório de Tratamento da Informação Biológicas do Departamento de Ciências Biológicas. Desenvolve trabalhos de biogeografia de tubarões no Laboratório de Tratamento da Informação Espacial do Programa de Pós-Graduação em Geografia da PUC Minas. Tem interesse e experiência na área da Biologia Marinha com foque em tratamento da informação e ecologia. Douglas F. Peiró Sou Biólogo Marinho. Paulista, caiçara por opção (referência aos habitantes da zona costeira do Estado de São Paulo e alguns outros Estados). Fundador e Coordenador do Projeto Biologia Marinha Bióicos de educação e divulgação científica de Biologia Marinha. Possuo pós-doutorado pela Université de Poitiers na França. Doutorado em Biologia Comparada de animais marinhos pela Universidade de São Paulo, com doutorado sanduíche na University of Louisiana at Lafayette nos EUA. Mestrado em Biologia Comparada de animais marinhos pela Universidade de São Paulo. Especialização em docência de Biologia Marinha. Graduação em Ciências Biológicas (Bacharelado e Licenciatura Plena). Tenho me dedicado há 18 anos à Biologia Marinha e ao ensino, tendo participado de inúmeras expedições científicas no litoral e também de cruzeiros oceanográficos nos Brasil e no exterior. Também atuo como professor de nível superior há mais de dez anos; atualmente sou docente do Projeto Bióicos e da Universidade Federal de São Carlos. #mulheres #biografia #ciência #biologiamarinha #mulheresnaciência #yonaragarcia #convidados

  • Sea turtles and ocean fisheries

    By Melissa Marcon English edit by Lidia Paes Leme and Carla Elliff Sea turtles are globally distributed and can be found in tropical and subtropical seas in all oceans. Five of the seven species that exist on the planet use the Brazilian coast for feeding and reproduction. The five sea turtle species that can be found in the Brazilian coast. A) Loggerhead turtle; B) Green turtle; C) Leatherback turtle; D) Hawksbill turtle; and E) Olive Ridley turtle (Source: adapted from NOAA). Sea turtle populations are decreasing either directly or indirectly because of human destruction of the environment in nesting beaches (like lights, car traffic and others), nest predation, interaction with fisheries and pollution. The interaction with fisheries is one of the greatest causes of mortality and injury in young and adult sea turtles all over the world. In my master’s degree thesis I evaluated the interactions of leatherback and loggerhead turtles with the longline pelagic fisheries of the Southeast/South regions of Brazil. My main goal with this study was to quantify the distribution patterns of these species' incidental catches and correlate them with environmental (oceanographic), biological and operational variables, hoping to contribute in the formulation of conservation and management of fisheries strategies that would benefit the maintenance of the fishing ecosystem. Estimates of incidental capture of these turtles by pelagic longlines are concerning when compared to the mortality rates in fisheries and to the low recovery potential of these populations in the Atlantic Ocean. To understand more about this fisheries technique, access the links at the end of the post. Pelagic longline fishing (Source: NOAA) Monitoring accidental catches combined with abiotic and operational data, which is often obtained by onboard observers in the commercial fleet, must be valued as a rich source of information. These data allow a better understanding of the behavior of sea turtle populations and of the importance of environmental variations in population dynamics. In my study I identified that loggerhead turtles were more frequently accidentally captured than leatherback turtles, similar to what other researchers had found. The fact that most loggerhead individuals were hooked by the mouth agrees with the fact that the species feeds on fish, therefore feeding from the longline bait. Leatherbacks, on other hand, were more commonly found with the hook externally attached to their body, which can also be related to their feeding habits, as they prey on gelatinous plankton. I also observed that there were more captures in the fall. It is possible that some oceanographic phenomena happens during this season, increasing the turtles' relative abundance. Therefore, the peak of accidental captures in the fall might be related to their migration to inner coastal regions, possibly for feeding, and, consequently, they are more vulnerable to longline fishing in this season. The accidental captures of loggerhead turtles analyzed in my dissertation was significantly higher when squid was used as bait in fisheries, showing that there's a preference for this food by the species. It's important to point out that observations made by other authors show a decrease of loggerhead captures when Atlantic mackerel (Scomber scombrus) is used as bait. Circle hooks have also been showed to minimize damages of accidental catches. The opportunistic feeding of the loggerhead in its juvenile stage makes it a very susceptible species for the incidental catch in pelagic longline fishing. Circle hooks help reduce sea turtle bycatch. Additionally, if the barb of the hook is flattened, other impacts are minimized while maintaining fishing function (Source: NOAA) In general terms, I was able to identify behavioral patterns, like location and preferences for types of bait, kinds of hooks and seasons, when loggerhead and leatherback sea turtles are more frequently captured. It is important to say that the data I used from the fisheries showed to be very useful, being sometimes the only source of information for the pattern of migratory behavior analysis, location and preferred habitat by sea turtles in various parts of the world. It might be a paradox that the activity that causes the impact itself can help us understand the affected populations in more detail. Data on accidental or accessory capture is becoming more and more complete and allows better identification of potential impacts in these populations. Thus, based on the results of my thesis, various initiatives and measures can be proposed to contribute to the conservation of the species studied and with the management of the fishing activity. Life in the ocean is not easy for our beautiful marine giants. Therefore, all efforts to understand and protect them and the environment they live in are extremely valid and gratifying. References and additional information: ICMBIO - Centro Nacional de Pesquisa e Conservação da Biodiversidade Marinha do Sudeste e Sul – CEPSUL. Espinhel de superfície e fundo. Available at: http://www.icmbio.gov.br/cepsul/images/stories/artes_de_pesca/industrial/espinhel/espinhel_superficie_fundo.pdf NOAA. Fishing Gear: Pelagic Longlines. Available at: https://www.fisheries.noaa.gov/national/bycatch/fishing-gear-pelagic-longlines FAO Fisheries and Aquaculture Department. Guidelines to reduce sea turtle mortality in fishing operations. Rome, FAO. 2009. 128pp. Available at: http://www.fao.org/3/i0725e/i0725e.pdf About the author: Melissa Marcon graduated in veterinary medicine from the Faculdade de Jaguariúna (2009). Her love for the ocean and its inhabitants led her to complete a master’s degree in biological oceanography at the Oceanographic Institute of the University of São Paulo. Melissa works in the field of medical and surgical clinic of small animals and wildlife. She has experience in collecting biological material, beach monitoring, necropsy, rescue and rehabilitation of marine fauna, especially sea turtles. Melissa has published another post here in the blog. Check it out (Portuguese version only) here: "Uma veterinária, a tartarugas marinhas, e a oceanografia" #marinescience #guests #ocean #fisheries #seaturtles #longline #accidentalcapture #bycatch #chatlídiapaesleme #chatkatyannemshoemaker

