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De onde vem o sal do Atlântico?

  • há 20 horas
  • 4 min de leitura

Por Gabriele Dezounet


Para entender de onde vem o sal presente na água do oceano e, especificamente, qual a história do sal que tempera o Atlântico, se torna necessária a explicação de alguns processos que ocorrem no oceano de maneira geral. Então, vamos por partes. 


Que a água do mar é salgada, tanta gente sabe que já é senso comum. E quem não sabe empiricamente, deve acreditar em quem diz que provou, seja com a clássica experimentada com a língua ou quando levou um caldo no mar. Antes de cursar oceanografia, eu acreditava que a água do mar era salgada por causa da areia da praia. Mas a areia não tem muito a ver com a resposta para essa pergunta…


O sal é formado, principalmente, pelo intemperismo de rochas continentais. Ao longo do tempo geológico, este material rochoso é dissolvido pelas chuvas e transportado pelos rios, se descarrega na zona costeira, encontrando o oceano. Uma vez na água, os elementos dissolvidos sofrem reações químicas, tornando o sal um ingrediente naturalmente intrínseco a todo oceano. Outra fonte de salinidade são as fumarolas, fissuras que existem no fundo oceânico, que liberam gases proveniente do interior da Terra, estando relacionados a processos vulcânicos. Esses gases contêm composição química que contribuem para que essa variável aumente.  De certa forma, todas as águas têm um certo teor de salinidade, algumas mais e outras menos, mas todas têm, principalmente as do mar. Se quiser entender mais sobre as características do sal na água do mar, ou seja, sobre a salinidade do oceano, confira nossos textos Salinidade (parte I) e Salinidade (parte II).


Só por isso já estaria respondida a pergunta. Mas e o Atlântico, em especial? De onde vem o sal do Atlântico? Bem, vamos por partes. 


O oceano não é um corpo d’água estático. As águas circulam assim como o vento ronda o céu, a atmosfera. Essas circulações no mar são chamadas de correntes e percorrem o mundo todo, em todos os continentes. Carregam em seu interior informações das águas de onde se originaram, como a temperatura, e também, a sua salinidade - caracterizando as chamadas massas de água. Há uma corrente, em especial, que nos ajuda a responder nossa pergunta: a Corrente das Agulhas, que contorna o sul do continente africano, saindo do Oceano Índico e chega a dar as caras no leste do Oceano Atlântico. 


O fato é que o Índico é consideravelmente mais salgado que o Atlântico. Olhando um mapa mundi dá para perceber que é um oceano tão fechado que nem se manifesta no Hemisfério Norte, mas sim, é cercado pela porção continental dele. Por ser assim fechado, existe um desbalanço no Índico: sai mais água dele do que entra. Sai como? Evaporando. Mas ele não vai secar, não se preocupe! (Eu também quero conhecer as Maldivas, que fica por lá.)


A Corrente das Agulhas é quem leva um pouco do sal do Índico até o Atlântico. Ela é tão energética - tão veloz e majestosa - pois é uma corrente de contorno oeste, ou seja, acompanha outro fenômeno que conta outra história e que, à medida que se aproxima da zona mais ao sul do mundo, também fica mais forte, chamado efeito Coriolis. Mas a nossa Corrente das Agulhas não chega até a Antártica, pois vem nos visitar (ainda que de longe, lá no Atlântico Sudeste). O máximo a alcançar é os 40ºS de latitude, extremo leste atlântico. 


E então, ela retorna ao Índico.  


Como é uma circulação, um ciclo, ao chegar aqui, dá “meia volta” e vai em direção ao seu oceano. Parece dar umas chicoteadas, como quem se esperneia por não querer ir embora. Isso é a retroflexão -  quando a corrente curva-se sobre si mesma, e assim, em vez de continuar a trajetória, acaba retornando ao ponto de origem - ao fazer isso, desprendem-se giros, chamados de vórtices, que rodopiam nas águas e que demoram para se desfazer. É um presente, o seu sal e o seu calor de origem, uma assinatura do Índico manifestando-se no Atlântico. O nome desse fenômeno é Vazamento das Agulhas.


Nessa simulação, é possível ver massas de água de temperatura semelhante sendo mobilizadas pela Corrente das Agulhas, se esticando entre o sul do Oceano Índico e o sudeste do Oceano Atlântico, permitindo essa importante troca dentro do sistema global do oceano:


E, se prestarmos muita atenção, no período e lugar certo, é possível perceber esse presente pela ponta da língua. 


Referências 

Talley, L. D., Pickard, G. L., Emery, W. J., & Swift, J. H. (2011). Descriptive physical oceanography: An introduction (6th ed.). London: Academic Press. Pág 277 

Sobre a autora:


Gabriele vinculou afeto pelo mar porque costumava frequentar uma praia chamada Balneário Barra do Sul, cidadezinha em Santa Catarina. Hoje, está se graduando em Oceanografia pela UFPR, se envolvendo com a área biológica, da geografia marinha e também da física. Gosta de ver os oceanos na perspectiva da ciência e também como inspiração para arte. Além disso, é apaixonada por literatura, em especial pela Clarice Lispector (seus contos sobre mergulhos no mar são realmente maravilhosos, recomendo!)




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