Cansei... (Ou por que desanimei de participar de eventos científicos?)
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Por Juliana Leonel

Lembro como se fosse hoje do primeiro evento científico que participei - lá em 2002, durante a graduação em Oceanologia. A escrita e a submissão do primeiro resumo, a espera pelo aceite (ainda não sabia que o aceite era virtualmente automático), a inscrição, preparar o pôster e tudo mais. Lembro-me com alegria de ver pessoas interessadas pelo pôster, ainda que o verdadeiro motivo fosse a foto de leão marinho que tinha escolhido como fundo e não o conteúdo em si. Foi nesse congresso que conheci pessoalmente a minha futura orientadora de doutorado e a partir daí começamos a construir o meu projeto de pesquisa.
Depois disso, tive a oportunidade de participar de muitos outros eventos - nacionais e internacionais. Sempre fui muito ativa neles: pôster, apresentação oral, coordenação de sessões, palestras etc. Eu conversava com todo mundo, parava nos pôsteres dos mais diversos temas e, consequentemente, construía muitas oportunidades. Um capítulo extra na minha tese - e o meu primeiro artigo - foi fruto de uma dessas conversas. Também de conversas similares foram construídos outros artigos e oportunidades para meus orientandos; uma dissertação de mestrado; uma oportunidade de doutorado sanduíche; visitas científicas e muito aprendizado.
Mas, de repente, esses eventos começaram a ficar cansativos. Seria a idade (hello etarismo)? Será que perdi o ânimo ou o interesse em aprender coisas novas?
Foi durante a pandemia da COVID-19 que eu comecei a entender melhor que esse cansaço não era exatamente físico, mas um cansaço de "sempre ver a mesma coisa e as mesmas pessoas". Explicarei melhor.
Durante a pandemia, muitos eventos ocorreram de forma online e com preços muito mais acessíveis (aquele congresso de 200 dólares passou a custar 10 dólares, sem custos de locomoção e hospedagem) e isso propiciou que pessoas que nunca tiveram - ou teriam - condições financeiras (ou outros impedimentos) pudessem participar. E, de repente, esses eventos ficaram tão mais diversos, com tanta gente nova (= que nunca participou antes) e trabalhos diferentes. E, especificamente para congressos internacionais, tanta gente do Sul Global pôde participar e falar de regiões/espécies que nunca ninguém ouviu falar antes. E isso foi tão maravilhoso!
E sobre "coisas novas", não é que antes era exatamente a mesma coisa/dado apresentado em todo evento, mas era igual no sentido que era sempre o mesmo "tipo de estudo". Por exemplo (na minha área), todo ano o mesmo grupo trazia que "identificamos pela primeira vez as substâncias X, Y e Z no oceano e nossos estudos apontam que são persistentes e tóxicas". E nas entrelinhas isso só significava que "somos um grupo com condições de comprar um equipamento de 5 milhões de reais" e, por isso, esse trabalho foi possível.
Também cansei de ir em eventos "globais" onde não havia nem 5 pessoas de fora da Europa/América do Norte; cansei de participar de discussões sobre diversidade com um monte de gente branca ou homens brancos heteronormativos; ou com pessoas que apontavam o dedo para quem usou avião (ao invés de trem) para viajar sem conseguir enxergar que algumas pessoas precisam literalmente cruzar um oceano; cansei de discutir sustentabilidade e políticas ambientais euro-centradas, sem o menor interesse de entender o contexto de cada região do mundo; cansei de ouvir "já entendemos sobre a ocorrência da substância X", sendo que em muitos lugares há um vazio de dados...Enfim, cansei.
Não, minha intenção aqui não é desanimar você sobre a participação em eventos. Se você tiver a oportunidade, vá! Mas se você não tiver a oportunidade, não sinta culpa ou ache que vai ficar para trás. E, se um dia tiver a oportunidade de participar de comissões organizadoras de eventos, que tal começar a repensar o modelo atual?
Sobre a autora:

Formada em Oceanologia na FURG com doutorado em Oceanografia Química pela USP. Entre um trabalho, uma bolsa e um intercâmbio passou também pela Unimonte, UFPR e UFBA, Texas A&M University, Health Department of New York, Heriot-Watt University e da Stockholm University. Atualmente é professora adjunta na UFSC. Trabalha com poluição marinha, principalmente contaminantes sintéticos e resíduos sólidos. Mas também atua na geoquímica estudando o ciclo do carbono no ambiente marinho. Desde abril/20 tem se aventurado como mãe do Ian. Não abre mão de cozinhar e experimentar novos sabores, mas não sem antes estudar os processos/química que tornam um prato possível. Também gosta de viajar, ler, fazer trilha e tomar um banho de mar (ou cachoeira).




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