  • Muito além dos nossos olhos: microplásticos no fundo do mar

    Por Gabriel Stefanelli Silva Quando comecei a ler sobre plástico no oceano, no tão distante ano de 2011, ainda estava no começo da graduação em biologia marinha. Naquela época, já sabíamos que existiam grandes quantidades de lixo – e não só plástico – flutuando por aí. Teve forte repercussão na mídia a existência dessas concentrações de lixo nos pontos em que as correntes marinhas formam os grandes giros, sendo o Grande Depósito de Lixo do Pacífico (GDLP), a maior concentração de lixo marinho do mundo. Para se ter uma ideia, o GDLP tem uma área de mais ou menos 1,6 milhão de km², o tamanho do estado do Amazonas! Conseguem imaginar? Apesar de muitas pessoas pensarem que essas concentrações são ilhas de lixo, elas são na realidade uma “sopa” feita de vários tipos de detrito. A maior parte é composta por microplástico, partículas plásticas que medem entre 5 mm e 1 µm – às vezes nem dá para ver a olho nu! Localizado entre a Califórnia e o Havaí, o GDLP é tão heterogêneo na sua distribuição de resíduos que ao longo da sua extensão podemos encontrar desde muito lixo, até pouco ou nenhum lixo. Mas apesar de famoso, o GDPL é só um dos pontos de acúmulo de lixo marinho – então, para onde vai o resto? Extensão do Grande Depósito de Lixo do Pacífico (GDLP), entre a Califórnia e o Havaí. A figura mostra que existem dois “giros de lixo” na Zona de Convergência Subtropical. O giro oeste é menos extenso e está localizado próximo ao Japão. (Fonte: NOAA Marine Debris Program, domínio público) Seis anos depois, quando terminei o mestrado na temática de peixes de água doce, decidi voltar às minhas raízes e me aprofundar sobre o lixo no mar no meu projeto de doutorado. Achei um artigo publicado em 2016 sobre um grupo de cientistas britânicas lideradas pela pesquisadora Dra. Michelle Taylor (que continua sendo uma grande referência na área), sobre o primeiro registro de ingestão de microplástico em animais de mar profundo, e aquilo me deixou muito animado! Entrei em contato com o Prof. Paulo Sumida do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO - USP) e começamos a trabalhar algumas ideias. O laboratório do Paulo é o único especializado em mar profundo no Brasil, e me pareceu ideal para fazer um projeto sobre o lixo nessas regiões tão remotas do oceano. O mar profundo, desde que começou a ser estudado no final do século 19, ainda é um prato cheio para a pesquisa de exploração! E na questão do lixo plástico, vemos muito flutuando na superfície, mas temos pouquíssima noção sobre onde é que tudo isso vai parar... O que já sabemos é que grande parte do material que flutua na superfície acaba afundando pela ação de correntes marinhas e pelo acúmulo de microrganismos, que aumentam a densidade das partículas. Eventualmente, esse lixo chega ao sedimento do fundo e fica retido entre os grãos de lama e areia. Isso significa que os animais que se alimentam de material depositado, como os pepinos-do-mar, e filtradores, como os mariscos, são extremamente suscetíveis à ingestão de microplástico. O Paulo e eu decidimos, então, fazer uma análise sobre a ingestão desse material ao longo da teia alimentar de profundidade, verificando se uma partícula ingerida por determinado organismo poderia ser transferida ao seu predador, um fenômeno conhecido como biomagnificação. Isso significa que animais na base da teia (ou de menor nível trófico), mesmo sendo incapazes de ingerir uma grande quantidade de microplástico, poderiam causar um acúmulo de lixo nos tratos digestivos de seus predadores quando consumidos em grande número, e assim por diante. Ao morrer, os organismos predadores de topo poderiam, ainda, devolver o microplástico ao ambiente e reiniciar o processo. Ao longo do tempo, esses ciclos de ingestão de lixo ficam cada vez mais graves e mais deletérios ao ecossistema. Exemplo de biomagnificação de microfibras plásticas (em azul) a partir do consumo de organismos contaminados ao longo de uma cadeia alimentar marinha. De baixo para cima, há um aumento no nível trófico dos organismos, começando por microcrustáceos do zooplâncton, passando por peixes e terminando com uma ave predadora. (Fonte: por Gabriel Stefanelli com licença CC 4.0 SA-BY) Trabalhar com mar profundo – e fazer pesquisa oceânica como um todo – pode ser um desafio. Uma parte do meu doutorado envolve cruzeiros científicos, e minha primeira expedição embarcada tinha como destino um ponto a mais de mil quilômetros da costa de São Paulo. Ao final de cinco dias de viagem, com mar violento (e muitos vômitos), tivemos um problema com as redes e nem foi possível fazer a coleta. Felizmente, sempre há um plano B e hoje já tenho material de outras expedições, inclusive animais coletados desde os anos 80 e que fazem parte da Coleção Biológica Prof. Edmundo F. Nonato do Instituto Oceanográfico da USP. Juntando todo o material que tenho disponível, são mais de 30 anos de informação sobre poluição no oceano. Puxado, mas muito interessante! Estou quase na metade do doutorado, e apropriadamente quase metade dos organismos que eu analisei tinha pelo menos uma microfibra em seu interior. E enquanto esperamos a volta das atividades da universidade para analisar essas microfibras, continuamos vendo notícias sobre poluição marinha. Mês passado foi publicado um estudo mostrando que plástico há mais de 20 anos no fundo do mar se mantém preservado como novo e fornece um ambiente propício a microrganismos que normalmente não estariam naquela área, o que pode trazer grandes ameaças ao funcionamento do ambiente de profundidade. Também recentemente foi descoberta uma nova espécie de anfípoda – um tipo de crustáceo – de mar profundo que foi coletada com microplástico no estômago. A espécie até recebeu um nome simbólico, Eurythenes plasticus, e é apenas mais um exemplo de como o lixo que nós produzimos chega aos locais remotos do oceano, dos polos até as regiões mais profundas do planeta. Muito me espanta como o plástico, principalmente na forma de micro e nano partículas, está impregnado no ambiente marinho, e que até o peixe consumido na mesa de tantas casas pode estar contaminado por um poluente que nem conseguimos ver direito! O momento em que vivemos parece realmente desesperador; seria possível tirar algo positivo dessa situação? Justamente por ser prontamente chamativo, o tópico de lixo no mar tem promovido ondas de mobilização por um maior cuidado com o ambiente. Uma das evidências recentes foi a proibição de sacolas plásticas e canudos aqui em São Paulo e em outros estados do Brasil. Entre outras iniciativas, também temos a proibição de itens plásticos de uso único na Europa, projetos de recuperação de redes de pesca abandonadas nos EUA e estratégias de participação de jovens no combate à poluição por plástico na Ásia. Esse é o melhor momento para discussões sobre o impacto antrópico na natureza, e não há como deixar para depois. É agora que temos o potencial de mudar a percepção das pessoas sobre como somos capazes de alterar – para pior ou melhor – o ambiente, com um microplástico de cada vez. Ou então, se assim preferirmos, um microplástico a menos por vez! Lixo em uma praia de São Vicente, litoral Paulista. (Fonte: foto por Fernando De Grande com licença CC 4.0 SA-BY) Literatura complementar sugerida: https://science.sciencemag.org/content/368/6495/1140 https://www.nature.com/articles/s41598-020-66361-7 Sobre o autor: Me interesso sobre o oceano (e o mar profundo) desde criança. Fiz graduação em biologia, mestrado em ecologia e estou a meio caminho de um doutorado em oceanografia. Minha área de pesquisa primária é a ecologia, com uma pitada de poluição e atividades de educação e alfabetização oceânica. Sou fã de Pokémon, gosto de cozinhar para a minha ecóloga preferida e encher a paciência da Tapioca e do Dominique, meus gatos. Qualquer dúvida, comentário, ou sugestão, pode mandar para gabrielstefanelli@hotmail.com. #microplástico #marprofundo #lixonomar #poluição #ciênciasdomar #convidados

