As aventuras de trabalhar no mar

Atualizado: Jun 14

Por  Cássia G. Goçalo


Quando decidimos ser biólogos ou oceanógrafos e escolhemos trabalhar com os organismos marinhos não vemos a hora de fazer o trabalho de campo. Praias, regiões costeiras e até mesmo mar aberto!!! Mas não contamos com os imprevistos, ou podemos chamar aqui de aventuras.... Como tempestades, falta de água doce na embarcação, âncoras enroscadas, variações das marés, entre outras.


Já passei por muitas situações de pura adrenalina. Me lembro uma vez, quando estava embarcada no navio oceanográfico Prof. W. Bernard, que ocorreu uma forte tempestade com ondas gigantescas que sacudiam o navio de um jeito que, para nossa segurança, não podíamos sair do interior do navio... esse mal tempo durou cerca de 3 dias!! Durante um embarque passamos por uma situação de confinamento, imaginem só sem poder sair para o convés.... Tivemos que ter muito autocontrole e tomar remédios para enjoos!!!


Nesta mesma expedição, devido ao mal tempo, houve um atraso no cronograma para cumprir a jornada planejada e ocorreu um problema técnico, consequentemente ficamos sem água doce... mas pensem, tomar banho de água salgada tudo bem!!! Mas... escovar os dentes blahhhh!!! Horrível!!


Outra aventura que passei no mar foi em uma coleta no Porto de Santos. O ponto de coleta era exatamente no canal, onde transitam as embarcações, e ficávamos com o barco ancorado. Era no início da noite quando um navio cargueiro começou a sinalizar sua passagem... daí então seria apenas levantar âncora e sair da frente. Uhum!!! Mas a âncora ficou enroscada nos cabos que ficam no fundo e pensem... o navio buzinando e a gente preso!!! Socccoooorrooooo era o que eu queria gritar na hora... mas a equipe conseguiu cortar o cabo da âncora e saímos a tempo da embarcação passar.. Ufa!! Essa foi por pouco...

Em outro momento também estávamos no meio da tempestade com ondas fortes e raios caindo no mar e o piloto do barco falava: - Alguém olha pra mim aí na frente, pois não estou enxergando nada!! Oi? Como assim? Pensei: Cadê o colete salva-vidas vou pular!! Tchau!!! Mas a equipe foi orientando o piloto e chegamos na marina sãos e salvos!!!


Além de ficarmos molhados praticamente o dia todo, trabalhar com capacetes e coletes (suuuper confortáveis!! #distractinglysexy), passar frio, calor, trabalhar embaixo de chuva, pegar peixes na mão, coletar algas, puxar redes de coleta e até mesmo carregar equipamentos pesados,  amamos nossa profissão!!


Há uma hashtag no Twitter e Instagram divertíssima, onde pesquisadores contam aventuras em trabalhos de campo, nem todos em mar, mas recomendo a busca #fieldworkfail. Imagine por exemplo, você colocar um chip de mais de 1000 dólares em uma raia e depois ver que se trata do mesmo indivíduo que você “chipou” no dia anterior, entre outras…


Mas temos muitas aventuras boas e fascinantes como avistar um grupo de baleias e golfinhos, ver passar um cardume de peixes voador, observar um albatroz acompanhando o barco, nasceres e pores do sol fantásticos, céus magnificamente estrelados e nos deslumbrar da variação de cores do mar a cada dia!!!

Golfinhos observados durante as expedições por Cássia (Projeto Marflat) e Catarina (Projeto Antares) na região de Ubatuba. Fotos: Cássia Goçalo e Catarina Marcolin.


Abaixo segue alguns depoimentos das biólogas do blog e suas aventuras durante os trabalhos de campo:


Catarina - Eu já participei de alguns embarques, em todos eles o trabalho era sempre muito duro, mas o clima sempre foi de muita diversão. Os maiores perrengues aconteceram em duas ocasiões, a primeira foi num embarque na costa do Rio de Janeiro, quando o tempo "virou" e voltamos "correndo" para a costa, com altas ondas pelo caminho. A segunda aconteceu quando embarquei no veleiro da expedição Tara Oceans também tivemos três dias inteirinhos de tempo muito ruim… ninguém sentia apetite para comer - por conta de enjoos - e durante a noite mal dava para dormir porque o barco se eleva com a ondas e batia com toda a força na água sacudindo tudo, parecia que eu ia cair da cama a cada cinco minutos. Mas os 12 dias restantes dessa expedição foram de tempo muito bom e navegação tranquila, apreciando a comidinha maravilhosa da nossa cozinheira francesa que até me passou uma receita de brioche (nhammm). Mesmo passando por ocasionais dificuldades minhas lembranças são principalmente dos momentos bons e divertidos quando fiz amigos, avistei paisagens maravilhosas e apreciei muita fauna carismática, apesar do enorme cansaço com todo o trabalho que é super intenso. 

Por do sol em alto mar Projeto Ecosar. Foto Jana del Favero

Jana – Minhas melhores aventuras não aconteceram em alto mar como as já citadas aqui, e sim bem perto da costa, durante o meu mestrado. Eu tinha que coletar peixes da zona de surfe durante a maré alta e baixa (lembra do meu post sobre isso?! Clique aqui). Saíamos de chatinha ou voadeira, ou seja, um pequeno barco com motor de popa, da base de Cananéia do IOUSP e íamos até a Ilha Comprida, próximo da barra. Durante a maré baixa era sempre tranquilo parar a chatinha na praia, pois quase não havia ondas na parte mais interna do estuário… Porém, durante a maré alta era sempre uma aventura, pois tinha muita correnteza, e ás vezes ondas quebrando, o que dificultava o desembarque das pessoas e dos equipamentos… Tombos eram comuns… Parávamos sempre no ponto mais abrigado e andávamos para os outros, entretanto, uma vez a maré subiu muito rápido e tivemos que voltar com água no joelho, carregando rede, equipamentos e amostras… Outra vez, voltando já pra base, o motor enroscou em um cabo que prendia um cerco (uma arte de pesca bem comum no litoral sul de SP) e a chatinha virou… Fomos todos pra água e por sorte ninguém se machucou! Alguns equipamentos quebraram, mas as amostras foram salvas! Diria que foi um belo susto!


Outra grande experiência que tive foi no período que fiquei no exterior (olhe o post Uma brasileira fazendo pesquisa "na gringa"), durante o inverno coletávamos a -30° C e como o chão da embarcação molhava com a retirada das redes, a água logo congelava, então tínhamos que nos equilibrar em um barco balançando em um chão com uma camada de gelo, um super rinque de patinação no gelo!

Atobás acompanhando o navio de Pesquisa (Projeto Ecosar). Foto: Jana del Favero

É verdade... trabalhar no mar é uma aventura!! Eu recomendo!!!

Cássia embarcada no barco de pesquisa da USP durante um projeto em Ubatuba - SP.

E você, já passou por alguma enrascada, cilada ou diversão no mar trabalhando? Deixe um comentário contando como foi!


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