top of page

“E o que eu tenho a ver com o oceano?” perguntou a menina que morava a 700 km do mar

Atualizado: 3 de jul. de 2023

Ilustração em traços pretos do perfil de uma mulher com cabelos ondulados como o mar, com pequenos peixes, gotas, um barco, uma baleia e um coral. Seu rosto está dentro de um círculo azul claro, acima do qual tem as frases “Dia Mundial do Oceano” e “E o que eu tenho a ver com o oceano?”

Ilustração de Joana Dias Ho.



Nasci a 700 km do mar, no interior de Pernambuco e, frequentemente, me perguntava o que eu, ali distante, tinha a ver com o oceano (e o oceano comigo). Mesmo assim, como sou apaixonada pela multidisciplinaridade, resolvi cursar oceanografia. Então, esse post é para você que ainda não entendeu que o oceano influencia a vida de todas as pessoas, independentemente da distância que você esteja dele.

Comecemos pelo mais simples: o ciclo da água. Esse ciclo se caracteriza como a troca contínua de água entre a atmosfera, as águas subterrâneas (aquíferos), águas superficiais (rios, lagos, açudes, o oceano) e as plantas. Dessa maneira, as águas que caem das chuvas no interior dos continentes são transportadas pelos rios até o oceano. E sabe o que mais vai parar no oceano? Tudo (ou quase tudo) que tem na água do rio. Desde nutrientes importantes para a produtividade marinha, até contaminantes, que podem pôr em risco a vida dos organismos.


Na parte superior o céu azul com um círculo amarelo representando o sol e 3 nuvens brancas. Uma das nuvens está precipitando gotas de água em cima de montanhas marrons com a ponta branca que representa a neve. A parte inferior do desenho é verde, com árvores, rios e o oceano na cor azul.

Esquema do ciclo hidrológico. Fonte: Maria Luiza R Coutinho/CC BY 4.0


Assim, entendendo essa conexão, fica mais claro que ao poluir as águas no interior do continente, elas chegarão em algum momento no litoral, poluindo o oceano.


Da mesma forma, a evaporação constante de água do oceano é a principal causa das chuvas em todo o planeta, inclusive das chuvas no sertão. Sabia que a principal origem das chuvas que caem no sertão nordestino é formada nas chamadas “piscinas quentes do Atlântico Norte”? Esse fenômeno acontece a partir da água do oceano que evapora e viaja pela atmosfera. Quando chega no hemisfério sul, este “rio voador” se encontra com nuvens de poeira vindas do Deserto do Saara e, então, formam nuvens que precipitam no final do verão lá no sertão. Quem diria que o Deserto do Saara teria esse papel fundamental nas chuvas do nosso país?!


Mas você pode se perguntar "Por que a água da chuva não é salgada se vem do mar?”. Vamos lá... Durante a evaporação somente a molécula da água (H2O) participa do processo, e os sais (como o cloreto de sódio - NaCl e os muitos outros tipos de sais presentes na água do mar), não. Uma das razões principais para isso é que o ponto de ebulição da água é 100°C, já o do cloreto de sódio é aproximadamente, 1000°C, ou seja, 10x maior!!! Juntando essa propriedade físico-química da água e dos sais a outros fatores como velocidade das moléculas, pressão, vento, superfície de contato, concentração de substâncias etc., temos nosso mar de água salgada e nossa chuva de água doce!


Outro fato importante é que o oceano é um grande reservatório de calor do planeta Terra. Isso se dá por uma característica física da molécula de água: o calor específico, que é a quantidade de calor necessária para que um grama de uma substância sofra a variação de temperatura de 1°C. Como exemplo, vamos pensar de novo no Deserto do Saara, que possui altas temperaturas durante o dia e baixíssimas, durante a noite. Tal fenômeno faz com que a vida no Saara seja escassa. Mas sabe qual o motivo disso?

O Saara possui 9 milhões de m2 de extensão e são, aproximadamente, 150 m de profundidade de areia. A areia é caracterizada por ter baixo calor específico (0,2 cal/g.°C), o que lhe atribui a característica de baixa capacidade de armazenar calor e faz com que ela sofra drásticas mudanças de temperatura rapidamente (saindo de 60°C para -40°C em algumas horas, como acontece lá no nosso exemplo).

Já a água, devido ao alto calor específico (1 cal/g.°C), limita as mudanças severas de temperatura. Um exemplo disso, seria a comparação entre o clima típico de um mês de maio na cidade do Recife e a de Caruaru, ambas cidades de Pernambuco e que ficam a 133 km de distância. Entre o dia (29ºC) e a noite (27°C) em Recife, não há grandes variações na temperatura, isso se dá porque a cidade é litorânea, e o oceano age como um armazenador de calor. Já Caruaru, que está distante do oceano, tem muito mais superfície de areia (que possui baixo calor específico), fazendo com que haja mudanças significativas na temperatura entre dia (29°C) e noite (21°C).

Além disso, não podemos esquecer que quase metade do oxigênio do planeta é produzida por microalgas e cianobactérias que vivem no oceano. Confira na imagem abaixo os pequenos organismos responsáveis pelo ar que respiramos!

Fundo cinza com várias microalgas em diferentes formas como esferas, estrelas e cilindros na cor verde e laranja.

Microalgas produtoras de oxigênio. Fonte: Alexander Klepnev/CC BY 4.0


Com isso, podemos afirmar que o oceano auxilia a regular o clima da Terra, absorvendo calor nas regiões próximas ao Equador e transportando para as altas latitudes (se quiser saber mais sobre este processo, veja o post sobre Circulação Termohalina), e fornece oxigênio ao planeta, tornando possível diferentes formas de vida como nos exemplos citados acima. Imagine que, sem o oceano, a Terra seria um imenso deserto…

Esses são apenas alguns exemplos de como o oceano aparece nas nossas vidas, mesmo se estamos distantes do litoral. Você consegue pensar em mais alguma forma sobre como o oceano influencia você? Conta pra gente e aproveite muito esse Dia Mundial do Oceano para entender e disseminar a importância dele!

E sempre lembrando: o oceano é responsabilidade de todos nós!

163 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Comments


bottom of page