  • Um peixe vermelho em um oceano azul engana muita gente!

    Por Carla Elliff Quando pensamos nos oceanos, algumas palavras-chave costumam vir à mente: água salgada, peixes e a cor azul. Mas e se eu te dissesse que a cor vermelha tem uma história talvez mais interessante para os oceanos que a cor azul? Cores são nossas percepções da luz refletindo sobre diferentes materiais. Quando vemos um objeto amarelo isso significa que, entre todas as cores que a luz branca carrega, é aquele tom de amarelo que aquele objeto reflete de volta, enquanto as outras cores são absorvidas. A luz é composta por ondas eletromagnéticas, que são ondas resultantes de fontes de energia elétrica e magnética juntas. Essas fontes podem ser desde um micro-ondas na sua cozinha, ou até o nosso Sol, por exemplo. Esquema do reflexo da cor de um objeto e a absorção das outras cores (Fonte: Bate-Papo com Netuno com licença CC BY SA 4.0) Mas o que faz uma cor ser diferente da outra? Assim como outros tipos de ondas, as ondas eletromagnéticas se propagam com variadas frequências e oscilações. Isso determina o comprimento delas, que é uma das características mais importantes para entendê-las. Como falado no começo, tanto as ondas emitidas pelo seu micro-ondas quanto as ondas vindas do Sol são do mesmo grupo. Mas, a não ser que você desenvolva superpoderes, você nunca verá cores saindo enquanto sua pipoca estoura! Acontece que existe uma variação muito grande de possíveis frequências e comprimentos de ondas eletromagnéticas. Nós humanos conseguimos ver apenas uma pequena porção delas, que se encaixam no que chamamos de espectro visível. Fora desse intervalo de comprimento de onda, temos ainda as ondas ultravioleta e o infravermelho, por exemplo. Variação de ondas eletromagnéticas de acordo com sua frequência e comprimento. Na imagem, infravermelho (IR) (Fonte: Wikimedia com licença CC BY-SA 3.0) Aqui, vamos focar no nosso espectro visível. Ele é composto pelas cores vermelho, laranja, amarelo, verde, azul e violeta. Esta é a ordem dos comprimentos de onda do mais longo (vermelho) ao mais curto (violeta) e essa informação faz toda a diferença para os oceanos. Como sabemos, o oceano é um grande corpo d’água e, já que a água é mais densa que o ar, é mais difícil para a luz se propagar. Apesar da luz solar conseguir, em certas condições, alcançar profundidades de até 1.000 m, ela raramente ultrapassa 200 m. A partir daí temos um mundo escuro, que exige adaptações incríveis para a sobrevivência dos seus habitantes. Porém, muito antes de toda luz acabar, alguns comprimentos de onda “enfraquecem” e se perdem pelo caminho. É como se a profundidade do oceano aos poucos fosse filtrando a luz, cor por cor. Esquema da perda de comprimentos de onda da luz solar de acordo com a profundidade, em metros, no oceano (Fonte: Bate-Papo com Netuno com licença CC BY SA 4.0) A primeira cor a ser perdida é o vermelho. Isso acontece porque ele tem um comprimento de onda mais longo, o que significa que ele tem menos energia. Com menos energia, a onda enfraquece mais rapidamente e deixa de se propagar. O resultado disso é que a partir desse ponto no oceano, onde o comprimento de onda não chega, a cor vermelha simplesmente não é mais visível. Porém, o fato dela não ser mais visível não a torna menos popular! Na realidade, ser um peixe vermelho nessa profundidade do oceano, traz uma vantagem incrível para sua sobrevivência: você se torna quase invisível para seus predadores e para suas presas. Sem uma outra fonte de luz, objetos e seres vermelhos nesse caso vão ter uma coloração azul-acinzentada que se mistura com a cor do seu entorno, funcionando como uma excelente camuflagem. Esse é o caso de muitas espécies de organismos marinhos. Por exemplo, o peixe-relógio (Hoplostethus atlanticus) que vive entre 180 e 1.800 m de profundidade em diversas regiões do planeta. Ele é predado por tubarões, moreias, e parentes do bacalhau e da cavala. Ser quase invisível é uma ajuda e tanto… O peixe-relógio, um importante recurso pesqueiro, estampando um selo das Ilhas Faroé (Fonte: Wikimedia em domínio público). A cor de muitos organismos marinhos é uma adaptação que depende de qual posição na coluna d’água eles vivem. (Ilustração: Catarina R. Mello com licença CC BY SA 4.0) Entender como as ondas eletromagnéticas da luz solar se propagam no oceano também responde uma pergunta clássica: por que o oceano é azul? Vídeo demonstrativo da perda das cores no oceano (Link de acesso) Dentro do nosso espectro visível, o comprimento de onda mais curto (e, portanto, com mais energia) seria o violeta. No entanto, o violeta que normalmente imaginamos, num tom entre lilás e roxo, é na realidade uma mistura de frequências de ondas. A luz solar contém bem menos ondas nessa frequência. O tom mais no fim do gradiente do nosso espectro que é refletido pelos oceanos é o anil, um azul profundo. Ou seja, os oceanos são azuis pela mesma razão que qualquer outro objeto tem sua cor: eles refletem melhor essa tonalidade devido às suas características físicas, enquanto absorvem as outras. Um mar mais verde pode ser o resultado de uma floração de microalgas, que afetam a forma como a luz é refletida. Da mesma forma, a foz do rio Amazonas é escura, amarronzada, por conta da cor refletida pela grande quantidade de partículas de sedimento ali presentes, que foram trazidas pela água doce. Diferentes cores do oceano (Foto1: Catarina Ruiz - Ubatuba/SP; Foto2: André Pálóczy - Costa do Rio de Janeiro/RJ; Foto3: Jana del Favero - Ilha de Marajó/PA, com licenças CC BY SA 4.0) E aí? Vai tentar enxergar os peixes vermelhos invisíveis na próxima vez que vir um mar azulzinho? Formatado por: Catarina R. Mello Para saber mais, acesse: https://oceanexplorer.noaa.gov/facts/animal-color.html https://oceanexplorer.noaa.gov/facts/red-color.html https://oceanservice.noaa.gov/facts/light_travel.html #luz #cor #oceanografiafísica #adaptação #oceanoprofundo #ciênciasdomar #carlaelliff

  • Meu embrião é canibal

    Por Cláudia Namiki Sempre que pensamos em tubarões e raias, imagens de animais majestosos, grandes e (quase) invencíveis geralmente nos vêm à cabeça. Já falamos aqui no blog sobre o fascínio e o medo que estes animais despertam nas pessoas. Falamos também sobre como várias espécies estão sendo ameaçadas de extinção, sem que ninguém saiba. Agora, vamos descomplicar como os elasmobrânquios começam a sua vida nos oceanos. Os tubarões e raias são peixes cartilaginosos que estão presentes na Terra há milhões de anos e possuem estratégias variadas para garantir a sobrevivência de seus embriões. Algumas espécies produzem ovos, enquanto outras têm maneiras inusitadas e até mesmo assustadoras (do ponto de vista humano, é claro) de gerar seus descendentes. Todas as espécies desse grupo se reproduzem através de fecundação interna. O macho introduz o esperma na fêmea com auxílio do clásper, que é uma modificação da nadadeira pélvica. Dependendo da espécie, os ovócitos (gametas femininos) podem ser imediatamente fecundados, ou a fêmea pode guardar os espermatozóides para que a fecundação ocorra em outro momento. Isso pode acontecer até mais de um ano depois, como no caso do tubarão-pintado (Scyliorhinus sp.). Na imagem observamos a abertura urogenital, a nadadeira pélvica e o clásper de um tubarão-galha-preta macho. Modificado de Wikimedia Commons com licença: CC BY-SA 3.0. Após a fecundação, os embriões se desenvolvem no útero da fêmea em espécies vivíparas, ou em ovos depositados no ambiente, em espécies ovíparas. Em todos os casos, os filhotes já nascem como miniaturas de tubarões e raias, ou seja, não possuem uma fase larval como outros peixes. Os pais não cuidam dos filhotes. Os recém-nascidos se escondem imediatamente por instinto, para não serem devorados por predadores, incluindo sua própria mãe, como no caso do tubarão-limão (Negaprion brevirostris). Parto de um tubarão-limão. Viviparidade A viviparidade (desenvolvimento dentro do útero materno) permite que os filhotes nasçam maiores e, com isso, consigam ter mais sucesso na captura de presas, ao mesmo tempo que o número de possíveis predadores diminui. Afinal, no mar, tamanho é documento e geralmente o maior engole o menor. No entanto, o desenvolvimento de filhotes tão grandes, com até 1 metro de comprimento, requer muita energia da mãe para nutrir os embriões. Por isso, em algumas espécies, a gestação pode demorar até dois anos, como no caso do cação-de-espinho (Squalus acanthias), e para a maioria, só ocorre em anos alternados. As peculiaridades dos elasmobrânquios não param por aí; a evolução foi muito criativa em relação ao modo de nutrição do embrião, conforme podemos conferir a seguir. Viviparidade lecitotrófica ou aplacentária: o embrião tem uma reserva nutricional chamada de vitelo, que fica armazenado no saco vitelínico ligado diretamente ao seu trato digestório. É como se estivesse agarrado numa despensa cheinha de comida. Exemplo: cação-de-espinho (Squalus acanthias). Embriões de cação-de-espinho (Squalus acanthias) com saco vitelínico. Fonte: David Bryan. Todos os direitos reservados. Oofagia: após acabar com as reservas do saco vitelínico, o embrião passa a se alimentar diretamente dos ovócitos (gametas femininos) lançados no útero, como por exemplo na espécie chamada de marracho (Lamna nasus). Isso porque, mesmo grávida, a fêmea continua liberando os ovócitos, que são eventualmente fecundados em algumas espécies, como no cação-mangona (Carcharias taurus). Alerta: informações fortes a seguir!!! Adelfofagia, embriofagia ou canibalismo embrionário: o embrião mais desenvolvido, após consumir todo seu vitelo, passa a devorar os outros embriões que estão no útero. Este embrião ainda é cego, porém possui dentes afiados e pode nadar pelo útero, sentindo a presença dos demais embriões. Vale ressaltar que, após devorar os irmãos, o embrião sobrevivente continua se alimentando através da oofagia até o seu desenvolvimento completo. Este é o caso do cação-mangona (Carcharias taurus). A fêmea dessa espécie possui dois úteros e consegue dar à luz a dois filhotes de 1,0 m cada um. Embrião de tubarão se alimenta de outros embriões menos desenvolvidos que estão dentro do útero. Viviparidade placentária: após o consumo do vitelo, o saco vitelínico se liga à parede do útero, formando uma placenta saco-vitelínica, com um cordão umbilical que transporta nutrientes e oxigênio da mãe para o embrião e as excretas metabólicas do embrião para a mãe. Em alguns casos, como no cação-bicudo (Rhizoprionodon terraenovae) o cordão umbilical desenvolve prolongamentos que servem para absorver o líquido nutritivo produzido pela mãe por meio de células especiais na parede uterina. Esse líquido, chamado de “leite uterino” por causa de suas propriedades nutritivas, também pode ser ingerido pela boca, ou absorvido pela pele ou por filamentos branquiais do embrião. Mas atenção, porque apesar do nome, o leite uterino nada tem a ver com o leite produzido pelos mamíferos. Desenvolvimento da placenta de um tubarão-limão. Viviparidade trofoblástica: nas raias Myliobatoide, como a raia-manta, os embriões se desenvolvem dentro de ovos, chamados de cápsulas ovígeras, que permanecem no útero da mãe, onde após a eclosão continuam sendo nutridos pelo leite uterino, sem a formação de uma placenta. Raia-manta. Fonte: Flickr com licença CC BY 2.0. No caso do tubarão-tigre (Galeocerdo cuvier), acreditava-se que os embriões se alimentavam apenas do vitelo, já que permanecem em cápsulas. Porém, pesquisadores descobriram que a cápsula contém um líquido nutritivo produzido pela mãe que também alimenta o embrião. Isso assegura o desenvolvimento de um grande número de embriões (entre 18 e 17 ) e permite que os filhotes nasçam com um tamanho relativamente grande; o que não seria possível apenas com o consumo do vitelo. Você pode acessar a publicação e dar uma olhada nas fotos clicando aqui. Tubarão-tigre (Galeocerdo cuvier). Fonte: Wikimedia Commons com licença CC BY-SA 3.0. Oviparidade Na oviparidade a fêmea libera os ovos na água e, embora essa estratégia pareça uma forma mais simples, ela aparece nas espécies mais modernas do grupo. Assim, a viviparidade é considerada uma estratégia mais antiga e a oviparidade uma novidade, em termos evolutivos. Ovos de tubarão-inflado (Cephaloscyllium ventriosum). Fonte: Aquarium of the Pacific. Todos os direitos reservados. Tubarão-pintado (Scyliorhinus sp.) adulto e seus ovos com embriões em diferentes fases do desenvolvimento embrionário. Fonte: Banco de dados do Projeto Tamar. Todos os direitos reservados. O embrião é protegido pela cápsula ovígera, que é uma estrutura queratinosa, medindo entre 2-4 cm e que normalmente fica aderida a algas ou outros substratos, como fendas de rochas. Dentro da cápsula o embrião desenvolve-se continuamente. O desenvolvimento pode ser classificado de acordo com as características apresentadas, como no exemplo da espécie de tubarão-gato, Scyliorhinus stellari, para a qual foram identificados 7 estágios. Ovo de tubarão-gato Scyliorhinus stellaris. Modificado de Musa et al. 2018 com licença CC BY-SA 4.0. Desenvolvimento embrionário do tubarão-gato Scyliorhinus stellaris. Modificado de Musa et al. 2018 com licença CC BY-SA 4.0. Ovos de raia. Fonte: Bate-Papo com Netuno com licença CC BY-SA 4.0. As espécies ovíparas podem depositar em torno de 60 ovos por ano e o tempo de desenvolvimento dos embriões varia entre muitas semanas e 15 meses. Se a cápsula não for encontrada por nenhum predador, como outros tubarões, linguados, elefantes marinhos e alguns moluscos gastrópodes, o embrião terá grandes chances de sobreviver e alcançará um tamanho relativamente grande ao nascer. Dizem que a vida é uma aventura desde o nascimento. Mas os tubarões levaram isso muito a sério, tornando a vida uma aventura desde o início do seu desenvolvimento. Bibliografia: Castro, J.I., Sato, K., Bodine, A.B. 2016. A novel mode of embryonic nutrition in the tiger shark, Galeocerdocuvier, Marine Biology Research, 12:2, 200-205. DOI:10.1080/17451000.2015.1099677 Castro, J.I., Bubucis, P.M., Neal, A. 1988. The reproductive biology of the chain dogfish, Scyliorhinus rotifer. Copeia, 1988 (3), 740-746. Hamlett, W.C., A.M. Eulitt, R.L. Jarrell, M.A. Kelly 1993. Uterogestation and placentation in elasmobranchs. Journal of Experimental Zoology, 266:347–367. Helfman, G.S., Collete, B.B., Facey,D.E., Bowen, B.W. 2010. The Diversity of Fishes-Biology, Evolution and Ecology. Oxford, Wiley-Blackwell, 720 p. Musa, S.M., Czachur M.V., Shiels H.A. 2018. Oviparous elasmobranch development inside the egg case in 7 key stages. PLoS ONE 13(11):e0206984. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0206984 #tubarão #raia #reprodução #embrião #elasmobrânquios #viviparidade #oviparidade #canibalismo #desenvolvimentoembrionário #descomplicando #cláudianakimi

  • A Brief History of the Big Bang to the Dawn of Life: Parts IV and V

    Post by Amanda Bendia English edit by Katy Shoemaker Part IV: The dawn of life: How the first living organisms on Earth came to be We know today that the first living organisms were probably very similar to modern prokaryotic microorganisms, such as bacteria. Prokaryotes are unicellular organisms with a relatively simple cell structure: their genetic material is contained within the cytoplasm, without a nuclear envelope or membrane-bound organelles, such as mitochondria or chloroplasts. Despite this, they are able to perform various metabolic functions including carrying out biogeochemical cycling essential to the planet. Bacteria are found in virtually every environment on Earth, including extreme environments including on ice, in areas of high atmospheric pressure, and around geothermal activity. Fittingly, these are called extremophiles. Many scientists propose that the first organisms on the planet inhabited hydrothermal vents in the deep ocean. These extremophiles adapted to high temperatures and are called thermophiles. Molecular studies of modern thermophiles indicate that these organisms have long branches in phylogenetic trees, evidence of their emergence early in Earth’s history. In the fossil record, we have evidence of living organisms dated to approximately 3.5 billion years ago. These microfossils found in Australia have a cell structure very similar to modern prokaryotes. It is likely that these organisms respired sulfur instead of oxygen, since the abundance of oxygen in the atmosphere is a recent advance in Earth's history, forming about 2.4 billion years ago. This “Great Oxygenation” of the planet was due to a group of photosynthetic prokaryotes called cyanobacteria which released oxygen into the atmosphere as a by-product of photosynthesis. Fossil structures dating back to Earth's earliest organisms, approximately 3.5 billion years ago. Font Oxygen can be extremely toxic to cells, so the organisms that did not have the necessary machinery to metabolize it went extinct. Some prokaryotes that were unable to metabolize oxygen adopted a strategy that would change the course of all life diversity on Earth: they engulfed within their cell another bacterium capable of processing the oxygen toxic to them. In return, the larger cell offered protection and reduced metabolic needs for the encapsulated bacterium. This revolutionary event in the evolutionary history of life, called endosymbiosis, gave rise to the first eukaryotic organisms on the planet. These hosts encompassed different types of bacteria, giving rise to eukaryotic organelles called chloroplasts and mitochondria. Chloroplasts were probably primitive cyanobacteria that were encapsulated by the host, while mitochondria were likely derived from bacteria similar to what we classify today as alphaproteobacteria. There is much evidence to support the theory of endosymbiosis, including the fact that chloroplasts and mitochondria have circular genetic material similar to the structure found in bacteria and archaea. When the DNA of chloroplasts and mitochondria are analyzed, they present many similarities with the genomes of cyanobacteria and alphaproteobacteria, respectively. In addition, division of these organelles occurs independently of the cell and in a similar way as prokaryotic organisms, through binary fission. The emergence of these eukaryotic cells allowed for a greater genetic and structural complexity of the cell, enabling the diversity of life we see today. If it were not for this revolutionary event in the history of life a few billion years ago, we would not be here to discuss these issues today. Part V: Astrobiology: Are we alone in the universe? One of the questions that has intrigued humanity since the beginning of civilization is: did life arise only once on the planet, or were there multiple origins of life? To answer this question we would need to go back more than 3.5 billion years ago, and since this is not possible, we need to turn to the philosophy of science. There are basically two opposite currents of thought on this subject: contingency and determinism. The contingency hypothesis suggests that, because of the highly specific and rare conditions that propagated a set of chemical molecules to form a living being, life on Earth could only have arisen once. Determinists, on the other hand, say that these conditions are not that rare, and as chemical and physical laws probably ruled the emergence of life, its appearance would be inevitable. Determinism indicates the origin of life is a plural event: it may have occurred several times on our planet and also beyond it, in other bodies of the solar system and other planetary systems. Considering that we have already detected billions of stars in billions of galaxies, it seems reasonable to imagine that somewhere in the Universe the necessary conditions arose and life similar to that as we know it, could have also originated. The branch of science that studies this possibility is called Astrobiology. With the modern multidisciplinary tools of Astronomy, Biology, Physics, Chemistry and Engineering, we are always getting closer and closer to discovering if there is any kind of life outside of our Earth. Questions about the origin of life have been discussed since the earliest days of mankind, and the mystery surrounding it has intrigued the skeptical to the religious. Religion has played a key role in early civilization, as man first started discussing where we came from, who we are, and how life came about. As our ancestors did not have modern scientific tools, religious and philosophical thinking was essential to the evolution of their knowledge. The knowledge built through philosophical discussion is the foundation of the current scientific and technological tools we develop today, which are enabling us to be ever closer to unraveling the great mystery. It is important to emphasize that philosophical thought is still fundamental to science. It makes us break paradigms and face the barriers of knowledge. Our ability to think through philosophy and science and produce technology is one of the characteristics that sets us apart from other organisms. We are increasingly advancing our knowledge of the mysteries of the origin of life, yet we still always ask ourselves if we will ever unravel it. It is difficult to answer this question, since we will never be able to reproduce all of the exact conditions that were present billions of years ago. Whether this mystery is unraveled or not, we will always remain fascinated by the notion that some atoms produced after the Big Bang combined billions of years later to form life capable of questioning its own existence. Check out the other parts here and here #marinescience #chatamandabendia #bigbang #chatkatyanneshoemaker #chat #astrobiology #originoflife #extremophiles #hydrothermalvents #endosymbiosis #amandabendia

  • Is there light in the bottom of the sea?

    By Catarina Marcolin English edit by Katy Shoemaker As previously described in the blog, we know more about space than we do our own oceans. As we begin exploring the bottom of the ocean, we realize just how much is still a mystery. Sunlight cannot reach the bottom of the ocean, so there is no photosynthesis, which is the primary energy source for most food chains. Despite this, there is plenty of life in the deep ocean, and, believe it or not, there is also lots of light! That’s right, a study published in Scientific Reports estimated that over 75% of the marine organisms living from the surface all the way down to 4000m can create light, a phenomenon called bioluminescence. A broad variety of animals like fish, worms, jellyfish, crustaceans, squid, and octopuses can emit their own light. This can create a true underwater light show! Bioluminescence is so widespread and important, it is considered an ecological trait for marine animals. You must be wondering, why is it so important to produce light? Well, thanks to science, we can help cure a bit of that curiosity on this underexplored subject. Current research shows that organisms create their own light for a number of different reasons, including: Defend themselves from predators Through camouflage: the animal can obtain similar colors as those of its environment in order to hide and escape predators; Image: A squid using bioluminescence to hide in the bottom of the ocean. It produces light that perfectly matches the color and intensity of down welling sunlight in the ocean to it hides its silhouette. This is called counterillumination. Source By distracting the predator: some animals can expel luminescent material, creating a look-alike creature to deceive their predator while escaping Image: This shrimp is capable of producing bioluminescence in two ways: by expelling a blue secretion from its mouth to deceive predators, as well as lighting up specific body parts like articulations, abdomen and eyes. Source Image: Tomopteris helgolandica is a sea worm that is capable of producing yellow light, rare for luminescence. In this case, bioluminescence is emitted in the tip of the parapodes (structures that look like tiny legs) when the animal is disturbed. It is believed to distract predators. Source Reproduction To find a partner in the dark must not be easy. Some species emit light flashes to attract potential sexual partners or even, like this female glow worm, emit constant light that is only turned off once they mate. Source To get food Some fish can be attracted by small light dots emitted by predators, who capture prey as they approach. This is the tactic of the Angler Fish, pictured here. Image: Angler fish. Source Organisms can bioluminesce in two different ways: by associating with bioluminescent microbes or by creating the effect themselves. Light is emitted by mixing luciferin, a light producing compound, with luciferase, an enzyme that catalyzes the reaction. Images: Juvenile octopus (above) and juvenile squid (below) in Tahiti waters. Sources: image1 and image2 Bioluminescence can be useful to humans as well. Scientists can use chemical compounds derived from glowing animals in medical research to illuminate cells for viewing through a microscope. These compounds can be used to differentiate cancerous cells from healthy ones. A more familiar application is the Green Fluorescent Protein (GFP) found in some jellyfish, which is widely used as a genetic marker by scientists. Image: Source The function of luminescence in ctenophores is not yet known. Each species has a unique pattern, and they emit the full color spectrum. Isn’t that amazing? Check out this video to see these fascinating creatures in action! Image: Source If you liked what you read and want to know more about this subject or others, write to us and let us satisfy your curiosity! To know more: https://www.nature.com/articles/srep45750 http://www.scholastic.com/browse/article.jsp?id=3757110 https://www.wired.com/2011/01/bioluminescent-sea-creatures/ http://www.sciencemag.org/news/2017/04/more-75-surveyed-sea-animals-glow-dark #marinescience #chatcatarinarmarcolin #deepocean #bottom #sea #light #bioluminescence

  • Estuários

    Por Jana M. del Favero Fonte Você já deve ter ido, passado ou até mesmo nadado em um estuário. Afinal, ao redor dos mesmos estão estabelecidas as maiores cidades e os maiores portos do mundo. Além de ser uma área importante para a navegação e ao urbanismo, os estuários são áreas de reprodução, habitat e alimentação para inúmeras espécies, sendo diversas delas de interesse pesqueiro. Mas antes de detalharmos sua importância econômica e ecológica é preciso perguntar: você sabe mesmo o que é um estuário? Um estuário é um corpo de água semi fechado localizado no limite entre continente e oceano e no qual as águas do rio e do oceano se misturam. A palavra “estuário” é derivada do latim aestuarium, que significa “dependente de maré”. São nos estuários que os rios começam “a sentir” o ritmo das marés. O tipo de estuário mais comum é desembocadura de um rio, mas algumas baías, golfos, enseadas também podem ser considerados estuários.. Os estuários que temos hoje espalhados pelo mundo surgiram depois o último máximo glacial. Nesse período glaciares imensos cobriam uma grande parte da Europa, América do Norte e Ásia e, quando derreteram, fizeram o nível do mar subir aproximadamente 120 m, ou seja, até o nível que temos hoje. Isso levou a inundação de regiões costeiras e, onde haviam leitos de rios ou outros baixios, formaram-se estuários. Fonte As flutuações de salinidade estão entre as principais características dos estuários. A periodicidade das marés faz com que a água salgada do mar entre no estuário durante o período de maré alta e saia durante a maré baixa, permitindo o predomínio da água “doce” do rio que desemboca no estuário. Além dessa oscilação da maré, a salinidade nos estuários ainda varia por causa das mudanças no regime de ventos, chuvas e evaporação. Inclusive, em alguns estuários, como o da Lagoa dos Patos no RS, a ação dos ventos é mais importante do que a maré. A alta variabilidade na salinidade representa um alto custo energético aos organismos que vivem nos estuários, pois há a necessidade de ajuste fisiológico a essas mudanças (osmorregulação). Como resultado, um baixo número de espécies conseguem permanecer por longos períodos nos estuários e são consideradas estuarino residentes. A maioria das espécies encontradas nos estuários apenas utilizam estes ambientes em uma determinada fase do seu ciclo de vida ou como rota de migração. Assim sendo, os organismos encontrados nos estuários são de origem marinha, límnicos (ou dulciaquícolas) e estuarinos (ou de água salobra), e podem ser classificados como: 1) estenoalinos: organismos que não toleram (ou toleram muito pouco) mudanças de salinidade, como o peixe-espada (Trichiurus lepturus) de origem marinha, e 2) eurialinos: toleram mudanças na salinidade e são capazes de se deslocar para o interior do estuário, como a corvina (Micropogonias furnieri). A vegetação estuarina também é caracterizada por um número limitado de espécies. Além da variação da salinidade, os estuários são muito homogêneos quanto ao substrato, sendo a maioria de fundo lamoso, o que dificulta a fixação das plantas e das macroalgas. Além disso, a turbidez das águas estuarinas restringe a penetração da luz, dificultando a presença de plantas e macroalgas que crescem submersas. De uma maneira geral, podemos dizer que nos estuários localizados em zonas temperadas são comumente encontrados os marismas, que são substituídos pelo manguezal na paisagem dos estuários tropicais e equatoriais. Apesar de toda a adversidade citada, os estuários estão entre os ecossistemas mais produtivos do planeta, pois os rios trazem grandes quantidades de nutrientes, que agem como “fertilizantes”, ao mesmo tempo que as ondas e marés ajudam a manter a água bem ventilada com oxigênio e agitam o sedimento, ressuspendendo nutrientes e matéria orgânica do fundo. Esses processos sustentam a produção primária de fitoplâncton, algas bentônicas e gramas marinhas que sustentarão níveis tróficos superiores. Assim, as poucas espécies de animais adaptadas às adversidades do estuário, se beneficiam da alta abundância de suprimento alimentar, da reduzida competição por alimento e espaço, e da pouca predação. Fonte No entanto, devido a sua proximidade com zonas urbanas, industriais e portuárias, os estuários também recebem uma quantidade grande de contaminantes, tais como esgotos, fertilizantes, praguicidas, hidrocarbonetos de petróleo e metais. Isso coloca em risco a qualidades das águas, a sobrevivências dos organismos que ali habitam e podem gerar danos a saúde a quem ingerir peixes e frutos do mar de regiões estuarinas. Não muito tempo atrás, os habitantes das zonas costeiras eram despreocupados com seu impacto na qualidade da água dos estuários. Argumentava-se que os estuários eram limpos diariamente pelas marés, como se as mesmas agissem como a descarga da nossa casa. Infelizmente, este não é o caso. Poluentes são facilmente retidos no sistema (subprodutos do petróleo, metais pesados, fertilizantes, esgotos e pesticidas, entre outros), gerando diversos tipos de poluição e contaminação. Precisamos com urgência preservar esses ambientes tão frágeis e tão importantes aos humanos e a diversos outros animais. #descomplicando #janamdelfavero #estuário

  • Correntes oceânicas de superfície (Parte II)

    Por Jana M. del Favero Transporte de Ekman, ressurgência, subsidência e circulação de Langmuir Vimos no primeiro post sobre as correntes oceânicas de superfície (relembre aqui) que a colisão das moléculas de ar do vento com as moléculas de água na superfície do mar resulta no movimento da água, gerando uma corrente. Iniciado o movimento superficial das moléculas de água, elas vão exercer um atrito (uma força) sobre as moléculas de água logo abaixo, iniciando o movimento delas também. Assim, com o vento soprando persistentemente por um longo período de tempo, o movimento vai sendo transferido cada vez mais para baixo na coluna de água. Conforme esse movimento gerado pelo vento vai atingindo as camadas mais profundas da coluna de água, ele vai perdendo velocidade pois aumenta a distância da força motriz (geradora), o vento. Além de diminuir de velocidade, a direção do fluxo da corrente de água também muda com o aumento da profundidade, como resultado da deflexão de Coriolis. Você deve estar lembrado que no Hemisfério Norte a camada de água da superfície flui para a direita da direção do vento gerador. Do mesmo modo, quando a camada de água superficial coloca a camada de água subjacente em movimento por causa do atrito, a camada subjacente também sofrerá um desvio à direita do escoamento da camada acima dela, e assim por diante: cada camada de água mais profunda é desviada para a direita da camada imediatamente acima dela (lembrando que estamos falando do Hemisfério Norte, pois no Hemisfério Sul o desvio seria para a esquerda). O resultado de todo esse processo de perda de velocidade e deflexão é uma corrente espiralada, chamada espiral de Ekman. Sob a influência de um vento forte persistente, a espiral de Ekman pode estender-se até uma profundidade entre 100 e 200 metros. Apesar de receber o nome de espiral, a espiral de Ekman não se movimenta como um redemoinho formado quando a água desce por um ralo. O termo espiral é usado para  para designar os movimentos horizontais na coluna de água dividida em camadas, sendo que cada camada se movimenta em direção horizontal levemente diferente. O físico escandinavo, V. Walfrid Ekman, ainda calculou que o transporte resultante na espiral gerada pelo vento é de 90 graus à direita do vento no Hemisfério Norte e de 90 graus à esquerda do vento no Hemisfério Sul. Esse transporte resultante, chamado de transporte de Ekman, representa a média de todas as direções e velocidades da espiral de Ekman. Resumidamente, a maior parte da água desloca-se a um ângulo de 90 graus em relação ao vento gerador A espiral de Ekman. 1 - Vento, 2 - Força de cima, 3 - Direção efetiva da corrente 4 -  Efeito Coriolis. Fonte A influência do transporte de Ekman é importante sobre outros tipos de correntes de superfície, como na ressurgência e na subsidência. Na ressurgência, por exemplo, um vento soprando paralelo à costa em determinada direção (dependendo do hemisfério), resulta em um transporte de Ekman que afasta a água superficial da costa, aflorando a água mais profunda para "ocupar"o lugar da superficial que foi retirada (já falamos sobre a importância da ressurgência costeira aqui). Na subsidência ocorre o contrário: o transporte de Ekman resultante de ventos soprando paralelamente à costa impulsiona água em direção a linha de costa  e faz com que as águas de superfície sejam empurradas para baixo, ou seja, ocorre um afundamento da água de superfície. A ressurgência e a subsidência também podem ocorrer longe da influência das bordas dos continentes, em mar aberto. Por exemplo, nas proximidades de 30°N e 30°S as correntes superficiais dos giros de circulação convergem (vão na mesma direção) devido a deflexão de Coriolis, produzindo empilhamentos de água que induzem a subsidência. No equador, por outro lado, os ventos de sudeste e nordeste geram duas correntes superficiais que fluem para o oeste e são desviadas pelo efeito de Coriolis para o norte (direita) no Hemisfério Norte e para o sul (esquerda) no Hemisfério Sul. As águas superficiais locais são então removidas por esse fluxo divergente (em direção oposta), promovendo a ressurgência (a figura abaixo ilustra o descrito). É importante ter em mente que o transporte de Ekman é uma resposta para um vento soprando por muito mais do que algumas horas ou até mesmo dias (longo prazo). A curto prazo, ventos que sopram persistentemente e com força na superfície dos oceanos podem ocasionar movimentos verticais na água, fazendo com que o fluxo seja paralelo ao vento gerador e gerando células de circulação longas e estreitas nos primeiros seis metros da coluna de água (com movimentos semelhantes ao de um saca-rolha). As células são chamadas de células de Langmuir e o fluxo de circulação de Langmuir (veja a figura abaixo). Vocês já devem ter visto no mar o resultado dessa circulação e não entenderam do que se tratava. Por causa da rotação em direções opostas desses “saca-rolhas”, os limites de duas células de Langmuir adjacentes (de dois saca-rolhas) alternam entre fluxos que se encontram e se afastam, enfileirando qualquer material flutuante (como bolhas, manchas de óleo, algas etc) nas zonas de fluxo convergente. Assista o filme abaixo sobre a Espiral e o Transporte de Ekman: Fonte: Pinet, P.R. 2014. Invitation To Oceanography. 7a edição. Jones & Bartlett. Learning. 662 p. #janamdelfavero #descomplicando #circulaçãodelangmuir #correntesoceânicas #ressurgência #subsidência #transportedeekman

  • Mulheres em eventos científicos: por que continuamos falando sobre isso?

    Por Paula Birocchi No início de 2018, soube através do SOLAS do instituto GEOMAR Helmholtz Center for Ocean Research que estavam abertas as inscrições para participar de um curso de verão do Integrate Marine Biosphere Research in Climate and Ecosystem ( IMBER ClimEco 6 Summer School ). A Juliana e eu, nos inscrevemos e fomos aprovadas para participar. Ficamos muito felizes e, eu já mandei e-mail para todos os patrocinadores (sponsorships) do evento, em meu nome e no da Juliana. Muitos responderam no mesmo dia (sexta-feira) negando o auxílio financeiro. Até que, na segunda-feira, a coordenadora do evento, Lisa Maddison do IMBER me mandou um e-mail informando que uma pessoa havia desistido de participar e, devido ao meu entusiasmo, eu havia conseguido um auxílio do SCOR (SCOR = Scientific Committee on Oceanic Research, uma organização internacional que financia atividades de pesquisa e educação superior nas Ciências do Mar) de 1.800 dólares. Esse valor pagava as passagens aéreas para a Indonésia! Infelizmente, a Juliana não conseguiu o mesmo auxílio e não pôde ir comigo. Quando faltava praticamente um mês para a viagem, eu fui informada de um auxílio extra da NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration, EUA) de 500 dólares que pagou a hospedagem, inscrição e alimentação durante o evento. Vocês já devem imaginar como eu me senti a pessoa mais sortuda do mundo e ficava saltitando pelo IOUSP, onde eu era estudante de mestrado. Então, no dia 28 de julho embarquei em Guarulhos com destino a Etiópia, onde fiz escala de 5 horas para então seguir até Singapura. Fiquei em Singapura por 2 dias, quando dormi apenas 4- 5 horas por noite devido à mudança do fuso horário e pela empolgação mesmo. Que cidade maravilhosa! Singapura é super turística e simplesmente a combinação perfeita de uma cidade grande em que você pode desfrutar da natureza e do calor tropical, mas ao mesmo tempo de shoppings, vida noturna, comida maravilhosa e uma cultura riquíssima sobre o budismo (muitos e muitos templos), yoga etc. Depois de Singapura, voei diretamente a Yogyakarta, a cidade Indonésia onde foi o Summer School CLIMECO 6. Que povo, que cultura, que lugar. O povo indonésio é muito receptivo e muito rico culturalmente. Uma cidade de muita gente, muita comida gostosa, muitas motos, muita natureza e muitos templos budistas, sendo o maior deles Borobudur, também localizado em Yogyakarta. Não preciso dizer que todos os palestrantes do Summer School foram sensacionais e todos muito abertos a ouvir os alunos, de igual pra igual, sem julgamentos, sem se colocar num patamar acima deles. Aprendi muito. Também tive momentos em que me senti um pouco sozinha na Indonésia, afinal fui sozinha, sem conhecer ninguém antes, mas isso não me desmotivou de continuar a nadar. Não devo negar que, durante o Summer School muitas vezes também me senti um pouco como um “peixinho fora d’água”, pois um outro colega mexicano que conheci por lá e eu éramos os únicos oceanógrafos físicos no evento. Mas, foi justamente por isso que o evento foi tão enriquecedor. Conhecer biólogos, ecólogos, engenheiros e até uma advogada, todos com a preocupação de entender melhor como aplicar a sustentabilidade de forma interdisciplinar em seus projetos de pesquisa e, por consequência, em suas vidas. Ao final do evento, tanto eu quanto o mexicano ganhamos uma menção honrosa dos organizadores a respeito das nossas apresentações de trabalho em formato de pôster, foi inesquecível. Dessa forma, eu agradeço pela oportunidade de poder participar deste evento, neste lugar. Agradeço ao apoio de todos os brasileiros que sabem dessa jornada, às brasileiras Kelly e Bia pelo companheirismo durante toda a viagem, e a organização do evento, principalmente a Lisa Maddison, a Anne, ao Chris Brown e ao SCOR e a NOAA, que financiaram a minha ida. Minha eterna gratidão! Dicas? Confie em você e não desista de um sonho se você puder tentar fazê-lo se tornar realidade com seus próprios passos. Mande e-mails, muitos e-mails, porque quem não chora, não mama, e faça parcerias, novos contatos. Deixo aqui uma foto do templo Borobudur, um lugar que com certeza me inspirou e, acredito eu, deve inspirar muitas pessoas ao redor do mundo. (Veja o primeiro post sobre o tema aqui) Sobre a autora : Paula é oceanógrafa, mestre em Oceanografia Física pelo programa de pós-graduação em Ciências do Instituto Oceanográfico da USP e doutoranda também pela USP. A autora desenvolve pesquisa com modelagem numérica a fim de compreender interações entre a oceanografia física e os processos biológicos e químicos da água do mar. Ultimamente estuda esses processos e a relação com mudanças antropogênicas no sistema carbonato no oceano. Sempre foi curiosa por ciência e apaixonada por gatos, plantas, vôlei e nos últimos anos por rugby. #vidadecientista #convidados #paulabirocchi #eventocientífico #mulheresnaciência #mulheres

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